Assim como os químicos e droguistas, os cirurgiões foram outra classe que atuou como cuidadores da saúde. Os cirurgiões, em conjunto com médicos e apotecários28, foram responsáveis por proporcionar conselhos médicos, incentivados por ações governamentais antes do século XIX (Remarks on Medical Reform, 1843).
O papel destes profissionais foi, primeiramente, concentrado na concessão do conselho médico, mas também trabalharam com a manipulação de fórmulas. As atividades como fazedores de medicamentos elevaram-se, especialmente após a fundação do Colégio Royal de Cirurgiões em 1843. Ganhavam poder ‘duplo’ na área de saúde, atuando como curadores de doenças e fazedores de fórmulas medicinais. Graham (1827), um cirurgião, publicou uma tabela com os medicamentos mais comuns utilizados na medicina doméstica, expondo, inclusive, suas dosagens. Explicou ainda que para doses infantis, um paciente de catorze anos necessitava de aproximadamente dois terços da quantidade requerida para um adulto; se tiver sete anos de idade, metade da quantidade para o adulto; e assim sucessivamente:
Tabela 1. Tabela de medicamentos na medicina doméstica por um cirurgião inglês (adaptado de Graham, 1827, p. 557)
Medicines Doses
Adults Children From 1 to 3 Years
Proper Vehicle, &c.
Alkaline solution……… 1 to 3 drachms… 20 to 60 drops…… In water or beer, thrice a day
Aloes (as a purgative)…... 10 to 20 grains… In pills.
--- (as an alterative and stomachic)……… 1 grain, thrice a day……….. Not suitable…………... ditto. ---, compound tincture
of………... 1 to 5 drachms… ……… In water, thrice a day.
---, ethereal tincture of 3 to 5 drachms… ……… ditto. Alum, whether common or
burnt……….
10 to 20 grains… ……… In water.
28 Segundo Edler (2006), o período colonial no Brasil também foi composto destas três classes de profissionais - médicos, cirurgiões e apotecários: “Ocupando formalmente o ápice da pirâmide profissional, as três categorias, além de concorrerem entre si, mantinham um pendor regulamentar e vigilante sobre as atividades dos curadores especialistas em doenças dos olhos, cálculos urinários, hérnias etc.” (p. 48).
A função de fazer fórmulas pelos cirurgiões era apoiada pelos próprios químicos e droguistas, a despeito de todos os seus interesses pessoais e profissionais já mencionados. Naquele mesmo catálogo popular de medicamentos, o Hannay &
Dietrichsen's Almanack, químicos e droguistas destacaram o cuidado que os
cirurgiões possuíam ao manipular, por exemplo, as pílulas do ‘homem pobre’, citando o nome de alguns cirurgiões importantes no período:
Carefully Prepared by a Member of the ROYAL COLLEGE OF SURGEONS. As
several of the most eminent men in the English School of Medicine, namely, ARMSTRONG, BUCHAN, HUNTER, COOPER, ABERNETHY, SUDENHAM, CLARKE, and CRUIKSHANK have strongly recommended and prescribed this
preparation of the POOR MAN’S PILL,… (Hannay & Dietrichsen's
Almanack, 1842, p. B41, grifos nossos).
Diante destes benefícios em suas atividades, outros profissionais de saúde, como médicos e apotecários, sentiam-se ameaçados pelos cirurgiões. Uma das questões inseridas na reforma médica foram as modificações em suas funções29, argumentando-se que os cirurgiões não possuíam conhecimento suficiente para tratar de problemas de saúde (Remarks on Medical Reform, 1843), pois não eram indivíduos formados em universidades até o início do século XIX. Começaram a aprender sobre assuntos como anatomia e patologia somente após este período (Peterson, 1978). Os cirurgiões praticavam a cirurgia, a medicina e a farmácia sem licença, e que faziam suas pílulas sem seguir um livro de referência, vendendo-as a quaisquer pessoas que necessitassem desses medicamentos (Reports from Committees, 1856, p. 45-46).
É interessante a maneira como os cirurgiões atuaram nas artes de cuidar: atribuíam os problemas de saúde não somente a fatores internos do organismo, como também a questões externas, como o clima e a dieta. Um cirurgião chamado Sr. J. B. Davis escreveu, em 1836, um manual popular cujo conteúdo era baseado no bem- estar pessoal, destacando sua relação com o meio ambiente: questões relacionadas à
29 Em São Paulo, o controle governamental das atividades de cirurgiões iniciou-se com a organização do serviço sanitário no estado, com a separação das funções de médicos, cirurgiões e farmacêuticos. No artigo 32: “É absolutamente proibida a associação entre médico ou cirurgião e farmacêutico, para a exploração da indústria farmacêutica, sob qualquer forma.” (Carvalho, 1892, p. 155).
No artigo 26: “Os médicos, cirurgiões, farmacêuticos, parteiras e dentistas, deverão matricular-se apresentando os respectivos títulos ou licenças na Diretoria de Higiene, afim de serem registrados.” (Carvalho, 1892, p. 154).
higiene, dieta, faculdades mentais, exercícios corporais etc. O manual não foi escrito somente para pessoas comuns, mas também para profissionais da saúde, conforme enfatizado na capa do livro: “Designed for the use of all ranks and professions in
society.”
Outro cirurgião escreveu uma enciclopédia com muitas ‘dicas’ sobre a medicina e a cirurgia domésticas, especialmente adaptadas para o uso popular. Apesar daquela formação inicial como aprendizes nas artes médicas, possuíam um conhecimento bastante restrito. Isso contribuiu para aumentar suas práticas médicas caseiras, ‘adivinhando’, muitas vezes, qual medicamento era o mais adequado para determinada doença (The Family Doctor, 1860, p. 96).
