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Eiendomsverdi som modell

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6.4 Egenskaper

7.1.3 Eiendomsverdi som modell

Quando o pai abandona a família, inevitavelmente, vemos a mutilação da família com o visível abandono da prole. Nesse instante, percebe-se o avesso da história. Constata-se filhos sem raízes familiares construindo horizontes vazios de sentido, às custas de projetos de vida miseráveis que não se sustentam pela ausência de bases sólidas. O cenário impõe-se com a perda da identidade marcada pelo amor-líquido que veste o traje da solidão. Mesmo vivendo em meio à multidão, muitas vezes, prevalece o sentimento de solidão, porque estar sozinho não significa não estar com pessoas, mas não poder contar com elas.

Com o impacto do subjetivismo, impõe-se a era do narcisismo. Quando não se pode ser o que se deseja, projeta-se no outro o nosso desejo. O que imaginamos em nosso herói é assumido por nós no nível da fantasia, como a sua força, a sua beleza, a sua fama e sua riqueza. Quando o ‘eu’ se sobrepõe ao ‘nós’, relativiza-se o espírito de família e dá-se por concluída a tarefa da educação dos filhos apenas com as sobras econômicas, pois em muitos lares o amor se evaporou.

Segundo Rubio, “o ‘eu sou’ nietzscheano vem a significar a afirmação da humanidade sem os outros seres humanos, a auto-afirmação do homem recluído na solidão, penetrado de profundo desprezo pelos outros seres humanos (especialmente pela mulher). Um “eu sou” assim entendido que levará Nietzsche a escolher Dionísio contra o Crucificado”.311 Porém, lembra Rubio, “no Crucificado, a fraqueza e a miséria humana ficam divinizadas. Concomitantemente, a “moral cristã” levará o cristão a servir, ajudar e a amar a multidão de sub-homens que rastejam como vermes, no mundo de ontem e de hoje”.312

A teoria de Bauman sobre “o amor-líquido” vai na linha nietzscheana e contribui para explicar muitas situações a respeito da ausência paterna.313 Quem opta pelo “amor-líquido” dispensa a vocação de pai. Por esse motivo não deveria ser pai nunca, porque a paternidade exige um “amor-sólido”. A metáfora “líquido-sólido” dever ser compreendida naquilo que significa e informa a respeito do conteúdo em discussão, significando o provisório- permanente. A crise da paternidade em nossa sociedade está camuflada. Não se fala dessa instância, mas apenas sobre família, educação, relações humanas, violência, solidariedade e tantos outros adjetivos-substantivos. Preocupa-nos o papel específico do pai na família, uma

311 RUBIO, A. G. Unidade na pluralidade, p. 448. 312 Ibidem.

313 A Obra de Zygmunt Bauman que trás por título Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, apresenta de maneira crítica nosso contexto social e acerta na análise de suas fragilidades.

vez que a mentalidade imposta pela sociedade do “amor-líquido” pode acabar por conceber como “normal” a ausência do pai no meio familiar. Para justificar sua postura, o pai defende o princípio da educação unilateral (um só cônjuge). Porém, na prática esse “direito” de viver sozinho quando já se tem família constituída é caracterizado como abandono do lar. Esse tipo de “direito” concedido é o princípio da irresponsabilidade, que gera corrupção. A verdadeira paternidade suscita mais vida. Nesse sentido, Susin salienta que

a fecundidade da paternidade gera bondade e, por isso, multiplicidade, pois a bondade é possível onde não há solidão, onde há multiplicidade sem retorno e sem absorção. A não-coincidência e a separação pai-filho dá condições à multiplicidade de filhos, todos únicos porque eleitos. O filho eleito é então posto entre os outros, e cumpre sua resposta à eleição e à unicidade no âmbito de nova relação e nova modalidade de bondade, a fraternidade.314

Mas, infelizmente, vivemos em tempos de “ausências” como afirma Boff traçando um paralelo entre o menino do Filme “Central do Brasil”, que é órfão de mãe no Rio de Janeiro, RJ, cujo pai vive no Nordeste e é marceneiro, mas entregue ao alcoolismo. O menino deseja conhecer o pai distante, o pai também vai à procura do filho no Rio, embora um não encontre o outro, ambos ficam esperando. Para Boff, esse filme representa uma metáfora significativa da figura do pai ausente e do filho abandonado.315 Pensamos em históricos, felicidade e carreira. Esquecemos da vida feita de parceria que precisa ser doada para que o outro seja edificado. O crescimento do outro contribui para o aperfeiçoamento da espécie. Quem abandona corre o risco de também ser abandonado. A paternidade anulada é responsável pela educação mutilada de muitos jovens que vivem à margem da periferia, sem esperança de “outro mundo possível”316 para viver com dignidade. “O filho sem a figura interior do pai- herói sente-se perdido, sem rumo na vida, psiquicamente desestruturado”.317 Agora sobra a indiferença da sociedade em relação aos filhos “sem pai”. Com a desestruturação das famílias e as constantes separações, vemos o homem, que também é pai, buscar novos relacionamentos deixando sua prole desvinculada de sua história afetiva e distante dos vínculos fundantes da família.

