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Poucas pessoas estão cientes de que quase todo o padrão de vida no mundo moderno e industrializado é baseado na disponibilidade de petróleo. Não são apenas os veículos que são abastecidos pelos combustíveis fósseis não renováveis, uma vez que são eles que permitem o transporte de alimentos humanos de um local para outro, também são responsáveis pelos petroquímicos da agricultura industrial, com o provimento dos agrotóxicos e dos materiais plásticos para diversas finalidades da produção agrícola em grande escala da indústria alimentícia. Sem um fornecimento constante e abundante de petróleo, a vida humana como se conhece hoje pode mudar drasticamente. A triste realidade é que a maioria das pessoas não sabe mais como viver sem tudo o que o mundo industrializado proporciona (SEPÚLVEDA, 2007).

No entanto, destacou Sepúlveda (2007), há uma outra realidade sendo vivida, difundida e implementada mundo afora: um modelo que resgata os conhecimentos ancestrais para que as pessoas possam transmutar a vida industrializada, a fim de tornarem-se autossuficientes e aprenderem a viver sem a dependência deste sistema, cujos dias estão contados. Esta é a Permacultura.

A produção de alimentos de forma natural, de acordo com as leis da vida e da natureza, foi descrita e sistematizada pelo celebre Masanobu Fukuoka (2009). Seu sistema de agricultura natural inspirou os trabalhos de Bill Molison e David Holmgren, que em meados da década de 1970, cunharam a palavra Permacultura “para descrever um sistema integrado de espécies animais e vegetais perenes ou que se

perpetuam naturalmente e são uteis aos seres humanos” (HOLMGREN, 2007, p.03).

Segundo Holmgren (2007, p.03) e outros entusiastas, o conceito de Permacultura foi adaptando-se progressivamente, “assim, a visão da permacultura de uma agricultura permanente ou sustentável evoluiu para uma visão de uma cultura permanente sustentável”, dessa forma, “envolvendo fatores sociais, econômicos e sanitários para desenvolver uma verdadeira disciplina holística de organização de sistemas” (SOARES, 2008, p.02), onde “as pessoas, suas edificações e as formas como se organizam são centrais para a permacultura” (HOLMGREN, 2007, p.03).

De acordo com Hill (2003, p.13):

Permacultura diz respeito a valores e visões, a designs e sistemas de manejo baseados em compreensão holística, especialmente em nosso conhecimento e nossa sabedoria biotecnológicos e psicossociais. Particularmente, diz respeito a nossas relações com sistemas de manejo de recursos naturais, e ao seu design e redesign, de modo que eles possam sustentar a saúde e o bem-estar de todas as gerações presentes e futuras.

Soares (1998, p.04) apontou que “é necessário adotar uma ética específica de sustentabilidade que exija um repensar dos nossos hábitos de consumo e dos nossos valores, em geral”. De acordo com o autor, os princípios éticos da Permacultura estão fundamentados assim: O cuidado com a Terra; O cuidado com as pessoas; A distribuição dos excedentes e Limites ao consumo.

Assim, a Permacultura se tornou a resposta “não apenas ética, mas também pragmática, filosófica e técnica” para a crise ambiental e social que se intensificou desde meados do século XX, de acordo com atitudes práticas do que se quer e se pode fazer e não apenas como crítica ao sistema negligente e o desejo de mudanças de outrem (HOLMGREN, 2013, p.27).

Diegues (1992, p.27) evidenciou que uma “nova ética exige o abandono da perspectiva antropocêntrica para uma perspectiva mais global, biocêntrica” e a necessidade do planejamento como ferramenta para resolver as contradições entre o crescimento econômico e a conservação da natureza. Daí a necessidade de refletir o problema global sob a perspectiva de "sociedades sustentáveis" e não apenas de desenvolvimento sustentável. Isso denota que é imperioso que cada grupo se estruture em termos de sustentabilidades próprias, “segundo suas tradições culturais, seus parâmetros próprios e sua composição étnica específica, [...] voltadas principalmente para o "desenvolvimento harmonioso das pessoas" e de suas relações com o conjunto do mundo natural” (Ibid., p.28-29).

Para esboçar os princípios permaculturais, Holmgren (2013, p.34) desenvolveu a Flor da Permacultura (Figura 01), em qual apresentou “os domínios-chave que requerem transformação para se criar uma cultura sustentável” de integração das pessoas e delas com o ambiente circundante, no caminho do desenvolvimento sustentável para a criação de sociedades sustentáveis. Determinados campos específicos do sistema de design permacultural e algumas das soluções que foram associadas a essa visão ampliada da permacultura são apontados na periferia da flor. “O caminho evolucionário em espiral, começando com a ética e com os princípios, sugere uma costura comum a todos esses domínios, inicialmente em um nível pessoal e local, prosseguindo para o nível coletivo e global” (Ibid., p.34).

Figura 01. A Flor da Permacultura, apresentando os princípios éticos e de planejamento para o desenvolvimento dessa cultura permanente.

Fonte: Adaptado de Holmgren (2013).

