A utilização da ADC como recurso para sistematização e análise de dados valoriza o seu potencial como ferramental teórico e metodológico, que sustenta o debate tanto ontológico quanto epistemológico da pesquisa. A escolha pela ADC justifica-se por enxergar nela a possibilidade de articular as propriedades linguísticas dos textos, como eventos discursivos, que permitem a compreensão das práticas sociais e o desvelamento de aspectos como poder hegemônico, ideologias dominantes, identificações e identidades.
Chouliaraki e Fairclough (1999) descrevem que um dos compromissos centrais da ADC é revelar as ideologias subjacentes aos discursos, denunciando seu papel como elemento de dominação. Ela se volta para as discussões dos problemas sociais de forma a promover uma reflexão sobre eles. Os estudos de ADC levam os analistas de discurso a quererem “produzir e apresentar conhecimento crítico que capacite os seres humanos a emanciparem-se de formas de dominação mediante a autorreflexão” (Wodak, 2009, p. 7).
Atento ao papel do discurso no contexto organizacional e aos modos de operação da ideologia de Thompson (2002), vale ressaltar que:
[...] todo discurso esconde uma rede simbólica de relações de dominação ideológica e de poder. Cada palavra expressa no ambiente organizacional está, de alguma forma, sendo monitorada e classificada. Todo discurso que destoa da sinfonia organizacional é reprimido, não necessariamente através de punições coercitivas explicitas aplicada pela direção central da organização, mas através dos grupos internos, do controle psíquico da ideologia. Há uma delimitação imaginária [...], em que o indivíduo pode se aventurar com o uso de suas palavras, diálogos e argumentações, devendo estar, contudo, atento para que o seu discurso não ponha em risco os grupos dominantes e a ideologia vigente na organização. (Faria & Meneghetti, 2007b, p. 1).
Salienta-se, no entanto, que o uso da ADC não se limita ao estudo da linguagem apenas como um sistema semiótico ou isolado, mas alcança o discurso como uma prática social, definida como “maneiras recorrentes, situadas temporal e espacialmente, pelas quais agimos e interagimos no mundo” (Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 21). Os discursos refletem representações ideológicas que, uma vez analisadas, explicam uma ordem social.
A evolução dos estudos de Fairclough (2003) leva-o a estabelecer três significados do discurso, quais sejam: inter-acional, representacional e identificacional, que se relacionam às
maneiras como o discurso figura em práticas sociais: como os modos de agir (significado interacional), de representar (significado representacional) e de ser (significado identificacional). Essa definição tem origem na Linguística Sistêmico-Funcional de Halliday (1985), em que Fairclough (2003) reformula as funções da linguagem e faz um paralelo entre elas e os então denominados significados do discurso.
Nessa reformulação, a representação vai corresponder à função "ideacional" de Halliday; a ação vai aproximar-se mais da sua função "interpessoal", embora coloque mais ênfase no texto como uma maneira de (inter)agir em eventos sociais, e pode ser vista como complementando a relação (promulgando relações sociais). Para tanto, Fairclough (2003) adverte: “Halliday não diferencia uma função separada da identificação – a maior parte do que incluo na identificação está na função ‘interpessoal’. Não distingo uma função ‘textual’ separada, mas a incorporo na Ação” (p. 27). Para melhor compreensão, o Quadro 3 ilustra os significados e suas interações com os elementos do discurso.
Quadro 3
Significados do discurso de Fairclough e suas interpretações
Significado Elementos da ordem
do discurso
Interpretação/identificação no discurso
Inter-acional Gêneros Relacionados aos aspectos discursivos das formas de agir e interagir por meio dos eventos sociais.
Representacional Discursos Referente às diversas formas como os discursos fazem uma representação do mundo.
Identificacional Estilos Concernentes à construção textual das identificações dos indivíduos no discurso.
Fonte: elaborado pelo autor.
A relação entre esses significados do discurso deve ser compreendida como dialética, pois discursos particulares são mediados por gêneros, assim como gêneros pressupõem estilos, ou, ainda, representações particulares podem ser legitimadas em maneiras particulares de ação e relação e inculcadas em maneiras particulares de identificação (Vieira & Resende, 2016). “A distinção entre os três aspectos do significado e entre gêneros, discursos e estilos é uma distinção analítica necessária, que não as impede de ‘fluírem’ unas nas outras de várias maneiras.” (Fairclough, 2003, p. 29).
