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Segundo Hill (1992, p. 119), Bacon incorporou seus antecessores da mesma forma que os canibais incorporaram o missionário. Tal metáfora ratifica a ideia de que o trabalho filosófico é produto de um diálogo que, volta e meia, recorre a um gigante do passado. Bacon foi um filósofo que exerceu diversas funções públicas, tendo inclusive servido a dois monarcas: Elisabeth e James I. Em 1621, envolvido nas disputas entre facções, foi acusado pela Câmara dos Comuns de corrupção e obrigado a se retirar do cargo estatal. Bacon percebeu como o poder fascina e seus reverses, afinal, parte do seu sucesso, na vida pública, deve-se a indicação de Robert Devereux (Conde Essex). Quando este foi indiciado como traidor, coube ao filósofo instruir certa parte do processo, escrevendo que o desejo de poder em excesso causou a queda dos anjos; o desejo de conhecimento em excesso causou a queda do ser humano (BACON, 2001, p. 51). Ele tinha recorrido aos escritos do Florentino para refletir acerca da política e concordou em diversas interpretações dele. De certo modo, ele parece antever os futuros acontecimentos, pois percebeu que uma insatisfação generalizada contra o governo através de “rumores” e panfletagem são os prelúdios das sedições vindouras (BACON, 2001, p. 55). É evidente que Hume conhecia Maquiavel, mas existe uma forte possibilidade de que este saber tenha começado através da leitura de Bacon, afinal, este enalteceu o teórico político florentino ao afirmar: Est itaque, quod gratias agamus Machiavello est hujusmodi scriptoribus, qui aperte et indissimulanter proferunt, quid hominess facere soleant, non quid debeant (BACONIS, 1829, p. 156).

Segundo Bacon, deve-se muito ao Florentino, que demonstrou como são os homens. Aliás, ele também conhecia os trabalhos de Guicciardini, conforme atesta em Advancement of Learning (BACON, 1978, p. 6). Para ele, Maquiavel descoloriu o véu da imaginação transcendente que desenhava uma criatura semelhante ao seu criador. Tal ação desvelou ao público o que os homens realmente fazem em política. Além disso, as palavras do Florentino encontraram eco no projeto baconiano de “repúdio” ao passado, ao mesmo tempo em que lançava as bases da nova investigação científica, bem como as ferramentas teóricas para pensar em diversos assuntos relacionados ao conhecimento. Os escritos de Bacon realizam um movimento de ataque-defesa a respeito do saber. De augmentis, por exemplo, segundo Rossi

(2006), é uma peça chave neste processo; Advancement of Learning é outra obra significativa no conjunto do seu edifício filosófico. Residem nestes escritos muitas referências louváveis aos trabalhos de Maquiavel, o que evidencia uma luminosa influência do Florentino nas ideias do filósofo inglês. De certo modo, a maneira de abordar o problema e os mecanismos utilizados por Bacon demonstram que sua análise do italiano, serviu-lhe como alicerce para a reflexão política. Além disso, permitiu-lhe compreender o fenômeno em diversos aspectos e, assim, deixou de ser um prisioneiro da causa monarquista e começou a pensar Maquiavel como um defensor da estabilidade política e da liberdade.

