3 Metodisk design og refleksjon
3.3 Innsamling av data
Como já dissemos o futebol inicia sua trajetória em nosso país como um esporte amador e de elite, somente as camadas mais abastadas o praticavam. Foi a chamada fase amadora e romântica do futebol brasileiro.
Entretanto, dois fatores – além do aparecimento das equipes populares, que já se discutiu no item anterior – merecem destaque e irão, sem sombra de dúvidas, contribuir para que essa trajetória desemboque no profissionalização.
O primeiro desses fatores é que, desde o início do século, apesar do amadorismo, algumas equipes já gratificam os jogadores para que entrem em campo. Além disso, conforme o desempenho, a gratificação pode ser maior. É o que se convenciona chamar de bicho, e que persiste no futebol brasileiro com força até o final da década de oitenta, mas que – de uma forma mais aberta ou mesmo mais escamoteada, ou ainda com outras denominações (prêmio por conquista, prêmio por metas atingidas etc.) e caráter subsiste até os dias de hoje. É um dos sinais de que o amadorismo terá vida curta no país, pois, como diz Caldas:
Ainda em 1915, quando dava seus primeiro passos, nosso futebol apresenta, talvez, o primeiro sintoma de que o amadorismo não iria muito longe. Jogadores de São Paulo e do Rio de Janeiro já recebiam, nessa época, algum dinheiro para entrar em campo como forma de incentivo às vitórias. (CALDAS, 1990, pp. 37-38)
Esse falso amadorismo que permite que as equipes contem com jogadores das camadas mais populares em seus quadros, muito combatido pela elite, passa a ser nominado por jornalistas da época como amadorismo marrom.
Inicialmente essas premiações são feitas pelos sócios ricos dos clubes, mas depois, com a cobrança de ingressos, esse subsídio passa a ser mais usual. Já em 1908 no Rio de Janeiro e em 1913 em São Paulo, está no plano das recém-fundadas Federações a cobrança de ingressos para manter a autonomia dos clubes. Logo os ingressos passam a ser cobrados, eis o segundo fator que contribui para a profissionalização.
Ora, mas em se cobrando ingressos para que uma entusiasmada plateia, cada vez maior, acompanhe e incentive seus novos ídolos, não faz mais sentido levar em consideração a classe social dos jogadores. Essa apaixonada e numerosa plateia não quer mais assistir a um espetáculo de cavalheiros, mas um jogo onde a habilidade, e o resultado conseguido através desta habilidade – independente da classe social de quem está participando do espetáculo – são os principais atrativos para o aumento das assistências aos jogos. Veja-se o que diz Rosenfeld sobre isso:
A evolução do futebol profissional no Brasil é um exemplo clássico da gravitação inevitável de uma trajetória que está ligada ao jogo como espetáculo de massa. Quanto maiores eram as multidões que aderiam ao futebol, tanto mais a popularidade e a importância de um clube dependiam do desempenho de suas equipes de futebol. Estas tornaram-se as vitrinas dos interesses financeiros cada vez maiores. Levar em consideração a ‗classe‘ dos jogadores – mesmo que fosse num sentido puramente esportivo – tornou-se afinal um empreendimento quixotesco. (ROSENFELD, 1993, p.84)
Inicia-se então, no futebol brasileiro, uma fase de lutas entre os defensores do amadorismo e os pró-profissionalismo, que desembocará, como se verá, na vitória dos últimos.
Em 1923 o Vasco da Gama, equipe composta por negros e brancos semi-analfabetos, vence o campeonato carioca. A elite defensora do amadorismo denuncia que há no time
cruzmaltino o pagamento de remuneração aos jogadores. Além disso, o Botafogo – equipe
divisão no mesmo ano. É o que falta para uma reação forte dos clubes de elite, pois o modelo amador está em cheque.
Thomaz Mazzoni mostra como é o clima no meio do futebol com o surgimento de esportistas de outras classes sociais, e de como eles são recebidos por seus companheiros. O relato é sobre o futebol no Estado de São Paulo, mas não difere muito de como ocorre também no Rio de Janeiro, por exemplo:
De repente aparecem inúmeros esportistas de outras zonas (isso quer dizer: dos subúrbios) e de outros costumes... Os mais velhos, fiéis aos hábitos anteriores, receberam seus companheiros com hostilidade. (MAZZONI, 1950, p. 85)
Em reação a essa escalada dos esportistas de outras zonas e com a ascensão do Vasco da Gama, a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atlhéticos) cria uma Comissão de Sindicância para fiscalizar a vida dos atletas. O Vasco18 se candidata em 1924, um ano após conquistar o título de campeão carioca, a participar do campeonato e doze jogadores de sua equipe têm o registro negado, pois não têm como comprovar renda e vínculo de trabalho. O Vasco se afasta da AMEA, mas esta, por temer a concorrência da LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres), para onde vai o Vasco, junto com sua numerosa torcida, aceita o clube da colônia portuguesa de volta no ano seguinte.