314 SUSIN, L.C. O homem messiânico, p. 189.

315 BOFF, L. À espera do pai. Artigo do Correio Riograndense – Caxias do Sul, 12 de novembro de 2008, p. 6. 316 Expressão utilizada no Fórum Social Mundial que teve a sua primeira edição em Porto Alegre no ano de 2001 na PUCRS.

Ao enfrentar sozinha a missão de educar os filhos, a mãe pode viver um sentimento de rejeição e abandono juntamente com o filho. Sem a referência paterna, a educação dos filhos pode ser legada também a outras instituições que, por sua vez, não garantem a formação integral da personalidade dos mesmos. Qual é a referência paterna da criança? Nem sempre as conjecturas funcionam. Mais uma vez José como modelo de pai ensina a importância do sacrifício total de si próprio para poder exprimir o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe “dom esponsal de si” (RC 20). O pai não é uma figura “sobrante” no contexto da educação dos filhos como observamos, inúmeras vezes, na mídia hegemônica, passando a impressão de ser o anti-herói. Na família o pai, especialmente na educação dos filhos, assume um importante papel desde a primeira infância, porque “os hábitos que o pai adquire quando o filho é bebê costumam ser duradouros. Se cuidou do filho desde bebê, o pai provavelmente haverá de continuar participando de sua criação até a adolescência”.318

Quando a ausência do pai se impõe, a formação na família se estreita.319 Antes de colocar a responsabilidade no sistema, na educação, nas famílias, na religião ou na política, prioriza-se a responsabilidade subjetiva da pessoa. Ao refletir sobre a paternidade responsável, a intenção é resgatar, com ela, a família. Para além dos elementos jurídicos, preocupa-nos a questão teologal. Nessa perspectiva, José abre caminho para a intimidade com Deus por ter sido

o santo, no qual mais se manifestou o espírito do evangelho durante sua vida. Se este espírito, portanto, emana do Homem-Deus para todos os homens, é também verdade que nenhum trabalhador possuiu este espírito em grau maior do que o pai adotivo de Jesus, que viveu com ele na mais estreita intimidade e convivência de família e de trabalho (1º de maio de 1955). 320

Entendemos a paternidade como um ato de transcendência. Susin cita Levinás que, por sua vez, “insiste na transcendência das relações familiares à simples articulação biológica. Na família se estrutura a relação prototípica para todos os homens”.321 É importante destacar que a paternidade não é um projeto pessoal do qual se pode dispor ou dele se desfazer como algo

318 GOTTMAN, J. Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos, p. 179.

319 É importante ressaltar que “o dever de transmitir a vida constitui uma “missão própria” dos esposos, que devem cumprir com “responsabilidade cristã e humana e num respeito cheio de docilidade para com Deus”. Os critérios que o Concílio indica para guiar os esposos são os seguintes: o bem próprio, o bem dos filhos, o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria. Cf. FLÓREZ, Op. cit., p. 302.

320 STRAMARE, T. Gesù lo chiamo Padre, p. 66. 321 SUSIN, L. C. O homem messiânico, p. 190.

descartável quando não for mais interessante, porque outras pessoas são envolvidas no processo. Para Susin, “o filho é o futuro do pai (...) o pai é o passado do filho”.322 Na raiz de toda paternidade deve existir o fio condutor do amor, mesmo diante de toda crise, para que os filhos não sejam empobrecidos em seus direitos humanos e cristãos. Ainda que os problemas atuais da humanidade não tenham um vínculo direto com a paternidade irresponsável, observamos que atrás dessa atitude identificamos problemas que assolam a humanidade e esvaziam gerações inteiras furtando-lhes o direito de sonhar. Além disso, com o estímulo da sexualidade precoce, as mulheres estão gestando ainda na adolescência, sem a segurança de um esposo.

Toda criança precisa ter o desenvolvimento de sua personalidade trabalhado de forma completa. Apenas a referência materna em sua vida deixará uma lacuna irreparável por causa da ausência do pai que negligencia seu dever.323 Entendemos que a criança faz inferências e percebe que sua história não está inteiramente contada quando observa apenas a presença da mãe em sua vida, uma vez que a paternidade está relacionada com o amor conjugal.324 É inevitável que a criança se interesse em saber a respeito de seu pai. No contexto teologal, considerando a dimensão do sagrado, a vida não pode ser um simples encontro do acaso que se esvazia no final de um encontro, uma vez que a vida merece ser cuidada desde a sua concepção (GS 50). Quando o pai não exerce sua paternidade, a vida do filho pode apresentar- se truncada em seu processo formativo e vulnerável a partir dessa ausência.

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