Skinner (1999, p. 22) mencionara o papel de Bacon como um escritor que recorreu aos escritos de Maquiavel para referendar um discurso a respeito do vivere libero. Este renascimento do vivere libero deve-se, por certo, a releitura dos escritos de Tito Lívio, o que confirma a ideia de que ele tinha entendido o problema político de sua nação e que os conceitos maquiavelianos ofereciam elementos para elucidar a questão. Bacon evoca Maquiavel como um médico que entende de remédios e, assim, de realizar um procedimento terapêutico pautado somente na condição humana, abandonando vãs ilusões acerca do que poderia vir a ser esta criatura. A morte de Elizabeth ocorreu em um período de profundas transformações econômicas que reivindicavam mais liberdades aos súditos e, em alguns casos, uma intensa aversão ao modelo absolutista. O desenvolvimento da indústria e do comércio chocava-se abertamente com as regulamentações excessivas do governo e com os privilégios concedidos aos apaniguados, conduta oposta à livre concorrência. A rainha não deixou herdeiros, o que possibilitou ao rei da Escócia tornar-se também rei da Inglaterra e Irlanda. Adotando uma política absolutista com justificativas divinas, o monarca sentiu- se no direito de impor leis, o que provocava o descontentamento do Parlamento. Em virtude de sua política de aspirações divinas, surge animosidade no campo religioso entre o rei e os súditos, o que gerou uma forte emigração. Este cenário político propiciava a difusão de ideias acerca da liberdade no plano político, econômico e teológico. A leitura de Tito Lívio, neste ambiente, inspira sentimentos convenientes, principalmente, como recorda Skinner, quando escreve de como o povo de Roma se libertou de seus primeiros reis e conseguiu fundar um Estado Livre37. Esta ideia civitas libera, chega aos ingleses através de Tito Lívio, assim defende Skinner (1999, p. 45). Ele (1999,

p. 47) afirma que no tempo de Harrington, Lívio, Maquiavel e Salusto (Salústio) foram fontes significativas para os autores ingleses. Bacon, sem dúvida, teve acesso aos textos de Tito Lívio. Afinal, o conhecimento do pensamento de Maquiavel instiga, pelo menos, a leitura da História de Roma, que serviu de base para os Discorsi.

De acordo com Hill (1992), Bacon tornou-se uma referência política aos ingleses. Ele recorreu ao pensamento de Maquiavel para pensar na atividade política, refletindo acerca do conceito de vivere libero do Florentino (SKINNER, 1999, p. 22) que se difundiu entre os escritores ingleses. Bacon também se ocupou em pensar e criticar o Organum de Aristóteles. Para ele, o grego antecipava conclusões sem recorrer à experiência. Considerando este procedimento inadequado para aquisição do conhecimento, ele lança um ataque ao livro do discípulo de Platão e propõe uma nova doutrina em seu livro N ovum Organum sive Indicia de interpretatione naturae. A concepção central de Bacon consiste em se afastar do princípio da autoridade, do empirismo e do racionalismo enraizados, encontrando um estilo intermediário entre estas duas atitudes. Em uma metáfora excelsa, ele afirma:

those who have treated of the sciences have been either empirics or dogmatical. The former like ants only heap up and use their store, the latters like spiders spin out their own webs. The bee, a mean between both, extracts matter from the flowers of the garden and the field, but works and fashion it by its own efforts (BACON, 1978, p. 126). Em direta oposição aos dogmáticos e ao princípio da autoridade, Bacon propõe-se a indagar a própria natureza para saber a respeito do seu funcionamento, tendo em vista aplicações práticas. Para ele, aqueles que se espelham nas abelhas oferecem uma contribuição sólida ao edifício do saber. Não existe conhecimento sem a consulta à natureza, o que em resumo torna o método indutivo uma exigência fundamental na construção do conhecimento. Deste modo, afirma que o conhecimento não é teorético, mas sim prático e depende, portanto, da experiência. Esta será nodal para o conhecimento e o agir do ator político.

Apesar da habilidade, do conhecimento efetivo da política, Bacon foi também um teórico do tema, escrevendo ensaios ao mesmo tempo ao exercício da função. Seus escritos apresentam uma defesa pela tolerância religiosa e, sobretudo, estabilidade política e prosperidade econômica. Mostra-se preocupado com a ordenação social quando percebe que as sedições públicas têm origem, às vezes, na

fome ou discórdias dentro do Estado. As Rebeliões dos estômagos vazios são as piores (BACON, 2001, p. 57). Afirma, de modo indireto, a importância da história para a atividade política; afinal, nada há de novo sobre a Terra (BACON, 2001, p. 57). Esta passagem faz referência ao rio Léthes, no qual, as pessoas que se banhavam eram tomadas pelo esquecimento. Com certeza, reflete a política do presente a partir de ensinamentos extraídos pela história. Tal questionamento reveste-se de singular importância para o ator político. O ponto de partida é que não existe nada de novo no universo humano que não encontre seu correlato na história, fornecendo exemplos concretos de como os indivíduos se comportaram em determinada situação, permitindo extrair lições prescritivas para a ação política atual. O primeiro dever do ator político é estar informado acerca do patrimônio histórico, à medida em que este fornece detalhes a respeito da degradação dos impérios e repúblicas, mostrando relações de ações que levaram ao sucesso ou à ruína das nações. Torna-se, desse modo, o saber do passado, em uma ferramenta indispensável para o ator político. Ele afirma que é tarefa deste dominar a máquina administrativa, imprimindo uma boa ordenação:

[...] os pastores do povo necessitam conhecer os prognósticos e indícios das tempestades que podem suceder nos Estados e que são geralmente mais avassaladoras quando os elementos em oposição que as fomentam tendem a igualar-se, do mesmo modo que as tempestades naturais que se formam em torno dos equinócios são também mas violentas que em todo o resto do ano (BACON, 2001, p. 55).

Esta perspectiva aproxima Bacon de algumas ideias de Maquiavel. Aliás, a epígrafe (em latim) é reveladora deste débito de Bacon para com o Florentino: devemos ser gratos a ele porque nos descreveu o homem como é, não como deve ser. Tal filiação demonstra uma vinculação direta de Bacon com os conhecimentos extraídos da experiência (visto que este saber foi adquirido por esta base, em Maquiavel), colocando em destaque uma preocupação a respeito da natureza humana. Ele também discorre acerca das influências que a pessoa recebe, seja com a educação, seja pela leitura, como causa de suas inclinações posteriores. Acrescenta-se o fato de que preconizava que a reflexão filosófica fosse voltada para um fim imediato e relacionada com o bem da sociedade, muito mais do que para o prazer do indivíduo. O governo, para ele, deve fornecer os meios necessários à segurança e prosperidade do sujeito.

Estes pormenores poderiam apenas ser hipotéticos. No entanto, sente-se a estreita conexão com os escritos do Florentino quando, Bacon faz a seguinte observação para corroborar a tese de que o “hábito” é significativo para se entender a natureza humana. Para ele,

para empreender um atentado perigoso e comprometedor, quer de conspiração, quer de qualquer outra espécie, não te fies na ferocidade natural do indivíduo nem na audácia com a qual o empreende, mas sim num homem que já tenha suas mãos habituadas ao calor do sangue (MAQUIAVEL apud BACON, 2001, p. 134).

O exemplo de Bacon serve para ilustrar a função do costume sobre as inclinações do indivíduo e para demonstrar o quanto estava familiarizado com os escritos de Maquiavel. Esta passagem deve ter chamado a atenção de um leitor de Bacon. O hábito acomoda as criaturas. Para ele, o homem nasce em uma sociedade formada e tende a observar os preceitos dela, porque foi suavemente constrangido a entendê-la como natural; quando, na verdade, foi um hábito adquirido na infância e reforçado de modo paulatino pelas instituições sociais.

Não obstante aquele comentário, Bacon utiliza diversas vezes os textos do Florentino para referendar argumentos a respeito da moral e da política. Em determinada anotação escreveu:

Nicolau Maquiavel, um dos sábios da Itália, ousou escrever nos termos mais claros que a fé cristã fora prejudicial aos homens bons, que são presas dos homens tirânicos e injustos, o que afirmou pelo fato de jamais ter havido lei, seita ou dogma religioso que tanto exaltasse a bondade quanto o faz a religião cristã (BACON, 2001, p. 52).

Bacon interpreta Maquiavel em uma perspectiva de esclarecedor do fenômeno político, como um escritor a revelar com nitidez a estrutura da religião a serviço do despotismo, em consoante interpretação daquela formulada por Peltonen (2004) e reforçada por Skinner (1999), de que os ingleses já estavam familiarizados com os textos do italiano. Das sedições e tumultos é outro ensaio de Bacon no qual se pode sentir a presença de Maquiavel e, ao mesmo tempo, pode-se notar que este mesmo escrito tem pontos de convergência com o Florentino, permitindo visualizar uma relação entre estes filósofos, o que decerto deve ter influenciado David Hume a conhecer as linhas do Florentino. É evidente que Bacon aprecia a história, a moral e a

política e tais assuntos são tratados em alguma concomitância com os escritos de Maquiavel, mas em um estilo próprio. A evidência mais clara entre eles está no uso dos conceitos de Maquiavel por Bacon.

