• No results found

N Valid 15 15 15 15 15 Missing 0 0 0 0 0 Mean 70,55960 53,47 6,73 3,13 548,18 Median 70,03500 55,00 5,00 3,00 400,00 Mode 53,161a 55 4 2 400 Std. Deviation 10,571129 9,738 3,918 1,302 495,364 Minimum 53,161 33 1 1 136 Maximum 85,519 65 14 5 1900 Percentiles 25 66,83200 47,00 4,00 2,00 212,50 50 70,03500 55,00 5,00 3,00 400,00 75 81,12600 63,00 11,00 4,00 640,00

Tabela 1. Pontuações do Questionário de Impacto da Fibromialgia (score FIQ)

Os dados apresentados mostram que o valor médio da pontuação do FIQ (score FIQ) foi de 70,55960. O valor mínimo encontrado foi de 53,161, e o máximo, de 85,519.

Dessas mulheres 26,7% (4) apresentaram uma pontuação do FIQ acima de 80, indicando um significativo impacto negativo na vida delas, visto que a pontuação máxima chegou bem próxima dos 100 pontos e a média ficou acima de 70.

A seguir, apresentamos os resultados das associações entre variáveis socioeconômicas e demográficas em relação à pontuação do FIQ (score FIQ).

99 Tabela 2. Médias, número de observações e desvio padrão da pontuação do FIQ (score FIQ),

segundo as variáveis socioeconômicas e demográficas.

De acordo com os dados apresentados na Tabela 2, com relação à variável idade a maior pontuação do FIQ (score FIQ) foi entre mulheres da faixa etária de 50 a 59 anos, cujo valor ficou em 74,24. Seguiu-se a faixa etária de 30 a 39 anos, com o valor de 73,01, e a de 60 anos ou mais, que apresentou a menor média entre as faixas etárias, 63,59, indicando que entre as mulheres mais idosas o impacto da fibromialgia foi menor. Talvez o impacto maior entre as mulheres da faixa etária entre 50 a 59 anos possa estar relacionado com o fato de elas estarem em idade produtiva, mas, ao mesmo tempo, muito próximas do que a sociedade marca como o início da terceira idade.

Variável/Categorias Média N Desvio Padrão

Total 70,56 15 10,57 Idade 30 a 39 73,01 5 7,33 50 a 59 75,08 5 13,73 60 e + 63,59 5 7,43 Anos de estudo 70,56 15 10,57 1 a 5 67,88 8 9,83 6 a 14 73,62 7 11,30 Qt.Pessoas p/domicílio 1 a 3 67,39 9 11,24 4 e 5 75,31 6 8,11

Renda per capita

Até R$ 400,00 72,93 10 8,79 R$ 613 e + 65,83 5 13,25 Cor Branca 65,92 8 7,86 Outras 75,87 7 11,28 Estado civil Casada 70,19 7 8,54 Outras 70,88 8 12,68 Curso Prim+1G 68,23 9 9,25 2G+Sup 74,05 6 12,31 Direito à Previdência NÃO 71,60 7 9,43 SIM 69,65 8 12,05

Contribui p/ Previdência Social

NÃO 70,95 10 10,89 SIM 69,79 5 11,10 Recebe aposentadoria NÃO 70,85 12 9,70 SIM 69,42 3 16,18 Tipo de Domicílio Próprio 69,97 9 10,04 Outros 71,44 6 12,25

100

Nas mulheres que possuíam de 6 a 14 anos de estudo, o impacto foi maior do que naquelas com 1 a 5 anos de estudo. As que se declararam negras ou pardas apresentaram uma pontuação média do FIQ de 75,87, e as de cor branca, de 65,92. Esse impacto maior entre as mulheres negras e pardas pode ser reflexo da longa história de discriminação, pobreza e diferenças entre classes, fortemente relacionadas à cor da pele.

Praticamente não houve diferença de resultados da pontuação média do FIQ entre as mulheres que eram casadas (70,19) com a soma das que eram solteiras ou separadas (70,88). Todavia essa pontuação é considerada indicador de um alto impacto.

As mulheres com segundo grau ou nível superior de escolaridade apresentaram uma pontuação média do FIQ maior do que aquelas que possuíam primário ou primeiro grau, ou seja, quanto maior o grau de escolaridade maior o impacto da doença na qualidade de vida.

As variáveis relacionadas à Previdência Social não tiveram diferença significativa entre as pontuações. Mulheres que recebiam aposentadoria (3) tiveram uma pontuação média do FIQ de 69, e as que não recebiam (12), de 70,95. As mulheres com média de renda per capita de até R$ 400,00 (10) apresentaram uma pontuação média do FIQ de 72,93, e as que tinham renda per capita de R$ 613,00 e mais (5) apresentaram uma pontuação média do FIQ de 65,83. Ou seja, aquelas que possuíam renda per capita maior apresentaram menor pontuação, o que indica menor impacto. Talvez isso se deva ao fato de terem maior acesso a terapias complementares para alívio das dores ou mesmo pela situação financeira mais estável, que eventualmente pode trazer mais tranquilidade e contribuir para a diminuição de agentes estressores do cotidiano.

Para aquelas que possuíam domicílio próprio (9) a pontuação média do FIQ encontrada foi de 69,97, e as com outros tipos de domicílio apresentaram pontuação média de 71,44. A diferença é pequena entre as pontuações, contudo, ela existe e, portanto, o impacto da dor acontece em ambos os casos. No entanto, essa pequena diferença pode indicar que a estabilidade que o domicílio próprio traz produz uma situação de maior tranquilidade e segurança.

