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The assessment situation

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4 Results

4.2 Students’ perceptions of oral competence

4.2.1 The assessment situation

Nesta seção, buscou-se realizar uma discussão sobre o contexto do trabalho militar e as possíveis relações com o adoecimento do policial. Partiu-se de um levantamento de estudos que perpassam o trabalho militar e sua interação como lócus de adoecimento dos seus profissionais. O serviço do policial militar assume características muito específicas, tanto na natureza física e objetiva do trabalho, quanto na construção subjetiva do sujeito.

O trabalho da polícia enquanto organização estatal, que detém o uso exclusivo da força, é dualístico. Ao mesmo tempo que o policial se insere na sociedade como cidadão, faz-se necessário que ele se enxergue fora dela, no intuito de regular e velar pelas relações dos demais

indivíduos. Decorre dessa dualidade um fenômeno que atribui aos policiais um posicionamento paradoxal, em que ora se veem como membros comuns da sociedade, ora como agentes de regulação da ordem social. Dessa relação, o policial acaba ocupando um “não-lugar” ao representar o poder público de vigilância e regulação da sociedade em caráter ininterrupto e, ao mesmo tempo, estar inserido nesse coletivo (Silva, 2009). Essa dualidade subjetiva do trabalho, associada aos demais elementos que compõem a ação policial, acaba por comprometer a saúde mental dos seus membros e, consequentemente, a segurança de toda a sociedade.

Uma variedade de estudos afirma que o contexto do trabalho policial, seja pela sua organização, pelas relações socioprofissionais e/ou pelas condições, expõe seus profissionais a episódios psicologicamente agressivos, comprometendo a saúde mental e desencadeando transtornos dos mais variados tipos (De Camargo, 2019; Carleton et al., 2018; Castro & Cruz, 2015; Cavadinha, 2016; Coleta & Coleta, 2008; Deschênes et al., 2018, Edwards & Kotera, 2020; Ferreira, Augusto, & Silva, 2008; Kilgallon, 2019; Lipp, Costa & Nunes, 2017; Mattos, 2012; Minayo & Adorno, 2013; Miranda, 2016; Miranda & Guimarães, 2016; Morais & Paula, 2010; Sartori, 2006; Souza & Minayo, 2005; Spode & Merlo, 2006; Winter & Alf, 2019; Wood et al., 2017)

A vigília constante; a insegurança e a desconfiança das e nas pessoas; o contato direto com a violência e com a criminalidade; o acesso e o uso permanente de armas de fogo; o contínuo risco de ser ferido ou morto; a exposição que coloca suas famílias ou entes queridos diante de riscos de represálias; as rotinas ocupacionais estressoras e a sobrecarga de trabalho; e a representação social negativa, e intensificada pela mídia por atos inconsequentes de alguns profissionais, são alguns dos aspectos que colocam as atividades policiais como fontes potenciais para o desenvolvimento de problemas sociais, físicos e psicológicos (Anchieta & Galinkin, 2005; Andrade, Souza & Minayo, 2009; Bhatia & Pandia, 2017; Cavadinha, 2016; Habersaat, Geiger, Abdellaoui, & Wolf, 2015; Marchand et al., 2016; Minayo, Souza, & Constantino, 2007; Spode & Merlo, 2006; Tuckey et al., 2012).

Policiais militares pertencem a um grupo de risco altamente suscetível a problemas decorrentes do trabalho, em razão de condições que os levam à exaustão física e emocional, à despersonalização e à frustração. O trabalho policial envolve a exposição a eventos psicologicamente desafiadores e perigosos que podem aumentar o risco de problemas de saúde (Jenkins et al., 2018).

Souza e Minayo (2013) descrevem que as condições precárias de trabalho (relacionadas a equipamentos defasados, falta de recursos financeiros, salários desproporcionais e falta de capacitação profissional), o nível de exigências e o ambiente de violência em que atuam são

fatores que acarretam desgaste físico e extremo sofrimento psíquico aos policiais militares. Minayo, Souza, Cavalcante e Mangas (2012), em estudo sobre as condições de trabalho de policiais militares do Estado do Rio de Janeiro, identificam que o estresse desses trabalhadores assume relação direta com a organização hierárquica, as condições de trabalho e a falta de reconhecimento. Barreto, Kusterer e Carvalho (2019) acrescentam a isso a diminuição do tempo dedicado ao lazer e à família, a deterioração do poder econômico, a restrição de acesso a bens e serviços essenciais, a exposição a agentes estressores e o sedentarismo.

