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5.11  Diskusjon – deltakernes utbytte

Um aspecto importante na análise desse caso, foi a forma como ocorreu a chegada da diretora nessa escola: durante entrevista, a diretora informou que o convite para trabalhar ocorreu num momento crítico na sua vida pessoal, pois acabara de perder o único filho num acidente. A maneira que, do seu ponto-de-vista, encontraria forças para enfrentar a situação seria continuar trabalhando na sua área, abandonando a idéia de iniciar o mestrado que antes planejara. Comenta que em 1998, ano de sua chegada na escola, teve

uma provocação do bispo [da instituição religiosa mantenedora]: resgatar a cidadania. A imagem da escola estava depreciada entre pais, comunidade. Eram tratados como crianças. Escola com azulejo caindo... eu disse para o bispo: ‘Sozinha não conseguirei, mas com uma turminha, sim!’ (Diretora Celina)

A escola, por sua vez, também passava por um momento de dificuldades: problemas administrativos, didáticos, financeiros, portanto a mantenedora da instituição escolar já cogitava a hipótese de transferir os alunos para outras escolas e fechar essa. Esse foi um fato marcante, relatado também pelas professoras entrevistadas. Segundo a professora Lúcia, que iniciou seu trabalho na escola em 1993:

(...) a escola estava passando por dificuldades financeiras, tanto que até umas pessoas, quando eu fui contratada, me criticaram: ‘Ah, você está entrando num barco furado, porque tem sérios problemas de

salário!’. Eu falei: ‘Ah, já estou parada há algum tempo, então eu vou tentar, né’, e valeu a pena, deu tudo certo. A estrutura da escola também... tava muitas coisas por fazer, porque a escola foi construída mas faltou verba mesmo. Então a parte externa não tinha sido terminada, a parte superior, era tudo aberto, sem rebocar, então estava com sérios problemas de infiltração, mas a gente foi levando, até que foram vindo as verbas, né, daí foram conseguindo mudar, a direção foi se empenhando mais, foi mudando.

Em 1998 a nova diretora foi contratada, apresentando um novo projeto pedagógico. Na entrevista ela relata como foi esse momento de transição, afirmando que “até que metodologicamente, didaticamente, a instituição estava caminhando,

mas eles [alunos] eram tratados como crianças, e agiam como tal, e as famílias também.” Ela dá um exemplo a respeito: os alunos chegavam na escola com uma

espécie de lancheira de tecido, que penduravam em ganchos, no refeitório, em locais demarcados com os nomes de cada aluno. Para sua concepção de trabalho educacional com jovens e adultos, essa atitude era incompatível com a realidade dessa faixa etária.

(...) eu sentia aqui era assim (...) como uma instituição não escolar, sabe, uma instituição assistencial? É, era assim os sentimentos que eu tive quando eu vim fazer uma aproximação da realidade aqui da escola, né... então uma visão, ao meu ver, bastante infantilizada. E tudo, tudo era mesmo assistencial, a gente não via aqui como uma escola, uma instituição de ensino, sabe? Então tudo isso a gente foi modificando, de estar deixando isso aqui com jeito de escola, né.

(Diretora Celina)

Aqui podemos observar o velho paradigma assistencialista encontrado na realidade das relações e concepções sobre a pessoa com deficiência: o “incapaz”, tratado como “criança”, reforçando condições de heteronomia em detrimento da autonomia. Um ciclo reforçado por escola e família, na dimensão social da deficiência.

Para entrar em contato com a realidade da escola, a atual diretora ficou um período observando o contexto e elaborando novas formas de atuação. Apresentou o projeto para funcionários, professores, afirmando que sua base consistia em

“modificar a própria identidade” [da escola], tratando os alunos de maneira coerente

primeiras reações de sua proposta para a mantenedora da escola: “(...) eu fui

sabatinada a respeito daquele projeto, que na época eles acharam que era uma loucura...(risos) o que eu estava propondo.”

Era uma proposta de firmar a escolaridade (de 1a. a 4a. série), constituir equipe multidisciplinar, renovar maneiras de atuação com a educação para o trabalho, investir na formação dos professores (a maioria não tinha formação na área), mas, acima de tudo, trabalhar com as crenças constituídas de pais, professores e dirigentes sobre as potencialidades e as limitações dos alunos. E foi com as famílias que a diretora encontrou as primeiras barreiras atitudinais, conforme relato:

(...) chegar para um pai, para um pai não, para muitos pais, tinha alunos com quarenta anos, trinta anos, e dizer: “Olha, o seu filho não é a criança que você pensa que ele é”, é um pouco complicado (...) pela formação que eles tiveram, pela informação que eles tiveram quando o nascimento desses filhos (...) Dos “nãos” que receberam, não é... “Ele não vai andar, ele não vai falar, ele não vai escrever, ele não, ele não, ele não...” E aí eu venho com a proposta do “sim”, do sim, do sim, do sim, do sim... Então vem o médico, né, aquela coisa: “O que que o professor... aonde está a cabeça de uma professora que está dizendo sim aonde o médico diz não?!”, “Com que autoridade uma criatura fala isso pra mim?”. Mas eu dizia: “Tenta isso, vamos tentar, dá certo, dá resultado, experimenta, confia que vai dar certo!” Eu acho que essa questão, de trocar o “não” pelo “sim” foi uma dificuldade grande, né, mas também não foi assim uma pedra tão dura de quebrar, não, os pais acabaram se envolvendo, como estão envolvidos até hoje, né, e percebendo que iria melhorar a qualidade de vida, inclusive deles, né. Não era a qualidade de vida dos próprios filhos, mas da família como um todo, era essa, era esse o objetivo, de estar vendo o ser humano. (Diretora Celina)

Essa visão da família é constantemente perpassada por opiniões e diagnósticos dos profissionais que iniciam os atendimentos à pessoa com deficiência: médicos, psiquiatras, psicólogos e outros. Enfim, a visão positivista constituída historicamente acerca da deficiência tem uma séria contribuição por parte desses profissionais que, em nome do tecnicismo, abandonam o lado humano sem sequer levar em consideração a situação familiar, econômica e cultural da criança, ou “o que vai ser daqui pra frente?”. Em muitos casos, o diagnóstico torna- se a verdade absoluta da existência da pessoa com deficiência.

A escola, em contrapartida, pode e deve posicionar-se com horizontes mais abrangentes: a conscientização, a formação e a informação familiar tornam-se um dos pilares de apoio à pessoa com deficiência, por exemplo.

Durante as observações feitas na escola, muitas vezes as professoras ou a diretora apontavam alguns casos de jovens que, se tivessem tido acesso à escola regular desde pequenos, não precisariam freqüentar a escola de educação especial atualmente. Mas as portas estavam fechadas para esse aluno e para essa família, que logo começou a acreditar no “não” e nas portas trancadas da sociedade.

Retornamos aqui às barreiras atitudinais apontadas por Amaral (2002) como ações e comportamentos discriminatórios dirigidos a um alvo específico por meio de inter-relações mediadas por estereótipos, que a autora compara a “biombos entre os

atores da situação”. A partir de mensagens advindas de experiências anteriores ou

dos meios de comunicação, predefinimos como o outro se manifesta (“ele não vai

falar”, “ele não consegue aprender”), evitando qualquer tipo de mudança nessa

relação, ou na visão que se tem do outro. Segundo Amaral, os estereótipos são concretizações de nossos conceitos e preconceitos, “estes últimos entendidos como

configurações psíquicas consteladas de forma independente de experiências diretas” (2002, p. 237-238).

Mas, de onde vêm o preconceito e o estereótipo? O que leva uma família ou uma escola a acreditar no “não”, na impossibilidade de desenvolvimento da pessoa com deficiência?

Amaral pontua dois fatores que, imbricados, configurarão nossas atitudes: fatores individuais (como o medo, por exemplo) e fatores sociais. Essas atitudes, portanto, são entendidas como:

predisposições psíquicas diante de dada pessoa, grupo ou fenômeno(...) são sempre favoráveis ou desfavoráveis e não devem ser confundidas com opiniões e comportamentos, pois podem, ou não, estar em coerência com eles, dependendo das inúmeras contingências. (idem, p. 238)

Para um pai ou uma mãe fica a mensagem: “seu filho não pode...” Frente a esse rótulo/estigma que recai sobre a família como um todo, há, na maioria das vezes a proteção àquele que nasceu “imperfeito”. Essa proteção pode se traduzir em restrição dos contatos sociais da pessoa com deficiência, e/ou assegurar-lhe ambiente “acolhedor às diferenças”, como a escola de educação especial, por exemplo.

Foi nesse momento, logo no início da implantação da nova proposta que, segundo a diretora, a equipe de professores se dividiu muito, parte por pressão dos pais, parte por não acreditar nessa nova abordagem educacional. Alguns professores e funcionários se desligaram da escola, outros foram contratados.

As atitudes demonstradas pela diretora, ao tentar esclarecer pais e funcionários sobre as reais potencialidades dos alunos e a possível mudança de identidade da escola, nos remete ao que Rogers descreve como a base da Abordagem Centrada na Pessoa: a crença na possibilidade de crescimento de si mesmo e do outro, na prática de atitudes que favoreçam esse crescimento.