As diferenças entre as pontuações médias do FIQ segundo as variáveis socioeconômicas não são consideradas estatisticamente significantes para indicar influência dessas variáveis no grau de impacto da fibromialgia na qualidade de vida. Contudo, podem oferecer indícios para novas investigações, tendo em vista que quanto menor o número de sujeitos maior o valor da estatística para ser significante.

101

5.5 ANÁLISE QUALITATIVA DE FONTE ORAL – DISCURSO DO SUJEITO

COLETIVO

A seguir procederemos à apresentação e análise de conteúdo dos Discursos do Sujeito Coletivo das quinze mulheres, estabelecendo-se uma discussão à luz da literatura pertinente, sobretudo dos pressupostos da Teoria das Representações Sociais.

Os trechos significativos das respostas às perguntas do instrumento de pesquisa são as expressões-chave. A síntese do conteúdo discursivo presente em uma expressão- chave é denominada ideia central. E as ideias centrais permitem a elaboração de categorias, nas quais se agrupam respostas com conteúdos discursivos semelhantes. Por meio de expressões-chave e ideias centrais, formam-se discursos-síntese, que são os Discursos do Sujeito Coletivo (DSCs). Neles, os pensamentos de um grupo de pessoas aparecem como se fossem um discurso individual, elaborado na primeira pessoa do singular.

Esse procedimento metodológico prevê ainda que a reprodução dos discursos seja totalmente preservada em sua essência, ou seja, mesmo que os discursos apresentem erros de concordância gramatical ou ortográficos, devem ser mantidos fidedignamente.

Para criar o DSC, são retirados os aspectos irrelevantes do depoimento e é realizado um procedimento científico, que implica que no software Qualiquantisoft todos os discursos permaneçam intactos e todas as etapas descritas possam ser acessadas a qualquer momento.

O DSC como processo qualitativo e quantitativo para a obtenção do pensamento coletivo assume uma perspectiva dialética. Minayo (2000) refere que:

[...] a dialética marxista abarca não somente o sistema de relações que constrói o modo de conhecimento exterior ao sujeito, mas também as representações sociais que constituem a vivência das relações objetivas pelos atores sociais que lhe atribuem significados. Frente à problemática da quantidade e da qualidade, a dialética assume que a qualidade dos fatos e das relações sociais são suas propriedades inerentes, e que quantidade e qualidade são inseparáveis e interdependentes, ensejando-se assim a dissolução das dicotomias quantitativo/qualitativo, macro/micro, interioridade/exterioridade com que se debatem as diversas correntes sociológicas (p.11).

102

Sob essa perspectiva, o pensamento coletivo é qualidade, porque, como pensamento, é depoimento e discurso. É também quantidade, porque, como expressão de uma sociedade, tal qualidade precisa apresentar uma determinada distribuição no tecido social.

O pensamento coletivo é individual, porque uma sociedade é o conjunto de autonomias pensantes, e, ao mesmo tempo, é coletivo, porque essas autonomias se exercem em um contexto de matrizes discursivas já existentes e estabelecidas.

Há muitas vias de acesso às representações sociais, e os depoimentos dos sujeitos da pesquisa pertencentes a uma coletividade são usados como material para a reconstrução das representações sociais. Ao utilizar o DSC para acessar as representações, buscamos, por meio dos indivíduos depoentes, a matriz discursiva. Ao mesmo tempo em que ela recupera o indivíduo do qual reavemos o pensamento, também recria a matriz comum ao discurso dos indivíduos, já que reúne o pensamento de vários deles.

O DSC vai agregar o que há de semelhante nos depoimentos e separar o que há de diferente no pensamento dos indivíduos, mantendo a matriz discursiva comum entre eles.

O Discurso do Sujeito Coletivo é uma proposta de pesquisa que busca um modo adequado de resgatar e descrever opiniões, crenças e representações sociais da coletividade, de modo a preservar a natureza ao mesmo tempo narrativa e social de tais opiniões ou representações sociais (LEFÈVRE & LEFÈVRE, 2012, p.11).

Para isso, as opiniões são apresentadas como entidades empíricas de caráter coletivo, sob a forma de um discurso emitido na primeira pessoa do singular, como um depoimento coletivo. Isso porque a maneira mais comum de expressar opiniões é sob a forma de depoimento e, assim, a opinião coletiva toma, então, o mesmo formato.

A reconstrução do pensamento coletivo é viabilizada pelo método do DSC, porque as opiniões ou depoimentos individuais semelhantes – que reunidos formam uma opinião coletiva – são somados de forma qualitativa, como discurso, e quantitativa, de forma numérica. O DSC reúne em um único discurso os distintos conteúdos e argumentações presentes nos depoimentos professados individualmente e que apresentaram sentido semelhante, configurando assim um discurso coletivo (LEFÈVRE & LEFÈVRE, 2012).

103

“Sentir dor física é estar num terreno diferente, num estado do ser diferente de todos os outros, numa montanha mágica tão distante do mundo conhecido quanto a paisagem de um sonho. Em geral, a dor cede; acorda-se dela como de um pesadelo, tentando esquecê-la o mais depressa possível. Mas e a dor que persiste? Quanto mais dura, mais torturante se torna o exílio. Você não vai embora nunca? – começamos a perguntar,

querendo voltar ao corpo, às ideias e à vida normal.” MELANIE THERNSTROM