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Integration of digitalization, standardization and strategic partnering

5.1 Opportunities for OEM´s

5.1.1 Integration of digitalization, standardization and strategic partnering

O exercício da arte médica foi conduzido por profissionais médicos paulistas e ingleses que tentavam trabalhar em benefício da saúde pública, ao lado de seus próprios anseios profissionais. Atuaram em conjunto com os terapeutas do povo, tentando influenciar as autoridades políticas das respectivas localidades para frear as atividades de cura populares. Trabalharam, por exemplo, para sair daquele uso dos manuais de higiene, tão comuns às respectivas épocas, bem como do exercício de charlatães e curandeiros nas práticas médicas. Evidenciamos, aliás, não somente uma semelhança nas atitudes dos médicos de ambos os locais nas lutas contra estas práticas populares, como também uma pequena conexão entre Inglaterra e São Paulo: um exemplo foi a substituição do manual de William Buchan, tão consultado não somente em São Paulo como em todo o Brasil, pelo manual de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, conhecido como ‘Chernoviz’. Guimarães (2005) credita a alguns historiadores o fato do Domestic Medicine ter sido o primeiro manual a ser utilizado aqui, durante todo o século XVIII.

Um traço bastante comum entre as duas sociedades foi o combate às práticas de charlatães durante todos os dois períodos de análise considerados, especialmente por causa das epidemias que pioravam a saúde das duas populações. Médicos, neste sentido, tentaram ganhar ‘crédito’ na medicina, uma vez que seu trabalho era pouco conhecido ou mesmo pouco confiável. Por meio de sua influência frente às autoridades governamentais, agiam de forma a mudar sua posição dentro das sociedades inglesa e paulista. Assim, usaram das necessidades de saúde das populações respectivas para crescer dentro de suas próprias profissões. É possível que tenham sido as práticas de terapia popular que influenciaram médicos a tomarem iniciativas para que ocorressem as reformulações na saúde, e não que tais profissionais objetivassem, primeiramente, o combate às artes de cura. A despeito destes interesses pessoais, os médicos contribuíram para que os avanços na medicina trouxessem melhorias na saúde pública dos dois locais. Nestas condições, fazem sentido as reformas na saúde, tanto na Inglaterra como em São Paulo. Na Inglaterra, a reforma sanitária andou em paralelo à reforma médica: foram duas iniciativas legais diferentes, mas que se complementavam, na medida em que os médicos passaram a ser atores importantes frente às necessidades de mudanças sanitárias. Segundo Holloway (1991) aponta, a reforma médica inglesa, iniciada com o Ato dos Apotecários em 1815, começou por necessidade de se estabelecer normas para o exercício das funções de cada profissional de saúde do período. No caso, médicos, apotecários, cirurgiões, farmacêuticos e químicos e droguistas. A tabela68 seguinte resume estas profissões de saúde na Inglaterra, destacando os principais atributos de cada profissional:

Tabela 4. Resumo das profissões de saúde na Inglaterra – séculos XVIII/XIX

Profissionais Principal período Ato Médico Função

68 As datas foram baseadas nas principais decisões governamentais e de autoridades de saúde, levando em consideração o período até 1858; os limites temporais não significam a emergência de cada profissão, ou o único período em que atuaram estes profissionais na saúde inglesa. Cada um deles praticou sua respectiva função em momentos anteriores, bem como em momentos posteriores a 1858.

de atividade Químicos e droguistas 178069-1852 -Ato dos Apotecários de 1815 -Ato Farmacêutico de 1852 Conselheiros médicos e manipuladores de fórmulas

Cirurgiões 174570-185871 Ato Médico de 1858

Conselheiros médicos e manipuladores de fórmulas

Apotecários 1815-1858 Ato dos

Apotecários de 1815

Conselheiros médicos Farmacêuticos 184172-185873 Ato Farmacêutico

de 1852 Manipuladores de fórmulas

Médicos 1815-1858 Ato Médico de

1858

Conselheiros médicos

A partir de 1830, quando do Ato da Reforma de 1832, médicos encontravam- se envolvidos nas modificações sanitárias inglesas, ao passo que em São Paulo, não somente médicos, mas também farmacêuticos, sofreram e pediram novas regulamentações para o novo contexto do período, representado pela reforma sanitária de 1892.

