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Localizado no sudeste do estado de Minas Gerais, na Mesorregião da Zona da Mata Mineira, o Circuito Turístico Serras de Minas (CTSM) é uma associação composta pelos municípios de Acaiaca, Araponga, Barra Longa, Canaã, Dom Silvério, Guaraciaba, Guiricema, Paula Cândido, Ponte Nova, Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado, Ubá e Viçosa (Mapa 02). É uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, com sede e foro na cidade de Viçosa-MG, sendo constituída como organização civil de interesse público, regida por estatuto e pelo Decreto n. 43-321/03.

A região onde se encontram os municípios membros do CTSM foi, em épocas remotas, habitada por diversas tribos indígenas, quando do processo inicial de sua colonização no século XVIII, decorrente das atividades auríferas. Da ação de sertanistas à procura do ouro, surgiram os primeiros núcleos urbanos, que originariam as cidades de Guaraciaba, Barra Longa, Acaiaca, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce. Com a decadência de sua exploração, transformaram-se em centros fornecedores de gêneros alimentícios para Mariana (Vila de

Nossa Senhora do Carmo) e Ouro Preto (Vila Rica), por meio da instalação de fazendas, no trajeto até essas cidades.

Mapa 02

Municípios Integrantes do Circuito Turístico Serras de Minas.

Fonte: Circuito Serras de Minas, 2005.

De acordo com informações históricas do Circuito Turístico Serras de Minas (2004),

no decorrer da primeira metade do século XVIII, auge da mineração aurífera, a maior parte da Zona da Mata é considerada “área proibida” pelas autoridades portuguesas. Também chamada de “Sertões do Leste”, a região habitada por tribos de índios hostis ao homem branco e animais selvagens, era coberta de matas nativas e servia de fronteira natural entre os núcleos mineradores e o litoral brasileiro, evitando o contrabando do metal precioso e a fuga da taxação de impostos sobre mercadorias (CTSM, 2004, p.03).

A densa área de mata e a presença de índios hostis dos Sertões do Leste, a que se referem às afirmações do CTSM, podem ser apontadas como justificativa para a manutenção da paisagem local, ainda hoje preservada na maior parte da região, e também justificar o

pequeno desenvolvimento econômico pelo qual ela passou, nas últimas décadas, onde o cultivo do café não foi suficiente para alavancar o desenvolvimento local, quando comparado com outras áreas mais dinâmicas do estado.

Os núcleos urbanos que deram origem a Araponga, Paula Cândido, Ponte Nova, Ubá e Viçosa se formaram pela concessão de sesmarias, e sua expansão está ligada, diretamente à dispersão populacional dos antigos centros mineradores, a partir do início do século XIX.

A partir dos meados do século XIX, surgem as grandes lavouras de café voltadas para a exportação, que com a chegada da ferrovia impulsionam ainda mais a economia local, a qual entraria em decadência no primeiro quartel de século XX, e não mais se recuperaria.

Os municípios integrantes do Circuito Turístico Serras de Minas possuem um topografia bastante acidentada. Suas cidades são localizadas, normalmente, nos fundo de vales, banhadas por uma densa rede hidrográfica (Mapa 03), que pontua a região com um número significativo de pequenas e médias cachoeiras. Basicamente, a região está entre duas grandes bacias hidrográficas, sendo os municípios de Ubá e Guiricema inseridos na Bacia do Rio Paraíba do Sul que, somando aos outros 178 municípios, apresentam uma área total de 55.400 km2. Os demais municípios do circuito estão localizados na Bacia do Rio Doce, que banha 228 municípios, num total de 83.400 km2 (CTSM, 2004).

Do nome Zona da Mata o Circuito Turístico Serras de Minas, trás a sua mais forte característica vegetacional, que é a presença da Mata Atlântica e seus remanescentes. Em grande parte de relevo serrano ainda predominam as matas residuais, de vegetação densa e exuberante, com paisagens ímpares, que foram amplamente devastadas, ao longo das últimas décadas, mas que conservaram grandes áreas que agora são apontadas como um dos atrativos turísticos locais.