Também no contexto do trabalho militar na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e nas condições do trabalho policial relacionadas à vivência de sofrimento mental, Miranda e Guimarães (2016) identificam cinco fatores responsáveis pela vivência de sofrimento mental dos seus membros, quais sejam: as relações interpessoais, hierárquicas e disciplinares; as longas jornadas de trabalho; a sobrecarga de trabalho decorrente do reduzido efetivo de militares; as condições operacionais, advindas do subdimensionamento do efetivo militar; e a falta de equipamentos, como armamento e viaturas.

O estudo de Miranda (2016) sobre “por que policiais se matam” sugere que as ideações suicidas e tentativas de suicídio estão relacionadas a fatores sociodemográficos, institucionais, organizacionais, relacionais e individuais, como: a) filiação religiosa; b) vivência de agressões verbais e físicas não letais (perseguições/amedrontamento, xingamentos, insultos, humilhações por pessoas do seu convívio); c) insatisfação com a instituição, no que concerne à escala de trabalho, à infraestrutura, aos materiais de uso profissional, ao treinamento oferecido pela instituição nos últimos cinco anos (em relação ao momento da entrevista), à falta de reconhecimento profissional (por parte dos seus superiores), à ausência de oportunidades de ascensão na carreira e à desvalorização da sociedade; d) transferência de unidades sem consentimento ou aviso prévio; e) baixo nível de sociabilidade informal entre colegas de turma e na família; f) baixíssima confiança interpessoal nos colegas e nos outros; g) indicadores de depressão; e h) pesadelos e problemas com o sono.

Deschênes et al. (2018) identificam três grupos de fatores que interferem na saúde psicológica ocupacional de policiais, quais sejam: a) socioeconômico, relacionado aos cortes orçamentários e à pressão social; b) organizacional, em relação à cultura policial, à instabilidade gerencial, à liderança, ao reconhecimento e ao apoio interpessoal; e c) pessoal, relacionado à autonomia, à eficiência, às habilidades emocionais e à desilusão com o trabalho.

Entre os fatores socioeconômicos, os autores destacam os cortes no orçamento, que levam os policiais a cumprirem horas extras e operações com pessoal insuficiente. A isso, somam-se a imagem negativa e a pressão social com a qual os policiais devem lidar

diuturnamente. Entre os fatores organizacionais, a cultura policial, a gestão autocrática (liderança autocrática), a instabilidade do comando e a falta de reconhecimento da gerência e da organização são identificadas como os que impactam mais negativamente a saúde psicológica dos policiais. No que se refere aos fatores pessoais, verificou-se que, embora o envolvimento dos policiais com situações críticas e violentas pareça ser mais agressivo, é o contexto organizacional que apresenta maior risco em termos de saúde psicológica ocupacional (Deschênes et al., 2018). Essas conclusões são corroboradas por Edwards e Kotera (2020, p. 15) ao afirmarem que “as fontes de doenças psicológicas têm mais a ver com a cultura organizacional e as atitudes em relação à saúde mental do que a natureza do trabalho em si”.

O trabalho de Mattos (2012) também identifica a falta de reconhecimento social e o estigma atribuído aos policiais, fatores que atacam a autoestima e a confiança da categoria. O autor ilustra essa questão assinalando três aspectos: a) a invisibilidade do policial, sendo que relatos evidenciam os sentimentos de rancor e frustração que acompanham essa inserção marginal do trabalho policial na escala de prestígio social; b) o repúdio ao profissional, apresentado no incomodo que a simples presença dos policiais causa em alguns espaços sociais, uma forma de “mácula social que caracteriza o estigma daqueles que normalmente lidam com os indesejáveis da sociedade” (p. 147); e c) as generalizações, relacionadas à imagem negativa realizada socialmente em relação ao indivíduo policial.

Como se observa, os abusos das condições sociais e psicológicas impostas pela lógica instrumental e utilitarista do mundo do trabalho contemporâneo, que nega a existência do sujeito e nega o reconhecimento individual e social, contribuem para o comprometimento da saúde mental dos trabalhadores. Pereira (2011) também comenta que a ausência de reconhecimento no trabalho “abre um campo para a descompensação psicológica” (p. 77). Simpson, Byrne, Gabbay e Rannard (2015) advertem que os eventos perturbadores no trabalho têm o potencial de ameaçar o senso de si mesmo e a identidade de um indivíduo, como discutido nas seções anteriores.

