• No results found

PART II: NEW LEAN SIX SIGMA TRAINING EXERCISE

12.2 Excel Model

12.2.1 Inside the Model

Em resposta às críticas que recaíram à Teoria Ator-Rede no final dos anos 90, como

sendo órfã na teoria social, Latour (2002) identifica em Gabriel Tarde um ―antepassado‖ da

ANT. Latour explica que na virada do século XIX para o século XX, Tarde foi o sociólogo mais expressivo na França; professor do Collège de France e autor de incontáveis livros. Durkheim, naquela época, era ainda um professor iniciante. No entanto, alguns anos depois a situação se reverteu completamente e Durkheim tornou-se o principal representante da disciplina científica da Sociologia, colocando Tarde em uma posição menos prestigiosa, o que o fez ser relegado ao esquecimento na história desta disciplina.

A despeito disso, Latour (2002) resgata as ideias de Tarde e identifica uma conexão muito próxima entre a teoria social tardiana e a ANT, especialmente por dois argumentos sustentados por Tarde:

 Não há diferença entre os contextos social e natural. Isto significa que a divisão entre natureza e sociedade é irrelevante para o entendimento do mundo das interações humanas.

 Não há diferença entre contextos locais e globais na sociedade. Isto é, a distinção entre macro e micro sufoca qualquer tentativa de entender como a sociedade é gerada. Latour questiona como o campo das Ciências Sociais seria hoje, se tivesse acolhido as ideias de Tarde, em vez das de Durkheim. Ele assevera que um pensador em redes, no século passado, não teria condições de transformar suas intuições em dados empíricos, fato que atualmente se dá de maneira ampla, com o advento das redes tecnológicas. Em vez de estabelecer, como fez Durkheim, uma base macrossocial para o entendimento dos fatos sociais de seu tempo, Tarde se vale do exemplo das mônadas para instaurar um pensamento que põe fim ao social, ou pelo menos se recusa a tomá-lo como pressuposto. Segundo Latour

estranho, uma vez que as mônadas não são apenas entidades materiais, já que são possuídas por fé e desejo‖ (LATOUR, 2001b, p. 118-119; ênfase do autor, tradução nossa). Ao se referir às mônadas, Tarde se recusa a tomar a sociedade como o elemento estruturador e mais complexo de análise, afirmando que o entendimento do pequeno é sempre mais complexo que o grande. Ainda em referência às mônadas, Tarde também se recusa a considerar o indivíduo humano como único elemento de análise. ―Um cérebro, uma mente, uma alma, um corpo é por si só constituído de miríades de ―pequenas pessoas‖, ou agências, cada uma das quais é

dotada de fé e desejo, que ativamente modificam a versão total do mundo‖ (IBIDEM, p.119).

Justamente por ser um reducionista, completa Latour (IBIDEM), Tarde não considera nenhuma fronteira entre natureza e sociedade; e porque não separa as fronteiras entre física, biologia e sociologia, não aceita tomar as explicações dos níveis supostamente superiores como aplicáveis aos inferiores.

Ao contrário de Durkheim, que trata os fatos sociais como uma coisa, Tarde argumenta que todas as coisas podem ser ―sociedades‖ e qualquer fenômeno é um fato social. Para ele, toda ciência tem que lidar com assembleias de muitas mônadas interligadas. No pensamento tardiano, as sociedades dizem respeito a qualquer associação. Células, átomos, estrelas e até sistemas solares podem constituir sociedades. Da mesma forma, há sociedades

de humanos, que nós conhecemos bem porque estamos ―do lado de dentro‖. Mas, conforme

completa Melo (2006), referindo-se à Tarde, não é por sermos humanos que devemos gozar de uma condição especial, porque nossas sociedades são simbólicas ou capazes de gerar macrorganizações.

Outro argumento de Tarde que tem implicações importantes para a Teoria Ator-Rede é o de que o macro não é nada mais que uma pequena extensão do micro. Latour (2002) alerta que o grande, o todo, não é superior às mônadas. É apenas uma versão mais simplificada, mais padronizada de uma única mônada. Trata-se apenas de uma questão de escala. Como

consequência disso, de acordo com Melo (2006), Tarde entende que a ―estrutura social‖

resulta, em caráter provisório, da repetição, da rotinização e da simplificação de elementos locais traduzidos para um idioma geral. Não há lei na teoria social que possa diferir das próprias mônadas. Em termos da Teoria Ator-Rede identificamos que este argumento dá sustentação à ideia de que todo ator é, ao mesmo tempo um ator e um ator-rede.

Neste sentido, Latour (2002) conclama os sociólogos a olhar para baixo, para o estreito, o particular, o local. Para ele, se quisermos explicar algo, não devemos considerar a

agência nem de humanos nem de estruturas sociais, mas das mônadas propriamente, nos seus esforços particulares de constituírem agregados instáveis. Apoiado em Tarde, Latour (2002) assevera que

a Ciência não é o que nos permite estudar as mônadas como observadores externos, como se estivéssemos descobrindo as leis de seu comportamento; mas uma das

maneiras nas quais elas se propagam e dão sentido à sua atividade de construção de

mundos (IBIDEM, p.129, ênfase do autor, tradução nossa).

