8 I NTERESTS OF THE STUDENT TYPES
8.5 Discussion
8.5.2 Interests and identity
Na seção anterior, fizemos algumas observações sobre as ciências humanas e sociais, sobre o cuidado ético do pesquisador em não emudecer o texto do pesquisado, do mesmo jeito em que o texto do pesquisado não pode fazer desaparecer o do pesquisador, mas deve restituir as condições de enunciação que lhe possibilitam vários sentidos.
Ao definir o nosso objeto de estudo (p. 23), entendemos a acuidade do conceito de linguagem na formação de um profissional da área de Arquivologia, uma vez que há uma preocupação dos indexadores em estabelecer relações entre a linguagem natural e as linguagens documentais. Essas linguagens representam o conteúdo dos documentos que são discutidos por alguns autores, a exemplo de Moreiro González (2004), que aborda um panorama da variedade e da evolução histórica dessas linguagens e recomenda que se observem as considerações de ordem linguística e as condições funcionais e ferramentas precisas, a serem utilizadas em contextos e necessidades determinados e determinantes.
A literatura sobre esse tema em Arquivologia é escassa, e as contribuições realizadas, geralmente, são sob a ótica da linguística textual e sobre a observância da importância do contexto. Um dos trabalhos que merece destaque é o de Fujita (2004) que apresenta a leitura como um processo que permite a análise de assunto de textos, causando influência no resultado da indexação. Segundo a autora, o estudo da leitura por meio da interação de suas variáveis – o texto, o leitor e o contexto – visa compreender as dificuldades de análise de assunto de textos e reunir subsídios para a elaboração de orientação à formação do indexador em leitura documentária que contribua para o aprimoramento da capacidade de leitura do indexador.
Alguns autores da área de Ciências da Informação já sinalizam uma discussão acerca da subjetividade e do contexto de cada processo de indexação, pois, para se ter um resultado de qualidade, depende-se de uma competência do sujeito para desenvolver a análise, ou seja, da fidelidade em exprimir o pensamento do autor e da avaliação pertinente do utilizador. Nesses termos, a reflexão sobre as linguagens combinatórias, ou sobre a rigidez das
normas aplicadas, a nosso ver, parece ser um foco restrito. Assim, se ganha espaço para investigação da singularidade de cada contexto e da formação desses sujeitos envolvidos nessa interação, por isso acreditamos que um passo significativo para a ampliação dessa discussão na Ciência da Informação é o raciocinar sobre o conceito de linguagem empregado nas situações de ordem específica da disciplina Arquivologia, e em nosso caso específico, para o ensino de gêneros acadêmicos nessa referida área.
A concepção dialógica de Bakhtin/Volochínov (1929/1981)35 é sua contribuição maior para as mudanças que se desenvolvem, atualmente, nos diversos domínios de estudo da linguagem. Essa concepção amplia as reflexões sobre a língua para além da estrutura, focalizando o discurso no seu contexto sócio-histórico. Esses autores constroem uma nova forma de pensar a linguagem a partir da crítica às duas tendências vigentes nos anos vinte do século passado: a estilística clássica que se baseia no idealismo e o estruturalismo situado nos estudos do sistema abstrato. Essas teorias não davam conta do funcionamento da língua e surge a terceira tendência que considera a linguagem em uso e o sujeito inserido na história produzindo sentido nessa interação. Abordaremos os principais conceitos significativos para esta pesquisa.