Percebendo essa mudança de comportamento ambiental, alguns proprietários rurais, envolvidos com o turismo, buscam preservar as matas nativas, ainda existentes em suas propriedades, por meio de Reserva Particular de Proteção Ambiental (RPPA) ou por meio da legislação ambiental vigente, que criou as Áreas de Proteção Ambiental (APA), como ocorre em Guaraciaba (APA da Brecha e APA da Matinha), em Guiricema (APA Santa Montanha), em Ponte Nova ( APA Vau-açu e Parque Florestal Tancredo Neves) e em Viçosa (APA Mata do Paraíso), entre outras.

Mapa 03

Rede Hidrográfica dos Municípios do Circuito Turístico Serras de Minas.

Fonte: Circuito Serras de Minas, 2005.

Na zona rural dos municípios membros do CTSM, também se encontram muitas comunidades rurais, berço de vários núcleos urbanos que ainda não foram alçados à condição de cidades. São os exemplos Vau-açu em Ponte Nova, Estevão de Araújo, em Araponga, Cachoeira de Santa Cruz, em Viçosa, Airões, em Paula Cândido, e tantos outros.

De acordo com o CTSM (2004), a região é fortemente marcada pela influência da Igreja Católica que

trazida pelos seus primeiros colonizadores, foi a partir da construção de capelas primitivas que os povoados se desenvolveram e de onde, na maioria das vezes, provêm seus primeiros nomes que, ainda hoje, denominam suas igrejas matrizes – situadas em locais de destaque em cada uma das cidades, seja nas praças centrais, seja em cima de morros, sendo facilmente avistadas (CTSM, 2004, p. 05).

a influência católica também é percebida nos costumes da população, que segue seu extenso calendário religioso e festivo e que tem seu auge na comemoração do dia do padroeiro ou padroeira local. A “Festa de Nossa Senhora do Rosário” é também bastante tradicional na região, contando com a participação de grupos de congado em quase todas as localidades; ganha maiores dimensões na cidade de Paula Cândido (CTSM, 2004, p. 05).

É em função desse catolicismo, ainda muito presente e influente no modo de vida das pessoas, que se observam as principais festas - religiosas ou profanas – e as atividades culturais e de lazer dos municípios que compõe o circuito. Vale ressaltar que as festas dos padroeiros locais conseguem atrair, além de um número significativo de devotos e fiéis, boa parte dos nativos11 que se encontram ausentes e que utilizam essas comemorações para realizar visitas familiares ou a amigos, o que aumenta o fluxo de visitantes, ou mesmo turistas, nessas cidades.

Normalmente, nesses períodos, ocorrem também festas de cunho profano, coordenadas pelas prefeituras locais e denominadas “festas do cidadão ausente”, que também conseguem atrair um grande número de ex-moradores da cidade e movimentar o comércio local.

Destaca-se também, nesse contexto, um número significativo de fazendas antigas, que remontam ao período colonial e ao ciclo áureo do café, com seus casarões tradicionais, alguns em precário estado de conservação. Também, em algumas localidades rurais, a presença de represas, rios, cachoeiras, praias fluviais, pesque-pagues, pousadas, áreas de camping, são utilizados como áreas de lazer da população local, principalmente nos finais de semana e feriados prolongados, estimulando o turismo de base local.

Criado oficialmente em abril 2002, somente no ano de 2005 o circuito foi, oficialmente, certificado pela SETUR, por meio da TURMINAS, garantindo a ele, as condições legais para programar, planejar e executar ações que possibilitem um desenvolvimento mais significativo ao setor e, consequentemente à região no qual está inserido.

