Nesta parte da tese, o foco recai sobre os aspectos relativos à segurança em termos das atividades profissionais e das condições de moradia, o que se reflete igualmente na sensação de conforto da família. Nesta perspectiva de análise, convém salientar que onze entrevistados afirmaram já procurarem soluções de trabalho e moradia fora da comunidade. O motivo mais mencionado é tentar uma nova vida em locais próximos. Em fim de conta, conseguem trabalhos temporários em Rio das Minas (2 km), Cananeia (12 km), Pariquera-açu (aprox. 30 km), Itapitangui (aprox.12 km), Guarau (60 km) e Cajati (70 km).
Em sentido inverso, sete moradores vieram de fora da comunidade e passaram a morar lá por terem se casado com morador da comunidade. Além destes dois grupos, treze representantes de famílias afirmaram nunca ter saído da comunidade. Os dados são relativos ao casal, por esta razão, não estamos considerando os filhos de muitos deles que, em grande parte, já não moram mais na comunidade.
As razões de escolha pela cidade se referem à obtenção de uma renda mais alta que aquela com a ostra e à possibilidade de realizar um trabalho menos insalubre (trabalhar no mangue em dias
de chuva e levar picadas de mosquitos foram problemas mencionados pelos próprios moradores). Entre os nossos entrevistados, os pais que incentivam seus filhos a continuarem na comunidade, são maioria, ou seja dezesseis moradores da comunidade. Duas famílias desejam um futuro diferente para os filhos, manifestam insatisfação em razão de uma descrença em relação as ações da associação. Desta maneira, este grupo não participa da associação, nem tampouco da cooperativa, limitando-se ao necessário para obter sua renda no final do mês. Convém notar que um morador ressaltou uma crescente falta de solidariedade, acreditando que o dinheiro de projetos e apoios trouxe ganância e competição à comunidade.
Esta interpretação realizada por membro da comunidade pode ser discutida à luz das ideias de Amartya Sen (2000) sobre o foco da economia aos aspecto das utilidades, rendas e riqueza, em detrimento do valor em torno das liberdades. A desconsideração do valor da liberdade pode levar a comunidade a pensar que qualidade de vida está associada a uma renda cada vez mais alta. Este fenômeno ocorre na medida em que uma comunidade tradicional torna-se cada vez mais envolvida pelos valores da sociedade moderna industrial. Efetivamente, a própria saída dos moradores revela uma tendência de foco no econômico.
De fato, a tentativa de ganhar a vida fora da comunidade se revela muito difícil. Por exemplo, uma moradora entrevistada enfatizou que, sem os estudos, não encontram boas condições de trabalho fora da comunidade. Ademais, trata-se de entrevistados em idade avançada para procurar outra solução de vida.
Em pelo menos três famílias, foi mencionado o desejo dos filhos quererem sair da comunidade. Em mesmo núcleo familiar existem filhos que querem permanecer e outros partir. Porém, existem aqueles que olham para parentes que saíram da comunidade e percebem que não valeu a pena pelas condições de vida precárias nos centros urbanos. Muitos pais, por sua vez, gostariam de deixar legado aos filhos, pois gostam do local e desejam permanecer. Acreditam que o apoio de políticas públicas poderia favorecer tal desejo. Entre nossos entrevistados, mais lazer na comunidade é visto como forma de reter esses jovens. Igualmente importante seria a implantação de escolas melhores na comunidade. Com efeito, os filhos devem sair da comunidade para poder estudar.
No ensino universitário, é possível observar que a oferta de vagas em cursos de graduação no campus da Unesp de Registro, a universidade pública mais próxima da região, é limitada, não há maiores apoios para que jovens da comunidade possam frequentá-la. Desta maneira, no ensino universitário, ou mesmo médio, aqueles que desejam continuar a estudar precisam se distanciar,
arcando com altos custos. A única jovem que se encontra frequentando um curso universitário está em Cuba, cursando medicina. Mesmo existindo dificuldades, este caso é revelador de ausência de apoios para que os jovens quilombolas frequentem um curso universitário.