Em decorrência desses fatores, verificam-se os contínuos casos de estresse (Bezerra, Minayo, & Constantino, 2013; Deschamps, Paganon-Badinier, Marchand, & Merle, 2003; Oliveira & Bardagi, 2010; Souza, Schenker, Constantino, & Correia, 2013; Tuckey et al., 2012), transtornos depressivos e de ansiedade (Castro, 2016; Husain, 2014; Wang et al., 2010), consumo de substâncias lícitas e ilícitas (Davey et al., 2000; Price, 2017; Scholarios, Hesselgreaves, & Pratt, 2017; Souza, Schenker, Constantino e Correia, 2013), síndrome de burnout (Niebusch & Moran, 2019; Padyab, Backteman-Erlanson, & Brulin, 2016) e suicídio (Chopko, Palmieri, & Facemire, 2014; Dombroski, 2017; Jhonson, 2016; Miranda &

Guimarães, 2016; Silva & Bueno, 2017; Violanti, 1995).

No contexto do trabalho policial feminino, a questão da organização do trabalho é apresentada por Bezerra (2012) como um dos principais responsáveis pelo estresse de policiais femininas no Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente, em função dos conflitos com superiores hierárquicos e das condições de trabalho. Para Bezerra (2012):

A questão da hierarquia sobressai, sem sombra de dúvida, tanto em praças, quanto em oficiais, em policiais do quadro de saúde ou de unidades operacionais [...]. Receber ordens de quem não está qualificado, não ter autonomia no trabalho, sentir medo das punições e das tensões geradas pelas regras não muito claras e objetivas para ascensão profissional são características relacionadas à carreira, que aparecem em todos os grupos como fatores geradores de estresse. (Bezerra, 2012, p. 84).

Estudos de Bezerra, Minayo e Constantino (2013) constataram que a organização do trabalho militar e a percepção de discriminação de gênero e assédio são os fatores que mais impactam o mal-estar e o sofrimento psíquico das policiais femininas. Entre outros fatores, os estudos incluem os problemas com a hierarquia, o excesso de trabalho, o preconceito de gênero, o assédio, o medo de punições e a insegurança. Somado a isso, verificou-se, ainda, a exigência de força física para execução de determinadas atividades, a exposição às instabilidades climáticas e a inadequação das estruturas para as mulheres, como as instalações sanitárias.

No que se refere aos transtornos psicológicos, verificou-se que, entre as mulheres oficiais, os problemas de saúde mental mais frequentes incluem gastrite emocional, cansaço mental, distúrbios do sono, problemas de concentração, irritabilidade, impaciência, mau humor, agitação, depressão, irritabilidade, fadiga, impaciência e taquicardia. Já entre as policiais praças, foram registradas ocorrências de hipertensão, ansiedade, compulsões alimentares, isolamento social, problemas na pele (psoríase, herpes etc.), taquicardia, queda de cabelo e menstruação desregulada (Bezerra, Minayo, & Constantino, 2013).

Em estudo sobre morbimortalidade de mulheres policiais militares, Conceição e Souza (2013) identificam que o processo de adoecimento de policiais do sexo feminino relaciona-se não apenas à questão gênero, mas também às condições de trabalho que envolvem suas atividades. As condições do trabalho policial são responsáveis por agravos mentais – como estresse, sofrimento psíquico, riscos e vitimização de agravos por acidente – e físicos – como problemas osteomusculares, resultantes das jornadas extensivas de trabalho em pé, e uso de equipamentos inadequados para as especificidades do corpo feminino.

Os resultados da pesquisa de Souza (2018) com policiais militares de Minas Gerais revelam que as mulheres policiais se apresentam mais vulneráveis a desenvolver sofrimento

psíquico. Isso é atribuído a fatores como a dupla jornada de trabalho, as condições de assédio moral e sexual vivenciadas e o preconceito de gênero sofrido na instituição militar. Apesar de apresentarem maiores probabilidades de adoecimento, o índice de suicídio entre elas foi menor do que aquele apresentado entre os policiais masculinos. De acordo com a autora, isso se explica pelo fato de as mulheres tenderem mais a procurar ajuda diante do adoecimento quando comparadas aos homens.

Estudo de Edwards e Kotera (2020) revela que, dada à natureza da ocupação, muitos policiais apresentam sintomas clinicamente significativos de um ou mais distúrbios como estresse, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e alcoolismo. Os autores advertem quanto à necessidade do cuidado do Estado com a saúde mental dos policiais, uma vez que exposições frequentes a eventos potencialmente traumáticos, facilitadores dos distúrbios de saúde mental, aumentam o risco de autodestruição, além de comprometer a segurança da sociedade.