Não há nisso nenhuma harmonia preestabelecida ou uma força superior guiando sua existência. Para Tarde, existir é diferir. Ele rejeita a filosofia da identidade essencialista ao admitir que uma entidade é definida por suas propriedades e por sua avidez. Desta forma, segundo Melo (2006), conhecemos as propriedades de uma entidade através dos efeitos provocados pelo seu detentor.

Este argumento, levantado por Tarde, tem profundas consequências para a Teoria Ator-Rede, tendo em vista as críticas que esta teoria recebe em função do status ontológico atribuído aos não-humanos. A ANT não reivindica uma identidade para os não-humanos, nem

procura definir o que eles são, mas sim o que eles querem – sua avidez, suas propriedades

(LATOUR, 2001b, p. 131, ênfase do autor). Com isso, de uma lógica das essências, passamos a uma lógica das performances. Temos uma ―identidade performativa‖.

Ao resgatar estas ideias, Latour admite que Gabriel Tarde ―inventou‖ a ANT muito antes que se tivesse qualquer ideia de com o que se pareceria uma rede. Latour se reconhece como filiado da perspectiva de análise sociológica tardiana e ao fazê-lo, propõe uma releitura da história das ciências sociais, na qual se atribuiria a paternidade da sociologia não a Durkheim, mas sim a Gabriel Tarde.

Fazendo uma análise crítica das ideias latourianas, Rotondaro (2012) argumenta que Latour tem a pretensão de estender a sua influência para a sociologia, reafirmando as concepções de actante e de associação, em oposição às clássicas concepções de indivíduo e sociedade, respectivamente. ―Essa proposta analítica critica a abstração contida na categoria sociedade, e pretende compreender as interações sociais e a própria construção coletiva dessas

interações a partir da categoria associação‖ (IBIDEM, p.158). Contudo, continuando sua

análise crítica, Rotondaro (2012, p.158) completa: ―Se Latour não estivesse tão preocupado em assegurar à tradição francesa a primazia sobre a análise do social, ele poderia ter recorrido

Georg Simmel, sociólogo alemão, contemporâneo de Tarde e Durkheim, também se preocupou em determinar o problema da Sociologia e seu objeto. Simmel (1983) anuncia a dificuldade em lidar com o caráter dual que a interpretação do social possui. Para Rotondaro (2012) essa dualidade

se expressa na obra de Simmel a partir da oposição entre forma e conteúdo, sendo a forma algo mais estrutural, resultado da cristalização de interações de algum modo institucionalizadas, enquanto o conteúdo seria preenchido pelas interações oriundas das associações no mundo da vida (IBIDEM, p.158).

A distinção entre forma e conteúdo pretendia possibilitar a compreensão da vida social. Simmel busca analisar as formas que estruturam as associações, compreendendo o conjunto das interações entre os indivíduos. Segundo Peres et al. (2011), o mundo social de Simmel pode ser considerado a partir de diversos ângulos e enfoques na medida em que envolve um encadeamento de ações que se relacionam. Cada manifestação da vida social sustenta outra ao mesmo tempo em que a define. Assim, as interações seriam os ―fios‖ que tecem a ―rede‖ do social. Neste sentido, deve-se ter em vista que a sociedade, para Simmel, ―não é algo feito, acabado ou estático; ao contrário, é um fluxo incessante de fazer-se,

desfazer-se e refazer-se, cujos laços que ―atam‖ os indivíduos são feitos, desfeitos e refeitos

em uma contínua fluidez‖ (PERES et al., 2011, p.98).

De acordo com estes autores, o próprio conceito de Vergesellschaftung, traduzido para

o português como sociação, significa um ―vir-a-ser da vida social‖, um processo sempre em

via de se tornar, um fazer-se sociedade. Então, ―sociação‖ significa, antes de tudo, o caráter

relacional que subsiste enquanto motor da interação entre os indivíduos: a sociedade parte da interação, e não o contrário. Nesse sentido, conforme alertam Peres et al. (IDIBEM), o ―social‖, não é apenas composto por interações duradouras e estáveis, expressas em formas bem delimitadas como a família, o Estado, as classes etc. Há incontáveis modos de relações aparentemente insignificantes, mas que sustentam, ―mais que tudo‖, nas palavras de Simmel, a sociedade como a conhecemos.

Assim, é através da ―sociação‖ que os indivíduos entram – ou melhor, produzem e

reproduzem – o que poderíamos denominar ―sociedade‖ (SIMMEL, 1983). Isso quer dizer

que sempre que houver indivíduos que se encontrem em reciprocidade de ação – seja ela

permanente ou passageira, seja ela com, contra ou pelos outros, pode-se falar em sociedade. A sociação é, portanto, a maneira pela qual os indivíduos conseguem realizar seus interesses,

inclinações, objetivos etc.; é a maneira com a qual esses conteúdos ―alcançam‖ a realidade social (SIMMEL, 1983).

Como vimos, Tarde na França e Simmel na Alemanha, são referenciais fundamentais para a constituição de uma Sociologia das Associações, fornecendo, cada um à sua maneira, os fundamentos basilares para a ANT.