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3 Metodisk design og refleksjon

3.1 Vitenskapsteoretisk ståsted, valg av design og metode

No subtítulo anterior se analisa como alguns autores buscam no campo das ciências sociais criar um referencial teórico que dê conta de conceituar a modernização. Por mais esforço teórico que as diversas escolas de pensamento empreendam na busca dessa conceituação, de forma a dar conta de todos os aspectos, acredita-se não ser possível – para efeito de análises – se apegar a um único modelo, pois para uma análise de sociedades complexas se deve, sob pena de se recair em reduções em não o fazendo, buscar elementos de cada escola e construir um referencial teórico baseado na superposição de elementos.

Neste subtítulo, se buscará a compreensão de como se dá o processo de modernização da sociedade brasileira que, como se verá, tem uma tradição de continuidade, de não ruptura e, principalmente, convivência entre o tradicional e o moderno.

Antes, porém, é preciso abrir um parêntese, para dizer que essa dicotomia, quase que excludente (tradicional sendo substituído pelo moderno), que fazem crer existir por todas as partes – o Brasil seria a exceção – não é, de forma alguma, tão dicotômica e tão excludente em parte alguma.

Para Hobsbawn, as tradições às vezes podem não ser tão antigas como se quer fazer crer. Assim, para o autor, existem inclusive as tradições inventadas e estas podem ser definidas como:

um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o

que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado. (HOBSBAWN, 1997, p. 09)

Assim, essas tradições inventadas servem para ―... estruturar de maneira imutável e invariável ao menos alguns aspectos da vida social...‖ (Hobsbawn, 1997, p. 10); ou seja, servem para dar uma característica de perenidade às sociedades ou, em outras palavras, ―...elas são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória.‖ (Hobsbawn, 1997, p. 10). Elas são inventadas ―... quando ocorrem transformações suficientemente amplas e rápidas tanto do lado da demanda quanto da oferta.‖ (Hobsbawn, 1997, p. 12).

Se as tradições inventadas têm como objetivo estruturar, e dar às sociedades a característica de perenidade, então não se deve confundi-las com os costumes que vigem nessas sociedades. Estes últimos têm, segundo Hobsbawn (1997, p. 10), a função de ―... dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história.‖

Ou seja, as primeiras são estruturais e buscam – através de repetições – reagir às inovações, às mudanças; já os costumes são de caráter funcional, e buscam moldar a sociedade às transformações que porventura se processem no seio da sociedade em questão.

Dito isso, fechando o parêntese, e já sabedores de que o Brasil não é o único a ter um processo de continuidade, de não ruptura entre tradicional e moderno, passa-se então a uma análise do tradicional e do moderno na sociedade brasileira.

De início, se deve considerar que opor pura e simplesmente – como muitos o fazem – o moderno ao tradicional, pode causar certa miopia, fazendo com que não se enxergue para além da superfície, pois

o pensamento crítico na periferia opõe o tradicional ao moderno de uma forma que muitas vezes tende a reificá-lo. A necessidade de se superar o subdesenvolvimento estimula uma dualidade da razão que privilegia o pólo da modernização. Não tenho dúvidas de que historicamente esta forma de equacionar os problemas desempenhou no passado um papel progressista; a luta pela construção nacional pode se contrapor às forças oligárquicas e conservadores e ao imperialismo internacional. Pagou-se, porém, um preço: o de termos mergulhado numa visão acrítica do mundo moderno. (ORTIZ, 2006, p. 36)

Para abranger o processo de modernização à brasileira, é preciso compreender que se entra em um terreno onde as controvérsias já se instalam desde a formulação das ideias. Para alguns esse processo nunca esteve em acordo, ou está em desacordo, com a realidade social vigente, ou seja, as ideias não estão em consonância com aquilo que é a realidade vivida pela sociedade brasileira (SCHWARZ, 2000). Para outros, pelo contrário, as ideias estão sim em seu lugar, pois não há como separar processos de ideais (FRANCO, 1976). Polêmica essa em que não se adentrará por não fazer parte dos objetivos desse capítulo, mas que deve ser citada, pois o processo de modernização da sociedade brasileira, através da história do Brasil e do estudo desse processo, carrega nas diversas análises – e nas conclusões daqueles que se debruçaram sobre o tema – a filiação a uma ou outra corrente.

