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Fluency

In document “Fluency and stuff” (sider 30-33)

2 Theory and previous research

2.2 Oral competence

2.2.3 Fluency

O trabalho circunda um espaço paradoxal, dividido entre possibilidade de dicotomias como redenção e emancipação (Dujarier, 2009); servidão e liberação (Gaulejac, 2011, p. 26); prazer e sofrimento (Dejours, 1992); sentença e emancipação (Braz, 2018), individuação e socialização (Lhuilier, 2013); “contemporâneo e retrogrado, oportuno e inoportuno” (Braga, 2009, p. 65); com a particularidade de, em algumas perspectivas, “uma dimensão sobrepor e assumir protagonismo perante a outra” (Braz, 2018, p. 2). Talvez a ampla abrangência do

trabalho nas esferas da existência humana – histórica, biológica, social, filosófica ou psicológica – contribui para essa diversidade de olhares e distorções conceituais, que fomentam esse contínuo debate.

Gaulejac (2011) e Lhuilier (2013) descrevem que, embora a etimologia da palavra trabalho faça referência a um instrumento de tortura, dor e sofrimento, ela também assume uma dimensão positiva, caracterizando-se como um “fenômeno sócio psíquico total e contraditório” (Gaulejac, 2011, p. 25).

As reflexões de Burgi (2011) e Lhuilier (2013) descrevem o duplo valor do trabalho em relação ao uso que o homem faz de si e da sua capacidade produtiva, em que ora se configura como um universo de pressão, exploração e domínio, ora espaço privilegiado da construção de si. Tal fato faz do trabalho o lugar onde “se confrontam, simultânea e dialeticamente, a relação consigo, com o outro e com o real” (Lhuilier, 2013, p. 484). Consigo, porque o engajamento no trabalho opera sobre os recursos, as capacidades, as motivações, os desejos e os fantasmas subjacentes ao sujeito. Com o outro, porque a atividade supõe a coordenação, o reconhecimento e a validação do outro àquilo que se realiza. E, por fim, com o real, porque o seu exercício, embora dito como prescrito, sempre é acompanhado de um encontro com o imprevisto, com situações nas quais o sujeito não se está preparado para resolver, com questões que ele não está apto a responder (Lhuilier, 2013).

Burgi (2011), Dujarier (2009), Gaulejac (2011), Jacques (2003), Jahoda (1982) e Lhuilier (2013) identificam o trabalho como uma construção social e subjetiva, que exerce significativa influência na constituição da identidade e na realização pessoal. Para além da concepção da relação entre o ser humano e a sua capacidade de transformação da natureza, o trabalho assume um caráter substancialmente social e psicológico. Para Gaulejac (2011), o trabalho se manifesta em três dimensões: a) a do “fazer” (que envolve existência e subsistência); b) a do “ter” (que insere o indivíduo no mundo monetário); e, c) a do “ser” (que define o indivíduo como ser social e dá a ele um lugar na sociedade).

Além da função operacional, o trabalho também emana uma relação simbólica, pois está intimamente ligado às relações sociais com o outro, à construção do sujeito, à importância do reconhecimento e à construção identificacional (Lhuilier, 2005). Ao considerar que o homem só existe pelo olhar do outro, não há como negar que qualquer sacrifício feito demanda o reconhecimento, compensação heroica e narcísica do psiquismo humano (Enriquez, 1991), ponto central da ideologia gerencialista, a ser tratada posteriormente.

Mais do que a dimensão financeira e econômica, o trabalho é, sobretudo, “uma instituição social” (Jahoda, 1982), elemento de integração e socialização do indivíduo. Ao

funcionar como mecanismo de regulação social, ele organiza o tempo e o espaço das atividades da vida, estabelece relacionamentos e oferece um senso de pertencimento e reconhecimento, tornando-se elemento fundamental na constituição humana, bem como legitimador das diferentes fases da vida (Bendassolli & Soboll, 2011; Gaulejac, 2011; Jahoda, 1982; Oliveira, Piccinini, & Silveira, 2010).

Na dita sociedade salarial moderna (Castel, 1998), identificada por Bauman (2009), Baudrillard (1995) e Lipovetsky (2006) como “sociedade do consumo”, a capacidade do trabalho propiciar a subsistência econômica, a inserção social e o amparo simbólico, necessário para o reconhecimento, faz dele elemento indispensável para o acesso à própria existência do indivíduo, por alimentar a esperança de suprir aquilo que é definido por falta (Baudrillard, 1995).

