2. Kapittel Teoretiske perspektiver
2.2 Innovasjon
Em 23 de setembro de 1952 a Câmara dos Deputados elegeu o novo presidente do Líbano, Camille Chamoun. Seu período de tranqüilidade no governo logo foi afetado pela deterioração das relações entre as lideranças que haviam formado a SNF, principalmente no tocante ao líder druso, Kamal Jumblatt.
Chamoun passou a ser acusado de manter a mesma estrutura de poder sectarista que seu antecessor havia institucionalizado, privilegiando claramente os maronitas. Jumblatt ia além ao questionar a legitimidade dos maronitas no comando da nação, alegando que àquela época os muçulmanos já haviam se tornado a maior comunidade religiosa do país. O líder druso passou a clamar pela elaboração de um novo censo populacional. Por outro lado, os maronitas se recusavam a rever as bases do Pacto Nacional por entenderem que grande parte da comunidade muçulmana que alegava ser superior numericamente à cristã, de fato consistia
em refugiados palestinos. Também, os maronitas adotavam uma segunda linha de argumentação para negarem-se a rever a proporção estabelecida de ‘6 x 5’ em prol dos cristãos com relação aos representantes no Parlamento. Para eles, a comunidade maronita era quem contribuía com 80% das taxas arrecadadas no país, o que lhes daria certos privilégios políticos.
A instabilidade política interna do Líbano só veio a se agravar com um acontecimento que abalou o mundo árabe. Em julho de 1956, Gamal Abdel Nasser, o então presidente do Egito, para fazer frente à política colonialista francesa e britânica, resolveu nacionalizar o Canal de Suez37 – que era controlado por empresas de capital francês e britânico,
prioritariamente38 – e dar andamento à sua política pan-arabista. A represália ocorreu quase que imediatamente; França, Inglaterra e Israel se uniram para impedir que Nasser ganhasse força em seu projeto político e, com isso, fizesse com que o movimento pan-arabista alcançasse outros Estados
árabes. Em outubro do mesmo ano, Israel invadiu a península do Sinai e a conquistou. Em novembro, tropas britânicas e francesas foram destacadas para a região e assumiram o controle do Canal.
Apesar da aliança entre França, Grã-Bretanha e Israel, formada para enfrentar o Egito, suas razões advinham de diferentes motivações. França e Grã-Bretanha, duas potências coloniais que dominavam o
Canal através de empresas de suas nacionalidades39, viam com muito risco o domínio de Suez
por parte de Nasser, uma vez que, a partir da nacionalização, as embarcações que supriam os países com petróleo dependeriam ‘da vontade’ de Nasser para passar pelo Canal, o que o
37 O canal era utilizado como melhor trajeto para o escoamento de mercadorias provenientes da Ásia,
principalmente as mais rentáveis, como o petróleo que era produzido no Golfo Pérsico e na Península Arábica.
38 Nasser comprometeu-se a compensar as empresas controladoras do Canal e alegou que utilizaria os
rendimentos dele para construir a Represa de Aswan, que tinha o custo estimado em 1.3 bilhões de dólares. Um projeto que o Egito necessitava para irrigação e poder. (Bregman, 2004: 55)
geraria muitos riscos e grande margem de negociação para o líder árabe. Não é possível abstrair o fato de que àquela época o petróleo já se transformara num produto de extrema necessidade para o desenvolvimento econômico dos países consumidores, assim como para os produtores.
Por outro lado, Israel não precisava, necessariamente, unir seu território ao Canal de Suez, uma vez que tinha a opção de utilizar como rota para o leste africano e Ásia a passagem pelo Estreito de Tiran – que se transformaria, no futuro, na principal rota. Ao aceitar formar uma coalizão contra os egípcios, Israel percebeu uma oportunidade de dominar o Estreito, ter liberdade para que o porto de Eilat funcionasse normalmente e não mais dependesse da vontade de Nasser para as atividades navais israelenses. (Bregman, 2004: 56-7)
Externamente, para a comunidade internacional, a ação dos três países contou com péssima repercussão. França e Inglaterra acabaram sendo acusadas de agir com base numa política colonialista, que, àquela época, já estava sendo rechaçada. Exemplo claro dessa nova postura pôde ser percebido tomando como base o posicionamento das duas grandes potências que haviam emergido no pós-Segunda Grande Guerra. Estados Unidos e União Soviética assumiram o mesmo lado ao ser votada a Resolução de número 119 do Conselho de Segurança da ONU, a qual delegava a solução do conflito à Assembléia Geral, haja vista não ter havido unanimidade dentre os membros do Conselho de Segurança. Na Assembléia Geral foram convocadas Sessões de Emergência40 para analisar os incidentes e, por fim, ordenou-se a retirada da França, Inglaterra e Israel do território egípcio, com a finalidade de restaurar sua soberania. Também foi criada uma Força de Paz para a região. Os países envolvidos no conflito tiveram de recuar e o Canal de Suez voltou para a administração do governo egípcio, contudo, acertou-se a livre navegação pelo canal. Os israelenses, por outro lado, recuaram e deixaram livre a Península do Sinai, mas conseguiram a liberdade de navegação pelo Estreito de Tiran.
