Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000) definem a ideologia de uma organização como um consistente conjunto de crenças compartilhadas apaixonadamente por seus membros, que a distinguem de outras organizações. É fato que todas possuem uma ideologia, porém o grau de expressão é variável. As organizações missionárias, de acordo com Mintzberg23 (1989 apud Pugh e Hickson, 2004), são fundamentadas na posse de uma ideologia, ou seja, de um rico sistema de crenças e valores compartilhado por todos os membros. Este senso está enraizado numa profunda ideia de missão. Nas organizações sem fins lucrativos, de acordo com Hudson (1999), é a missão que, muitas vezes, permeia todos os elementos do seu arcabouço ideológico. O autor atesta que a administração é igualmente importante para seu sucesso, face ao crescimento e ao desempenho cada vez mais profissional dessas instituições.
A organização missionária pura tem sempre uma missão clara e focada, para facilitar sua identificação inspiradora e operacional, além de ser diferente de todas as
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NUNES, L. H.; VASCONCELOS, I. F. G. de; JAUSSAUD, J. Expatriação de executivos. São Paulo: Thomson Learning, 2008.
23 MINTZBERG, H. Mintzberg on Management: inside our strange world of organizations. New York: The
outras. Como resultado do apego à missão, os membros desse tipo de organização vão resistir a qualquer fator que possa colocá-la em risco, bem como a qualquer coisa que tente interferir em sua tradição. Portanto, tem-se que a missão é algo perene e relativamente estável (MINTZBERG; QUINN, 199624 apud NAPOLI; SILVA, 2006).
Conforme Drucker (1999), instituições sem fins lucrativos, como as organizações missionárias, fazem algo diferente do governo e das empresas: não fornecem bens e serviços nem controle; sua função é a transformação do ser humano. São agentes de mudança humana. O autor atesta que, em virtude de não visarem lucro convencional, precisam aprender da gerência, para que possam concentrar-se em sua missão. O seu sucesso está no cumprimento da sua missão.
Sempre que existe divisão do trabalho de qualquer natureza, faz-se necessária a coordenação do mesmo. Segundo Mintzberg e Quinn25 (2001 apud Napoli e Silva, 2006), na organização missionária, o trabalho é coordenado por meio da padronização das normas, ou seja, pelo compartilhamento de valores e crenças por todos os membros da instituição. Via de regra, essas normas são tácitas, ou seja, estão implícitas, e são passadas no dia a dia para os novos integrantes.
Segundo Napoli e Silva (2006), a divisão do trabalho nas organizações missionárias não é formal. Assim, não se tem uma determinação antecipada de tarefas, sendo a padronização das normas a forma predominante de coordenação do trabalho. Conclui-se, pois, que num ambiente organizacional simples, o sistema técnico-operacional é igualmente simples. Na prática, é muito raro encontrar uma organização missionária pura. É importante ressaltar que o desenvolvimento do Terceiro Setor no mundo vem gerando a especialização dessas instituições, por meio da busca de formas mais eficientes e eficazes de organização, considerando-se que, em grande parte dos casos, o ambiente é complexo e turbulento.
O marketing empreendido por essas instituições, explica Gallagher e Weinberg26 (1991 apud Napoli e Silva, 2006), é muito mais complexo que o das empresas convencionais, pois tais instituições não podem correr riscos de imagem, uma vez que a atenção pública está totalmente voltada para elas, que necessitam lidar com um perfil múltiplo de clientes.
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MINTZBERG, H. e QUINN, J. B. (Eds) The strategy process: concepts, contexts, cases. Third Edition. London: Prentice-Hall International, 1996.
25 Ibidem.
26 GALLAGHER, K.; WEINBERG, C. Coping with success: new challenges for nonprofit marketing. Sloan
Considerando todas essas características, e concordando com Napoli e Silva (2006), as estratégias de ação e a avaliação de desempenho não são necessariamente alcançadas por meio de um processo formal, mas podem simplesmente emergir como um padrão de atuação, através das ações e experiências organizacionais. Ocorre que
Quando uma organização é dominada por uma cultura forte, seus membros são encorajados a cooperar; dessa forma, tende a haver uma divisão frouxa do trabalho, pouca especialização e uma distinção entre gerentes de linhas, grupos de assessoria, funcionários operacionais e assim por diante. Valores e crenças comuns a todos os membros mantêm unida a organização. Assim, cada pessoa pode ter considerável liberdade de ação, o que sugere uma forma quase pura de descentralização. Embora certas ordens religiosas e clubes sejam exemplos óbvios, vestígios podem ser encontrados em muitas organizações japonesas, bem como nas ocidentais organizadas em torno de uma cultura forte (MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 2000, p. 297).
No meio protestante ou evangélico, entende-se por missões o cumprimento da
Grande Comissão deixada por Jesus: “[...] ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo [...]” (Evangelho de Mateus
28:19). Desta forma, todas as pessoas que se dedicam a evangelização são consideradas missionárias. Os indivíduos que se dedicam a evangelização de um grupo étnico diferente da sua origem são considerados missionários transculturais. Existem pessoas que estão envolvidos com diversos trabalhos humanitários como, por exemplo, o socorro de crianças com alto risco social. Esses também são considerados missionários. Quando essa ajuda ao ser humano acontece em um grupo étnico diferente, a denominação “missionário” também é utilizada. Concluindo, o missionário transcultural é aquele que se dedica à evangelização ou a trabalhos humanitários diversos em um grupo étnico diferente de sua origem.
Para apoiar os trabalhos transculturais existem as agências missionárias nacionais e internacionais, as juntas denominacionais e os departamentos de missões. Tais instituições são centros especializados na gestão de preparação, encaminhamento, monitoração e cuidados nas diversas áreas da vida do missionário, processo que envolve o próprio missionário, sua família e seu campo de trabalho. As agências missionárias trabalham na vertente interdenominacional do Protestantismo, ou seja, não se dedicam a efetuar alianças por denominações. Contrariamente, tais juntas desenvolvem seu trabalho somente com organizações da mesma denominação. O departamento de missões é o segmento dentro da igreja local especializado ou direcionado para a atividade missionária local ou transcultural.
As organizações missionárias estudadas nesta pesquisa são instituições do ramo do cristianismo conhecido como “protestante”. Em alguns países, inclusive no Brasil, este
termo “protestante” é substituído por “evangélico”. Segundo estudos estatísticos da Sepal (2011), projeções estatísticas apontam que a igreja evangélica possui, atualmente, 50 milhões de membros no Brasil, porém, há que se ressaltar que este número é uma projeção baseada em dados do IBGE da década anterior. No último censo IBGE-2010, a coleta de dados referente à religião da população brasileira não foi realizada.
O objeto de estudo desta pesquisa está centrado nas organizações missionárias e, principalmente, nas agências missionárias e possíveis juntas de missões. Tal opção decorre do fato de as agências missionárias e as juntas de missões possuírem o maior número de missionários expatriados concentrados, em razão do vínculo existente entre elas. Serão incluídos, também, departamentos de missões de algumas igrejas locais, visando as aplicações metodológicas necessárias.