Localizada no Município de Araponga e distante a 12 km da sede do Município, no entorno da Serra do Brigadeiro, a Fazenda Braúna (Foto 01) tem, na cafeicultura, a sua principal atividade econômica, a qual também vem sendo aproveitada para o turismo. Produzindo, principalmente, cafés finos, sendo certificada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).
Foto 01.Vista parcial do cafezal da Fazenda Braúna, com destaque para o cultivo do café em áreas de encosta e do processo de secagem dos grãos de café no fundo do vale, técnicas muito utilizadas na região.
Foto: Arquivo da Fazenda Braúna Abr. 08
Braúna é uma marca forte na região, quando se fala em café fino, o que contribui com a verticalização do produto com a exportação, principalmente para a Itália, agregando valor à marca, uma vez que a própria fazenda cuida desde o plantio até a torrefação e a distribuição.
A Fazenda Braúna está incrustada na região das Matas de Minas Gerais e margeia o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, sendo envolvida por um conjunto de belas montanhas e cachoeira, considerada como um santuário de pássaros e de animais silvestres, como, por exemplo, o macaco monocarvoeiro, o maior primata das Américas.
Os cafés que são produzidos na propriedade Braúna vêm sendo comercializados desde a década de 20 do século passado, perpetuando na família a tradição na produção de cafés nobres. Conforme consta no site da propriedade,
começou adquirindo máquinas para o processamento do café - que à época eram movidas a vapor - e tratores - os primeiros da região - até chegar à atual tecnologia de preparo de cafés especiais, através do processo de descascamento de grãos cereja. O Café Braúna é oriundo de plantas selecionadas da variedade arábica. Os grãos são colhidos à mão e, após lavados, são separados pela maturação; apenas os grãos maduros (cereja) são utilizados. Estes grãos são comprimidos numa peneira para que a casca seja retirada e, em seguida, são secos ao sol em pátios. Este processo produz cafés extraordinários, pois diminui muito o risco da fermentação e utiliza apenas frutos maduros, fase esta em que o grão pode exprimir todo seu potencial de corpo, aroma e sabor (FAZENDA BRAÚNA, 2008).
O nome Braúna está ligado diretamente á espécie arbórea braúna (Melanoxylon Braunia schott), espécie com altura média de 15 a 25 metros, que era comum na fazenda. Possuindo uma extensão de 304 hectares, o café está presente na propriedade desde os anos 20 do século passado, sendo cultivado, principalmente, o café tipo cereja que, durante muito tempo, foi trabalhado em sistema de parceria.
As visitas turísticas que ocorrem na propriedade são todas direcionadas, sendo que partes são ligadas diretamente ao curso de barista17 que é oferecido dentro da propriedade. Outra função do turismo, na propriedade, é a possibilidade para o marketing disponibilizar a marca Braúna, sendo que os turistas são recebidos de maneira simples, sem características de um hotel tradicional e sim mais familiar, podendo vivenciar o dia-a-dia da propriedade, caracterizando, portanto, um agroturismo18. Observamos que o turismo, aqui, mesmo estando dentro de uma importante propriedade produtora de café, insere-se numa relação interpessoal, trabalhando com um estilo familiar, sendo que ele é uma complementação à renda da propriedade, ou, como destacou o entrevistado, “... é uma simbiose”, estando presente desde os anos 2000.
Ao arguirmos sobre a participação do Estado nesse processo, obtivemos como resposta que essa participação é inexistente. Para o entrevistado, que também é um dos proprietários
17 Barista é o profissional especializado em cafés de alta qualidade ou cafés especiais.
18 De acordo com Portuguez (1999) , o agroturismo refere-se às atividades turísticas que ocorrem no interior das
envolvidos na pesquisa, não houve um pleito da base, solicitando o turismo. Essa mesma questão também não é abordada pelo governo municipal, como, por exemplo, o financiamento de atividades turísticas locais, desconhecendo se existem informações sobre a atuação do Estado, aqui entendido como as ações públicas que possibilitem o desenvolvimento do setor turístico.
Na Fazenda Braúna, a participação familiar é importante, com relação ao processo de expansão da marca Braúna, existindo uma divisão de tarefas, sendo que quatro membros convivem, diretamente, com a empresa, e acabam lidando, também, com a questão do turismo na propriedade rural, direta ou indiretamente. Nesse processo, os pais não participam, ficando a cargo dos filhos a gerência e a parte de relações públicas; a irmã do entrevistado é responsável pela contabilidade do empreendimento e um sobrinho pela cafeteria.