Por outro lado, os desejos dos moradores se relacionam a moradias melhores, estrada asfaltada, instalação de telefone público e de posto de saúde (não existe na comunidade). Mesmo as iniciativas de turismo existentes na comunidade são em grande medida bloqueadas em razão das precariedades.
De modo geral, os grupos que visitam a comunidade habitam grandes centros urbanos, procurando um certo nível de conforto, mesmo quando estão dispostos a conhecer grupos tradicionais, com a ideia de encontrarem outros estilos de vidas menos dependentes da eletricidade, televisão, eletrodomésticos. O poder público ofereceu algum apoio ao desenvolvimento do turismo, mas há pouca continuidade. Em todo caso, o turismo poderia fornecer aquilo que Amartya Sen (2012) salienta como importante para que as pessoas disponham de bens materiais necessários, sem se sentir envergonhadas de aparecer em público. Ou seja, quando a comunidade apresenta uma infraestrutura adequada, acaba por atrair mais pessoas a conhecer o local, seus membros tendem a se relacionar com mais autoestima e confiança.
Ainda como expectativa de melhora da renda, foi citada a ideia de promover a reciclagem da casca de ostra, que hoje é vendida a um preço muito baixo. Nesta ordem de ideias, mencionam o desejo de contar com maior capacitação do conjunto dos moradores para o turismo com vistas também à obtenção de mais renda. A propósito, um interlocutor crítico considera que a atividade turística está restrita a um grupo reduzido. Observa-se que o movimento em torno da atividade turística na comunidade não é realmente significativo para envolver muitas pessoas. É neste sentido que a melhoria da infraestrutura e a capacitação de mais membros da comunidade são consideradas um meio para estimular o turismo na reserva extrativista. Uma perspectiva desta natureza demanda políticas multitemáticas (BOCAYUVA e SILVEIRA, 1999) capazes de visualizar o projeto, no caso de desenvolvimento de turismo, de maneira abrangente.
Para maior segurança no âmbito da profissão e da moradia, a outorga da titulação das terras é vista, para dois entrevistados, como necessária para maior liberdade para produzir. Com tal ampliação da margem de escolha, desejam plantar pupunha, além de instalar um viveiro de mudas de guanandi.
Amartya Sen (2000) considera a possibilidade de viver do modo como gostaríamos, com grande qualidade de vida, mais importante que os recursos ou a renda que dispomos. No bairro de Mandira, dezesseis famílias pensam que o direito à terra permitiria continuar na comunidade e
exercer atividades econômicas resultantes de um uso parcimonioso dos recursos naturais, não desejando se submeterem aos trabalhos precários oferecidos nos centros urbanos. Esta perspectiva revela que existe um reconhecimento do potencial de desenvolvimento local oferecendo qualidade de vida. Segundo nossa interpretação, as poucas experiências de agricultura e o turismo ainda embrionário colaboram com um reforço desta perspectiva em razão da valorização dos múltiplos papéis destas atividades, muito além de uma simples geração de renda.
Embora existam aqueles que dizem cultivar ostra por ausência de alternativa, esta atividade pode ser considerada como multifuncional: preserva o mangue e é suporte de outras atividades, principalmente o turismo. De todo modo, esta decisão de permanecer na comunidade está relacionada à escolha de não sujeição aos trabalhos precários, tal como muitos de seus conhecidos ou familiares nos centros urbanos.
Efetivamente, é possível obter renda pela ostreicultura para adquirir os bens de consumo mais frequentemente encontrados no meio urbano, como carro, moto, aparelhos de telefonia celular. Mas não deveríamos considerar apenas estes itens de consumo como suficientes para acreditar no desenvolvimento. A teoria das capacidades de Amartya Sen (2012) leva a pensar em dimensões muito além dos desejos deste tipo de consumo. Trata-se de tomar em conta aquilo que permita adquirir capacidades a fim de escolher seus funcionamentos. O estabelecimento das políticas públicas fundados no desenvolvimento como liberdade deve considerar tais dimensões.
4.2 PROTAGONISMO JUVENIL NO FORTALECIMENTO DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS E NA