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Intervju

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O Evangelho de Mateus101 registra a fuga e a permanência da Sagrada Família no Egito (Mt 2,13-15). Nesse relato, Mateus mostra José no exercício de seus direitos e funções de pai na Sagrada Família. É a ele que o anjo do Senhor aparece, comunica a destinação do menino e revela o tempo da volta para Nazaré. O anjo transmite a José e não a Maria a ordem de Deus para fugir ao Egito e quando deve retornar à própria pátria. É evidente o reconhecimento de sua autoridade e jurisdição.102

Destacam-se alguns personagens no contexto da fuga do Egito. Herodes tinha medo de perder o reinado e José não podia perder o seu Filho. Deus se comunica com o esposo de Maria através de sonhos e tem uma resposta pronta. Antes disso, é importante ter presente a presença dos magos do Oriente, uma vez que deixaram o Rei Herodes preocupado por causa do nascimento do “Rei dos Judeus recém-nascido” em Belém (Mt 2,1-8). Os magos trouxeram presentes, adoraram o menino e depois partiram. Vendo o perigo que se aproximava, o anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes procurará o menino para matar” (Mt 2,13). Segundo Toschi, a crueldade, o ciúme e a vontade de executar até mesmo os parentes mais próximos, estão bem documentados.103 Herodes não toleraria a existência de qualquer outro Rei que não fosse ele. Neste caso, colocou seu pequeno reinado terrestre temporário em conflito com o reinado eterno do todo poderoso “que não pertence a este mundo” (Jo 18,36).104 Um anjo do Senhor interveio em favor da criança. O anjo veio a José, o chefe escolhido e protetor da Sagrada Família. O sonho significa a comunicação divina a José que tinha por missão cuidar da criança e da esposa (Mt 1,20-23).

Depois de ter cumprido todas essas prescrições legais, conforme o costume da época, José, sem dúvida, pensava que era hora de voltar para sua casa, para o seu trabalho cotidiano,

101 Considerando o Midraxe haggadah (explicação das passagens narrativas do Pentateuco, com o objetivo de tirar delas lições edificantes), aplicamos essa metodologia a esse texto por não termos a preocupação de tirar do texto sagrado o sentido literal. “Ecos de José e Moisés conectam Jesus com as origens de Israel na libertação da escravidão (Brown). Como José, Jesus viaja para o Egito; Como Moisés, Jesus nasce em um mundo imperial e com um governante assassino (cap. 2). Tanto Faraó como Herodes ficam sabendo do menino por meio de escribas. Moisés e Jesus residem no Egito. Deus frustra as ações destrutivas tomadas contra eles e os preserva para levar a cabo as tarefas para as quais estão comissionados. Jesus, como Moisés e seu povo, passa através das águas (3,13-17) e encontra a tentação “no deserto” (4,1-11). Jesus parece repetir a história do êxodo (ver 2,15). Evocar José e Moisés é associar Jesus com a fundação de um antigo povo”. CARTES, W. O Evangelho de São Mateus, p.29.

102 CARRASCO, J. A. San Giuseppe nel mistero di Cristo e della Chiesa, p. 33. 103 Cf. MCKENZIE, J. Herodes, p.415.

mas o evangelista Mateus descreve que, antes da volta para a Galiléia, haverá outro fato importante, onde a Providência divina recorrerá novamente a ele. Através da comunicação em sonho por um anjo, é-lhe indicado o Egito como meta temporária de fuga, ou seja, até que Herodes morresse.105

A instrução do anjo foi para fugir para o Egito, - que havia sido um lugar de refúgio para o povo escolhido -, não só da fome, mas também dos Reis assassinos (1Rs 11,40; 2Rs 25,26; Jr 26,21). Tendo recebido a ordem, José obedeceu imediatamente, saindo para o Egito sem nenhum tempo para planejamento ou preparação. Os preciosos dons que havia acabado de receber dos magos (Mt 2,11) talvez tenha provido as necessidades do momento em tal situação desesperadora. No Egito José certamente teria encontrado assistência dos Judeus que haviam permanecido lá (2Mc 1,1;10). Ele estaria também consciente da antiga repreensão ao seu povo: “você não deve detestar um Egípcio porque você foi um estrangeiro em sua terra” (Dt 23,7).106