Inflamada, a população muçulmana libanesa, pelos acontecimentos recentes – Revolução Egípcia de 1952 que levou Nasser ao poder, Revolução Argelina de 1954 e Crise do Canal de Suez – e pela insatisfação provocada à ocasião em que o presidente libanês deixou de cortar relações diplomáticas com a França e Inglaterra durante o conflito no Canal de Suez, a questão da ‘identidade libanesa’ voltou a ser o centro da atenção nacional. O efeito da ‘derrota com sabor de vitória’ obtida por Nasser reacendeu a discussão acerca do pan-
40 A Assembléia Geral da ONU, seguindo a determinação de sua Resolução nº 377 A, de 1950, foi convocada a
reunir-se em caráter extraordinário para decidir quais medidas seriam empregadas na questão do Canal de Suez. Tais sessões ocorreram de 1º a 10 de novembro de 1956 e, como resultado final da apreciação dos acontecimentos, foram aprovadas sete Resoluções (997 a 1003).
arabismo e a ligação com o ocidente. O ‘Libanismo’ voltou a ser confrontado com o Arabismo e, grande parte dessa ressurreição se devia à política implementada por Chamoun, que era abertamente acusada de ser pró-Ocidente e pró-imperialista.
Chamoun, que havia obtido sucesso com a eleição de seus parlamentares no pleito de 1957 e, com isso, fora acusado de querer aprovar uma emenda constitucional que viabilizaria sua reeleição, não conseguia eliminar a forte pressão que sofria das lideranças políticas regionais. Os clãs libaneses, liderados por Jumblatt, sentiram-se ainda mais traídos pela postura de Chamoun, que, através de seu ministro de Relações Exteriores, Charles Malik, conseguiu obter apoio financeiro dos Estados Unidos para a campanha eleitoral de seus candidatos, fato esse que teria proporcionado-lhes a vitória em 1957. (Gerges)
Apesar de ter se alinhado à política estadunidense e passar a ser um defensor da “Doutrina Eisenhower”41, essa postura não lhe trouxe grandes vantagens. Chamoun pretendia, assumindo as diretrizes da política externa norte-americana, proporcionar o crescimento econômico do Líbano com investimentos provenientes daquele país, contudo, estava desacreditado demais internamente e sem condições para permanecer à frente do governo.
Para um governo desacreditado, o panorama internacional não ajudava muito. Em 1958, o Pan-arabismo alcançou um de seus momentos de maior evidência ao proporcionar a criação da República Árabe Unida (RAU), que foi a união entre Síria e Egito. Imediatamente, temendo que o movimento assumisse maiores proporções no âmbito nacional, Chamoun pronunciou-se contra a RAU e questionou sua legitimidade. Por conseguinte, no Líbano, algumas forças políticas passaram a ganhar maior destaque. Adil Usayran, Chefe do Parlamento, declarava: “O Líbano marchará com a caravana árabe e, qualquer um que pense em trabalhar por interesses outros que aqueles dos árabes, não terá espaço no Líbano."42 (Gerges). Dessa forma, claramente a situação ia assumindo outras dimensões, haja vista que o suporte para ambos os lados estava ligado a forças político-ideológicas externas. Enquanto
41 Em 5 de janeiro de 1957, o presidente dos Estados Unidos discursou no Congresso e, na ocasião, estabeleceu
qual seria a política empregada pela nação com o intuito de ‘deter o comunismo da União Soviética’. As diretrizes propostas por Eisenhower diziam respeito à ação que deveria ser empregada junto aos países do Oriente Médio para que pudessem manter sua independência. Abria a possibilidade, assim, para que fosse destinado apoio financeiro e militar a quaisquer Estados que estivessem correndo o risco de ‘perder a liberdade’ para os comunistas. A ‘Doutrina Eisenhower’ mudava radicalmente a política externa dos Estados Unidos, uma vez que, ao invés de manter a estratégia de Contenção (Doutrina Truman) – que consistia em criar ‘diques’ nas fronteiras do comunismo, oferecendo facilidades financeiras para que os países não sucumbissem a ele – passou a enfrentá-lo com a proposta de estabelecer um grande exército para a preservação dos valores estadunidenses. Em tese, a Doutrina Eisenhower, como passou a ser conhecida, somente dispunha a respeito de intervenções no caso de ameaça à segurança externa; daí a crítica no tocante aos Estados Unidos interferirem na política interna libanesa em 1958. Contudo, é fundamental perceber que ao ‘se defenderem das ameaças externas’, incluíam, com isso, a preservação dos valores estadunidenses que fazia parte da Doutrina. (Pecequilo, 2003)
Chamoun contava com o financiamento dos Estados Unidos, a oposição estreitava seus laços com a Síria e Egito (indiretamente com a União Soviética com quem estavam alinhados), através da RAU. Acusando a recém-criada organização de estar patrocinando os distúrbios internos libaneses, o governo Chamoun entrou com ações contra ela na Liga Árabe e no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Liga entendeu não possuir as ferramentas necessárias para resolver a questão e o Conselho de Segurança determinou o envio de uma equipe de observadores ao local.