A interlocução de Bacon acontece também com os clássicos, conforme lembrara Hill. Ao refutar Aristóteles, ele, de fato, inicia uma crítica ao conhecimento antigo, que procura sublinhar os equívocos de um pseudo-saber, mas, ao mesmo tempo, busca edificar um caminho novo e “verdadeiro” para o conhecimento. Nesta inquirição, a ciência da memória será fundamental. O N ovum Organum traça diferentes considerações acerca da função da memória e da sua importância, que é na verdade a própria história. Evita os floreios retóricos em seus escritos, em uma clara associação de estilo ao Florentino, ao qual o próprio Hume também considera importante evitar. De um modo divergente de Maquiavel, porém em uma mesma linha de raciocínio, Bacon defenderá uma vida activa em contraposição à contemplativa. A leitura de Maquiavel deve ter levado Bacon a considerar a vida activa superior à vida contemplativa. A conduta política do filósofo e a sua proposta de utilizar o procedimento indutivo na edificação do conhecimento científico foram evidências dessa perspectiva. A ideia central do filósofo situa-se no princípio de que o bem coletivo é preferível ao privado, o que demanda a exigência de uma reflexão direcionada à causa pública. Esta é a dependência do seu pensamento ao espírito do Secretário, que fica latente quando afirma que

[...] as causas e motivos das sedições são: reformas religiosas, impostos excessivos, mudança das leis e costumes, abolição de privilégios, opressão geral, ascensão de homens indignos, intrigas de outras potências, presença excessiva de estrangeiros, as grandes elevações dos preços, súbitas dispensas nos exércitos, o desespero das facções, e numa palavra, tudo o que pode irritar o povo e uni-lo numa causa comum (BACON, 2001, p. 58), (destaque nosso).

O trecho é construído sob a influência dos escritos de Maquiavel, que é evidenciado pelo conteúdo, bem como, pela menção direta ao Florentino, em um mesmo ensaio. Reforça tal convicção quando Bacon escreve:

[...] quando as discórdias, insurreições e facções irrompem de maneira aberta e ousada temos um sinal de que o respeito ao governo está perdido, pois os movimentos dos grandes num governo têm que ser como os movimentos dos planetas em submissão ao primum móbile, que de acordo com a opinião dos antigos consiste no veloz

arrastamento de todos eles pelo movimento maior da esfera que estão forçados a acompanhar, embora se movam lentamente em virtude de seu movimento próprio inferior. E, assim, quando os grandes no seu próprio movimento empreendem uma marcha mais violenta e como Tácito o expressa tão bem, liberius quam ut imperantium meminissent [mais livre do que concebiam os mandantes] é indicativo de que as órbitas se acham fora de equilíbrio, porquanto o respeito dos súditos é a dádiva que os Príncipes recebem de Deus e o fundamento de seu poder, que, por vezes, se vê por Ele ameaçado de dissolução: Solvam

cingula regum [dissolverei os laços de comando dos reis] (BACON,

2001, p. 56-57).

A passagem considera os mesmos problemas que o Florentino enfrentava na edificação do Príncipe e expõe a preferência de Bacon por uma ordenação na qual a autoridade encontra-se acima dos partidos; além de afirmar que a função primordial do monarca é a segurança do Estado. Deste modo, os reis não devem se filiar aos interesses dos partidos, pois, como acontece a um navio que porta excesso de carga num dos seus lados, ou seja, soçobrará (BACON, 2001, p. 56). Portanto, convém aos monarcas adotar “remédios” a fim de evitar que os humores corrompidos produzam a instabilidade política do governo, que sempre tem origem na pobreza e no descontentamento de homens que perderam suas posses:

o primeiro remédio ou medida preventiva consiste em eliminar, de todos os meios que forem possíveis, aquela causa material à qual aludimos, ou seja, privações e pobreza no Estado. Os meios cabíveis para isso incluem a abertura de todas as vias de comércio, sua harmonização e reorganização, dar novo influxo às indústrias, eliminar totalmente a ociosidade, reprimir os desperdícios e os excessos mediante leis suntuárias, criar novos incentivos para a agricultura e aprimorá-la, regular os preços comerciais e moderar taxas e impostos, etc (BACON, 2001, p. 58).