Nestas reformas, tanto os médicos paulistas como os ingleses foram personalidades importantes que atuaram não somente com seus atributos médicos, mas também participaram de atividades de decisão política. Foram médicos administradores, médicos inspetores, médicos-chefe. Agiam, algumas vezes, em conjunto com autoridades governamentais, influenciando na política de cada local; seu percurso permitiu um ganho de autoridade dentro da saúde pública das duas regiões.

69 A partir desta data, aconteceram novos tipos de comércio, e os químicos e droguistas, em conjunto com comerciantes comuns, foram alguns dos profissionais envolvidos.

70 Este ano corresponde à criação da Companhia de Cirurgiões.

71 O exame para se tornar um membro da Companhia Royal de Cirurgiões incluía exames orais no século XVIII. Em 1843, uma nova e mais nobre qualificação – ser membro direto dessa Companhia, sem a necessidade de exames. Informação coletada em 27/03/2009 da exposição permanente do Museu Hunterian no Colégio Royal de Cirurgiões.

72 Esta data corresponde à criação da Sociedade Royal Farmacêutica da Grã-Bretanha.

73 O período após o Ato Médico de 1858 foi também relevante para a farmácia, especialmente com a determinação do Ato Farmacêutico de 1868: “After the Pharmacy Act of 1868, only pharmacists

registered with the young Pharmaceutical Society could sell restricted medical “poisons”. These included morphine and strychnine, exciting discoveries in the 1830s. Pharmacists still made many medicines on site. However, in 1900, pharmacists sold six times as many ready-made proprietary medicines as in 1850.” Informação coletada em 27/03/2009 do Museu da Sociedade Royal

Uma diferença nas profissões de médico inglesa e paulista foi evidenciada pela trajetória de formação deste profissional. O médico aqui já era o profissional de saúde responsável pelo diagnóstico médico, independente das novas determinações contidas na nova legislação sanitária de 1892; já os embates na Inglaterra entre cirurgiões, apotecários e médicos ainda estavam por determinar as funções hoje conhecidas dos médicos naquele país. Somente após o estabelecimento do Ato Médico de 1858 é que a profissão do médico inglês começou a ganhar forma, transformando-os, de apotecários e cirurgiões, nos médicos de hoje, clínicos gerais ou especialistas, respectivamente.

Notamos também uma proximidade no trabalho de médicos com farmacêuticos em São Paulo, o que não aconteceu na Inglaterra: neste país, evidenciamos mais uma atuação parlamentar para regulamentar as profissões de médicos, cirurgiões e apotecários, com trabalho em conjunto de farmacêuticos e médicos ingleses de pouca expressividade. Sonnedecker (1986) aponta que esta ‘confusão’ nas profissões de saúde decorreu do fato da Inglaterra ser uma ilha e ter ‘demorado’ a determinar as funções de farmacêutico e de médico já em momentos anteriores à Idade Média, como aconteceu em outros países europeus como França e Itália. Não somente os ingleses como toda a Grã-Bretanha viviam à base de comerciantes de drogas e especiarias que iam e vinham das ilhas britânicas, circunscrevendo a medicina e a farmácia a um caráter popular. Em contrapartida, os ofícios de médico e de farmacêutico dialogavam entre si o tempo todo em outros países europeus. Isso retardou o processo de separação dos papéis daquele que diagnosticava doenças e daquele que fazia medicamentos oficialmente. O autor atenta ainda que a Inglaterra só teve a primeira escola de farmácia após 1841, data da criação da Sociedade Farmacêutica Britânica. Até este período, os químicos e os apotecários se misturavam nas funções de formular medicamentos.

