• No results found

Intervju nr. 2 med Fredrik - Fem motivasjonsvariabler

Kapittel 5 Analyser av elevenes motivasjon for å lære matematikk

5.4 Fredrik – etter andre termin

5.4.1 Intervju nr. 2 med Fredrik - Fem motivasjonsvariabler

O discurso do então presidente Lula encerrou a Abertura da I Conferência em um tom informal de oratória. O presidente ressaltou os avanços governamentais realizados até então no campo referente aos direitos e políticas para as mulheres. Destacou a parceria estabelecida entre governo federal e os movimentos de mulheres, ao dizer que desde que assumiu a Presidência da República, se empenhou em tomar medidas efetivas, para mudar a situação das mulheres, em parceria com os “movimentos de mulheres” (BRASIL, 2004a, p. 25).

Lula, ao longo de seu discurso, travou diálogo indireto com as falas de Nilza Iraci e de Nilcéa Freire. Em seu discurso, Nilza Iraci destacou, como já mencionado, a coragem do Presidente de convocar as mulheres para a I Conferência e, dessa forma, ouvir o que elas têm a falar sobre políticas para as mulheres, melhorando, assim, toda a sociedade. Já a ministra da SPM Nilcéa Freire destacou, em sua fala, o papel do Presidente na convocatória da I Conferência como uma ação de confiança para as mulheres brasileiras e ressaltou que a “ousadia maior é a de Vossa Excelência convocar Conferências em todas as áreas de governo, sendo esta mais uma, no mais inédito e amplo processo de consulta popular que já aconteceu neste país” (BRASIL, 2004a, p. 20). Em contrapartida Lula, ao cumprimentar essas duas representantes em seu discurso, destacou o protagonismo das mulheres ao afirmar que “a conquista dos espaços políticos das mulheres e que a liberdade que tanto as mulheres buscavam, não seria obra de nenhum governo e muito menos dádiva, mas seria conquista da organização das próprias mulheres” (BRASIL, 2004a, p. 28).

Nesse caminho Lula disse, ainda, que “a maior obra que um governante pode deixar para seu povo não é a quantidade de asfalto que ele fez ou a quantidade de salas de aula. Mas é a relação que o Estado estabelece com a sociedade e a relação que a sociedade estabelece com o Estado” (BRASIL, 2004a, p. 22). Ainda segundo o presidente, o estabelecimento dessa relação entre sociedade civil e Estado fez, de forma direta, com que transformações acontecessem na vida das mulheres e nos seus espaços de atuação.

Assim, as mudanças sociais para as mulheres, de acordo com Lula, ocorreriam devido à mobilização coletiva das próprias mulheres. Como bem disse, “principalmente graças à mobilização das próprias mulheres, que em diferentes espaços da sociedade, lutaram, ao longo da história, para conquistar direitos e a consciência política da nossa população” (BRASIL, 2004a, p. 23). Não por acaso, Lula destaca e reconhece o protagonismo e capacidade de luta política das mulheres, já que as falas anteriores de suas interlocutoras destacaram o protagonismo de lutas dos movimentos feministas e de mulheres. Os direitos das mulheres,

segundo Lula, não são assim conquistas que vieram como dádivas ou concessões do governo ou de políticos poderosos, mas sim fruto de lutas históricas e de negociações das mulheres com o governo. Apesar de não mencionar em sua fala os feminismos e as feministas, fato que a princípio pode ser entendido por Lula possuir lugar de fala como gestor do governo federal e por ter trajetória sindical, diferente das demais palestrantes que possuem trajetória feminista militante e acadêmica, entretanto o presidente não deixa de destacar os “movimentos de mulheres”. A preferência de Lula pelo termo “movimentos de mulheres” está de acordo com seu plano governamental e partidário, em que o governo federal deveria mostrar os avanços sociais em pautas que não explicitassem radicalização e que estivessem, diretamente, ligadas ao cotidiano das mulheres, pois, caso contrário, poderia evocar questões e pautas tradicionalmente feministas, consideradas tabus na sociedade, como os direitos reprodutivos, o direito ao corpo e o direito ao aborto.

