2. Kapittel Teoretiske perspektiver
2.6 Det nye arbeidslivet
O mandato de Franjieh foi salvo pelos sírios, mas, àquele momento, a manutenção do governo central não poderia ser entendido como a preservação da soberania estatal libanesa, também, essa não parecia ser a intenção de Hafez al-Assad ao aumentar, gradualmente, a presença militar de seu país no Líbano.
A aproximação de Franjieh e seus partidários à política síria de Assad não significava uma aliança entre cristãos e sírios, isso porque, mesmo na ocasião em que o país correu o risco de um golpe de Estado, outros clãs de cristãos se mostraram simpáticos à destituição do presidente. Defensor desse discurso, Pierre Gemayel sobressaia-se.
Contudo, mesmo antes de explodir um grave conflito entre Gemayel e Franjieh, dois novos acontecimentos fizeram com que os libaneses percebessem que o fim da guerra civil não seria tão breve. Primeiramente, é fundamental destacar a violenta censura que o
governo sírio passou a empregar contra a imprensa libanesa. Como pudemos perceber no capítulo anterior, o Líbano sempre fora um país de grande efervescência cultural e berço de pensadores ilustres, então, com o fechamento de vários jornais que se posicionavam contra a presença síria no país e controle severo sobre os que continuaram em funcionamento, a população viu-se agredida em mais um segmento de sua liberdade.
O segundo evento a ser destacado, diz respeito à ação do general Saad Haddad, que comandava o Exército libanês no sul do país. Já na iminência da invasão síria ao Líbano, o general sublevou-se com os soldados cristãos que também compunham seu destacamento e formou o South Lebanon Army (SLA). Posteriormente ofereceu-se como aliado aos israelenses, prontificando-se a defender seus interesses no sul do país contra os sírios e palestinos.
De fato, a presença síria não trouxe a paz que se esperava, apenas fortaleceu a repressão contra os palestinos e a esquerda libanesa. Os conflitos continuavam por todo o país e, no sul, os palestinos implementavam sua luta contra o Estado de Israel através do lançamento de foguetes katyusha das cidades ao norte do país vizinho. Muitos dos campos de refugiados, conforme alegava o governo israelense, haviam se transformado em campos de treinamento para guerrilheiros terroristas.
Apesar da pouca eficiência, ou quase nenhuma, da figura do presidente, haja vista a fragmentação do Estado; em abril, os deputados conseguiram reunir-se no Parlamento para votar uma emenda ao artigo 73 da Constituição que viabilizaria a eleição do novo presidente com seis meses de antecedência do fim de seu mandato. Esse ato abriu a possibilidade para a eleição de Elias Sarkis à presidência – alcançada com a quantidade mínima de votos necessários (66 dos 99), e, obtidos com a pressão do governo sírio sobre os parlamentares.
A eleição de Sarkis não representou grandes mudanças no panorama local, haja vista à impossibilidade de implementar ações legais ou militares devido à ausência de instrumentos eficazes – não havia uma força armada regular atuando no país, apenas poucos soldados que não conseguiam fazer frente ao poderio das milícias locais e do aparato sírio. E, sem esperar que houvesse qualquer limitação as suas ações no Líbano, o governo sírio passou a implementar com mais veemências sua estratégia contra a OLP.
Em junho, durante o cerco da cidade cristã de Zahle (ao norte do país), foram destacadas tropas sírias para defender a localidade. Com a vitória arrasadora da Síria sobre os palestinos, suas tropas passaram a persegui-los em direção à Beirute. Evidentemente a comunidade cristã libanesa aplaudia a ação, contudo, a OLP recorreu à Liga Árabe para que cessassem os ataques sírios.
Em decorrência do pedido da OLP, os ministros de Assuntos Exteriores árabes se reuniram na cidade de Riad e votaram a criação de uma Força de Paz Árabe em substituição às tropas sírias. Chegou-se, inclusive, a ser destacado um pequeno contingente de soldados formados por sírios e líbios para executar tal função, entretanto, os cristãos, devido à forte repressão que os palestinos estavam sofrendo no Líbano, mostravam-se mais inclinados a
permanecerem com as tropas de Assad em seu país, fato que acabou por proporcionar uma certa legitimidade, haja vista a complacência do governo libanês.
Mesmo diante das imposições da Liga Árabe, a Síria continuou a enviar soldados para o Líbano, fazendo com que, em fins de junho, superassem a quantidade de 12.000. Esse contingente dava respaldo às ações implementadas pelas milícias cristãs, como na ocasião do cerco ao campo de refugiados palestino de Tal Zaatar. Em final de julho os milicianos da Falange tentaram ocupar Tal Zaatar mas não obtiveram sucesso, recuaram e permaneceram em cerco ao campo de refugiados por 52 dias, quando, com o auxílio de tropas sírias, houve a invasão do campo, ocorreu o massacre de mais de 3.000 palestinos, conforme estimativa da Cruz Vermelha.
Esse ato não representou uma ação isolada na história da guerra civil libanesa, tampouco deixaria de ser repetida no futuro, às vezes, alterando os atores, mas com a mesma intensidade e violência. Característica que Del Pino tenta sintetizar: “Característico dessa guerra foi, depois das matanças, o fato de os vencedores ocasionais demonstrarem um prazer especial em que os outros soubessem os detalhes de todos os horrores que eles haviam cometido.” (1989: 113)
Em outubro, dando continuidade às negociações da Liga Árabe, houve uma segunda reunião no Cairo em que decidiu-se pela criação das Forças Árabes de Dissuasão (FAD), que, em verdade, tratava-se de mascarar uma situação e dar-lhe um véu de legitimidade. Com base no que fora acordado, as FAD’s seriam compostas pelos 25.000 soldados sírios que já estavam no Líbano, além de mais 5.000 fornecidos pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iêmen do Norte. Em tese, a liderança dessa nova força ficaria a cargo do presidente Elias Sarkis, contudo, de fato, quem continuava dando as ordens era Assad, que sustentava Sarkis no governo.