Ainda, com relação à postura norte-americana, o presidente Eisenhower não estava convicto de que o envio de tropas ao Líbano seria a melhor saída para evitar as pressões que o governo Chamoun vinha sofrendo por parte de Nasser e seus correligionários – que pretendiam que o Líbano se integrasse à RAU. Questionava-se a eficiência de tal ação e o quão importante era o Líbano para a questão geopolítica do Oriente Médio. Também, se o envio de tropas para dar suporte ao governo maronita não poderia potencializar a disputa interna entre os grupos religiosos, haja vista que os cristãos sempre contaram com o apoio das potências ocidentais para intervir nas disputas com os muçulmanos.
A grande preocupação do governo Chamoun residia no perigo eminente que o pan- arabismo de Nasser representava para o Líbano. Ele apresentava a unificação da Síria e Egito como um forte exemplo que poderia alcançar os demais países árabes. Quando Nassib Matni, maronita (anti-Chamoun) e editor do diário At Telegraph, foi assassinado por defender as idéias pan-arabistas de Nasser, as suspeitas do crime recaíram sobre Chamoun e seus
partidários. Imediatamente os conflitos tornaram-se mais intensos sob a liderança de Kamal Jumblatt e Suleiman Franjieh. De Trípoli, onde ocorreram os primeiros atritos, a guerra entre muçulmanos e maronitas passou a ser disseminada pelas principais cidades do Líbano, inclusive em sua capital, Beirute. Diante dos fatos, Chamoun viu-se acuado e, como sabia que não poderia contar com o exército regular do país, uma vez que o General Shihab havia negado a utilizá-lo contra o povo, a saída encontrada foi recorrer às milícias. Chamoun fortaleceu seus milicianos e buscou apoio dos clãs locais que ainda lhe davam algum suporte, iniciando, assim, os violentos conflitos que dariam início à Primeira Guerra Civil Libanesa.
Outro fator de grande relevância também repercutiu de maneira negativa para o governo maronita. Em 14 de julho, quando a Revolução no Iraque43 foi iniciada e a família real assassinada pelos revolucionários, Chamoun percebeu que os mesmos acontecimentos poderiam chegar ao Líbano e antecipou-se a eles. Aludindo o perigo que o país estava sofrendo de ser invadido pela Síria, pressionou o governo norte-americano a intervir na situação e, para isso, evocou a “Doutrina
Eisenhower”. Chamoun entendia que a única maneira de os conflitos internos serem interrompidos perpassava pelo
envio imediato de tropas ao Líbano. Assim, sanaria o problema do risco eminente por que o governo estava correndo e, também, inviabilizaria, pelo menos temporariamente, qualquer
pretensão do governo egípcio de anexar o Líbano à RAU.
Em 15 de julho as tropas estadunidenses desembarcaram em Beirute para tentar ‘restabelecer a
ordem local’, porém, assumiram a postura de não se envolverem diretamente nos conflitos entre os clãs. A URSS, atônita com a incisiva ação norte-americana no Oriente Médio, reagiu imediatamente solicitando ao Conselho de Segurança da ONU que
43 Os Hashemitas que governavam o Iraque desde de sua criação como Estado independente e, contavam para
isso, primeiro com o apoio da Inglaterra e depois com os Estados Unidos. Ocorre que a partir da queda da família real, o presidente norte-americano vislumbrou a possibilidade de que pudesse haver uma alteração radical do equilíbrio de poder existente no Oriente Médio, situação que seria altamente favorável à União Soviética.
se posicionasse contra o ato estadunidense através de uma Resolução. Contudo, mais uma vez, os Estados Unidos, tendo a certeza de que nada poderia ser votado contra sua ação (devido ao seu poder de veto, também compartilhado com as demais potências: URSS, China, França e Reino Unido), justificou seu ato como o auxílio a um aliado e estabeleceu como condição para deixar o Líbano que fosse criada uma força Militar Internacional que pudesse controlar e neutralizar a ameaça egípcia.
Com as tropas norte-americanas em solo libanês Chamoun conjeturou que sua situação política estivesse assegurada, ou seja, que poderia partir para a reeleição; contudo, o governo Eisenhower entendeu que a melhor estratégia local seria apoiar um candidato que pudesse congraçar a maioria dos grupos beligerantes, a escolha recaiu sobre o General Shihab, devido a sua imparcialidade. Chamoun, talvez tivesse supervalorizado sua importância, ou, quem sabe, agido com displicência ao negociar com uma Grande Potência o apoio a sua causa.
Like the monarchists in Iraq, Chamoun had expected the West to sustain and maintain his regime in power. This miscalculation casts light on the nature of the relationship between small and large states. In their dealings with the United States, Lebanese and Iraqi leaders behaved as if they were strategically indispensable to Western security. They also had a blind faith in the capability and reach of their superpower ally. But they failed to remember a crucial principle in world politics: big powers have no permanent friends, only perpetual interests. The importance of local actors depends on how the major powers perceive the configuration of power on the regional and international scenes at a given historical moment. (Gerges)