O assujeitamento ao emprego assalariado, que, se transformara em sinônimo exclusivo do que é trabalho, fomenta o conformismo, a passividade, a docilidade e a necessidade de se manter empregado (Bendassolli, 2007; Lhuilier, 2005). Isso aumenta a dependência, a angústia e a necessidade do indivíduo desenvolver certas aptidões, que, ao longo do tempo, o leva a perder sua própria autonomia. O trabalho torna-se “grande fator de mediação, que enriquece o mundo das coisas e empobrece a vida interior do trabalhador” (Tragtenberg, 2006, p. 69). As organizações passam a definir as prioridades, os valores e a própria existência dos indivíduos, ancoradas na dependência econômica, psíquica e social deles (Bendassolli, 2007; Crochik, 2003; Franco, Druck, & Seligmann-Silva, 2010; Gaulejac, 2011; Motta & Pereira, 2004).

Na hipermodernidade (Gaulejac, 2007), o trabalho vai ganhando cada vez mais sinônimo de sacrifício e entrega, um modelo quase religioso que se fortalece nos processos de deificação das instituições (Pagès et al., 2006). Como sacrifício do princípio do prazer, o trabalho se associa ao modelo de troca existente nos rituais primitivos, em que vidas eram oferecidas para acalmar os deuses. O sacrifício pelo trabalho faz dos trabalhadores vítimas de suas próprias necessidades e desejos, considerando aqui todas as dimensões do viver, ou seja, a questão física, psicológica, social, ética e moral (Crochick, 2003).

O mundo do trabalho e as relações sociais vivenciam mudanças profundas em suas estruturações (Antunes, 2012; Barreto, 2003; Burgi, 2011). Os avanços tecnológicos, informacionais e das telecomunicações (Antunes & Braga, 2009; Huws, 2001), associados aos novos modelos de organização do trabalho, como a flexibilização, a terceirização, a reestruturação produtiva (Antunes, 2014), bem como a ideologia gerencialista (Gaulejac, 2007), detalhada na seção 2.4.2, fomentam um processo de precarização do trabalho, desvalorização e desumanização do trabalhador. Essas novas configurações submetem os indivíduos a vínculos

exclusivos cada vez mais fortes com os benefícios que as organizações podem oferecer e, cada vez menos, por questão de identificação (Enriquez, 1991; Faria, 2007; Gaulejac, 2007; Seligmann-Silva, 2011).

Identificadas às particularidades do trabalho como elemento de subsistência e existência do sujeito, em que sua ação se desenrola em vias da busca de reconhecimento, a próxima seção se dedica a explorar um tipo de trabalho que, carente de valorização e marcado pela invisibilidade e negação, é considerado como trabalho “discriminado”, como “trabalho sujo”.

2.3.1 Dirty work e o (i)reconhecimento do “trabalho sujo”

O conceito genuíno de “dirty work” parte dos estudos de Everett Hughes e de seus ensaios em sociologia do trabalho. Hughes (1958) invoca o termo para designar tarefas e ocupações percebidas como repugnantes, degradantes ou censuráveis, encontradas à sombra da Sociologia. Sumariamente, o conceito de “trabalho sujo” pode ser atribuído àquelas ocupações estigmatizadas física, social e moralmente (Hughes, 1958). A sociedade delega o “trabalho sujo” a grupos que atuam como agentes em nome dela, e essa mesma sociedade estigmatiza esses grupos, renegando e desautorizando o trabalho atribuído.

A obra de Hughes parte da busca por compreender as circunstâncias que levaram muitos cidadãos comuns, “que efetivamente não sujaram as mãos” (Arantes, 2011, p. 41), a consentirem o horror do holocausto nazista, que fora executado por outros tantos homens, ditos “civilizados”, participantes da mesma sociedade. Hughes (1958) empreende seus esforços para compreender os arranjos e dispositivos sociais e sociopsicológicos pelos quais as pessoas tornam seu trabalho tolerável, ou mesmo glorioso, diante de si e dos outros. O autor volta os seus estudos para analisar o fenômeno social no ponto de menor prestígio, considerando que, quando o prestígio é menor, também é mais fácil o acesso ao núcleo da questão, pois, nem sempre, o desprestígio é revelado em ocupações de maior reputação.

As ideias de Everett Hugles fundamentam análises e trabalhos teóricos e empíricos de diversos pesquisadores, em diferentes perspectivas de análise e profissões. Entre as pesquisas mais recentes, destacam-se os trabalhos com profissionais de segurança (Lofstrand, Loftus, & Loader, 2015; Mattos, 2012; Nunes, 2018), de serviços penitenciários (Josse, 2018), de psiquiatria (Pope, Cubellis, & Hopper, 2016), de limpeza (Bosmans et al., 2016; Deery et al., 2019), entre outros.