Neste detalhe da fuga e permanência da Sagrada Família no Egito, descrito por Mateus, lemos: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito e fica lá até eu te avisar, porque Herodes está procurando o menino para matá-lo” (Mt 2,13). A ordem de Deus para se exilar com a família foi cumprida por José imediatamente: “De noite, tomou o menino e sua mãe e retirou-se para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia anunciado por meio do profeta: “Do Egito chamei o meu filho” (Mt 2,14-15). Ainda de noite, José empreende a viagem rumo ao desconhecido, seguindo o mesmo destino de Abraão, que se refugiou no Egito. Também José do Egito foi salvo das mãos de seus irmãos na mesma terra. Deus ordena para que seus filhos se exilem em terra estrangeira, onde o Senhor será chamado, como o profeta havia anunciado: “Do Egito chamei o meu filho” (Os 11,1). É por esse motivo que Mateus vê na fuga ao Egito e depois na volta da Sagrada Família a Nazaré, o cumprimento da verdadeira libertação prefigurada pelo antigo Egito e individualizada na expressão do profeta Oséias.

105 Herodes é o rei satélite da Judéia na época dos romanos (37-4 a.C) e fundador da família de Herodes, da qual vários membros apareceram no Novo Testamento, que assinala o reinado de Herodes como a época do nascimento de Jesus (Mt 2,1; Lc 1,5) [...]. Em outras passagens Herodes é mencionado somente em conexão com o assassino dos meninos de Belém (Mt 2,1ss). Tal crime está de acordo com a violência do reinado de Herodes, especialmente nos seus últimos anos, quando sua própria segurança no trono estava em jogo. Cf.: MCKENZIE, J. Herodes, p. 414-415.

Enquanto o objetivo imediato para ir ao Egito era salvar Jesus da morte pelas mãos de Herodes, o objetivo providencial foi mostrar o cumprimento do plano amoroso de Deus. Herodes morreu e o anjo do Senhor avisou José para voltar à terra de Israel (Mt 2,15-19). Como filho de Deus Israel havia procurado refúgio no Egito e vindo do Egito para entrar no seu pacto de amor; então agora o filho de Deus, Jesus (Mt 3,17), saiu do Egito para estabelecer “um novo pacto” que fez o primeiro pacto obsoleto (Jr 31,31-4; Hb 8,8-13).107

Deve-se ressaltar também que a palavra “Egito” é uma localidade conhecida no AT não tanto por ser o refúgio dos Patriarcas e de outros personagens, mas, sobretudo pelo lugar da dura escravidão do povo hebraico, da qual só o intervento divino pode libertá-lo. Jesus é considerado por Mateus o verdadeiro Moisés, pois assim como Moisés acompanhou o povo hebraico até a terra prometida, Jesus o supera entrando na terra de Israel (Mt 2,20-21).

O evangelista relata com poucas palavras esta fuga para um país estrangeiro, não entrando em minúcias, não indicando o tempo e nem a forma da viagem, nem tampouco descrevendo as circunstâncias do trajeto. Limita-se a contar-nos o essencial: Herodes procurava matar o menino Jesus.

A fé, retidão e pronta obediência de José são instrumentos não apenas para o Filho de Deus entrar no Egito, o símbolo de infidelidade, mas também para o Filho de Deus vir do Egito para a terra de Israel, estabelecendo o novo e eterno pacto. Quando o Espírito Santo é derramado em Pentecostes em cumprimento do novo pacto, os Egípcios também estão presentes lá (At 2,10).108

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