Para Bacon, em uma nação na qual os súditos estejam endividados e a falta de alimentos seja marcante, é possível que uma onda de transformações políticas aconteça, se medidas eficientes para dirimir tal cenário não sejam administradas. Este foi o caso de Roma, como o próprio Bacon assinala nesse escrito. No mesmo ensaio, ele apresenta uma ideia de equilíbrio de forças políticas que deve ser, em parte, decorrente das ideias de Maquiavel. Para este último, existem duas classes principais: a nobreza e as pessoas comuns (o povo) (BACON, 2001, p. 60); e deve o monarca adotar prevenções para que nunca estejam as duas descontentes com sua política, mas deve sempre optar pela ação. Em caso de emergência, deve se certificar da boa vontade do povo. Deve o soberano garantir uma política de distribuição de rendas, de modo tal

que não se concentre em poucas mãos, evitando que algum notável, diante de uma multidão insatisfeita, consiga atenção dos contrariados com o monarca. Além disso, deve dividir e fragmentar as facções e alianças que se formam num Estado semeando a inimizade entre os chefes (BACON, 2001, p. 61). O fragmento permite ainda visualizar temas que serão desenvolvidos mais tarde por Hume, mas que mantém estreita relação entre o Florentino e Bacon, levantando uma forte hipótese de que esse último foi a porta de abertura para Hume conhecer, hipoteticamente, os escritos de Maquiavel. Ora, o primado da vida activa foi uma verdade efetiva de Bacon e sua ética, com força influenciada pelo escopo de sua filosofia natural. Assim, ela busca tanto o bem individual quanto o coletivo, declarando-se como um filósofo ‘pragmático’ que conhece o esforço humano de ser, antes de qualquer aspecto racional, um ser humano. Este lado prático era fruto do ambiente inglês.

Pocock, Skinner, Peltonen e Whelan foram taxativos em afirmar que os ingleses receberam em seu território os escritos dos humanistas italianos. Bacon foi o exemplo. Ele foi um desses intelectuais que evocou as polêmicas ideias realistas do Florentino e retirou consequências políticas para o cenário nacional. Bacon conheceu o esplendor do governo de dois monarcas. O primeiro foi uma monarca no sentido estrito da palavra. Enfrentou com sensatez as inquietações internas, bem como, as externas. Da mesma forma que Henrique VIII, esta rainha soube acalmar as reivindicações do Parlamento, sabendo adotar práticas que viabilizavam seus reais empreendimentos. James I foi feito rei da Escócia no primeiro ano de vida e, aos 37 anos, da Inglaterra, sucedendo Elizabeth que não deixara herdeiros. Seu reinado foi marcado por constantes conflitos com o Parlamento. Os gastos públicos foram intensos e sua condução política, sobretudo, pela forma absolutista, que o levou a enfrentar conspirações e problemas religiosos, é interpretada como os primeiros passos em direção à guerra civil inglesa.

Uma monarquia só é absoluta quando possui o monopólio do poder e das finanças do reino. Estes elementos são requisitos necessários, por exemplo, para a presença de um exército e de funcionários que cumpram as leis determinadas pelo soberano. Na Inglaterra, antes da Revolução, o Parlamento era um órgão consultivo à disposição do rei. No reinado de James I, diversas medidas administrativas foram tomadas sem tal consulta, o que provocou a formação explícita de uma oposição dentro desta instituição, oposição essa que exercia um considerável poder no reino,

capaz, por exemplo, de exigir a demissão de um ministro. Tal situação levou o monarca a dissolver o Parlamento.

A situação agravou-se de modo sensível quando o filho, Charles I, assumiu o poder. Acreditando-se um monarca por direito divino, ele dissolveu, durante certo