O que importa para a compreensão sobre a modernização brasileira é que para alguns, a opção é pelos valores tradicionais e arcaicos; para outros, o processo de modernização brasileiro é uma escolha racional, onde moderno e tradicional ao invés de se excluírem se complementam. É o caso de Francisco de Oliveira (2003, p. 32) que afirma que esta oposição na maioria dos casos é apenas formal, ―... pois o processo real mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que o chamado ‗moderno‘ cresce e se alimenta da existência do 'atrasado'...‖.

O modelo de subdesenvolvimento brasileiro, então, para o autor não é uma etapa do modo de produção capitalista, mas sim uma produção ou, um elo do sistema. Ele – o subdesenvolvimento – não é ―... uma evolução truncada, mas uma produção de dependência pela conjunção de lugar na divisão internacional do trabalho capitalista e articulação dos interesses internos...‖. (OLIVEIRA, 2003, p. 127).

Ou seja, o subdesenvolvimento não faz parte de uma cadeia da evolução que começa no mundo primitivo até, por meio de estágios sucessivos, atingir o pleno desenvolvimento. Trata-se, no caso brasileiro, de uma singularidade histórica, ou da forma como o capitalismo do centro encontra para que o Brasil seja fornecedor para a sua acumulação. Então, para o mesmo autor, a desigualdade brasileira não é...

somente desigual mas combinada, é produto antes de uma base capitalista de acumulação razoavelmente pobre para sustentar a expansão industrial e a conversão da economia pós-anos 30, que da existência de setores ‗atrasado‘ e ‗moderno‘. (OLIVEIRA, 2003, p. 60)

Além disso, o subdesenvolvimento brasileiro não é obra do acaso, mas fruto de uma dependência escolhida racionalmente, ou dito de outra maneira, a forma encontrada para a inserção do Brasil – mesmo que subordinadamente – ao capitalismo internacional. E, como diz Caio Prado Júnior, uma dependência que faz sofrer passivamente.

É que vivendo na dependência de mercados externos e longínquos, voltando- se a produção para fora e tendo-se estabelecido não para atender às necessidades dos próprios produtores, mas de um comércio estranho e fora do seu alcance e influência ponderável, ficou necessariamente em posição subordinada, sempre na dependência de conjunturas sobre que não tinha e não podia ter a menor ação. O Brasil viveu no curso de toda a sua história, e ainda vive em função das flutuações de mercados longínquos que podem fazer a sua fortuna ou miséria, sem que ele nada possa dizer na matéria... (IANNI, 2004, p. 43).

Na mesma linha de raciocínio, para Faoro o processo de modernização brasileiro é tido como conservador, mas devido ao fato de uma opção que tem como objetivo regular e controlar as mudanças sociais:

Mantida a pirâmide — mantida a ‗ordem‘, como se dizia — o Império escravocrata adia sua mais urgente reforma social, a do cativeiro, logo adiante, para se modernizar. (FAORO, 1992, p. 10)

Ou ainda, a burguesia brasileira – mesmo tendo em seu seio algumas vozes individuais dissonantes – não entra em conflito com o capitalismo estrangeiro, por isso, não haver uma burguesia nacional clássica e de caráter progressista. Pelo contrário, o medo de compartilhar poder, faz com que se feche em si mesma, e prefira a associação (subordinação ou dependência) ao parceiro externo:

Essa burguesia, portanto, não avançou nem avança para um projeto político alternativo para a sociedade nacional. Não vai além da própria visão de setor de classe, corporação. Joga com as outras classes sociais, compreendendo as médias, o operariado e o campesinato, de modo tímido, pouco elaborado. Parece recear a mesma aliança que procura. Teme a força política dessas classes, principalmente o risco de ter de compartilhar o poder. (IANNI, 2004, p. 68)

Porém, essa mesma burguesia enxergando a necessidade da fundação de um Estado nacional se utiliza das potencialidades das grandes lavouras e as canaliza para a consecução de seu objetivo:

Assim, se não todas, pelo menos uma parte considerável das potencialidades capitalistas da grande lavoura foi canalizada para o crescimento econômico interno, permitindo o esforço concentrado da fundação de um Estado nacional, a intensificação concomitante do desenvolvimento urbano e a expansão de novas formas de atividades econômicas. (FERNANDES, 2006, p. 44)

Já para Francisco de Oliveira (2003, p. 129), o processo é mais profundo ainda, pois, segundo ele no Brasil, ―a agricultura atrasada financiava a agricultura moderna e a industrialização‖.

Por outro lado, deve se entender que o Brasil é um país sem revoluções, apesar do uso do termo para designação de processos que passam ao largo das definições clássicas desse processo. Por aqui, as tais revoluções encontram ― sua razão de ser na firme intenção de evitá- la...‖, e assim se fala em revoluções, mas esses processos nada mais são que ―a conservação, para bem cumprir o seu papel, necessita reivindicar o que deveria consistir no seu contrário – a revolução‖. (VIANNA, 2004, p. 43). Além disso:

a natureza de nossa revolução burguesa, autocrática e alongada no tempo, em que o novo não cancela a antiga ordem social, sendo, ao contrário, tributário de elites políticas reformadoras que deflagram um programa de transformações sob a cláusula restritiva do ‗conservar-mudando‘, isto é, sob a condição de que tais transformações venham a confirmar e atualizar o seu domínio. (CARVALHO, 2004, p. 7)

Por aqui, a contradição (revolução/conservação) e a disparidade, além de processos seguros, lentos, graduais, são a marca das transformações. No Brasil, a revolução burguesa, a revolução à brasileira, tem dentre suas características o fato de ser, como diz Holanda:

lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente, temos experimentado em toda a nossa vida nacional. Processa-se, é certo, sem o grande alarde de algumas convulsões de superfície... A grande revolução brasileira não é um fato que se registrasse em um instante preciso; é antes um processo demorado e que vem durando pelo menos há três quartos de século. Seus pontos culminantes associam-se como acidentes diversos de um mesmo sistema orográfico. (IANNI, 2004, p. 23)

Além disso, no Brasil, como em toda América Ibérica, o processo de modernização tem, segundo Vianna, um compromisso com seu passado, buscando sempre mudar conservando; como por exemplo, quando o Estado brasileiro – após a independência – invoca para si os valores liberais e molda suas instituições de acordo com esses mesmos valores, mas ao mesmo tempo intensifica a escravidão:

Se, na sociedade civil, o liberalismo atuava como ‗fermento revolucionário‘, induzindo rupturas moleculares na ordem senhoril-escravocrata, ele não poderia comportar-se como o princípio de sua organização, sem acarretar, com isso, o desmonte da estrutura econômica, fundada no trabalho escravo e que assegurava ao Estado uma forma de inscrição no mercado mundial e presença internacional. (VIANNA, 2004, p. 45)

Já que o papel desse mesmo Estado, para Francisco de Oliveira (2003, p. 37), é o de ―precisamente (...) 'institucionalizar' as regras do jogo‖.

