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Depois de deixar o governo, o senhor foi para a Bahia trabalhar nos Alagados. Como foi essa experiência?

Muito interessante, do ponto de vista sociológico. Da mesma forma que o

Carlos Lacerda fez com o Estadão, depois de ler meu relatório publicado na Tribuna da

Imprensa, o governador Luís Viana Filho soube de minha atuação nas favelas e me procurou pedindo que eu fizesse um plano de recuperação dos Alagados, em Salvador, a maior favela do Nordeste. Fiz uma proposta e montei um escritório na Cidade Baixa,

misturando os meus técnicos com técnicos baianos. O problema dos Alagados é que eles

avançam sobre o mar em palafitas, situação que eu já conhecia da favela da Maré, aqui no Rio. Nosso grupo concluiu que a primeira coisa a fazer era delimitar a favela, fazer uma contenção e prever uma área para o deslocamento das famílias que tivessem o

barraco demolido ou removido. Assim trabalhei um ano e tanto. Cheguei a apresentar a

primeira parte desse plano ao governador, ao secretariado e ao prefeito de Salvador, que era o dr. Antônio Carlos Magalhães, com quem tive muito contato.

Com a mudança no governo federal em 1 967 - entrou o governo Costa e Silva - houve alterações na estrutura do BNH, então já em pleno funcionamento: o Banco propôs construir casas nos Alagados. Essa proposta nunca me foi apresentada com clareza; eu estava elaborando um plano numa linha um pouco diferente Mas o meu contrato tinha duas fases: a dos estudos e levantamentos, que foi concluída, e a da

execução, Aí as coisas começaram a entrar no ritmo baiano - sou descendente de

baianos, de modo que conheço bem a "prata da casa", Fomos nesse ritmo até julho de

1 969, quando chegamos a uma conclusão sobre o contrato para a segunda fase. Tudo pronto, todas as arestas devidamente limadas, eu estava no hotel me preparando para vir ao Rio, onde seria assinado o contrato, quando abro o Jornal e leio que o Costa e Silva tinha tido um gravíssimo problema de saúde. Previ que haveria dificuldades, mas não tinha idéia da dimensão.

Reconheço que é difícil acreditar no que vou dizer, mas nunca mais ouvi falar no projeto dos Alagados! Sequer recebi um telegrama, dizendo mais ou menos assim: "Professor, lamentamos muito, temos que tomar outra orientação etc. etc. " Nada! Nem

uma única palavra! E eu, com um escritório funcionando! - a d. Cândida, minha secre·

tária até hoje, é arquiteta e chefiava o escritório em Salvador. Pois não ouvimos absolu­ tamente nada! Passado um mês, enviei uma carta mostrando que estava tendo despesas etc. Silêncio absoluto Pensei: "Houve alguma coisa muito grave Vou dar o caso por en-

. o que fazer com a populaçlo poble1 A favela nos anos 0

cerrado". Comuniquei ao governador da Bahia que estava fechando o escritório, trouxe o pessoal para o Rio e passei a me ocupar com outros trabalhos.

Tempos depois, passando pela rua México, no centro do Rio, encontro um arqui­ teto do BNH que me diz: "Queria muito falar com vcê. Somos muito gratos a vcê, porque usamos o seu plano para fazer o edital de licitação das firmas que iam fazer a reformu­ lação dos Alagados. Aquele seu material é muito bom, muito interessante." Eu, cada vez mais espantado, perguntei: "E quem ganhou a licitação?" Ele respondeu: "Uma firma da Bahia."

Anos depois fui à Bahia e, por curiosidade, fui aos Alagados. O que se fez fOI muito engraçado: no centro da favela abriu-se uma espécie de clareira, e ali se implantou meia dúzia de edifícios de apartamentos que, naturalmente, não podiam absorver nem metade da população dos Alagados e que foram distribuidos, também naturalmente, a funcionários do governo, que tinham prioridade. Havia até um curioso sistema de lava­ gem de roupa, para permitir às mulheres que lavassem roupa em conjunto: numa espécie de grande tanque - a idéia foi fantáslica - elas lavavam roupa em grupo.

qui na Guanabara. Negrão de Uma elgee com propostas de acabar com as remoções. O senhor trabalhou na Codesco. órgão criado no inicio do governo? Não. Eles podem ter utilizado minhas idéias de fixação da população na área, de não promover remoções; essas idéias eram conhecidas, eu tinha escrito a respeito Talvez a Codesco tenha implementado algumas dessas idéias, mas eu pessoalmente nunca trabalhei nem prestei serviços a esse órgão Justamente neste período do governo Negrão de Lima, no final dos anos 60, eu comecei a me ligar à ONU, o que me afastou um pouco do Brasil, e numa esfera inteiramente diferente, que foi a da prevenção do crime. Aí começa outra fase da minha carreira sociológica.

A patir de 1993. o Programa Favela-Bairro trouxe de volta a discussão sobre a urbanização das favelas. Qual é sua opinião a respeito desse projeto?

Não conheço o programa em profundidade, mas, como cidadão observador, parece-me feito na linha daquela maquiagem urbanística que eu

criticava. Talvez esteja enganado, não tive maior contato com os técnicos, mas só entendo programa em favela com uma dimensão social, ou seja, levantamento do nível de vida da população, mediante uma série de técnicas e recursos, e paticipação. São duas coias, para mim, indispensáveis. E não

vejo isso no Favela-Bairro, que me desculpem os organizadores,

mas não percebi essa dupla preocupação. Primeiro, é preciso dar ao favelado os instrumentos para ele subir, melhorar sua condição; depois, dar-lhe condições de participar nas decisões

relativas ao planejamento da área. Eu sÓ vejo uma coisa muito bonitinha, muito arrumadinha.

A Codesco -Companhia de Desenvolvimento de Comunidades - criada em 1968, foi formada por jovens

arquitetos, economistas e Tinha por filosofia enfatizar a

da .pose leol a tea, a neessidade de deixar que os favelldos

permanecessem prÓximos aos lugares u trabalho e a valorização da participação dos favelados na melhoria dos serviços públiCOS comunitários e nos desenhos c construção das próprias casas' Ver Carlos Nelson Ferreira dos Sant05, 1981

Comunidade de Vla do .

Cosmos, ants e depois a passagem do Fa�Q

"

José thul Rios ·

f claro que todos nós gostamos de uma área limpa, cuidada. Mas até que ponto

as pessoas estão comprometidas com aquele projeto? Quais os papéis designados para os favelados naquele projeto?

f

isso. Há algum conselho de moradores, alguma comissão, alguma diretoria capaz de ser o intermediário entre os moradores e a administração? Não percebo nada disso, talvez por deficiência minha. Nem chega a ser uma crítica, é mais uma impressão.