Sarkis conseguiu obter um certo reconhecimento quando nomeou para o cargo de Primeiro-ministro o presidente do Banco de Desenvolvimento do Líbano, Selim al-Hoss, uma personalidade considerada neutra dentro da tão polarizada guerra civil. Hoss assume o cargo vinculando sua participação à implementação de uma estratégia que visasse a pacificação do sul do país, entretanto, logo evidenciou-se que tal ação não poderia ser colocada em prática devido ao compromisso assumido pela Síria, com Israel, de não ultrapassar os limites do Rio Litani – na ocasião em que interferira militarmente no Líbano.
Mesmo com os sírios sinalizando que não pretendiam ultrapassar os limites estabelecidos, os israelenses não se mantinham tranqüilos e buscavam maneiras de não aumentarem seus riscos de uma mudança de planos de Assad. No início de 1977, Israel,
apoiando a milícia SLA do general Haddad, possibilita que este conquiste todas as aldeias cristãs do sul do país, ficando fora, apenas, Bint Jeibeil, reconquistada pelos muçulmanos e, Nakura, que servira de posto de observação da ONU.
Ainda, no mesmo ano de 1977, quando a Síria conseguia conciliar suas ações contra os palestinos, e, ao mesmo tempo, não gerar um confronto direto com os israelenses, um incidente em Fayadieh, no início de fevereiro, provocou o rompimento com parte dos cristãos. Enquanto o exército sírio atacou a Academia Militar daquela localidade, a milícia de Chamoun, os Tigres, entrou em atrito com as forças sírias. Assad, num ato desproporcional de uso da força, ordenou que bombardeasse o quartel general de Chamoun e o setor Oriental de Beirute, local onde residiam os cristãos.
Apesar da destruição provocada pelo bombardeio sírio, Assad exigiu que os culpados pelos atritos em Fayadieh fossem entregues à Síria para serem penalizados. Hoss, não querendo ceder completamente à Síria, na qualidade de primeiro-ministro, sugeriu a criação de um tribunal militar sírio-libanês para julgar os indiciados. Se, politicamente, a ação do governo sírio sobre o libanês evidenciava sua submissão, essa nova concessão somente deixou claro que a soberania do Líbano não mais era algo existente, isso em suas várias concepções: política, territorial, militar, etc.
A certeza de que não havia limites para as ações sírias no Líbano era fato notório e seus adversários mais ferozes acabavam por sofrer as conseqüências. Em 16 de março, um dos maiores críticos da presença síria no Líbano (depois de ter sido favorável a ela no início
da invasão), considerado um líder nacionalista, o druso Kamal Jumblatt, foi assassinado próximo a um posto de checagem sírio. A comunidade drusa não resignou-se à perda de seu líder e elegeu Walid Jumblatt, seu filho, como sucessor.
Ao mesmo em tempo que a Síria perdia um aliado importante com o ataque aos cristãos de Beirute e retirava do jogo um forte antagonista a sua presença no Líbano, dava um passo a mais para alcançar seu provável objetivo – restabelecer as fronteiras do que já fora conhecido como a Grande Síria. Um projeto bem maior que simplesmente restaurar a paz no país vizinho. Assumindo a perspectiva da análise síria, com a reconquista do Líbano estaria resolvendo-se um problema que prolongava-se há séculos; enfim, a província que sempre fora objeto de litígio com os Impérios que dominaram o Oriente Médio estaria voltando a ser parte da Síria de Assad.
Conforme evidenciava-se a intenção síria de dominar o Líbano, mais preocupação gerava aos cristãos. Mesmo antes do ataque à Beirute Oriental, a estratégia de Assad já começava a entregá-lo. Ainda enquanto aliado dos cristãos, o exército sírio passou a deslocar- se e ocupar regiões que eram predominantemente cristãs, isso, sem qualquer vestígio de risco de que viesse a haver confrontos com os esquerdistas ou mesmo com a OLP. Um dos primeiros a romper com a Síria foi Gemayel, que acabou sofrendo com os intensos ataques sírios a seus partidários.
Em 1977, Gemayel vislumbrou apenas uma única possibilidade para impedir que a Síria assumisse definitivamente o domínio do território libanês, via no Estado de Israel um aliado que teria condições de impor-se militarmente às tropas sírias. Coincidentemente, no mesmo ano o Partido de Direita, Likud, venceu as eleições israelenses e Menachem Begin tornou-se Primeiro-ministro.
Begin entendia que seu apoio aos maronitas poderia reverter a seu favor duplamente: num primeiro momento porque possibilitava fazer uma analogia entre a situação da minoria cristã no mundo árabe e dos judeus, assim, legitimava a tese de que não deixaria acontecer um ‘genocídio’ no Líbano; segundo, porque, conseguindo o apoio dos maronitas, teria maiores possibilidades para implementar o combate contra a OLP.
Apesar do risco iminente do crescimento do poder político e militar sírio no Líbano, ainda não configurava o momento ideal para que fosse implementada qualquer ação direta contra Assad. Em final de 1977, a Síria já não preocupava-se muito com a legitimidade de suas ações e, àquela altura, as FAD’s já não representavam uma força internacional como fora acordado com a Liga Árabe, todos os estrangeiros que a integraram já haviam voltado aos seus países e ela era composta, exclusivamente, por sírios.