Muitas medidas administrativas são tomadas para que o ethos do amadorismo se mantenha intacto, para ―... evitar que o futebol fosse praticado por qualquer categoria social e impedir que o jogador recebesse o ‗bicho‘ [...] ‗aviltante e degradante‘...‖. (CALDAS, 1990, p. 80). Eis alguns exemplos dessas medidas tomadas pela Associação, com o objetivo de dificultar a profissionalização do futebol: voto qualificado – os clubes fundadores da AMEA têm direito de até seis (06) votos nas decisões; necessidade do clube contar com sede própria; criação da comissão de sindicância com ―... a função de averiguar, fazer um levantamento da vida profissional e social de todos os jogadores de futebol dos clubes filiados à AMEA‖. (CALDAS, 1990, p. 81). A luta é tão ferrenha que Rivadávia Meyer, presidente do Flamengo à época, em entrevista ao jornal ―Diário Carioca‖, declara:
Eu considero o jogador de futebol que quer se profissionalizar como o gigolô que explora a prostituta. O Clube lhe dá todo o material necessário para
18 Como não era membro efetivo o Vasco precisava solicitar sua participação no campeonato. A alegação para o
jogar e se divertir com a pelota e ainda quer dinheiro? Isso eu não permitirei no Flamengo. O profissionalismo avilta o homem. (CALDAS, 1990, p. 74)
Contraditoriamente, mas de maneira compreensível, os clubes de elite não mais podem abrir mão das rendas obtidas nas bilheterias, pois, como já dito, o público está interessado no espetáculo. Este público é atraído pela habilidade dos atletas vindos das camadas populares e com extrema habilidade para a prática do futebol.
Em 1926 o São Cristóvão, equipe também formada por negros, mestiços e brancos pobres, vence o campeonato carioca. A cada dia o modelo elitista, baseado no amadorismo, ia se encaminhando, mesmo que lentamente, para o seu ocaso. O Vasco volta a vencer o campeonato carioca em 1929.
Em São Paulo o Paulistano19 é quem lidera a luta pela manutenção do modelo amador e de elite. Já em 1913, como fala Rosenfeld (1993, p. 83), por querer ―... fazer uma ‗seleção rigorosa‘ e ‗exigia que as equipes‘ fossem integradas por ‗jovens delicados e finos‘‖, o Paulistano rompe com a LPF (Liga Paulista de Futebol20) e funda uma nova entidade, a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos). Junto com o Paulistano ficam a A.A. das Palmeiras, A.A. Mackenzie College, Club Athletico Ipiranga e Scotish Wanders, esses organizam seu próprio campeonato. Permanecem na LPF apenas Sport Club Americano, Sport Club Internacional e o Sport Club Germânia, que são apelidados pela imprensa e por seus adversários de ―Os três Mosquiteiros‖.
Entretanto, a APEA não depurou o futebol paulista dos elementos de outras zonas, pois, não fez a seleção rigorosa desejada. Por isso, em 1925, o Paulistano abandona a Associação, junto com várias outras equipes, dentre elas o Corinthians, e funda a LAF (Liga Amadora de Futebol). Permanecem na APEA o Santos, o Palestra, a Ponte Preta e o São Bento. A CBD (Confederação Brasileira de Desportos), por seu turno, reconhece a APEA como sua filiada. A LAF perde seu prestígio, pois além de não ter o apoio da CBD, também
19 É importante destacar a importância do Paulistano para o futebol brasileiro, pois foi a equipe de futebol que
abriu as portas do futebol brasileiro no cenário internacional. Antes de abandonar definitivamente o futebol, ao se manter fiel ao espírito elitista e amador, o Paulistano, em 1925, fez uma excursão pela Europa com grande sucesso. Exibiu-se na França, na Suíça e em Portugal. Dos dez jogos que disputou o Paulistano ganhou nove e perdeu apenas um. Para se ter uma idéia a equipe brasileira venceu a seleção francesa pelo exagerado placar de 7 x 2. Estavam abertas as portas do futebol internacional para as equipes brasileiras que agora rivalizavam com as argentinas, até então os únicos presentes no ―mercado‖ europeu.
