5 Discussion
5.3 Fluency as a feature of oral competence
O trabalho aqui apresentado assume natureza qualitativa e uso do método etnográfico- discursivo. Os estudos qualitativos proliferaram no campo dos Estudos Organizacionais brasileiros desde a década de 1960, defendendo uma abordagem interpretativa da realidade e contrapondo-se às tantas pesquisas positivistas e quantitativas que permeiam a temática em análise. Também no campo do interpretativismo, o método etnográfico-discursivo, de origem na antropologia, é proposto por Magalhães (2000) a partir de estudos de ADC em pesquisa
sobre a constituição do sujeito no discurso médico. “Trata-se de um método que conjuga o estudo textual discursivo à crítica social.” (Magalhães et al., 2017, p. 33).
A natureza qualitativa do trabalho permite a investigação em um nível de profundidade da realidade, próprio do comportamento humano, que dispensa “numerar ou medir unidades ou categorias homogêneas” (Richardson, Peres, Wanderley, Correia, & Peres, 2015, p. 79). Ela se volta para o universo dos significados e das ações humanas e para as motivações, as crenças, os valores, as atitudes, as metáforas, as características e as aspirações dos pesquisados (Berg, 2007; Minayo et al., 1994; Richardson et al., 2015). Não se trata apenas de uma negação à pesquisa quantitativa, uma vez que ela já desenvolveu sua própria identidade (Flick, 2009b).
A pesquisa qualitativa permite aprofundar os estudos sociais em uma diversidade de aspectos que perfazem o processo de interação social, sendo “o tecido social da vida diária, o significado das experiências e o imaginário dos participantes da pesquisa; a forma como se articulam os processos sociais, as instituições, os discursos e as relações sociais, e os significados que produzem” (Magalhães et al., 2017, p. 30). Como afirma Flick (2009a, p. 8), ela busca “esmiuçar a forma como as pessoas constroem o mundo à sua volta, o que estão fazendo ou o que está lhes acontecendo em termos que tenham sentido e que ofereçam uma visão rica”.
De acordo com Silva-Junior, Silva e Mesquita (2014), em referência aos estudos de Bogdan e Biklen, cinco fatores caracterizam a abordagem qualitativa em uma pesquisa científica, quais sejam:
(1) a realização da investigação no local onde o fenômeno se desenvolve, o que permite compreender melhor o comportamento analisado, observando-o em seu contexto natural; (2) os dados coletados são considerados como uma descrição rica em detalhes, em seu sentido mais puro possível; (3) o pesquisador confere maior importância ao processo, e não ao seu resultado, visto que o processo pode ajudar na com preensão e explicação do fenômeno ou mesmo das mudanças que este pode sofrer; (4) a teoria é desenvolvida por um processo de indução, por meio de observações que dão sentido ao fenômeno; e (5) a pergunta orientadora é “qual é o sentido de um construto social específico para os participantes, bem como, quais são as suas experiências e perspectivas sobre o mesmo?”. (Silva-Junior et al., 2014, p. 125).
Minayo et al. (1994) reconhecem que “a abordagem qualitativa se aprofunda no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas” (p. 22). Para Chizzotti (2006, p. 79), “a abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”.
O método etnográfico-discursivo tem sua origem nos princípios da etnografia, método tradicional nos estudos antropológicos, que favorecem a compreensão das práticas sociais materializadas nos discursos e seus aspectos semióticos. Para tanto, considera-se que práticas sociais são “os modos habituais [mais ou menos abstratos], ligados a tempos e lugares articulados, nos quais as pessoas aplicam recursos (materiais ou simbólicos) para atuarem juntas no mundo” (Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 21). Dessa forma, elas incluem atividades materiais, sujeitos e suas relações sociais, instrumentos, objetos, tempo, lugar, formas de consciência, crenças, desejos, valores e discurso (Fairclough, 2001b).
As características da etnografia que contribuem para o método são apontadas por Argenta (2018), compreendendo que: 1) atua com a pesquisa de campo em local e tempo particulares sobre configurações reais do mundo; com pessoas em sua vida real e utilizando-se de técnicas que permitem acessar essa realidade; (2) é holística e percebe o fenômeno estudado como um todo; 3) é multimetodológica e multifatorial, ou seja, faz uso de mais de uma técnicas de pesquisa; 4) é dialógica e interpretativa, tendo por objetivo representar as perspectivas dos/as participantes; 5) é personificada, em que o pesquisador tanto é um/a observador quanto um/a participante da vida das pessoas; e 6) tem seu tempo de duração variável de acordo com os interesses da pesquisa, podendo durar algumas semanas ou vários anos. Tratadas essas características, verifica-se que a combinação dos métodos etnográficos pode ou não ser incluída nos estudos da ADC (Magalhães et al., 2017).
A complementaridade entre a ADC, pormenorizada mais adiante, e a etnografia é uma forma de validação da pesquisa que vai além da descrição e interpretação textual. Juntas elas buscam uma explanação do problema específico da prática social e permitem desvelar ideologias dissimuladas nas práticas sociais e discursivas (Magalhães et al., 2017). Como afirmam Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 62), a “etnografia pode iluminar vários aspectos de uma prática, tanto sincronicamente (durante o trabalho de campo), quanto historicamente”.
Magalhães et al. (2017) definem que a abordagem etnográfico-discursiva é um processo reflexivo baseado em observações e registros escritos, em dados gerados em entrevistas e em artefatos coletados no local da pesquisa sem, no entanto, se limitar aos dados. Por se tratar de um processo, todos esses dados coletados relacionam-se com a curiosidade e a motivação de pesquisadores e com os conceitos da literatura pertinente. Todavia, o grande desafio do método está em “estabelecer ligação entre textos, gêneros discursivos e práticas sociais” (Magalhães et al., 2017, p. 123).
Entre os princípios da etnografia-discursiva está a constante comparação “entre indivíduos e situações, registrando como os atores sociais localizam-se em grupos em que se constroem identidades, e em relação a instituições formais” (Magalhães et al., 2017, p. 117).