Na perspectiva da Economist um elemento crucial para o sucesso da economia era a realização de um amplo programa de privatização das atividades controladas pelo Estado. O governo Fernando Henrique Cardoso parecia ir ao encontro dos desejos da revista, ainda que não na velocidade por ela desejada, mas os feitos do presidente nesse setor foram festejados. Todavia, antes de comemorar o sucesso de algumas privatizações criticou o resgate aos
673 Here we go again (ed.). 29 jun. 2002. p. 13.
674 Fingers crossed. 5 jan. 2002. p. 42.; Lifelines for Brazil and Uruguay. 10 ago. 2002. p. 45 e ss.; A matter of faith. 17 ago. 2002. p. 60 e ss.; The real crisis becomes more so. 19 out. 2002. p. 92 e ss.; A backlash against the free market? (ed.). 17 ago. 2002. p. 12 e ss.
bancos estaduais. Para ela, o Brasil errou ao perder a oportunidade de forçar a venda desses bancos públicos, em especial o Banespa:
[...] by the standards of the stable and fiscally prudent Brazil that President Fernando Henrique Cardoso says he is aiming to create, they are far from good enough [...] Mr Cardoso has a better chance than any previous president of getting Brazil’s public finances under control once and for all. But he has now – at best – missed a golden opportunity to signal that his country seriously means to change675.
O semanário lembrava que as privatizações começaram no governo de Fernando Collor e que, desde 1991, 45 estatais haviam sido vendidas, injetando no caixa do governo algo em torno de doze bilhões de dólares. Noticiava ainda a privatização do Banco Meridional e anunciava que entre as próximas empresas da lista estavam joias como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a qual acabou sendo adquirida por um consórcio formado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) - privatizada quatro anos antes. Alertava que o único problema era ainda a pouca regulamentação do sistema privatizado. Porém, acreditava que isso não paralisaria o processo676.
O projeto de diminuição das funções do Estado continuava e, em 1998, a ênfase foi no setor elétrico com a expectativa de que se estendesse para o de petróleo e gás. O governo federal que detinha 81,7% das ações da Petrobrás pretendia vender pelo menos 30% desse montante. Quanto às empresas de energia elétrica, uma das primeiras a ser privatizada foi a Light, do Rio de Janeiro; e a revista previa que todo o setor estivesse nas mãos de empresas privadas no decorrer de dois anos. Para o projeto ir mais adiante: “Mr Cardoso has hinted that full privatization may follow if he wins a second term in October”677.
Para a Economist, o déficit em 1998 deveria atingir 7% do PIB e só não seria maior porque as privatizações foram um sucesso e os recursos adquiridos colaboravam no equilíbrio das contas públicas678. O caso da Telebrás foi usado como exemplo. A venda da estatal por 22 bilhões de reais, 64% acima do lance inicial proposto, foi considerada um grande êxito, mas pontuava: “Even so, some buyers may have got bargains. Brazil is one of the world’s most promising telecoms markets”679.
Como vimos, no setor de telecomunicações as notícias sobre a privatização vieram junto com os escândalos envolvendo aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso. Luiz
675 Brazil's missed opportunity (ed.). 20 jan. 1996. p. 17. A privatização do Banespa acaba acontecendo em 2000. 676 Privatisation trundles ahead. 15 jun. 1996. p. 66.; Nerves of steel in Brazil. 10 mai. 1997. p. 94.
677 Darkness and light in Brazil. 14 fev. 1998. p. 59 e ss. 678 Tightrope tricks. 15 ago. 1998. p. 45 e ss.
Carlos Mendonça de Barros e André Lara Resende foram interceptados em ligações telefônicas que provavam a intenção deles em favorecer o consórcio formado pelo Banco Opportunity. Os arranjos envolviam ainda o antigo presidente do Banco Central, Pérsio Arida (sócio do Opportunity). Os vazamentos culminaram na renúncia de Luiz Carlos Mendonça de Barros que na época ocupava o Ministério das Comunicações. Em seu depoimento no Senado o ministro admitiu sua preferência pessoal pelo banco em questão. André Lara Resende que havia assumido o BNDES e também renunciou. Segundo a Economist, esses eram os melhores assessores de FHC e era muito difícil substitui-los à altura680. Sobre as denúncias opinou: “The Mendonça de Barros Brothers and Mr Lara Resende broke no rules, but attracted the envy of less talented mortals”681. Mesmo com essas ressalvas, a impressão geral
sobre as privatizações era positiva: “The government introduced a vast privatization programme that helped to attract record levels of foreign investment”682.
6.2.1.1 O setor de energia
Se antes os artigos que tratavam da questão energética estavam inseridos no grupo daqueles sobre política internacional, dado que se relacionavam ou ao preço do petróleo no mercado mundial ou às preocupações sobre o desenvolvimento de energia nuclear, agora figuravam nos artigos que tratavam de questões internas, principalmente aqueles que tratavam do impacto econômico que poderia ser causado, caso o Brasil vivesse uma crise de abastecimento.
O setor energético, de base hidrelétrica, foi uma das prioridades do processo de privatização durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Com a venda das empresas públicas do setor, a produção e distribuição de energia elétrica foram concedidas a empresas privadas, mesmo que o controle permanecesse público conforme determina o artigo 21 da Constituição de 1988.
680 Scandal time. 21 nov. 1998. p. 70.; Crossed lines in Brazil. 28 nov. 1998. p. 77 e ss. Luiz Carlos Mendonça de Barros foi presidente do BNDES entre novembro de 1995 e abril de 1998, quando assumiu o Ministério das Comunicações, órgão em que permaneceu até novembro quando renunciou.
681 Crossed lines in Brazil. 28 nov. 1998. p. 77 e ss. 682 The devaluing of a presidency. 27 mar. 1999. p. 3 e ss.
A atividade nas mãos da iniciativa privada supostamente traria mais eficiência ao setor, muito embora a revista começasse a expor sua preocupação acerca da capacidade energética do país frente ao aumento da demanda683.
Em 2001, a crise no abastecimento de energia torna-se realidade e a Economist publica artigo em que, ironicamente, declarava a inocência de São Pedro. O presidente havia atribuído a vicissitude à falta de chuvas, mas a publicação afirmava que houve falhas na expansão da rede de transmissão. Como medida emergencial, o governo determinou restrição do consumo em 20% para que não houvesse interrupção do fornecimento - os chamados blackouts. A revista tratava as ações do governo com desconfiança e noticiava que os cortes de energia continuavam acontecendo apesar de o governo declarar que a crise estava no fim. Além disso, notava que os preços aumentavam sem que o serviço de distribuição melhorasse. Para a Economist, uma das causas do racionamento era o Brasil ser dependente demais das usinas hidrelétricas e não ter investido em diversificação de suas fontes684.