O Circuito Turístico Serras de Minas foi criado há poucos anos e ainda caminha em passos lentos. Surgiu como uma possibilidade, aos proprietários rurais da Microrregião de Viçosa, de expandirem as atividades turísticas de suas propriedades e, também, como uma alternativa para os turistas conhecerem os costumes e tradições da gente mineira, que tem na agricultura do café a sua mais importante fonte de divisas.

O CTSM é fruto da política mineira de descentralização das ações turísticas, idealizadas pela SETUR. É composto por municípios próximos entre si, que se associaram em função de interesses e possibilidades de explorar turisticamente, seus respectivos patrimônios históricos e culturais (CSTM, 2004), abrigando uma das mais belas paisagens naturais do estado, com grandes serras, vales, matas, rios e cachoeiras; constituído, também, por pequenas cidades, ricas em história, folclore, artesanato e gastronomia. O turismo desse circuito se estrutura nessa relação. É um circuito jovem, que ainda busca atrair um número maior de visitantes e se estruturar para fazer frente a outros circuitos existentes.

Em seu folder de divulgação, o próprio Circuito Turístico Serras de Minas assim define os seus principais atrativos turísticos:

Com natureza exuberante, serra, montanhas, cachoeiras, rios, lagos e vales, o Circuito Turístico Serras de Minas […], possui artesanato diversificado, rica gastronomia, manifestações religiosas e profanas. Uma grande atração do circuito é o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, com área de 13.210 hectares que une vários atrativos naturais. A melhor maneira de chegar ao Parque é via Araponga, que é também, destaque na produção de cafés especiais no Brasil. Antigas fazendas, engenhos e alambiques são alguma das boas opções de visitas em Acaiaca, Dom Silvério Guiricema e Paula Cândido. Alem desses atrativos, o circuito favorece também a integração dos recursos socioculturais e naturais, meditação e retiro espiritual através do Caminho de São José que abrange os municípios de Barra Longa e Rio Doce. O Circuito Serras de Minas possui outros atrativos naturais para quem gosta de apreciar e desfrutar bons momentos junto à natureza. Guaraciaba e Ponte Nova oferecem a beleza do Rio Piranga. Em Santa Cruz do Escalvado, está a chamada Pedra do Escalvado, uma interessante formação rochosa com 200 metros de altura. Alem disso, o turismo rural tem um potencial imenso na região em função de sua forte tradição agropecuária. Viçosa é uma das principais referencias educacionais do país e Ubá, reconhecido pólo move leiro, são importantes cidades-pólo da Zona da Mata (CTSM, 2004, p.01).

Pela apresentação do folder, observa-se que mais uma vez, o natural e a valorização cênica do local são o grande discurso atrativo do circuito, em todos os municípios que o compõem. A natureza é o principal produto, o que possibilita a prática das mais variadas modalidades turísticas na região, como, por exemplo, turismo rural, ecoturismo, turismo de aventura, lazer e também esportivas, como escaladas, rapel, caminhadas e outros, destacando- se também, a presença do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB) como um

importante atrativo, mas que, também faz parte de outro circuito turístico, denominado de Circuito Turístico Serra do Brigadeiro.

Existe uma relação entre o turismo rural, o circuito e o além da própria cerca. Nessa relação, o turismo no espaço rural é o suporte para a existência do Circuito Turístico Serras de Minas, como fruto e vontade dos proprietários rurais locais em desenvolver uma atividade que possibilitasse a ampliação de suas rendas e a produção local; é baseado nele que o ir além da própria cerca - como sugere o título desse capítulo - se reproduz como uma possibilidade e, ao mesmo tempo, como uma perspectiva de atingir esses objetivos, devendo ser portanto, concebido como uma relação de parceria entre ambos.

Se o turismo no espaço rural constitui a base do CTSM, é esse turismo que tem que ser mais trabalhado, pelo próprio circuito, como o principal motivo de sua existência, pois mesmo que existam outras atividades produtivas a ele ligado, é o turismo no espaço rural e seus variados tipos que realmente agregam valores ao circuito e, nesse contexto, o ir além da própria cerca deve ser pensado como um dos mecanismos que podem alavancar a estagnada economia local e gerar um desenvolvimento sociocultural para toda a região.