Ashforth e Kreiner (1999) incluem dois fatores que atravessam o conceito de “trabalho sujo”, quais sejam: a) a "sujeira" é uma construção social, não inerente ao trabalho, mas imputada pelas pessoas, baseada em padrões subjetivos de limpeza e pureza. Mácula, sujidade e estigma, e assim por diante, são construções sociais generalizadas; b) o denominador comum entre os empregos contaminados e a repugnância visceral das pessoas para eles, em razão das atividades que os profissionais se sujeitam a fazer.

Ashforth e Kreiner (2014), focando nas diferenças entre as formas de “trabalho sujo” e, na busca de identificar como os indivíduos tentam, coletivamente, combater o estigma de sua profissão, descrevem os tipos de profissões que se encaixam em cada um desses “tipos de contaminação”. A contaminação física inclui ocupações relacionadas a condições físicas perigosas ou nocivas, não necessariamente sujeira visível. A mácula social inclui ocupações em que se desenvolvem relações degradantes de inferioridade e subordinação. E a contaminação moral abarca ocupações que desafiam as normas de civilidade. Não obstante, há categorias que podem sofrer esses três tipos de estigma ao mesmo tempo. Ashforth, Kreiner, Clark e Fugate (2007) e Scott e Tracy (2007) descrevem que o estigma de algumas profissões se torna reduzido pelo fato de manterem algum prestígio social, seja pela complexidade das tarefas, formação educacional exigida ou poder aquisitivo que proporciona, como enfermeiros, bombeiros, biomédicos e policiais.

A pesquisa de Scott e Tracy (2007), que compara o “trabalho sujo” de bombeiros com o de agentes penitenciários, demonstra que, enquanto os bombeiros trabalham para garantir um

status de “heróis da América”, os agentes penitenciários trabalham para superar a imagem de

“babás da escória da polícia”. Os autores identificam que os discursos sociais, que legitimam o “trabalho sujo” e permitem reconhecimento, incluem masculinidade, autossacrifício, heroísmo e prestação de um serviço crítico. Contudo, o trabalhador sujo sempre vai buscar maneiras para se sentir bem no trabalho e vai usar o prestígio identificado como escudo para isolar a necessidade de aprovação externa. Para Ashforth e Kreiner (1999), isso favorece a criação de uma identidade coletiva forte, que refuta a estigmatização social.

O “trabalho sujo” é uma construção social, não é a característica do trabalho que o torna sujo, mas a reação repulsiva da sociedade ao não se ver capaz de exercer tal função. O prestígio ocupacional, como medida de status, poder, qualidade do trabalho, educação e renda, dado a algumas ocupações, não inibe a designação de um “trabalho sujo”, uma vez que a construção social dessa atividade incita a rejeição e repulsa.

Considerando a imagem social do “trabalho sujo”, a organização age de forma a contrapor as percepções negativas, por meio do “uso de histórias e mitos, linguagem e metáforas

distintas, tradições e rituais, configuração física, recompensas e símbolos de status” (Ashforth & Kreiner, 1999, p. 169), na intenção de moldar a interpretação dos trabalhadores em relação a determinados trabalhos da organização. Como afirmam Hughes, Simpson, Slutskaya, Simpson e Hughes (2016, p. 108), a organização cria discursos ideológicos que tentam ressignificar o trabalho e infundir nele um valor positivo, como os distintivos de honra e missão, características marcantes no trabalho militar.

Mais do que como um fenômeno físico e material, a sujeira do trabalho pode ser interpretada como uma “moldura” cultural e social, uma forma ideológica, em que relações de poder são reveladas. Estratégias ideológicas são sustentadas por práticas corporificadas, enraizadas em condições materiais do trabalho, dado que os trabalhadores mobilizam suas capacidades e esforços para reformular os significados da sujeira e recapturar um senso valioso de si. “A sujeira é mais do que uma categoria simbólica: é simultaneamente material e discursiva, realizada em objetos, espaço e práticas incorporadas” (Hughes et al., 2016, p. 119). Ponderados os aspectos que perfazem o trabalho humano e sua capacidade de “fazer”, “ter” e “ser”, ainda que em ocupações socialmente rejeitadas e estigmatizadas como “trabalho sujo”, a próxima seção busca descrever as propriedades do trabalho policial, eixo central desta tese. Para tanto, buscou-se tomar conhecimento sobre aspectos que narram a história da polícia, o estigma do trabalho policial e a construção identificacional daqueles que optam por engajar no ofício de “ser” policial.

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