20Fundada à 13 de dezembro de 1901 foi ―...a primeira entidade a existir no Brasil destinada especialmente a
esse esporte. São seus fundadores: São Paulo Athletic, Sport Club Germânia, Club Athletic Paulistano e Sport Club Internacional‖. (CALDAS, 1990: 95).
não tem apoio do público. Este prefere as equipes da APEA, pois para lá se dirigem os melhores atletas, já que eles buscam quem lhes oferece prêmios e benefícios, enquanto a LAF veta – para se manter fiel ao amadorismo – esse tipo de regalo.
Já em 1927 o Corinthians retorna à APEA, o que faz com que a LAF praticamente tenha o seu fim decretado. Sobre a crise que se abate sobre o modelo amador do futebol brasileiro, Proni aponta que ela é decorrência de:
três tipos de determinantes: a) a transformação do futebol em espetáculo popular, concomitante com a progressiva inclusão de atletas pobres nos times, que cria uma brecha para o profissionalismo; b) o ambiente ideológico favorável a uma renovação da sociedade, que demanda direitos civis e sociais, e vai tornando o elitismo uma prática anacrônica; e c) a crise econômica e a transição política que marcaram o final dos anos vinte e o início dos trinta, dificultando a sustentação financeira e a manutenção do amadorismo. (PRONI, 2000, pp. 111-112)
Sobre a primeira determinante, já se tratou neste item e no anterior, porém é preciso clarear um pouco mais o quadro político pelo qual passa o Brasil nos anos vinte e início dos trinta, a fim de entender como se dão as outras duas determinantes destacadas por Proni.
Segundo Franco Junior, o clima político nos vinte – que mostra claramente o ambiente propício também às transformações no futebol, na substituição do modelo elitista e amador por um modelo popular e profissional – se apresenta efervescente, e os discursos pela mudança:
sintetizavam as mais importantes questões e contradições brasileiras, presentes no futebol por este ser um verdadeiro microcosmo da sociedade, ao mesmo tempo espelho e ingrediente dinâmico das transformações em curso nos tumultuados anos 1920. O problema da nacionalidade, potencializada pelas comemorações do centenário da independência, em 1922, dividia a elite do país. As divergências entre as oligarquias regionais tornaram-se mais intensas e as disputas eleitorais mais acirradas. As grandes cidades eram assoladas por manifestações operárias e viraram palco de campanhas e revoltas pela instauração do voto secreto e pelo fim da política oligárquica. (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 70)
Quanto a terceira determinante, a de caráter econômico, o mesmo Franco Junior fala sobre os anos vinte:
O clima de desavenças futebolísticas interligava-se com a grave crise política brasileira que culminaria logo depois na derrubada do regime. A
quebra da Bolsa de Nova York em 1929 enfraquecera a poderosa oligarquia de São Paulo (...) A situação do jogador de futebol era a mesma do país, em busca de superação das dificuldades materiais (Amílcar justificou sua ida para a Itália dizendo que ‗os clubes enriqueceram e eu não tenho nada‘). (FRANCO JUNIOR, 2007, pp. 75-76)
Este ambiente político, ideológico, econômico e social, juntamente com os fatores internos ao futebol – apresentado por Proni na primeira determinante – aprofundam a crise do modelo amador e elitista do futebol nos anos vinte e início dos anos trinta.
Assim, estão dadas as condições objetivas para o advento do profissionalismo no futebol brasileiro. Além disso, existem as condições subjetivas, pois no próprio seio da elite que domina o futebol à época há defecções, isso somado à luta dos jogadores de futebol – que hoje parece um grupo social à parte, não se manifestando, aceitando passivamente as decisões tomadas por Federações, Confederações e clubes de futebol, com sindicatos fracos e categoria desunida etc. – propicia uma intensa luta que desemboca na profissionalização do futebol.