Ao mesmo tempo, a legislação voltada para as atuações dos médicos paulistas nas indicações terapêuticas estava muito mais voltada para o seu envolvimento com a indústria farmacêutica do que na Inglaterra: as preocupações das autoridades inglesas giraram em torno especialmente da função dos profissionais de saúde controlando fórmulas de base artesanal (o que se chamou de medicamentos comerciais e patenteados, conforme já citado), em geral manipuladas por pessoas sem qualificação técnica. Os medicamentos industriais, que seguiam um livro de referência, estavam, em sua maioria, ‘controlados’ pela legislação. Isto é válido se considerarmos os vários

Atos Públicos Gerais que se passaram desde o final do século XVIII que davam especificações especialmente para o comércio dessas drogas, segundo apontamentos no capítulo “Farmacêuticos em São Paulo e na Inglaterra”.

Neste contexto, os médicos começavam a ganhar um espaço na saúde pública de São Paulo e da Inglaterra. Por exemplo, em São Paulo, tal espaço se formava com a publicação das primeiras revistas médicas no estado, conectadas com o primeiro congresso médico e com as sociedades médicas do final do século XIX. Os debates profissionais acabavam acontecendo muito dentro destes próprios ambientes, onde tudo que dizia respeito a insatisfações ou a satisfações na carreira médica, era abordado nas revistas, nos congressos ou nas sociedades médicas. Na Inglaterra, diferentemente, a maior parte das evidências encontradas de benefícios para os médicos ingleses voltaram-se para os discursos parlamentares e alguns atos públicos onde se publicavam discursos médicos, semelhante ao que observamos quando investigamos o percurso profissional dos farmacêuticos ingleses.

Conforme Lopes (2001) aponta, esta forma de poder que foi se consolidando no mundo médico de hoje decorreu, principalmente, do processo de profissionalização da medicina no século XIX, que levou ao estabelecimento do diagnóstico e da terapêutica médicos. Foucault (2006) atenta ainda que o estabelecimento da autoridade médica está relacionado ao nascimento do hospital no final do século XVIII. Tal autoridade teria substituído as ordens religiosas que cuidavam dos doentes, em paralelo aos seus domínios políticos. Com a transformação do sistema de poder dentro do hospital, o médico passa a dominar o cenário hospitalar, não somente curando doentes, como também se responsabilizando pela organização do estabelecimento. Torna-se o ‘grande médico’ (p. 110).

Uma última questão que ficou evidente em ambas as regiões foi a necessidade sentida pelos próprios profissionais e também pelas autoridades públicas, de que se deveria melhorar o ensino médico nas escolas. Na Inglaterra, desejava-se abolir a separação no ensino existente entre médicos, cirurgiões e apotecários, ao passo que no estado de São Paulo, alguns primeiros embates entre médicos e farmacêuticos pela criação de um ensino superior, pela melhora das disciplinas ministradas e das condições de instalação dos cursos. O desenvolvimento da farmacologia, da fisiologia e outros assuntos médicos contribuíram para elevar a bagagem técnica destes profissionais. Neste contexto, estas matérias permitiram o desenvolvimento das farmacopéias, que levaram a um aumento no rigor das prescrições médicas (Porter,

1997). Entretanto, é muito difícil precisar em que momento exato a prescrição médica tenha surgido. É provável que tenha surgido com os aumentos nas preocupações sobre o ensino médico – era parte da formação profissional para que ele fosse um ‘bom’ médico.

Por fim, evidenciamos que a medicina popular, a despeito dos embates médicos para controlá-la, continuou em curso, e que muito disso aconteceu em decorrência do desejo da população inglesa em mantê-la, em decidir por seus métodos de tratamento; na população paulista, as lacunas na legislação que permitiam o exercício de terapeutas populares, os anúncios em meios de comunicação populares e o desenvolvimento inicial da indústria proporcionaram a escolha por meios de cura terapêutica à parte da trajetória de estabelecimento da profissão médica e de todos os seus papéis na saúde.