Busquei nesta análise trazer o discurso do presidente para destacar o modo como ele fala das lutas pelos direitos das mulheres e reconhece os protagonismos dos “movimentos de mulheres”, mas sem fazer qualquer menção ao movimento feminista. Tal silêncio é bastante significativo e problemático, capaz de gerar muitos debates. Quando as lutas pelos direitos das mulheres são abordadas no mais alto escalão da política, há um silêncio em torno do protagonismo feminista nesse processo. Tratar de “movimentos de mulheres” apresenta-se como a saída política menos radical no reconhecimento das demandas e agentes políticos relacionados às lutas pelos direitos das mulheres, a partir de um lugar de fala político e de negociação que ainda se faz sob a égide do patriarcado, apesar de apoiar a I CNPM. Nesse discurso o feminismo parece se diluir ou até mesmo desaparecer em uma espécie de movimento homogêneo de base biológica, já que o termo mulheres abriga uma diversidade enorme de identidades. Nessa mesa de Abertura da I Conferência, Nilza Irazi e Nilcéia Freire não silenciam a presença e importância histórica do feminismo na trajetória de lutas pelos direitos das mulheres no Brasil, já que as experiências políticas, o lugar social de fala e a trajetória acadêmica dessas mulheres reconhece o protagonismo de suas interlocutoras, ali também presentes.

Como bem observou Descarries (2002)56, o termo “movimentos de mulheres” indica

um grande conjunto de coalizões e práticas, continuas ou não ao longo do tempo, que tiverem e ainda têm como objetivo, modificar a situação socioeconômica e política das mulheres e a

56 DESCARRIES, Francine. "Um feminismo em múltiplas vozes, um movimento em atos: os feminismo no

Quebéc". In: Labrys, estudos feministas. Brasília: UnB, número 1-2, julho/dezebro, 2002. < http://www.labrys.net.br/labrys1_2/francine1.html> Acesso em 10 Mai. 2016.

redefinição de seu papel/função na sociedade, sem obrigatoriamente questionar os padrões e mecanismos reprodutores da divisão social dos sexos (DESCARRIES, 2002). Já os “movimentos feministas”, ainda segundo a mesma autora, são associados a um conjunto mais restrito de práticas e de discursos que possuem como prioridade a luta das mulheres e que sugerem “um projeto de sociedade alternativa e colocam como objetivo a abolição, ou mesmo a transformação profunda da ordem patriarcal e de seu poder regulador em nome dos princípios de igualdade, de equidade e de justiça social (DESCARRIES, 2002).

Os “movimentos feministas” são parte importante da dinâmica dos “movimentos de mulheres”, mas que não englobam necessariamente todos estes movimentos. É preciso, sobretudo, ter em mente que os projetos teóricos e militantes dos femininos modificam-se sensivelmente e tornam-se mais complexos ao longo dos anos, enquanto que as concepções de igualdade e de liberdade se multiplicam e até divergem-se (DESCARRIES, 2002). Isto posto, compreende-se que a escolha de Lula pela utilização do termo “movimentos de mulheres”, em vez do termo “movimentos feministas”, se fundamenta na concepção de que os “movimentos de mulheres” sugerem algo mais amplo, uma identidade coletiva capaz de englobar a diversidade de movimentos de mulheres, dentre eles os feministas. O discurso inaugural de Lula denota a importância da I Conferência como espaço de diálogo dos movimentos de mulheres, entre si, e, com o governo, um espaço democrático, capaz de desencadear políticas para mulheres. Trata-se, portanto, de um espaço revelador do protagonismo desses movimentos nas conquistas pelos direitos das mulheres diante do governo federal. Assim, as lutas e conquistas das mulheres com pautas especificamente feministas ao não serem verbalizadas, mencionadas ou rememoradas são deslocadas para o patamar de lutas secundárias, em que o essencial é a melhoria da sociedade como um todo, sem evidenciar as especificidades dos grupos sociais.

Destaca-se que a não utilização do termo “feminismo(s)” e/ou “feminista(s)” por Lula reforça uma omissão na história das mulheres e de suas lutas. Nessa perspectiva, considero que a abordagem das lutas das mulheres, assim como a utilização do termo “feminismo(s)” e “feminista(s)” em espaços de poder, constitui um esforço altamente político que desafia não apenas os discursos dominantes e patriarcais que circulam, tanto nos espaços cotidianos quanto nos políticos e acadêmicos, mas também as formas de escrita, de fala e de expressão.