Ao questionarmos as mudanças que ocorrem na propriedade, com a chegada do turismo, obtivemos como resposta que houve mudanças na estrutura física (Foto 02), para melhor receber os visitantes, destacando também que os funcionários receberam informações sobre os conceitos de limpeza e procedimentos de recepção, resultando numa melhoria de atiitudes. Essas informações oferecidas aos funcionários foram repassadas pelos proprietários, não se constituindo em cursos específicos de atendimento e recebimento ao turista.
A participação dos membros familiares no processo de produção do café foi um fator essencial para a aceleração do procedimento de chegada do turismo na propriedade, pois foi nesse contexto de ampliação das atividades cafeeiras, principalmente com a melhoria das técnicas de plantio, cultivo e beneficiamento do café fino, que surge a necessidade de oferecer uma melhor infra-estrutura aos visitantes que vinham à procura de novas técnicas e conhecimentos, e que a cidade de Araponga não oferecia.
Não ocorre, na propriedade, uma preferência por um determinado tipo de turista; entretanto, a maior parte dos visitantes são pessoas ligadas diretamente à cafeicultura (Foto 03), que a visitam com objetivos específicos sobre produção, seleção e consumo de grãos- finos, o que contribuiu para que os proprietários construíssem toda uma infra-estrutura de chalés para atender os visitantes que desejam pernoitar no local.
Vale ressaltar que não há contratação de funcionários específicos para o turismo, MS há contratação de até cem pessoas na época da colheita do café. Entretanto, esses contratados, que são trabalhadores rurais locais, não trabalham diretamente na recepção aos turistas, ficando essa função delegada a um dos proprietários.
Foto 02. Espaço em construção destinado ao recebimento e pernoite dos turistas na Fazenda Braúna. Esse espaço visa atender as pessoas que procuram a propriedade para realizar o curso de barista.
Foto: TIRADENTES, L. Abr. 08 Dependendo do objetivo da visita, o turista tem um direcionamento diferenciado, ou seja, pode ser um grupo de visitantes ou especialistas em café: os turistas mais frequentes são os que vêm com a finalidade de ser tornarem baristas, recebendo, portanto, todas as informações técnicas sobre o curso e suas atividades na propriedade. Já os turistas que são estudantes recebem mais informações acadêmicas sobre a cultura do café e seus processos produtivos e outros tipos de turistas são enfocados na finalidade a que se destinam. Quem realiza a recepção são os proprietários ou um funcionário designado para essa função, já que não existem guias específicos para acompanhar os turistas.
Na propriedade não existe qualquer tipo de festa, seja ela religiosa ou profana, ou mesmo produção artesanal no local. Existe, por parte dos proprietários, a vontade de realizar parcerias, no sentido de possibilitar um melhor aproveitamento turístico, mas ainda não houve qualquer movimentação no sentido dessa realização. Também não averiguamos a presença de atrativos históricos que se destacassem.
Foto 03. Ocupação das encostas por cafezais em floração, plantado segundo a técnica de curvas de nível na Fazenda Braúna. Ao fundo área preparada para novos plantios
Foto. Arquivo da Fazenda Braúna. Abr. 08
No requisito atrativo natural, o destaque são as grandes reservas florestais existentes no seu interior, existindo quatro cachoeiras que podem ser visitadas pelos turistas. O turista, no local, pode usufruir de atividades de entretenimento que promovem bem-estar, tais como cavalgadas e passeios, num belo cenário natural.
Questionado sobre o sentimento de pertencimento ao lugar, o entrevistado afirmou que o maior pertencimento são os cafés especiais, marca de destaque na região, e a recepção familiar que eles possibilitam, ao turista ou visitante. Essa recepção familiar se caracteriza como uma forma de receber o turista que particulariza o turismo na propriedade, criando toda uma noção ou sentido de “acolhimento familiar”, ressaltando o estilo ou a personificação do mineiro em receber um visitante.
De acordo com o proprietário, “...o circuito turístico existente tem propiciado uma simbiose com outras empresas, pois possibilita a troca de experiências e conhecimentos”. Mas essa troca, ainda que justificada pelo proprietário, é pouco representativa, no conjunto do circuito turístico no qual essa propriedade se insere.
A atividade turística não é o principal produto da Fazenda Braúna, mas uma consequência da cafeicultura. Sua participação no circuito turístico (CT) tem contribuído para uma melhor recepção por parte dos turistas e para a expansão do café fino, ampliando definitivamente sua participação no mercado de café.
O turismo existente na Fazenda Braúna não acontece por acaso, mas sob bases concretas, ou seja, pela apropriação do modo de vida de seus proprietários, que perceberam a necessidade de sua existência para atender a um público específico, voltado para a cultura do café, principalmente os denominados cafés especiais, que atrai pessoas interessadas em apreender o processo produtivo; e, também, por necessidades familiares de ampliar a renda e o trabalho para seus membros.