Com estas atividades ‘médicas’ se espalhando por toda a Inglaterra, criaram algumas inimizades não apenas com profissionais da área de saúde, mas também com pessoas de outras classes, onde não eram muito bem vistos especialmente pelas ordens religiosas. Um sermão publicado por um reverendo em 1794 mostrou os deveres de um hospital frente às necessidades dos pobres e ricos, e considerou que uma das questões dentro deste ambiente mais importantes era a ‘gentileza’ de um cirurgião, já que ele lidava com pessoas. O reverendo, na verdade, achava que tais profissionais não possuíam compaixão para lidar com doentes, não apresentavam boas maneiras de falar com um paciente. Acrescentou ainda que os cirurgiões excluíram a simpatia de sua personalidade, tão importante para o cuidado, mas que enganosamente achavam que a possuíam (Percival, 1794, p. 9).
Apesar de determinadas opiniões negativas sobre as atividades dos cirurgiões, muito fizeram para o desenvolvimento, por exemplo, dos dispensários, que eram instituições criadas para auxiliar pessoas pobres. Em meados do século XIX, houve um aumento no recrutamento de cirurgiões para trabalhar no dispensário de Brighton, uma cidade litorânea localizada ao sul da Inglaterra (A Letter to the Governors of the
Brighton Dispensary, 1843). Algumas autoridades responsáveis pelos dispensários
atentavam que os cirurgiões estavam sendo prejudicados financeiramente em decorrência de sua dedicação quase que exclusiva nestas instituições. Apontaram que esse prejuízo foi sanado, algumas vezes, com um pequeno desvio da verba destas instituições para atender às suas finalidades privadas (An Essay on Dispensaries, 1838, p.5-6).
Pouco a pouco, ganhavam espaço na saúde com suas habilidades profissionais e pessoais, modificando a forma como a sociedade inglesa da época trabalhava com
as questões do cuidado à saúde. Estas transformações foram sentidas também com a reforma sanitária, onde cirurgiões atuaram, algumas vezes, como funcionários médicos. De certa forma, as atividades dos cirurgiões nas mudanças sanitárias trouxeram melhorias para a saúde pública do século XIX. Numa discussão sobre o cólera em 1832 da Comissão Sanitária Metropolitana do Parlamento, com presença de personalidades políticas importantes como Edwin Chadwick e o lorde Robert Grosvenor, o destaque foi para um cirurgião que atuava em prática geral na vizinhança de St. Giles. A Comissão atribuiu parte da melhora das condições de saúde da região a uma ação técnica dos cirurgiões, especialmente no que dizia respeito a melhorias ambientais. Alegaram que, apesar das tubulações para a drenagem da água não terem melhorado, houve o aumento da circulação de ar puro em St. Giles, o que diminuiria os riscos do cólera:
Have the late alterations improved the general health of the neighbourhood? – I shoud say yes, so far as we have now greater currents of pure air from above; but so long as these localities remain without sewers, and the present sewers remain as they are, I do not expect any permanent improvement. (Simpson, 1847, p.
33).
Não era uma melhora permanente, mas auxiliaria temporariamente o controle das doenças. Outra contribuição ‘popular’ na área de saúde dos cirurgiões foi a atuação deles em tempos de guerra. O cirurgião do exército Nikolai Pirogov trabalhou para curar doenças como o tifo, a fibre tifóide, o cólera e a disenteria na Guerra da Criméia, em adição ao seu pioneirismo no uso da anestesia nesta guerra30. Outro cirurgião, Sr. Benjamin Outram31 (1774-1856), da marinha, carregava em sua bagagem "…drawers and compartments containing scales, bottles for drugs, pestle
and mortar and other medical equipment." Os cirurgiões foram os principais
funcionários medicos à bordo, já que um navio de guerra poderia transportar um cirurgião ou um auxiliar de cirurgião para cada 200 tripulantes32. De fato,
30 Informação coletada da exposição “Guerra e Medicina” da Wellcome Library, Inglaterra. Acesso em 5 de fevereiro de 2009.
31 Atuou na Batalha de Copenhagen em 1801.
32 A referência é proveniente da Coleção Lionel Foster, extraída da exposição no Museu Nacional Marítimo em Greenwich, Inglaterra. Acesso em 4 de fevereiro de 2009.
During the wars there had been an increased need for naval and military surgeons, who were examined, before they would enter the Services, by members of the Court of Examiners. The examination for the Services had always been less stringent than that for the ordinary diploma, and it is likely that the standard was lowered owing to the great demand for surgeons while the war lasted. At the end of the war all surgeons who had served were allowed to start in civil practice without any further examination and the average standard of qualification was thereby lowered. (Cope, 1959, p. 42).
Os cirurgiões, nestas condições, exerceram um papel importante no cuidado com a saúde, mesmo com sua falta de conhecimento em medicina. Isso foi um aspecto importante na normatização de sua profissão ao longo do século XIX que teve conseqüências para a terapia popular: deixavam de ser homens sem reconhecimento legal na sociedade, deixavam suas funções ‘populares’ em diagnóstico e em manipulação de medicamentos, para abraçar uma legitimidade profissional proporcionada ao longo do século XIX. Seus conhecimentos populares sobre medicamentos e doenças abrangeram um campo vasto na saúde, e tais profissionais foram se apropriando desse caminho que trilhavam para ganhar espaço no meio profissional de saúde do século XIX inglês, disputando um lugar não somente com os químicos e droguistas, como também com outros profissionais da saúde, como os apotecários.