Bakhtin/Volochínov (1929/1981) consideram limitada a teoria da expressão do subjetivismo idealista, que tomou o objeto de estudo como enunciação monológica isolada e exclui qualquer réplica ativa ou resposta, e mostram que o processo de compreensão exige sempre uma resposta ativa. O problema do ato passivo nada tem a ver com a atividade de linguagem, pois exclui a possibilidade de abertura que esta permite e limita a pluralidade de leituras que esse modo de ver oferece. O ato de compreender não se reduz à decodificação e alcança uma amplitude maior do que aquela que se fecha no interior da mente. Um ponto que podemos destacar da rejeição de Bahktin a essa tendência é que a expressão é tudo aquilo que, tendo se formado e determinado de alguma maneira no psiquismo do indivíduo, exterioriza-se objetivamente para outrem com a ajuda de algum código de signos exteriores,
35 Neste texto, ao se referir a essa obra, não faremos alusão ao Círculo de Bakhtin, mas
seguiremos a tradução brasileira na qual aparecem os nomes dos dois autores (Bakhtin e Volochínov).
ou seja, a expressão comporta, portanto, duas facetas: o conteúdo (interior) e sua objetivação exterior para outrem (ou também para si mesmo).
A outra crítica incide sobre a orientação do pensamento filosófico do objetivismo abstrato fundamentado no sistema linguístico estável e constituído por formas independentes da situação social. A ênfase está na linguística estruturalista, que valoriza mais o objeto do que o sujeito; enfatiza mais a forma do que o conteúdo e considera o significado no nível da língua. Essa visão de língua considera que o sentido está no texto e os sujeitos interpretam de forma sempre idêntica as mensagens que trocam.
Para ilustrar essas posições, temos de retomar os estudos linguísticos do século XX, iniciados por Saussure no século XIX, por buscar um método ou um estatuto científico para os estudos da linguagem. Para Saussure (2001, p. 17), “a língua é ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade aos indivíduos.” Já a linguagem, tomada em seus diferentes domínios, é ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, pertencendo ao domínio individual e ao social. Desse modo, deriva-se uma divisão entre língua e fala em que esta é individual e, portanto, fica à margem dos estudos, junto a outros elementos constitutivos do ato comunicativo: o sujeito e os aspectos sócio-históricos do discurso. Essa teoria constituiu um avanço significativo para a época.
A distinção língua e linguagem foi mais um alvo das críticas, na qual Saussure observa que aquela ocupa uma posição privilegiada e de autonomia em relação à linguagem. A língua é vista por sua parte formal ou por suas regularidades, mesmo sendo parte da linguagem, não se confunde com ela. A língua é considerada como norma de todas as outras manifestações da linguagem (SAUSSURE, 2001, p. 16-17). Há outras contribuições desse autor para a linguística, que marcaram as reflexões positivistas de sua época: a tese da arbitrariedade do signo, aceitando o convencionalismo e rejeitando o naturalismo, e a da língua como um sistema de valores, que vincula a Linguística ao princípio semiológico. Esses são pontos essenciais da teoria que colocaram os estudos da linguagem enquanto ciência. Para Saussure (2001, p. 24), a língua é “sistema de signos que exprimem ideias, e é comparável, por
isso, à escrita, ao alfabeto dos surdos mudos, aos ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares, etc. Ela é apenas o principal desses sistemas.”.
Ser caracterizada como fato social, presente nos membros de uma comunidade linguística, constituiu não só a base do estudo imanente da língua, mas também o paradigma que sustenta a Linguística da língua proposta por Saussure. A visão estrutural manteve-se até os anos 1970 e serviu de base para muitas outras pesquisas em diferentes áreas. No entanto, a partir dessa década, passou a ser foco das principais críticas, período em que várias abordagens foram se constituindo. Por exemplo, a Sociolinguística, a Linguística Textual, a Análise do Discurso, a Análise da Conversação e os estudos bakhtinianos foram traduzidos. (ALMEIDA; SANTOS, 2010; SANTOS; ALMEIDA, 2012).
Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 124) defenderam que “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”. Fatores históricos, sociais, situações e condições em que ocorrem a fala são incluídos nessa teoria sobre o funcionamento da linguagem. Os autores elaboram o primado do dialogismo na linguagem, que passa a ser vista como sócio-ideológica, cuja unidade fundamental é o diálogo. Dessa perspectiva, ninguém fala sozinho; quando falamos ou escrevemos é para alguém, em alguma circunstância social, assim, é que a palavra serve de ponte entre o locutor e o interlocutor no ato interativo.