O CTSM vem apresentando, também, nos últimos anos, um destaque na gastronomia local, principalmente na produção de aguardentes, cafés finos e, mais recentemente, a presença de algumas propriedades rurais investindo na produção de vinhos artesanais.

Na concepção do CTSM (2004), a somatória do conjunto de atrativos, integrados entre si, em forma de produtos e roteiros turísticos, aproveitando o que há de melhor em cada cidade, com os meios de hospedagem das cidades de maior porte e as localizações estratégicas para a entrada de demandas fazem, do circuito, um região potencial a ser desenvolvida turisticamente.

Para que o circuito se estabeleça com sucesso, e tenha garantida sua efetivação é necessário que algumas ações sejam adotadas. Dentre essas ações, o próprio CSTM aponta:

 Conscientização da população do valor turístico da região;  Fortalecimento das políticas públicas de turismo;

 Elaboração do Plano Diretor e Lei de Uso e Ocupação do Solo;

 Conscientização sobre as possibilidades do turismo para regiões tradicionalmente não turísticas;

 Desenvolvimento de produtos turísticos como museus, centros de referências, roteiros e outros;

 Criação de um plano de comunicação para o Circuito;

 Desenvolvimento de programas integrados entre os vários tipos de turismo existentes no circuito;

 Maior união e integração dos empresários;

 Preservação e recuperação do patrimônio natural e cultural;  Capacitação da mão-de-obra.

Todas essas ações são fundamentais para se efetivar o circuito. Entretanto, um fator importante nesse processo, que deve ser levado em consideração, é a questão do planejamento turístico, podendo ser entendida como a

previsión o anticipación de lo que va a suceder, consiste em um amplo estúdio de marcado sobre todos los aspectos de la actividad turística y sus relaciones com el resto de la economia nacional. Por este carácter de prevision se há definido el plan, como um antiazar (GÓMEZ (1997) apud IGNARRA, 2003, p.82).

Nesse sentido, o planejamento turístico é de fundamental importância no processo de ordenamento das ações a serem realizadas, contribuindo para a dinamização dos benefícios socioeconômicos que dele podem ser gerados, e ao mesmo tempo, para criar os mecanismos de consolidação do Circuito Turístico. Na área de estudo, esses mecanismos ocorrem, através das ações que são propostas anualmente pelo CTSM.

Ainda na questão do planejamento, cabe ao circuito turístico estabelecer as metas e ações que contribuam para o seu próprio crescimento, garantindo o desenvolvimento de toda a segmentação turística existente no interior do Circuito Turístico Serra de Minas.

Considerando os treze municípios que compõem o Circuito Turístico Serras de Minas, sua segmentação turística (Quadro 2) se mostra bastante diversificada, o que promove o além da própria cerca, mas existe um predomínio das atividades diretamente relacionadas ao meio ambiente, principalmente por causa das condições geográficas que predominam na região do estudo.

O quadro 2 ilustra a diversificação que ocorre entre os segmentos turísticos que fazem parte do circuito em estudo. O segmento do Turismo Rural é presença confirmada em todos os municípios, com exceção de Ubá, por ser um município de forte apelo industrial (polo moveleiro), com uma boa rede de hotéis. O Turismo de eventos é destaque em Ubá e Viçosa; a primeira pelo motivo anteriormente citado, e Viçosa por ser um importante centro de

pesquisa no país, onde está localizada a Universidade Federal de Viçosa. Verifica-se que o Turismo Religioso é presença forte, principalmente nas pequenas cidades, onde o culto ao padroeiro local consegue atrair um número significativo de turistas, mas de forma sazonal.

Quadro 2

SEGMENTAÇÃO TURÍSTICA DOS MUNICÍPIOS DO CIRCUITO TURÍSTICO