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2.2 R ESEARCH M ETHODS

2.2.3 Interviews

Ao se procurar um conceito definido de globalização, percebeu-se que o termo ainda apresenta diferentes visões nas mais variadas ciências e áreas. Assim, no intuito de se especificar um sentido mais próprio para os estudos realizados nesta pesquisa sobre Educação, é preciso postular as possíveis origens do termo globalização. Morrow e Torres (2004) destacam três proposições para as origens desse processo mundial, organizadas da seguinte forma:

QUADRO 2 – Origens da Globalização

ORIGENS DA GLOBALIZAÇÃO Teoria Surgimento da

Globalização Conceito Efeito

Universalista Há mais de cinco séculos

Fundamentos das religiões universalistas Surgiu da dicotomia Universal/ Particular Teoria de Sistemas Mundiais Século XVI

Associação da globalização com a origem do capitalismo e expansão

mercantil

Exerce influência nos dias atuais Teoria da Globalização Metade do Século XX Preconização da sociedade da informação, da globalização cultural ou da cultura pós-moderna

Marcou-se pela transformação “pós-fordista”

dos processos de produção como processo global Fonte: o autor, com base em Morrow e Torres (2004)

Segundo Gorostiaga e Tello (2011, p. 365-366), há, nas ciências sócias, três enfoques para se discutir os processos de globalização: “hiperglobalista”, “cético”, e “transformacionalista” (tradução nossa). Esses autores (2011) definem como enfoque hiperglobalista aquele em que o capitalismo global triunfa sobre os Estados, que perdem sua relevância com o surgimento de novos tipos de cultura, governo e sociedade civil global. Ainda nesse enfoque, a escolarização se desaparece frente aos avanços tecnológicos.

A visão cética preconiza que, com as crises econômicas, os Estados acentuam as diferenças entre os países centrais e os periféricos. Nesta visão, os sistemas educativos nacionais seguem como premissa para se explicar os processos de política educativa.

Já o terceiro enfoque se define como transformacionalista por acreditar que a globalização atual transita por níveis nunca antes experimentados nos setores político, econômico e cultural. É nessa fase em que ocorrem fenômenos de fragmentação e estratificação, em que determinados grupos se marginalizam; e os conceitos de centro e periferia implicam em interpretações outras (GOROSTIAGA; TELLO, 2011).

Assim como Gorostiaga e Tello (2011), esta pesquisa se fundamenta na visão transformacionalista, pois acredita que, na educação brasileira, seja em nível nacional ou local no DF, há a demarcação mais frequente de grupos que ficam à margem do processo decisório das políticas, sobretudo as de formação docente.

A respeito da conceituação de globalização, é possível se concordar com Sousa Santos (2001) que considera este termo algo muito difícil de ser definido. Sua proposta de definição é a seguinte: “a globalização é o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival” (SANTOS, B., 2001, p. 21).

Held (1991, apud MORROW; TORRES, 2004, p. 28) define globalização como “a intensificação de relações sociais mundiais que ligam comunidades distantes, de modo que os acontecimentos locais são moldados por eventos que ocorrem a muitas milhas de distancia e vice-versa”. Morrow e Torres (2004) pontuam, ainda, que a globalização é vista “como algo que obscurece os limites nacionais, altera solidariedades dentro dos Estados e entre eles, e afeta

profundamente a constituição de identidades nacionais e de grupos de interesse” (MORROW; TORRES, 2004, p. 28).

Harvey (2006) corrobora essa definição de globalização como um processo que envolve transformações nos campos das relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Além disso, esse autor enfatiza que, ao se definir globalização, “crucial nestes processos que se desdobram é o incremento de atores globalizantes poderosos; a intensificação da acumulação; novas lutas políticas, sociais e de classe” (HARVEY, 2006, apud ROBERTSON; DALE, 2011, p. 348).

Para Abdi (2012, p. 60), contudo, a globalização, apesar de tantos efeitos negativos nos segmentos menos competitivos da sociedade, trouxe “aberturas sociais e inovações tecnológicas que beneficiaram milhões de pessoas”. Deve-se, todavia, ao se proceder com esta análise da formação de professores a partir do Gestar, optar-se pelo uso do termo globalização não pelos seus aspectos apenas de relações de economia, política e cultura, interpretados como um processo histórico e cultural. Cabe aqui tomar a significação de globalização em seu contexto neoliberal, como uma ideologia. Para se entender melhor esse significado, faz-se necessário um aprofundamento sobre o termo liberalismo.

O liberalismo é uma doutrina surgida no século XVIII na Inglaterra e que se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos (SARAIVA, 2010). Saraiva (2010) afirma que nos regimes liberais se proliferam dispositivos disciplinares, com regulamentos que exigem obediência. Ela enfatiza, ainda, que as teorias liberais do século XX, passaram a se chamar de neoliberalismo, e essa nova (mas com os mesmos princípios da velha) abordagem promove “mudanças em setores que parecem não ter a menor identidade com essa doutrina” (SARAIVA, 2010, p.130).

Com o neoliberalismo, a participação do Estado-nação se restringe a um observador do andamento das políticas públicas. E, na educação, isso não é diferente. Apple (1998, p. 185) aponta que “a visão do neoliberalismo é a de um Estado fraco”. Olssen, Codd e O’Neil (2004, p. 14) conceituam o liberalismo como uma “base insatisfatória onde os Estados-nação podem fazer ou defender políticas” (tradução nossa). Esses autores (2004) ainda pontuam que o liberalismo, além de representar poder e controle, falha ao não dar ênfase aos efeitos da propriedade privada e da classe social em seu caráter político e social em uma comunidade.

Assim, conforme bem postulado por Abdi (2012), quase todas as partes do mundo estão tendo problemas com a tríade neoliberalismo, globalização e políticas

educacionais. Guimarães-Iosif (2012, p. 52-53), sobre esse “casamento entre globalização e neoliberalismo”, enumera como efeitos o “aumento das privatizações e da entrada de capital estrangeiro nos Estados-nação, acompanhado por um duro processo de desregulamentação do trabalho e pelo enfraquecimento dos sindicatos”.

Alves e Neto (2012, p. 125), ao mencionarem a totalidade das pesquisas por eles analisadas para a composição do artigo “O Banco Mundial e a educação brasileira: investigação das medidas políticas de educação e formação no Brasil entre 1985 e 2008”, caracterizam a relação globalização hegemônica e neoliberalismo como uma “malvadeza”, “em busca da acumulação crescente do capital, atingindo mais fortemente os países da periferia do capitalismo”.

A partir da compreensão desses processos mundiais e locais, as análises sobre essas políticas, em especial àquelas referentes à formação docente, se valem da contribuição do entendimento sobre esses dois processos: a globalização e o neoliberalismo.