Do ponto de vista bakhtiniano, a linguagem permeia toda a vida social e se atualiza na enunciação dialógica, cujo sentido é plurivalente e polissêmico no processo comunicativo entre indivíduos socialmente organizados. Além disso, Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 123) postulam que:
a verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela comunicação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua.
A posição desses autores contra as tendências filosófico-linguísticas coloca em evidência, também, o comportamento dos interlocutores na interação. Na visão dialógica, o locutor constrói seu enunciado em função do
interlocutor, que tem um papel ativo, constitutivo na formulação dos enunciados. Visivelmente, é o outro (interlocutor) quem condiciona o que o locutor diz e, desse modo, ambos são colocados no mesmo plano. Dessa forma, Bakhtin/Volochínov (1929/1981) e Bakhtin (1992) criticaram os estudos centrados na oração e propuseram uma nova disciplina, cujo objeto de estudo seriam as relações dialógicas. Inserir o locutor e o receptor no funcionamento da linguagem é admitir que o processo de compreensão não se limita à identificação de forma linguística.
Uma contribuição importante para a reflexão dessa tendência está em afirmar que o processo de compreensão do signo e o da identificação do sinal não podem ser confundidos e são vistos de forma separada. Essa abordagem revela que o locutor utiliza a língua para suas necessidades enunciativas concretas, em um contexto também concreto. Para Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 93), o essencial na tarefa de decodificação não consiste em reconhecer a forma utilizada, mas “compreendê-la num contexto preciso, compreender sua significação numa enunciação particular. Em suma, trata-se de perceber seu caráter de novidade e não somente sua conformidade à norma.”.
Nessa perspectiva, não é a forma linguística enquanto sinal estável que é essencial, mas o importante é sentido que essa forma obtém no contexto, o que permite a adequação do signo, sempre variável e flexível, conforme as condições de uma situação concreta dada.
Esses autores revelam que é no contexto preciso de uso que ocorre a mobilidade específica do signo e que este varia e se flexibiliza, para conferir à palavra uma forma particular de produzir sentido, do mesmo modo como ocorre no processo de compreensão. Esse fato mostra que, segundo Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 94), o sentido precisa ser compreendido no processo em que é construído e se manifesta pela “apreensão da orientação que é conferida à palavra por seu contexto e uma situação precisos, uma orientação no sentido da evolução e não do imobilismo.” Na perspectiva da linguagem enquanto uso, ou seja, na prática viva da língua, a consciência linguística dos locutores não se ocupa com o sistema abstrato de formas linguísticas, afirmam Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 95), mas “apenas com
a linguagem no sentido de conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular.” Desse ponto de vista, há necessidade de antes compreender a língua viva para depois analisá-la.
Na perspectiva dialógica de Bakhtin e o Círculo, o modo de compreender ou de produzir sentido exige discussão acerca da unicidade da forma linguística e da polissemia, que é inerente às línguas, o que significa dizer que a significação não se prende a uma forma tomada de modo isolado ou fora das determinações sociais. A unicidade coloca o objeto como único e idêntico a si mesmo, enquanto a polissemia permite visualizar os vários sentidos de uma palavra. Conforme Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 106), “o sentido da palavra é totalmente determinado por seu contexto que não é fixo” nem é uma situação isolada, mas algo a se precisar. A palavra assume um sentido em cada contexto, fato que mostra o caráter polissêmico e plurivalente que ela comporta pela natureza dialógica da linguagem. Para esse autor, são tantas as significações quantos forem os contextos, que não estão prontos, mas sempre em situação de interação. Para Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 41), “as palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios.”.
Nessa abordagem, toda enunciação só pode ser concebida como produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados, sendo a ela que devemos as mudanças semânticas. Bakhtin/Volochínov (1929/1981, p. 131-132) asseguram que “compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente.” A compreensão é sempre uma reação ao que o outro disse e provoca uma resposta. No processo de compreender, “locutor e receptor” (os interlocutores) introduzem o objeto a ser compreendido no contexto potencial da resposta. Todos esses valores se juntam no momento da produção do sentido que se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva, forma de diálogo que leva à formulação de uma contrapalavra. A concepção de compreensão responsiva é fundamental para entendermos o funcionamento da linguagem. (ALMEIDA; SANTOS, 2010; SANTOS; ALMEIDA, 2010, 2012, 2013b).