O desenvolvimento sustentável demanda proporcionar uma melhor qualidade da vida, buscando criar condições de associar o crescimento econômico com a manutenção da qualidade ambiental. Quando se fala em desenvolvimento sustentável, tem-se de pensar em ações conjuntas entre pesquisadores e atores, que possam ser transmitidas e divulgadas, para que cada localidade, urbana ou rural, aplique tais conhecimentos de forma contextualizada e as divulgue dentro das suas relações pessoais.

De uma forma holística e transdisciplinar, tal qual a Permacultura, este trabalho perpassa por itens das diversas pétalas da flor permacultural, assim como: o Manejo da Terra e da Natureza através de atividades de hortas agroecológicas; o Espaço Construído com o reuso de água e resíduos; as Ferramentas e Tecnologias desenvolvendo tecnologias apropriadas, o uso de ferramentas manuais e reutilização de materiais; a Educação e Cultura trabalhando arte-educação ambiental e pesquisa-

ação; além da Saúde e Bem-Estar Espiritual com a promoção da saúde preventiva e elevação da autoestima e a Economia e Finanças minimizando gastos e podendo-se incrementar a renda familiar com a venda de produtos e alimentos saudáveis. Em relação a Posse da Terra e Governo Comunitário, comtemplou-se esse item com a fortificação no desenvolvimento de grupos historicamente oprimidos, como comunidades rurais, periféricas, quilombolas e de reforma agrária, com as quais desenvolveram-se as atividades.

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para a efetivação dessa dissertação, foi realizado revisão literária de diversas áreas afins, como desenvolvimento, sustentabilidade, educação, saneamento, resíduos, permacultura e outras, para o embasamento teórico metodológico no intuito da efetivação da pesquisa-ação apresentada.

Utilizou-se neste trabalho, um método de abordagem sistêmico (DEMO, 2011), o método de procedimento histórico (MARCONI; LAKATOS, 2010), juntamente com técnicas de observação direta intensiva (MARCONI; LAKATOS, 2010; 2011), pesquisa bibliográfica (GIL, 1989), pesquisa-ação e observação participante (DEMO, 2011; MARCONI; LAKATOS, 2010; 2011; DIONNE, 2007; GREENWOOD; LEVIN, 2006; GIL, 1989), orientado pelas normas NBR 6023 e NBR 10520 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

A abordagem sistêmica, é um método holístico de mundo integrado, como um organismo, que evidencia a inter-relação e interdependência entre todos os fenômenos, sejam eles físicos, biológicos, psicológicos, sociais ou culturais (CAPRA, 1982). Dessa forma, a alteração em um elemento do sistema proporciona a modificação de mais elementos deste. Demo (2011, p.206) elucidou que esta abordagem “chama a atenção para o fato de que o todo “organiza” as partes e que é o tipo de organização que especifica o todo. Assim sendo, as partes, fora do todo, seriam apenas átomos isolados” não constituindo um organismo vivo ou coisa qualquer, assim, o sistema “é muito mais que mera inter-relação das partes e sua organização no todo” e sim os mecanismos de auto regulação que o dinamizam (Ibid., p.207). Esse método de abordagem está presente em todo o trabalho e suas ações, pois evidencia-se o mundo integrado e não apenas a divisão das partes que o compõe, no qual toda ação gera diversas reações e que devem-se estar atentos aos atos e suas consequências presentes e futuras.

O procedimento histórico parte do princípio que as atuais formas de vida e costumes da sociedade moderna tem origem no passado. Assim, esse método consiste em investigar acontecimentos e processos do passado para verificar a formação e sua influência na sociedade atual, assegurando “a percepção de continuidade e do entrelaçamento dos fenômenos” contemporâneos (MARCONI; LAKATOS, 2010, p.89). Esse método é evidenciado nos Capítulos 01 e 02, nos quais perfazem-se um levantamento bibliográfico dos acontecimentos históricos, para elucidar a situação atual de determinados grupos sociais.

A observação direta intensiva é um método de pesquisa efetivado de duas maneiras: “observação e entrevista” (MARCONI; LAKATOS, 2010, p.173). A observação “é um elemento básico de investigação cientifica” (Ibid., p.174) e podem ser empregadas várias modalidades de observação na pesquisa científica. Dessa forma, de acordo com Ander-Egg citado por Marconi e Lakatos (2010, p.175), neste trabalho utilizou-se a observação participante individual, não estruturada em trabalhos de campo. Já as entrevistas, nesse caso, foram “despadronizadas” (Ibid., p.180), respeitando a formulação dos questionamentos no momento oportuno da experiência vivenciada nas comunidades.

Severino (2007, p.120) elucidou que a pesquisa participante “é aquela em que o pesquisador, para realizar a observação dos fenômenos, compartilha a vivencia dos sujeitos pesquisados, participando, de forma sistemática e permanente, ao longo do tempo da pesquisa, das suas atividades”. Deste modo, “consiste na participação real do pesquisador na comunidade ou grupo”, também caracterizada de “observação participante” (MARCONI; LAKATOS, 2011, p.79). Demo (2011, p.231), não faz distinção “entre pesquisa participante e pesquisa-ação”, ao fato que ambas se comprometem com ações práticas, “no sentido de aliar conhecimento com mudança” social.

