Analisar algo é ter um olhar mais atento para a constituição do objeto analisado. É ver seus detalhes e procurar entender as possíveis ligações entre o
objeto e uma realidade. Quando se trata de analisar o texto, aquilo que foi dito deve ser observado em suas nuances. Não somente pela palavra apresentar diferentes sentidos, denotativos ou conotativos, mas por poder se fazer uma conexão com os conhecimentos já adquiridos previamente por aquele que lê um texto.
Deste modo, ao se averiguar os possíveis sentidos de um texto, é necessário um método para tal. A Análise do Discurso (AD) se serve como método analítico para se desenvolver pesquisas no meio acadêmico. E, por ela, se objetiva organizar e sistematizar o presente objeto de um estudo.
O dicionário Houaiss (2001, p. 1054), dentre as variadas definições para a palavra Discurso, expressa a seguinte: “3. série de enunciados significativos que expressam formalmente a maneira de pensar e de agir e/ou as circunstâncias identificadas com um certo assunto, meio ou grupo”. Foucault (1986, p. 135 apud FISCHER, 2001, p. 201) define discurso como “um conjunto de enunciados que se apóiem na mesma formação discursiva”.
Já em relação à AD, Orlandi (1999, p. 26) acredita que essa análise “visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos”. Assim, a relação do sentido de um objeto simbólico analisado está intimamente relacionada a um sujeito, ao seu modo de pensar e de agir. No caso da formação docente pelo Gestar, tanto os professores envolvidos nessa política quanto a documentação que organiza o programa podem ser considerados objetos simbólicos, ambos imbuídos dos seus respectivos sentidos.
Ao se analisar o discurso por meio dessa análise, há uma busca que vai além do conteúdo, o que a distingue da Análise de Conteúdo. Orlandi (1999, p. 91) pontua sabiamente essa diferença:
Não atravessamos o texto para extrair, atrás dele, um conteúdo. Paramos em sua materialidade discursiva para compreender como os sentidos – e os sujeitos – nele se constituem e a seus interlocutores, como efeitos de sentidos filiados a redes de significação. É a isso que referimos quando dizemos que na Análise Linguística e na Análise de Conteúdo se trabalha com produtos e na Análise de Discurso como os processos de constituição (dos sujeitos e dos sentidos).
Com isso, há um estudo acerca dos fenômenos linguísticos e da relação dessa língua com os sujeitos que a produzem. Cappelle, Melo e Gonçalves (2003) acreditam que essa análise se trata de uma teoria que procura entender uma
gramática que preside a construção do texto e que fomenta uma interpretação dos processos de constituição do fenômeno linguístico, e não apenas de seu produto.
Um aspecto importante desse tipo de análise recai sobre as condições de produção dos textos. Segundo Minayo (2000, apud CAREGNATO; MUTTI, 2006), a Análise do Discurso procura compreender as condições de produção e apreensão dos significados dos textos, bem como seu modo de funcionamento e as formas de produção dos sentidos. No caso Gestar, os documentos do programa e a fala dos entrevistados representam esse texto.
Outro ponto que merece destaque ao se analisar um discurso é a sua questão histórica. Caregnato e Mutti (2006) especificam que essa forma de análise considera que uma palavra, por meio de seu sentido, expressa posições ideológicas conforme o processo sócio-histórico de sua produção. Desse modo, é válido se destacar a formação de professores inserida em uma sociedade dita democrática, sem censura e de livre expressão de seu povo.
A busca pela compreensão dos processos sociais por meio do estudo do discurso produzido, reproduzido ou, ainda, ausente, reflete em uma vertente de suma importância: a questão política. A Análise do Discurso é uma ciência que se liga ao aspecto político. Hay (2007 apud FAIRCLOUGH; FAIRCLOUGH, 2012) dá algumas definições para o termo política. Para ele, ela se trata da “distribuição, do exercício e das consequências do poder” (HAY, 2007 apud FAIRCLOUGH; FAIRCLOUGH, 2012, p. 25) (tradução nossa). Ainda segundo esse autor, ela consiste em um quadro de processos e rituais pelos quais os cidadãos podem participar do governo.
