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A época helenista é marcada principalmente pela ascensão ao poder de Alexandre Magno (356 – 323 a.C.), considerado o criador do helenismo. Suas conquistas promoveram significativas mudanças no cenário político da época, como também provocou transformações no espírito grego.

Na política, as conseqüências ocorreram pela queda sóciopolítica da Polis grega, e da antiga concepção da Cidade-estado. Alexandre instaurou um projeto de monarquia divina universal, formando novos reinos no Egito, na Síria, Macedônia e

53 REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario, História da filosofia vol. 1, pp. 207 – 210. 54 ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de filosofia, pp. 518 – 519.

55 EDINGER, Edward F., A psique na antiguidade, p. 100. 56 Cf. Ibid, p. 100.

36 Pérgamo. Porém, as monarquias helenísticas tornaram-se instáveis. O conceito clássico de cidadão se transformou em súdito, de maneira que as antigas virtudes civis foram substituídas por conhecimentos técnicos que não poderiam estar à disposição de todos, acabando por dissolver a questão ética e promover a questão profissional. O indivíduo torna-se um funcionário, soldado ou mercenário.

Com a queda de Alexandre e do Império Macedônio, a Grécia torna-se uma província romana. Os romanos passam a exercer seu domínio através de um ideal do cosmopolitismo – o mundo todo como uma cidade submissa a Roma, incluindo nesse ideal, tanto os homens, como os deuses, requerendo que o homem busque por uma nova identidade.

Essa nova identidade acarreta a mudança do significado de cidadão, para o de “indivíduo”. As relações homem-estado vão se tornando menos estreitas, surgindo formas políticas nas quais o poder passa a ser exercido por uma única pessoa ou por poucas pessoas. As conseqüências desse processo levam aos excessos do egoísmo e do individualismo. Outra conseqüência é a separação entre ética e política. A ética passa a ser autônoma ou individualista, tendo o homem seu foco voltado mais para si do que para a Polis.

Em meio a essas transformações, os filósofos dessa época criaram paradigmas espirituais, propondo soluções para os problemas humanos e da vida, focalizados no indivíduo. Surgem: o cinismo, epicurismo, estoicismo e ceticismo.

O cinismo de Diógenes propunha uma espécie de anticultura frente às filosofias conhecidas anteriormente. As necessidades verdadeiras do homem seriam aquelas elementares de sua animalidade. Essa proposta foi considerada extremista e anarquista, além da pobreza espiritual, se comparada ao epicurismo e ao ceticismo, e outros movimentos filosóficos da época.

Uma das primeiras escolas helenísticas foi a de Epicuro (final do século IV a.C.), chamada epicurismo pelos sucessores. Seus ensinamentos ocorriam em um jardim –uma novidade revolucionária para a época. Suas propostas, em linhas gerais, se constituíam em concepções sobre a realidade como sendo penetrável e cognoscível pela inteligência do homem. Nas dimensões desse real podem existir espaço para a felicidade. Para atingi-la, o homem só precisa de si mesmo, da superação do medo e do espantalho da morte – o homem como um ser autárquico e independente dos deuses. O empirismo e a busca do prazer são pontos relevantes no pensamento epicurista. Negou a transcendência e ligam-se ao natural e ao físico.

37 Assim não há lugar para a metafísica platônica e seu desenvolvimento no aristotelismo.

O terceiro movimento filosófico chamado ceticismo surge com Pirro (323 a.C.), que busca criar um novo modo de pensar e uma atitude existencial, diante dos eventos drásticos que vinham ocorrendo naquela época. Esse paradigma propunha que, diante dos problemas da vida, era possível viver com arte a felicidade, sem se preocupar com as verdades e os valores, como foram concebidos no passado. O homem, para ser feliz, precisava ser pragmático: ver as coisas como elas são, por natureza; depois, observar a própria disposição em relação a essas coisas; e, finalmente, aguardar o que poderá ocorrer suspendendo qualquer juízo sobre a verdade ou não das coisas.

O estoicismo surge com Zenon de Cítio (333 / 332v- 262 a. C.), que traz esse nome em seu movimento devido ao fato de Zenon fundar uma nova escola com o nome de “Estoá”. Embora compartilhasse o conceito epicureu de filosofia, não aceitava os dogmas epicuistas como soluções para os problemas. Considerava esse sistema reducionista em relação ao homem e ao mundo, derrubando teses epicuristas. Porém, as duas escolas – epicurismo e estoicismo – negam a transcendência e seus movimentos seguem paralelamente nessa época.58

O ecletismo, como movimento paralelo ao ceticismo, foi introduzido na Academia por Fílon de Larissa (110 a.C.) que afirma que: “quanto ao critério estóico, isto é, à representação catalética, as coisas são incompreensíveis, mas, quanto à natureza das coisas mesmas, compreensíveis”. 59

No que tange à nosso tema de pesquisa, devemos observar que se trata um período bastante obscuro para as questões do homem no campo filosófico. A produção nessa área é escassa por ser uma época marcada por sucessivas mudanças sociais, culturais e políticas. Essas circunstâncias vão caracterizar uma certa desconstrução do sentido do homem, principalmente se comparado às produções filosóficas clássicas da antiguidade. De alguma maneira, esses reflexos tiveram sua repercussão no ocidente e também, provavelmente, influencias significativas na construção do pensamento sobre o homem em épocas posteriores, pois o ceticismo, o estoicismo, o epicurismo voltaram muitas vezes, inclusive na modernidade, a influenciar a concepção de homem, de humanismo e humanização.

58 REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario, História da filosofia, vol. 1, p. 252. 59 Ibid, p. 276.

38 No que tange ao estoicismo de Zenon, Edinger vê uma aproximação entre sua teoria do “fogo do divino” – pela qual o mundo é um ser vivo, dotado de alma e razão, tendo o éter (ou fogo) como seu principio regulador – com a psicologia analítica.

“O fogo do céu semeia sementes de si mesmo para gerar o que agora podemos entender psicologicamente como a potencialidade da consciência dos indivíduos”.60

Até mesmo o conceito de providencia cristão, segundo o autor, “cria um legado da idéia estóica de que a centelha divina que motiva os indivíduos deriva do fogo divino”.61

Esta centelha – pequena parte da alma divina – “traz a intenção transpessoal do fogo divino de que proveio”.62 Imagem teleológica: tudo o que sucede no universo é intencional, tem sentido. E o autor vai além: “podemos entender essa doutrina como sendo uma projeção para o mundo exterior do modelo e objetivo teleológicos que residem no Self”.63

I.7.1 – Desenvolvimento das ciências na época helenística e suas influencias