Utilizou-se neste trabalho o método da pesquisa-ação, para fazer um diagnóstico dos principais problemas enfrentados pelas comunidades estudadas, propondo um planejamento participativo transdisciplinar, para a construção de soluções de modo coletivo, assim como, a formação de gestores e multiplicadores dessas ações. Esta metodologia é um instrumento prático de intervenção na realidade de comunidades, para além da pesquisa, em parceria com os sujeitos implicados em determinadas situações precárias. Contudo, a intervenção não é imposta pelo interventor, mas tende a ser uma forma de promover mudanças, conduzida com base

na atitude comunitária de valores democráticos às resoluções dos problemas para o bem-estar e melhoria da qualidade de vida de sua população (THIOLLENT, 2007).

O diagnóstico supracitado, realizou-se mediante a observação local e diálogos com seus residentes. Assim, “o intuito da pesquisa-ação diz respeito principalmente ao conhecer tendo em vista o agir”, dessa forma, “para além da pesquisa clássica” em ciências sociais, Dionne (2008, p.46-47) definiu “cinco importantes dimensões” para essa arte de pesquisa:

 fortalecer a relação entre a teoria e a prática;

 favorecer alianças e comunicações entre pesquisadores e atores;

 perseguir um duplo objetivo de conhecimentos a desenvolver (pesquisa)

e de situações a modificar (ação);

 produzir um novo saber na ação e para a ação;

 inserir-se em um processo de tomada de decisão com vista à resolução

de problemas.

Inferir sobre o real significado da vida e o papel evolutivo da humanidade no planeta fez-se presente como metodologia arte educacional ambiental, com o objetivo de promover o desenvolvimento espiritual, intelectual e o poder criativo das pessoas à possível sensibilização dos indivíduos e grupos humanos, no intuito da valorização da natureza a partir de seu ambiente à melhoria da qualidade das vidas. Essas características são inerentes da espécie humana, mas suprimidas devido ao processo educacional implantado ser voltado para o mercado de trabalho e pelo deslumbre do consumo, transformando as vidas e os indivíduos em mercadoria e a existência nas sociedades humanas centralizadas no que se tem e não no que realmente se é.

Dessa forma, a EA não deve se restringir apenas à divulgação de informações, é preciso que se estabeleça um vínculo permanente entre as pessoas e o ambiente, provocando outras percepções acerca do mundo em que vive-se, estas podendo criar novos valores e sentimentos que façam com que repensem suas atitudes, preservando o ambiente em que vivem e possibilitando inferir à imprescindível sustentabilidade.

Nesse sentido, a EA esteve presente em todas as nossas atividades, com o desenvolvimento de rodas de conversa e oficinas de técnicas permaculturais e reuso de materiais à criação artística, destacando o Repensar das atitudes e valores em relação aos hábitos humanos cotidianos, enfatizando o consumo consciente e a Redução na geração de resíduos, a Reutilização de materiais e a separação dos resíduos na fonte geradora, fomentando a Reciclagem, numa perspectiva à prática

desses 4Rs, como formas de minimizar os impactos ambientais e sociais, promovendo outras formas de percepção da realidade.

Outra atividade de intervenção visou à disseminação de técnicas de Permacultura, no intuito de melhorias no saneamento ambiental e, por conseguinte, na qualidade de vida das pessoas, com a construção de fossas ecológicas: tanque de evapotranspiração (TEvap) e círculo de bananeiras (CB), os quais promovem o tratamento e aproveitamento de águas residuárias e sanitárias das residências para a produção de alimentos e composição paisagística local.

Dessa maneira, neste trabalho foram desenvolvidas ações de implementação e disseminação de TSA em algumas comunidades na região metropolitana de João Pessoa na Paraíba, tais como EA e hortas agroecológicas, com o aproveitamento de materiais descartados, no curso de Permacultura na escola, com alunos da Escola Municipal de Nova Vida em Pitimbu. Desenvolveu-se, também, rodas de conversa e oficinas de reutilização de resíduos sólidos e criação de artes, com pessoas da comunidade remanescente do Quilombo de Ipiranga, no município do Conde. Realizou-se oficinas de implementação de técnicas permaculturais de saneamento ecológico, com a construção de CBs com moradores da região do Vale do Gramame e de construção do TEvap, com moradores do C.A., ambas na região periférica da capital João Pessoa.

A análise da aceitação das TSA implementadas, foi mediante a aplicação de questionários avaliativos para as pessoas dos locais trabalhados, aferindo a satisfação destes com os trabalhos realizados e se cumpriram os objetivos propostos (Apêndice A). A avaliação da eficiência tecnológica é verificada com a apresentação de imagens de antes e depois da execução das ações, pelo relato das pessoas nas comunidades e pela reaplicação das técnicas apreendidas pelos moradores nas localidades.

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