4. Nærmere om Knapps pengeteori
4.5 Forholdet mellom penger og metall
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A frase acima foi dita por um interlocutor sobre projetos e cursos que acontecem na CDD. Artista, recém-chegado ao Rio de Janeiro e tendo ido parar na CDD por acaso, estava impressionado com a quantidade de cursos oferecidos, animado para participar de editais e projetos oferecidos: “CDD está em alta, tudo que sai daqui está dando certo! Tem um monte de edital, só não participa quem não quer”. Deu destaque para a CUFA – Central Única das Favelas e para a ARJ. Logo na entrada da sala da secretaria da CUFA há um
banner grande anunciando cursos de dança, grafite, informática, teatro, artesanato, capoeira entre outros. Há cursos que visam mais “ocupar a cabeça do jovem” fora do horário escolar e outros que são diretamente de capacitação. No mesmo banner, um logo grande da Petrobrás, a qual é também a fonte do principal de financiamento da ARJ.
Frequentemente ouvia carros de som chamando jovens para se inscreverem nos mais variados tipos de cursos e oficinas que eram realmente muitos. Ouvia comumente que depois da UPP a quantidade desses cursos havia aumentado significativamente. A dona da casa onde eu morava sempre me dizia ter inscrito seus dois filhos mais jovens, um rapaz e uma moça com cerca de vinte anos, em vários cursos, no geral de capacitação. A fala dela era sempre carregada de um tom de afirmação de que “estavam tentando”, mas os resultados ainda não haviam chegado. Sempre dizia guardar uma série de certificados, que os filhos possuíam um currículo bom, mas quando, no momento da entrevista para empregos diziam morar na CDD, a reação era de “entro em contato com você caso seja selecionado para a vaga”, mas a ligação de retorno nunca acontecia. Sentia que, cada vez que ela tocava no assunto, estava justificando para mim o fato dos filhos não estarem empregados e que não era falta de esforço.
Minha filha, eles fazem todos os cursos que aparecem, se esforçam, mas não tem um encaminhamento para um emprego, aí eles ficam colecionando certificados nas gavetas. Aqui, tudo a gente tem que correr atrás, e mesmo assim não acontece. Para quem mora aqui, as coisas não são fáceis.
[Diário de campo – fevereiro/ 2013]
A ARJ é, talvez, o mais atraente projeto oferecido para jovens na CDD atualmente. Depois de um curso realizado aos sábados durante um mês e com uma bolsa de quatrocentos reais, o jovem que tem seu projeto analisado por uma banca e se aprovado recebe uma quantia de dez mil reais para o desenvolvimento de três meses da sua proposta. Certa vez, duas jovens foram conversar com Iara,devido sua larga experiência com
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questões sócio-ambientais, sobre o projeto que iriam submeter à banca na ARJ. A intenção era fazer vassouras com garrafas pet, pois assim trabalhariam a questão da coleta de lixo e reutilizariam o mesmo. A ânsia das jovens em fazer algo que resolvesse o problema do lixo era evidente. Assim como a ideia de que o “problema do lixo” era um “problema da favela”. Iara sempre me alertou para a reprodução da ideia de que problemas que não são da favela passam a ser responsabilidade e culpa da mesma, como a questão da coleta de lixo rara ou inexistente. O problema não está no fato de estas jovens querem reaproveitar e transformar o que é descartado, mas na ideia que elas carregavam de que o acúmulo desenfreado e desordenado de lixo acontece por uma falta de capacidade dos moradores de se organizarem ou não se importem de viver em um lugar sujo e que seria responsabilidade dos mesmos uma mudança na situação.
Estas supostas oportunidades de mudança oferecidas parecem reafirmar a perversa ideia do excluído que não se integra por falta de vontade e capacidade, uma imoralidade que seria fundamento para o tipo de organização considerada indesejável em relação ao que se espera de urbanidade. Sobre a já ultrapassada ideia para as Ciências Sociais, de que se trata de populações excluídas entendidas predominantemente pela ideia da ausência (de civilidade, de urbanidade e modernidade), mas ainda predominante nas ações voltadas para essas populações, Moreno faz algumas considerações relevantes:
Desse lugar, desses grandes centros, vem-nos a mensagem que se supõe salvadora: não se trata de mudar o sistema mas de capacitar a população para que se integre, se inclua nele. Deixam de lado, como se de algo descartável se tratasse, o fato de que seus próprios excluídos estão capacitados e, no entanto, não superam a exclusão? Será que os desempregados alemães são analfabetos ou atrasados culturais? Sempre a mesma coisa: o sistema é bom e capaz de produzir vida se é deixado livre de interferências externas; são as pessoas que não o aceitam ou ficam para trás por múltiplas deficiências que a elas compete superar: preconceitos culturais, defeitos de caráter, dependência da tradição, insuficiente capacitação. Não seriam elas vítimas do sistema que por sua própria estrutura as exclui? Não se está com isso culpando a vítima? Não seria que a culpabilização cumpre duas funções essenciais para uma eficaz governabilidade: sacralizar o sistema e submeter as vítimas, já que quem se sente culpado não se rebela? Não serão os programas de capacitação precisamente instrumentos elaborados não para superar a insuperável exclusão, mas para culpar? Não é que seja essa a intenção subjetiva dos que os elaboram, mas, não é sua intenção intrínseca? (MORENO, 2005, p.91).
Uma questão fundamental a ser levantada neste contexto é: qual a funcionalidade destas populações continuarem a ser geridas pela chave da ausência? Certamente não é pela falta de compreensão por parte dos que governam. Será que não é parte fundamental e constitutiva da própria lógica em que opera o Estado manter a posição subalterna de um
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segmento da população? Diferente do autor, não entendo tais populações como excluídas, mas não podemos negar que há uma restrição enorme das mesmas no que se refere ao acesso aos serviços básicos e direitos (os quais são frequentemente violados assim como os diversos exemplos apresentados nesse texto). Entendo que, tais cursos de capacitação, criam sim uma culpabilização das populações às quais se direcionam, pois atuam na lógica de “a oportunidade foi dada, não aproveitou quem não quis”. Entretanto, é desconsiderado o fato de que a situação é muito mais complexa: a questão dos favelados não é falta de capacitação, mas a série de empecilhos que encontram justamente por serem favelados e os inúmeros preconceitos atrelados a esta situação. Entendo ainda que, os cursos oferecidos pouco colaboram para uma melhoria que respeite as especificidades locais. Normalmente visam uma integração pela via de “colonizar” aquelas pessoas inserindo-as em atividades consideradas subalternas – ou seja, integrando por baixo – e não rompem com a lógica que estigmatiza e legitima uma categoria de pessoas que recebem um tratamento diferenciado.