Carmen ortinha e Jayme Maurício supervisionam obras do MAM, maio de 1956
E qual foi o papel de Affonso Eduardo Reidy?
o Reidy foi um grande urbanista. Uma pena que seu maior projeto não tenha sido executado: a urbanização do morro de Santo Antônio. O cardeal mandou construir lá a nova catedral, que estragou todo o projeto do Reidy.
Além de serem marido e mulher, Reidy e Carmen Potinho também se ajudaram profissionalmente, não?
Ah, muito. Foi graças à Carmen que ele conseguiu realizar seu primeiro grande projeto, o conjunto do Pedregulho, para funcionários da prefeitura Como diretora do Departamento de Habitação Popular da prefeitura, cabia-lhe escolher o arquiteto que projetaria o conjunto, e ela chamou o Reidy.
As três figuras mais citadas da arquitetura moderna são Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy.
Sem dúvida, são os três maiores. Há outros, mas estes eram mUito talentosos mesmo e tiveram ocasião de executar vários trabalhos Quando foi inaugurado o viaduto das Canoas, projetado por mim, o prefeito era o general Mendes de Morais Todo entusiasmado, ele me nomeou para representar o Brasil no congresso de arquitetura em Bergamo, na Itália - Le Corbusier era o presidente do congresso. Levei trabalhos do Reidy, do Burle Marx, de muitos arquitetos. Com muito custo consegui uma boa sala, pbrque os italianos tinham raiva do Brasil, pela imensa qualidade de seus arquitetos, pelo destaque internacional que o Brasil já tinha. Lembro mUito bem de Le Corbusier falando da sorte que nossos arquitetos tiveram de ter governantes que permitiram que aqueles trabalhos maravilhosos fossem feitos Dizia que na França os arquitetos modernos não tinham vez.
Temos que fazer justiça ao Gustavo Capanema que, como ministro da Educação, chamou todos eles, e todos puderam trabalhar. E depois Juscelino Kubitschek, que deu oportunidade ao Lúcio Costa e ao N iemeyer em Brasília.
• o sonho utopico: Reidy e os modernos
Reidy fez o projeto do Museu de Ate Moderna, o MAM, e Carmen Potinho tocou a obra, não é7
Isso mesmo, um trabalho maravilhoso, mas muito complicado. A Carmen era muito amiga da Niomar Muniz Sodré e conseguiu que o MAM fosse entregue ao Reidy. Ele projetou, e ela fiscalizou a construção. Tenho saudades da Carmen; há tempos não a vejo, pois está mal de saúde.1 5 Há dois anos saiu um lindo livro em sua homenagem
E também bastante informativo sobre sua trajetória, inclusive sobre sua paticipação no movimento feminista.16
Foi onde se destacou mais, porque na prefeitura ela foi diretora do Departamento de Habitação Popular, nada que seja de grande destaque. Agora, no movimento feminista, ela fun dou a União Universitária Feminina e a Associação das Enge nheiras Brasileiras, e eu, aliás, fui contra. Eu lhe dizia: "Carmen,
existe no Rio o Clube de Engenharia. O que nós diríamos se ele não permitisse a entrada de mulheres? ! " Nunca fui feminista, por isso discutia com ela a esse respeito
Depois da construção do MAM, onde foi diretora-executiva adjunta entre 1951 e 1966, Carmen Potinho foi dirigir a Escola de Desenho Industrial?
Foi diretora, acho que entre 67 e 88, mais ou menos. Até pouco tempo ela
ainda trabalhava na UERJ, não sei exatamente em que função. Realmente, a importância do casal na vida carioca e na arquitetura moderna brasileira é muito grande. O Reidy era
brilhante, brilhante! E depois, muito modesto, fino, agradável Eu gostava imensamente dele - já contei a vocês que fui sua assistente no Departamento de Urbanismo da prefeitura do Distrito Federal, que ele chefiava.
Naquele tempo, a prefeitura tinha um quadro maravilhoso. Os chefes eram fantásticos, coisa que não acontece mais agora, infelizmente; trabalhava-se com um prazer enorme. Por exemplo, quando entrei, o secretário de Viação era Marques Porto, brilhante figura de engenheiro. Depois o município virou estado, e tudo começou a piorar a partir do governo de Chagas Freitas em 1 970.17 Gosto muito da d. Zoé, sua mulher, mas tenho que dizer isto: a piora começou ali.
Reidy já defendia a idéia de que o urbanismo envolve dível;as áreas?
Ah, sim. Quando eu era sua assistente no Departamento de Urbanismo, já conversávamos sobre isso. Já sabíamos que era preciso agregar geólogos, economistas, antropólogos; era preciso fazer sondagens, mil outras coisas para fazer um estudo de urbanismo. Quando ele fez o primeiro projeto da forma do Aterro, aquela enseada, mandamos para o Laboratório de Hidráulica de Portugal para saber se era viável. Cheguei
Visita de l( ao MAM 13 de novembro de Ao seu lado Niomar Muniz e Carmen Portinho (de
Niomar Muniz SOdré, filha do diretor do jornal Correo a ManJ. casou-se com Paulo Bittencourt, proprietário do
jornal Dedicou-se à tarefa de funda�o do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro sendo diretora-e:e<uliva e depois presidente de honra do Mueu Com a morte de Paulo Bittencourtt em 1963. assumiu a direçao do Correio da ManM
que, apesar de ter apoiado o golpe militar de 194, foi o primeiro jornal a lutar pela restauraçlo da democracia e denunciar as arbitrariedades e torturas a presos polílicos Niomar foi oresa e teve seus direitos políticos cassados.
o jornal e abandonou a vida pública, voltando a viver em ParIS, onde tinha passado extensas temporadas ao longo de sua vida
15 Carmen Portinha faleceu no Rio de Janeiro no dia 25 e julho de 2001
16 Carmen tinha; r tda a mma vida. 1999
17 Chagas Freita> governou a nabJra de 1970 a 1975 e o Estado do Rio de Janeiro de 1979 a 1983
Visa aérea da baia de Guanabara, mosfrando o avanço do aterro iniciado na ponra do Calabouço, 194
Bena Leitchic •
a ir cinco vezes a Portugal, ao Laboratório Nacional de Hidráulica, que acompanhou todos os estudos do Aterro. O cais, as praias, todos os projetos foram estudados lá, e
vejam que até hoje está tudo em pé Senão, o mar tomava tudo de volta, com certeza,
Quer dizer, ja se tinha a noção de que sao obras de engenharia que têm que ser resolvidas, não é só o traço do urbanista. Tanto assim, que o Laboratório recomendou:
"A forma é muito fechada, a entrada é pequena, haverá pouca circulação, portanto não deve ser feito nada de esgoto para lá, não deve ter muitas bombas de gasolina nem nada na ponta." Era a engenharia acompanhando o urbanismo
Há uma coisa sobre o Reidy com a qual jamais me conformei: ele nunca fumou na vida - jamais botou um cigarro na boca - e morreu de câncer no pulmão Nunca perdoei o destino por isso. Ele morreu em 1 964, ainda jovem, com tanto a dar. Levava uma vida normal, ordenada, gostava do trabalho. Foi uma perda enorme, uma tristeza infinita.
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