Além das determinantes de caráter endógeno para a crise do modelo amador do futebol, dois acontecimentos no futebol mundial provocam uma verdadeira corrida para que o profissionalismo seja implantado: 1) a evasão de jogadores – e a invasão de empresários italianos na busca por jogadores brasileiros – estes, ao não terem formalmente nenhum contrato com os clubes, pois são inscritos na condição de amadores, não pensam duas vezes entre permanecer em um país onde o esporte é amador e a troca por um mercado onde são reconhecidos e remunerados pelo seu trabalho; e 2) a Argentina e o Uruguai, em 31 e 32, oficializam o profissionalismo e passam a ser também um excelente mercado para os nossos jogadores.
O futebol brasileiro está em uma verdadeira encruzilhada: se mantém no modelo do falso amadorismo e se torna ―... um futebol subalterno e pequeno...‖ (CALDAS, 1990, p.202); ou profissionalizar o futebol como ―... única forma de evitar que ele se tornasse uma espécie de fornecedor de ‗matéria-prima‘ ou de ‗futebol-satélite‘ dos argentinos, uruguaios e europeus de modo geral‖. (CALDAS, 1990, p. 204).
No dia 23 de janeiro de 1933, já sob o governo de Getúlio Vargas, é aprovado o profissionalismo no futebol carioca, mesmo com a contrariedade de Botafogo, São Cristovão e Flamengo. Em São Paulo, depois da extinção do futebol pelo Paulistano (1929), não há mais resistências contra o profissionalismo. Dessa forma a APEA e a LCF criam duas divisões, a Especial de Profissionais e a Amadora, sendo que qualquer clube filiado pode participar das
duas. Não é preciso dizer que, mais rápido do que se imagina, os clubes abandonam a condição de amadores e aderem ao profissionalismo.
Há a necessidade de se consolidar o profissionalismo para além de Rio e São Paulo, sob o risco de haver retrocesso. Mas é uma questão de tempo para a ideia ser abraçada em todo o território nacional, pois não há mais clima para o amadorismo ou falso amadorismo, pois os ―... torcedores discerniam muito bem o futebol profissional do amador‖, e ―... o momento econômico vivido pelo país, certamente estimulava a presença maciça de torcedores nos estádios [...] Em 1933, o que se via era o apoio popular‖. (CALDAS, 1990, p. 217).
É somente durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, com a criação da Legislação Social e Trabalhista, regulamentando um sem número de profissões, que efetivamente se dá a regulamentação da profissão de jogador de futebol; a ―... então Nova República viabilizaria o futebol profissional no Brasil‖. (CALDAS, 1990, p. 176).
Assim se dá a primeira grande transformação pela qual passa o futebol brasileiro: de futebol de elite para a condição de futebol de massa. Essa nova fase é possível por várias condicionantes, as principais delas são as condições internas objetivas (fatores endógenos): a)transformação do futebol em espetáculo popular, e inclusão de elementos de outras zonas (negros, pobres, analfabetos e semi-analfabetos, migrantes: o povo) na prática do futebol; b) o ambiente ideológico de mudanças dos anos vinte; e, c) o ambiente econômico e políticos também dos anos vinte. Somem-se a isso fatores externos (exógenos) como o profissionalismo de dois mercados sul-americanos (Argentina e Uruguai) e a invasão de empresários europeus querendo levar os melhores jogadores brasileiros, e estão dadas as condições que levam à primeira grande transformação pela qual passa o futebol brasileiro.
No próximo subtítulo se verá como o Estado brasileiro estrutura, durante toda a história do esporte no Brasil, uma teia de relações entre o campo político e o futebol, seja para normatizar e institucionalizar o esporte em nosso país, ou mesmo para criar uma relação de simbiose entre o campo esportivo e o campo político.
3.3. O futebol e o Estado
A trajetória do futebol brasileiro se confunde com a história política, econômica e social da sociedade brasileira. Não pode ser diferente, afinal o futebol – apesar de aparentar ser um mundo à parte da sociedade – mantém estreita relação histórica, política e cultural com a sociedade onde está inserido. Porém, a intersecção entre o futebol e o Estado se dá de forma mais acentuada a partir de sua transformação em esporte de massa e mais ainda quando da profissionalização do esporte.
Antes da profissionalização do esporte, a relação entre o mundo político e o mundo do futebol é até de certo distanciamento, fruto de uma sociedade ainda marcada por traços do colonialismo e do escravismo, onde a prática esportiva é algo novo – como já se viu aqui – e se insere na categoria apenas do lazer e do entretenimento. Com a chegada do profissionalismo e da inserção do futebol no campo de um esporte popular e de massa, além de ao longo do tempo ir se transformando em um dos carros chefes da indústria do entretenimento, os governantes e o Estado passam a acompanhar e a interferir – muitas vezes são chamados a isso, como se verá – para normatizar, fiscalizar, regular, promover essa prática esportiva.