Para o entendimento da opção e os caminhos traçados pela modernização no Brasil se deve considerar a dialética do progresso, entendê-la objetivamente, sem ilusões ou doutrinas; se deve considerar o progresso, inclusive, sob o seu aspecto regressivo, quem sabe até conservador: ―Em nossa esquerda e ex-esquerda o caráter progressista do progresso é artigo de fé, meio inocente e meio ideológico‖. (SCHWARZ, 2003, p.16)

Além disso, como diz Renato Ortiz (2006, p. 37) para se vencer o subdesenvolvimento, por aqui, ―… a modernização foi assumida como um valor em si, sem ser questionada‖.

Não considerar esses aspectos é crer que a modernização é um processo linear, com caminhos pré-concebidos e que sempre tenderá a ir do mais atrasado ao mais moderno – sem sobressaltos ou aspectos negativos – e de forma que basta ao mais atrasado se inspirar no mais avançado que, inexoravelmente, lá chegará e estará dado o reino do bem estar humano. Esse caminho e essa fórmula não existem, pois:

Não há uma estrada conhecida, e muito menos pavimentada, que leve da posição atrasada à adiantada, ou melhor, da perdedora à vencedora. Se é que o caminho existe, ele não obedece às generalidades ligadas a uma noção universalista do progresso, à qual bastasse obedecer. (SCHWARZ, 2003, p.15)

Sendo assim, pode-se compreender que por aqui, no processo de modernização brasileiro, o mais importante sempre é buscar que as transformações tenham um caráter de mudar conservando. O mais importante, além da mudança em si, é sempre objetivar que as mudanças conservem os mesmos grupos no poder, seja para decidirem quais as mudanças, o ritmo das mesmas, e quem – em última análise – é o condutor desse processo:

Diga-se, por enquanto, que a modernidade compromete, no seu processo, toda a sociedade, ampliando o raio de expansão de todas as classes, revitalizando e removendo seus papéis sociais, enquanto que a modernização, pelo seu toque voluntário, se não voluntarista, chega à sociedade por meio de um grupo condutor, que, privilegiando-se, privilegia os setores dominantes. (FAORO, 1992, p. 8)

Não é por acaso que as revoluções brasileiras sempre se constituam e processos coordenados e comandados pela elite dirigente, por aqueles que buscam evitar aquilo que apregoam como necessário, mas que buscam evitar: a própria revolução. As revoluções brasileiras, invariavelmente, são processos alongados no tempo, com o único intuito de transformar ao toque daqueles que procuram afastar toda e qualquer possibilidade de transformações mais radicais e que possam representar alguma ruptura. O olhar sempre é no futuro, mas com os pés sempre bem fincados no presente e no passado.

Desse modo, como apontam as análises da sociologia e da historiografia brasileira, as alianças por cima sempre são a tônica da modernização no Brasil. O antigo e novo, o moderno e o tradicional, ao invés de se excluírem se complementam e se alimentam um do outro, inclusive buscando maneiras de convivência, para no futuro, quem sabe, o tradicional se travestir de moderno ou, ainda, para que o moderno se institua a partir do antigo. Nunca na história do Brasil, em nenhum momento, a antiga ordem é destruída – como em um processo revolucionário clássico – pela nova ordem. Elas sempre convivem, em um processo de simbiose, em uma união de contrários. Por isso, pode-se afirmar que aqui a dialética clássica marxista da união e luta de contrários, prescinde do último elemento – a luta – para mudar sim, mas sempre de maneira a conservar, sejam os privilégios, seja um dos fatores.

No próximo capítulo se analisa a relação entre tradicional e moderno no futebol brasileiro. Procura-se com base na história de mais de 100 anos de futebol no Brasil, através da análise de como alguns atores se movimentam nesse cenário histórico, elementos que possam dar pistas do que muda, e se muda, o que permanece inalterado, e se as mudanças que ocorrem são significativas, no intuito de se entender quais as principais características do

processo de modernização do futebol brasileiro e se essa (caso haja) guarda alguma relação com o processo de modernização da sociedade brasileira.

CAPÍTULO III. DO FUTEBOL MODERNO E DE ELITE A UMA