Minayo et al. (2008) descrevem que o adoecimento nas corporações militares é resultado de um longo processo de insatisfação e frustração com o serviço militar. As autoras apresentam que, ao ingressarem na carreira, os profissionais depositam expectativas e confiança em um trabalho estável e seguro, com garantias de pertencimento, status social, possibilidades de ascensão na carreira e gozo de serviços qualificados de saúde, educação, lazer e outros. Contudo, com o passar do tempo, a convivência com o trabalho transforma essas esperanças e afeta o bem-estar dos sujeitos. A insatisfação com o trabalho é verificada nos baixos salários, na falta de reconhecimento, no afastamento das relações sociais e familiares, na perda cotidiana de companheiros e, até mesmo, na falta de qualidade na alimentação.

Os baixos salários levam policiais a buscarem atividades remuneradas complementares, por meio de trabalho externo irregular (Coleta & Coleta, 2008; Ferreira et al., 2008; Spode & Merlo, 2006), suprimindo o descanso, o lazer e a convivência familiar e social (Pessanha, 2009) e comprometendo, consequentemente, a saúde, o que pode explicar a irritabilidade e a violência de muitos policiais. Além disso, favorece a possibilidade de aderirem a interesses diferentes daqueles do Estado e dos cidadãos, como é o caso da formação de milícias (Minayo et al., 2008).

O desprezo e a falta de reconhecimento, social e institucional, especialmente por parte dos escalões superiores, afetam as emoções e a autoestima de todos os profissionais. Episódios de corrupção, abusos, uso indevido da força, subornos e outros comportamentos desviantes são generalizados, afetando toda a classe de profissionais, que sofre por saber que, além de trabalhar em condições precárias, são continuamente sujeitos a injúrias e difamações (Minayo et al.,

2008).

Lima, Blank e Menegon (2015), em pesquisa sobre prevalência de transtorno mental e comportamental em policiais militares, observam que o estresse é a temática mais estudada. Em comunhão com estudos de Bhatia e Pandit (2017), os autores chamam a atenção para a importância que deve ser dada aos sintomas de estresse na categoria, uma vez que, além de influenciar as condições de saúde do próprio trabalhador, ele pode trazer prejuízos também à sociedade. Em consonância com Minayo et al. (2008) e Souza, Schenker, Constantino e Correia (2013), Lima et al. (2015) atentam, ainda, para a subnotificação dos casos nas corporações, sendo possível que profissionais optem por se manterem em serviço, mesmo sabendo que estão adoecidos. Tal fato é justificado para que possam manter seus salários e outros interesses particulares. Baierle e Merlo (2008), Cantelli, Mota e Castro (2010), Cardoso e Nummer (2018) e Castro e Cruz (2015) identificaram que o encobrimento de sintomas patológicos se justifica por motivos pessoais, que transitam entre receio, discriminação, vergonha da exposição e tentativa de não comprometer a rotina do serviço.

Deschênes et al. (2018) nomeiam esse fenômeno como “a síndrome do super-homem”, em referência ao fato de que, ao ingressarem nas corporações policiais, os indivíduos se sentem invulneráveis e nada pode afetá-los emocionalmente, dado o papel que assumem frente à sociedade. Contudo, com o passar do tempo, essa percepção de “super-homem”, que se vincula à cultura, leva o policial a suprimir suas emoções e sintomas de sofrimento psicológico.

Edwards e Kotera (2020) e Jhonson (2016) descrevem que é vital que os policiais cuidem de sua saúde mental. No entanto, verifica-se que muitos resistem a procurar ajuda, influenciados pelo medo do estigma e das reações negativas dos colegas (Berg, Hem, Lau, & Ekeberg, 2006; Dombroski, 2017; Edwards & Kotera, 2020; Johnson, 2016). De acordo com Edwards e Kotera (2020), na cultura policial, a expressão emocional para eventos estressores relacionados ao trabalho ecoa como sinal de fraqueza, não compatível com a percepção masculina e viril do que vem a ser policiamento. Nesse sentido, Berg et al. (2006) observam que a cultura policial treina seus membros para serem solucionadores de problemas, controlar suas emoções e auxiliar a resolver os problemas dos outros. Essa atitude profissional acaba por ser aplicada em todos os domínios da vida. Portanto, se os policiais têm problemas pessoais, eles não procuram ajuda, mas tentam resolvê-los sozinhos.

A ideia generalizada na expressão “você tem que se levantar” contribui para o isolamento, resguardando os problemas sem buscar ajuda, seja por medo ou vergonha de ser percebido como fraco e inadequado. Essa “tem sido, e continua a ser, a cultura machista” (Mohandie & Hatcher, 1999, p. 357) das organizações militares. Tal fato leva o estigma a

desempenhar papel significativo no modo como um policial responde ao sofrimento psicológico, o que leva a apontá-lo “como uma das principais razões pelas quais os policiais evitam procurar ajuda” (Edwards & Kotera 2020, p. 2).