Para se compreender o processo de produção de sentido, na visão de Bakhtin/Volochínov, é necessário considerar dois níveis de significação, na língua e no discurso, os quais se distinguem pelos conceitos de tema e significação. O tema é individual e não reiterável, é o sentido contextual determinado pelos elementos verbais e não verbais e a significação, é o sentido potencial ou possibilidade de significar, no sistema da língua ou a palavra no dicionário. No que diz respeito à língua, os elementos são reiteráveis e idênticos, sendo abstratos por não terem existência concreta isoladamente. Nesse fenômeno, Bakhtin/Volochínov ([1929] 1981) revelam que toda palavra usada na fala real possui não apenas tema e significação no sentido objetivo, de conteúdo, desses termos, mas também um acento de valor ou “apreciativo”. Esses conceitos são extremamente importantes para o ensino de gêneros acadêmicos que varia conforme a situação.
Para estudar os enunciados à luz dos estudos de Bakhtin (1992), faz-se necessário admitir que enunciado é constituído de duas partes: uma parte verbal e uma parte extraverbal. A parte extraverbal do enunciado é que determina o sentido da primeira parte (verbal): situação. Melhor dizendo, o espaço e o tempo do evento, o objeto ou o tema do enunciado, a posição dos interlocutores diante do fato. Toda interação verbal se realiza sob a forma de uma troca de enunciados, isto é, na dimensão de um diálogo. Os discursos mais íntimos são inteiramente dialógicos: são atravessados pelas avaliações de um ouvinte virtual, de um auditório potencial, mesmo se a representação de tal auditório não aparece de forma clara no espírito do locutor. Todo enunciado, além de sua orientação social, comporta um sentido, um conteúdo, porém, é de acordo com as circunstâncias, de acordo com o contexto, que esse enunciado terá um sentido, a cada vez, diferente. Assim, o pedir silêncio do professor, ou solicitar uma atividade de sala de aula, comporta sentidos diferentes, dependendo de seu contexto.
Para Bakhtin (1999, p. 21), a enunciação é uma prática social, inseparável das relações que mantêm os interlocutores, “o centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é o interior, mas o exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo”. Ele acrescenta que não existe atividade mental sem expressão semiótica. Consequentemente, é preciso
eliminar de saída o princípio de uma distinção qualitativa entre o conteúdo interior e a expressão exterior, pois não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação.
Segundo esse filósofo, o discurso humano é um fenômeno biface: todo enunciado exige a presença simultânea de um locutor e de um ouvinte. Toda expressão linguística é orientada em direção ao outro, em direção ao ouvinte, mesmo quando esse outro se encontra fisicamente ausente, ou mesmo que o enunciado seja emanado de um interlocutor único, como na exposição de um professor durante sua aula.
Desse modo, pensar em uma interação criativa, nos termos de Bakhtin, é levar em consideração, na comunicação verbal, a elaboração dos diferentes tipos de enunciados, correspondendo, cada um deles, a um diferente tipo de comunicação social. Entender que a verdadeira essência da linguagem é o evento social da interação verbal que se encontra concretizada em um ou vários enunciados. Bakhtin concebe, portanto, a linguagem primordialmente como interação e não como sistema (estrutura); como processo e não como produto, por isso, para o nosso trabalho, tão importante quanto à concepção de linguagem é o entendimento da concepção de autor e autoria.