Quando se analisa textos específicos como parte de eventos específicos, duas coisas são realizadas concomitantemente: a) a análise em termos dos significados do discurso e como eles são realizados nas várias características dos textos (vocabulário, gramática e assim por diante); e b) o estabelecimento de uma conexão entre o evento social concreto e as práticas sociais mais abstratas, identificando como os elementos discursivos (gêneros, discursos e estilos) são usados
e articulados no texto (Fairclough, 2003). Como mencionam Bittencourt e Carrieri (2005, p. 17), “a análise do discurso explora como as ideias socialmente produzidas e incorporadas nas organizações são criadas e mantidas por meio do relacionamento entre discurso, texto e ação”. Lapidadas as dimensões teórico-metodológicas da ADC, esta pesquisa conduziu-se considerando o arcabouço teórico-metodológico da ADC, proposto por Chouliaraki e Fairclough (1999) e Fairclough (2003) e ilustrado na Figura 1.
Figura 1. Arcabouço teórico-metodológico da Análise Crítica do Discurso Fonte: Adaptado de Chouliaraki & Fairclough (1999).
Após a percepção do problema do adoecimento psíquico e do retorno ao trabalho após transtorno mental em policiais da PMDF, realizou-se a análise da conjuntura, da prática particular e dos discursos elaborados pelos policiais, a partir da configuração do trabalho militar como lócus propício para o adoecimento mental. Descrito pelos autores como “identificação de obstáculos para que o problema seja superado” (Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 60), esse processo permitiu investigar a amplitude das práticas conjunturais, passando pelas práticas particulares até chegar ao discurso. Tais procedimentos de análise garantiram “que os textos analisados sejam relacionados a suas causas mais amplas e a seu contexto particular, o que está de acordo como o princípio da profundidade ontológica” (Ramalho & Resende, 2011, p. 107).
Detalhadamente, a etapa referente à análise da conjuntura orientou-se para a descrição e configuração do trabalho militar e dos atravessamentos institucionais, que contribuem para o adoecimento mental e, consequentemente, para o afastamento e o retorno ao trabalho depois de
afastamento por transtorno mental. Essa etapa pode ser identificada no Capítulo 2, seções de 2.4 a 2.7. Já a etapa da análise da prática particular voltou-se para o levantamento e a investigação de diferentes estudos, que abordam o retorno ao trabalho após transtorno mental, contemplando sua ocorrência tanto em policiais como em outros segmentos profissionais, estados e países. Essa etapa pode ser identificada no Capítulo 2, seção 2.8. Por fim, a etapa da análise do discurso orientou-se para a análise da estrutura dos discursos policiais e suas interações, contemplando as ordens do discurso e categorias linguístico-discursivas, o que pode ser observado no Capítulo 4. Não obstante, as particularidades do trabalho militar, do adoecimento psíquico e do retorno ao trabalho após transtorno mental, específicos da PMDF, foram tratadas como maior detalhamento no Capítulo 4.
A sequência da análise envolveu a investigação da função do problema do adoecimento psíquico e retorno ao trabalho após transtorno mental na prática e dos possíveis modos de ultrapassar os obstáculos que sustentam esse problema. Ramalho (2007) menciona que o propósito dessas etapas é “investigar as causas e efeitos desse problema na prática social e identificar mecanismos que o sustentam, a fim de desestabilizá-los” (p, 102). O final do processo se desenrolou por meio de uma reflexão sobre a análise, buscando questioná-la a respeito de sua eficácia e contribuição para questões de emancipação social.
Cabe ressaltar que a pesquisa se conduziu com maior profundidade e propriedade nas discussões das etapas iniciais do modelo, quais sejam: a “Percepção de um problema social com aspectos semióticos”, a “Identificação de obstáculos para que o problema seja superado” e a “Investigação da função do problema na prática”. Sem comprometer a proposta da ADC, as etapas “Investigação de possíveis modos de ultrapassar os obstáculos” e “Reflexão sobre a análise” foram tratadas com menor profundidade, muito justificado pela extensão do trabalho, deixando a lacuna para uma nova pesquisa.