Em uma visão mais aplicada ao contexto das políticas de formação docente analisadas nesta pesquisa, Fairclough e Fairclough (2012, p. 26) postulam sobre o conceito de Política.
A Política consiste em se fazer escolhas e decisões sobre o que se fazer, que ação se tomar em resposta a alguma situação. Ela é tipicamente a tomada de decisões em um contexto de escassez: nunca há recursos suficientes para se fazer tudo o que se quer ou para se fazer o que todos querem. A Política pode, dessa maneira, ser vista como a alocação de recursos escassos e como “Quem consegue O Que, Quando e Como?”. (tradução nossa).
Assim, ao se analisar o discurso é imprescindível se considerar as questões políticas e o jogo de interesses entre os diferentes atores envolvidos no objeto observado. E, nesse jogo, há de destacar a existência do poder nas relações entre
os atores. Bobbio (2002, apud SECCHI, 2013, p. 156) define Política (politics) como a “atividade humana ligada à obtenção e manutenção dos recursos necessários para o exercício do poder sobre o homem”.
No caso do Gestar, a percepção do discurso em um contexto de jogo de interesses e de poder entre os atores envolvidos em uma política pública coaduna com a percepção do atual contexto de governança educacional global em que esse programa se insere.
Dijk (2009) intitula a AD como Análise Crítica do Discurso (ACD), termo postulado por Norman Fairclough em seu livro “Language and Power” (FAIRCLOUGH, 1989). Segundo Dijk (2009, p. 151) “toda investigação é política em sentido lato” (tradução nossa). Acredita-se que, com a adição do adjetivo “crítica” à AD, o autor interpreta o ser crítico como um processo dialético da construção da própria política e da própria atividade e profissão daquele que investiga algo. Ele vai mais além ao justificar que a ACD tem um propósito definido e destaca qual deve ser a postura dos pesquisadores dos Estudos Críticos do Discurso (ECD):
[...] os investigadores dos ECD reconhecem os compromissos e a posição de sua própria investigação na sociedade e refletem sobre eles. Não apenas são conscientes da escolha dos temas e das prioridades de suas investigações, teorias, métodos e dados no plano científico, como também são conscientes dela no plano sociopolítico. Não se limitam meramente a
estudar os problemas sociais ou as formas de desigualdade porque estas sejam matérias ‘interessantes’ de estudo, porém o fazem explicitamente com o objetivo de contribuir para a produção de uma mudança social específica em favor dos grupos dominados. Examinam
em uma perspectiva autocrítica se os resultados de sua investigação poderiam beneficiar à posição dominante dos grupos poderosos da sociedade e, além disso, ao se adotar o ponto de vista dos grupos dominados, os investigadores dos ECD também podem tratar de influir e cooperar com os ‘agentes de mudança’ cruciais ou com os ‘dissidentes’ dos grupos dominantes. (tradução nossa) (grifo nosso).
Diante da perspectiva de Dijk (2009), esta pesquisa se fundamenta nessa maneira de se analisar o discurso para se categorizar seu elemento de observação: o Programa Gestar, em suas turmas de Língua Portuguesa, do ano de 2009 no Distrito Federal.
Considerando que “os ECD contêm um aspecto normativo, uma perspectiva, uma atitude e uma maneira especial de se fazer investigação socialmente pertinente” (DIJK, 2009, p. 26), é pertinente a enumeração das propriedades que são importantes para os Estudos Críticos do Discurso (ECD) e que servem para os estudos sobre o Programa em questão:
• As relações de dominação se estudam primariamente a partir da perspectiva de interesse do grupo dominado e a favor deste;
• As experiências dos (membros dos) grupos dominados se empregam, portanto, como prova para avaliar o discurso dominante;
• O estudo pode mostrar que as ações discursivas do grupo dominante são ilegítimas;
• Podem ser formuladas alternativas para os discursos dominantes que coincidem com os interesses dos grupos dominados. (DIJK, 2009, p. 26) (tradução nossa).
Assim, esta pesquisa utilizou-se da Análise do Discurso para investigar os dados levantados quando da exploração sobre a temática do Gestar em Língua Portuguesa na turma de 2009 no DF. Diante da metodologia de pesquisa definida, foram necessários alguns procedimentos e instrumentos para a geração dos dados.