No texto escrito entre 1920-1922, “Autor e a personagem” (2010), Bakhtin distingue o autor-pessoa (escritor) do autor-criador (a função estético- formal engendradora do texto). Esse último é entendido como uma posição estético-formal cuja função básica é materializar uma relação axiológica com o herói e o seu mundo. Essas posições nunca são totalmente homogêneas, mas são heterogêneas coordenadas. Depois, em 1924, Bakhtin amplia o intuito da posição axiológica do autor-criador, incluindo a forma composicional e o material às ideias do herói e seu mundo. Assim, o autor-criador dá forma ao conteúdo ao registrar os eventos da vida, recortando-os e reorganizando-os esteticamente.
Destacamos, aqui, uma atenção especial ao texto “Discurso na Vida e Discurso na Arte” (VOLOCHÍNOV/BAKHTIN, [1926]1976) que propicia uma discussão sobre a poética sociológica, sobre o método sociológico aplicado aos estudos literários. Embora a obra trate de reflexões sobre literatura,
compreendemo-na pertinente à análise de qualquer gênero discursivo, verbal ou não verbal (SANTOS; ALMEIDA, 2013b); assim consideramos o gênero acadêmico representante de uma obra com valor verbo-axiológico que estabelece, segundo Volochínov/Bakhtin ([1926]1976, p. 3), “uma forma especial de inter-relação entre criador36 e contemplador fixada em uma obra de arte”. Para esses autores,
a comunicação artística deriva da base comum a ela e a outras formas sociais, mas, ao mesmo tempo, ela retém, como todas as outras formas, sua própria singularidade; ela é um tipo especial de comunicação, possuindo uma forma própria peculiar. Compreender esta forma especial de comunicação realizada e fixada no material de uma obra de arte – eis aí precisamente a tarefa da poética sociológica. (VOLOCHÍNOV/BAKHTIN, [1926]1976, p. 3).
Reconhecendo que a linguagem acadêmica possui sua própria singularidade, de acordo com o gênero discursivo, muitas vezes ela se aproxima da realidade objetiva. Sendo assim, cada palavra representa um julgamento de valor de seu criador, sua forma como sua expressão direta. Volochínov/Bakhtin ([1926]1976, p. 10) afirmam que julgamentos de valor, antes de tudo, determinam a seleção de “palavras do autor e a recepção desta seleção (a cosseleção) pelo ouvinte. O poeta, afinal, seleciona palavras não do dicionário, mas do contexto da vida onde as palavras foram embebidas e se impregnaram de julgamentos de valor.”.
Assim, no gênero acadêmico, a palavra escolhida está em consonância com a empatia, com a concordância ou discordância de seu auditório, com sua relação ao seu objeto do enunciado, em relação ao herói37. O auditório e o herói são participantes constantes do evento criativo e “pela mediação da forma artística, o criador assume uma posição ativa com respeito ao conteúdo.” (VOLOCHÍNOV/BAKHTIN, 1976, p. 10), mas o ouvinte afeta a inter-relação do criador e do herói. Nesse sentido, é preciso entender o que se pode dizer, como dizer, o que será aceito ou não pela comunidade acadêmica. Essas posições socioavaliativas são práticas culturais que assumem posições
36Neste texto, as palavras criador, autor, poeta são similares e se referem a quem constrói o
texto; do mesmo jeito que contemplador, auditório, ouvinte equivalem a quem recepciona o texto.
37
A palavra “Herói” na obra Discurso na Vida e Discurso na Arte, de Volochínov/Bakhtin (1976), é compreendida como objeto do enunciado, o tópico, o assunto, aquilo do que se fala.
responsivas frente a outras posições valorativas que ao mesmo tempo refletem e refratam38 o mundo, ou seja, uma interpretação do mundo, uma transposição da realidade vivida para o ato estético como sistemas de valores e cria novos sistemas de valores.
A teoria bakhtiniana enfatiza, ainda, a mobilidade, a diversidade, a pluralidade de usos da língua e de sentidos. O modo de construir sentido ocorre no processo de interação, no qual a palavra possui um acento apreciativo, ora reiterando ora alterando sua consistência significativa. É esse acento apreciativo ou avaliativo que dá vida à palavra, e ele muda conforme o contexto. Uma mesma palavra pode, ainda, adquirir sentidos diferentes