A busca de ajuda para superar os problemas de saúde mental é apresentada por Jhonson (2016) como uma relação dual. Além da resistência em relação ao grupo e à cultura policial, verifica-se o estigma do próprio participante sobre transtornos mentais, tratamento e impacto que ele teria no trabalho e na família. Assim, tanto o estigma dos outros quanto o autoestigma se combinam para diminuir a probabilidade de que um policial adoecido procure tratamento para os transtornos mentais. O estudo ressalta a diferença entre a “intenção” e a “ação” de buscar ajuda, em que os indivíduos podem reconhecer a necessidade de procurar tratamento, mas nem sempre se dispõem a tal.

Spode e Merlo (2006) constataram que grande parte das vivências de sofrimento de policiais é decorrente dos mecanismos de controle característicos da organização do trabalho militar, que mantêm pressões constantes e balizam as condutas pessoais dos policiais por meio do “alto rigor prescritivo e alicerçado em um sistema de disciplina e vigilância também permanentes” (p. 362). Bhatia e Pandit (2017) e Mausner-Dorsch e Eaton (2000) comentam que, quando as pessoas estão trabalhando sob altos níveis de tensão psicológica, como é o caso dos policiais militares, é mais provável que tenham ocorrências mais altas de depressão, o que favorece a busca por alternativas para amenizar o sofrimento.

Corroborando essa afirmativa, Gershon et al. (2002) reafirmam que trabalhos desse tipo aumentam os riscos de morbimortalidade, considerando que os problemas psicofisiológicos tendem a se acumular ao longo do tempo, sobretudo, porque são acompanhados, principalmente no caso dos policiais, de hábitos de enfrentamento das pressões que tendem a ser maléficos, como o tabagismo, o alcoolismo, o sedentarismo e os transtornos alimentares. Bhatia e Pandit (2017) apresentam que, para aliviar o estresse, os policiais tendem a adotar comportamentos inadequados, como beber álcool, fumar e comer demais, contribuindo significativamente para a autodeterioração. Fear et al. (2007) adicionam que o consumo de álcool no meio militar também objetiva romper barreiras hierárquicas e ajudar na socialização com os pares. Esses comportamentos tornam a polícia vulnerável à saúde individual e à saúde da sociedade em geral.

Minayo et al. (2008) mencionam que esses comportamentos se vinculam à necessidade que os indivíduos sentem de encontrar satisfação e alívio das tensões vivenciadas no trabalho, a partir de estratégias que os afastem da difícil realidade que precisam enfrentar. As autoras mencionam “o abuso de drogas, lícitas ou ilícitas, como resultante de problemas e sofrimento

psíquicos, embora sempre articulado a questões de personalidade e tendência a somatizações” (Minayo et al., 2008, p. 230). Goffette (2018), em referência à obra “Se doper pour travailler”, de Crespin, Lhuilier e Lutz (2017), comenta que, assim como recurso para suportar o trabalho, as práticas de “doping” também são identificadas como recurso para melhorar o desempenho e se adaptar ao trabalho.

Entre os oficiais, suboficiais e sargentos administrativos, verificou-se maior uso de tranquilizantes, sedativos e barbitúricos. O uso de maconha, cocaína e outras substâncias entorpecentes para sentir “barato” foi predominante entre oficiais, suboficiais e sargentos operacionais. Substâncias para emagrecer e anabolizantes foram as mais citadas como de uso mais frequente entre cabos e soldados (Minayo et al., 2008).

As autoras acrescentam que a vida familiar e social dos policiais também sofre as consequências do consumo de substâncias tóxicas. Esses problemas incluem:

[...] não-uso de preservativos nas relações sexuais; aumento dos conflitos no seio das famílias; dificuldades para expressar emoções e para controlar a agressividade, o que certamente redunda em violência intrafamiliar. No entanto, outras manifestações nos ambientes profissionais e fora deles são também assinaladas como relevantes. É o caso de crises nervosas incontroláveis, absenteísmo no trabalho e outros problemas de saúde. (Minayo et al., 2008, p. 235).

Souza, Schenker, Constantino e Correia (2013), em pesquisa sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas por policiais da cidade do Rio de Janeiro, identificam que as substâncias de consumo mais frequente entre os policiais civis e militares são as lícitas, como o tabaco, o álcool e os tranquilizantes. As autoras atentam para a quantidade de álcool consumido diariamente pelos policiais, o que acaba por afetar suas habilidades e as ações individuais. Consumidores dessa natureza tendem a relegar a segundo plano todas as outras atividades e interesses da vida pessoal e profissional. Os resultados desse estudo identificam

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