Ou seja, a profissionalização e a massificação do futebol imprimem uma nova característica ao esporte: uma aproximação entre políticos e dirigentes esportivos; entre governantes e futebol. Essa troca, muitas vezes benéfica a ambos, no caso do campo político, quase sempre no intuito de se aproximar do povo, de pegar carona na popularidade do esporte é o que Lever chama de relacionamento simbiótico:
Podemos afirmar que o esporte e governo mais do que apenas convivem; é um relacionamento ‗simbiótico‘. Os políticos estimulam o desenvolvimento dos esportes de massa e o esporte, em troca, tem ajudado os políticos a projetarem sua popularidade, contribuindo para que o governo brasileiro alcance seus objetivos nacionalistas. Carlos Lacerda, por exemplo, quando governador, manteve a preferência de seus eleitores do Rio de Janeiro, ao aterrar parte da baía para construir o Parque do Flamengo, um dos poucos lugares públicos da cidade com instalação para a prática de esportes, inclusive futebol. O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, também ganhou votos, além da imortalidade, ao construir o Estádio Magalhães Pinto, em Belo Horizonte, com capacidade para 100 mil espectadores. (LEVER, 1983, p. 87)
Essa aproximação entre Estado (governos e governantes) e futebol é uma tradição em nosso país, mesmo antes do advento do profissionalismo quando ela se acentua; porém, essa aproximação já é percebida naquele no momento onde o futebol se firma como esporte popular e de massa. Caldas (1990, p. 90) relata um episódio envolvendo o Presidente Washington Luís que, ao ser aplaudido entusiasticamente por 50.000 expectadores em São Januário, em uma final entre paulistas e cariocas, disse à imprensa que nunca, nem em sua terra, havia visto tamanha manifestação. O clima de rivalidade, não só esportiva, não é captado pelo presidente (o Rio de Janeiro é o centro administrativo e político e São Paulo o centro econômico da aristocracia cafeeira). Ele declara nunca em sua vida ter sido aplaudido, nem em sua terra, que por coincidência é São Paulo. Os jornais paulistas não o perdoam. A ―Revista Esportiva‖ declara: ―O presidente foi infeliz em suas palavras. Para agradecer os cariocas, o presidente desagrada os paulistas‖. (CALDAS, 1990, p. 92).
No mesmo jogo, o presidente tentar intervir na tentativa de paralisação do jogo por parte dos paulistas, após a marcação de um pênalti para os cariocas, no que é rechaçado por Amílcar e Feitiço. O último diz ao oficial que o presidente manda lá em cima, na tribuna; embaixo, sendo o campo de jogo, quem manda é ele. Os paulistas se retiram de campo e o jogo é encerrado. Washington Luís não tem alternativa senão aquela de que todos os outros assistentes ao jogo tiveram: se retirar e ir embora. A imprensa paulista, durante a crise do governo Washington Luís, o trata de ―presidente filisteu‖, muito por conta de sua declaração e da atitude de ordenar o reinício do jogo, mesmo em prejuízo à equipe de seu estado natal.
Os dois fatos citados envolvendo o presidente Washington Luís são apenas exemplos de como bem cedo se estreita a relação entre a política e o futebol. A partir desse exemplo, se pretende aqui nesse item mostrar o envolvimento do Estado e seus governantes com o futebol brasileiro, seja através do incentivo ao esporte ou na carona da popularidade que o esporte das multidões adquire no Brasil.
Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil após a revolução que derruba o governo do representante das oligarquias, Washington Luís, e passa a empreender uma política, chamada de populista, onde a tônica é dada pelos novos motes de superação do atraso e de modernização do país: unidade nacional, industrialização, progresso, integração social e reforma educacional.
Antes de tratar da inserção do Estado no campo esportivo é preciso contextualizar as transformações por que passa o País sob o Estado Novo. Não se pode esquecer que as raízes das transformações pelas quais passa a sociedade brasileira pós-crise de 29 e com o advento da chamada ―Revolução de 30‖ devem ser procuradas nos anos vinte. Assim como nos anos vinte estão os momentos cruciais que dão base para a transformação do futebol brasileiro em