Antigamente, no Sítio Ypiranga, nome indígena que significa água vermelha ou barrenta, retirava-se água de uma nascente e seu pequeno riacho próximo à comunidade, limítrofe entre as fazendas na parte mais alta da propriedade. A nascente é o afloramento do lençol freático que fornece água de boa qualidade, abundante e continuamente, podendo originar uma fonte de água de acúmulo (represa), ou cursos d’água (regatos, ribeirões e rios) nesse caso. O desenvolvimento civilizatório na região, o desmatamento e a destinação inadequada de resíduos sólidos, acabaram por sufocar o olho d’água e assorear, quase totalmente, o canal que abasteceu de água a população local por décadas. Dessa forma, o abastecimento de água e a destinação do lixo, tornaram-se sérios problemas para a comunidade.
Segundo a Presidente da Associação dos Moradores da Comunidade Negra de Ipiranga – AMCNI, todas as residências da comunidade possuem fossas rudimentares, para onde são direcionados, geralmente, todos os resíduos das águas servidas. Somente nos tanques de lavar roupas, situados na área externa das casas, as águas utilizadas são descartadas diretamente nos quintais, sem nenhum tratamento. Sobre o abastecimento de água em Ipiranga, a situação atual é a seguinte: existem três poços subterrâneos que abastecem de água a comunidade quilombola, sendo a força da gravidade encarregada no processo de distribuí-las entre as residências, sem nenhum tipo de tratamento. Desses poços, apenas um distribui água para toda comunidade e está em atividade desde novembro de 2012. Dessa forma, ficou estabelecido entre os moradores, o modo alternado de distribuição dessas águas às duas áreas da comunidade, a parte mais alta recebe água pela manhã e a parte baixa recebe água à tarde.
Essas residências situadas na localidade mais baixa da comunidade dispõem de água o dia todo, constituindo parte de água doce e parte de água salobra, visto que, são abastecidas com água retirada do poço da Escola Municipal de Ensino
Fundamental José Albino Pimentel, localizada nas margens da rodovia PB 018, em uma região limítrofe com a comunidade de Gurugi II, permanecendo os lotes que se localizam acima desse ponto desprovidos de tal serviço, fornecido apenas pelo período matutino. No entanto, as pessoas de Ipiranga a classificam como água salobra, não sendo adequada para o consumo humano.
Segundo a legislação ambiental vigente, Resolução Conama nº 357/2004, as águas no território brasileiro são classificadas de acordo com a sua salinidade, sendo água doce se a salinidade for inferior a 0,5%, água salobra se estiver entre 0,5 e 30% e água salina quando superior a 30%. Em se tratando da classificação mundial das águas dentro do Sistema Internacional de Unidades – SI, a salinidade é referida como sólidos totais dissolvidos (STD), sendo água doce aquela que apresenta STD inferior a mil mg/l, salobra com STD entre mil e 10 mil mg/l e superior a 10 mil mg/l de STD as águas são consideradas salinas. Vale ressaltar que o SI pode ser mais preciso, ao fato que nem todos os constituintes sólidos na solução da água são, necessariamente, sais (REBOUÇAS, 2006).
Marinho (2006) relatou que, no ano de 2006, para o abastecimento de água da comunidade quilombola existia, apenas, um poço semi-artesiano3 acoplado a um
conjunto motor-bomba, implantados pela prefeitura do Conde, que recalcava o líquido direto para uma rede, na qual cada morador se encarregava de fazer a ligação hidráulica à sua residência, sendo sua vazão insuficiente para atender a demanda da população local.
No ano de 2007, os moradores de Ipiranga conseguiram, através da prefeitura municipal, o aumento da profundidade do poço existente e a perfuração de mais um poço para o abastecimento da comunidade, também, a instalação de dois reservatórios de dez mil litros e a bomba d’água para enchê-los, sendo um conjunto desses no mesmo local do poço supracitado. No entanto, passaram-se mais de cinco anos e esse sistema ainda não havia entrado em atividade, pelo fato da falta de energia elétrica para ligar a bomba de sucção de água do subsolo, por não haver quem custeasse a instalação elétrica e seu consumo junto à Empresa de Energia Elétrica da Paraíba – ENERGISA.
A perfuração do segundo poço na comunidade, ocorreu dentro de uma
3 Os poços semi-artesianos podem atingir profundidades de mais de 100 metros, porém, necessitam de bomba
d’água para que o líquido alcance a superfície. Enquanto que um poço artesiano atinge grandes profundidades e possui água jorrante.
propriedade particular e seus donos assumiram a responsabilidade de arcar com a despesa de energia elétrica para o acionamento da bomba d’água, deste modo, cobravam dos outros moradores, em 2012, o valor de quinze reais para retirada de água do terreno de sua residência, no qual o equipamento foi instalado com dinheiro público destinado ao abastecimento de água para a comunidade quilombola.
Assim, de acordo com a presidenta da AMCNI, próximo ao final do ano de 2012, após sucessivas visitas à Prefeitura do Conde para solucionar o problema, resolveram ligar a energia elétrica na bomba, para abastecer a caixa d’água e distribuir o líquido precioso para o território quilombola. Nas reuniões quinzenais, realizadas pela diretoria da AMCNI com a comunidade, ficou estabelecido que todas as residências poderiam desfrutar do benefício, desde que os moradores se responsabilizassem pela instalação hidráulica residencial e contribuíssem com o valor simbólico de dez reais junto à Associação, incumbida de pagar a conta da energia consumida pela bomba de sucção junto à ENERGISA, assim, efetivando a sua distribuição.
Diante do atual modelo de desenvolvimento apresentado pelas sociedades humanas, preconizando a cultura dos desperdícios, assim, tudo que se tem em abundância pode seguir esse caminho facilmente. Na falta de água, as pessoas criam diversos mecanismos de economia do bem, possibilitam alternativas para reuso, entre outras, visando à otimização da substância. Isso é evidenciado na Figura 12, que demonstra uma das maneiras utilizadas por famílias de Ipiranga para valer-se do ciclo hidrológico natural, configurando alternativa diante da escassez desse elemento vital.
Figura 12. Alternativa simples para coleta de água de chuva realizada em residência na comunidade de Ipiranga, PB.
Todavia, quando se tem água à vontade para saciar as necessidades humanas básicas, ocorre quase sempre, desperdício exacerbado e certo descaso quanto à minimização de uso e o melhor aproveitamento desse elemento fundamental. Esse fato está em eminência no remanescente quilombola, necessitando de ações educativas sobre as questões hidrológicas, consumo consciente, armazenamento e tratamento das águas para consumo e residuárias, entre outros aspectos, visando à melhoria das condições ambientais e consequentemente à qualidade de vida das pessoas em questão.
6.5.1.2 Diagnóstico da destinação dos resíduos sólidos e a reutilização de