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Com a proposta de contribuir para a expansão dos estudos sobre organizações do Terceiro Setor, esta pesquisa centrou-se na aplicação do conceito científico de liderança servidora no exercício da expatriação e na gestão das organizações nele envolvidas, especialmente as de perfil missionário, alcançando plenamente seu objetivo de avaliar a validade da escala proposta por Patterson (2003), e demonstrar a possibilidade de sua adequação ao exercício da liderança servidora manifestada em atividades missionárias de expatriados.

Para tal mister, foram resgatados, dos registros científicos sobre o tema, os diversos atributos e modelos de liderança servidora, com destaque, na fundamentação teórica, para a distinção entre liderança transformadora e servidora. Em função da maior adequação das variáveis à realidade das organizações missionárias, e considerando-se o fácil acesso a importantes pesquisas aplicadas, optou-se pela revisão e aplicação do modelo de Patterson (2003) em Moçambique, na África.

Pôde-se comprovar, ao final deste estudo, a importância da metodologia empregada na construção da escala, que, pautada na tradução do inglês para o português e sequente tradução reversa do questionário utilizado no modelo de Patterson (2003), na sequência, passou por uma etapa de eliminação das inconsistências linguísticas do inglês para o português, e por uma posterior adequação do português brasileiro para o moçambicano. Após tais ajustes, a escala foi acrescida da vertente “Adaptação”, com o conteúdo das perguntas ancorado nos conceitos de liderança servidora, resultando num apurado e confiável instrumento de investigação científica.

Os resultados demonstram que 64% das variações no construto “Adaptação” são explicadas pelos construtos independentes do modelo de Patterson (2003), enquanto os outros 36% são explicados por outras variáveis. Isso demonstra que a escala proposta por Patterson (2003) é adequada à mensuração do exercício da liderança servidora manifestada nas organizações missionárias, existindo, porém, adaptações e ponderações que necessitam ser consideradas. A estatística descritiva, que considera as médias e desvios-padrão dos indicadores de mensuração da avaliação de relacionamento, de uma forma geral, apresenta um elevado nível de concordância.

Destacou-se, nos resultados, a supremacia dos atributos “Visão”, “Amor” e “Altruísmo”. O construto independente que apresentou o maior impacto estatisticamente

significativo foi “Visão”. Esse resultado respalda a teoria apresentada no modelo 1 e 2 de Russel e Stone (2002) e no modelo de Patterson (2003). No modelo de Page e Wong (2000), esse atributo está na linha da liderança com foco na tarefa, e isso aponta para as discussões entre liderança transformadora e servidora realizadas nesse estudo. Analisando os resultados da solução fatorial do construto “Visão”, apesar de se confirmar a hipótese de que os moçambicanos acreditam na visão dos missionários brasileiros e das organizações missionárias, e consideram importante o compartilhar dessas visões, verificou-se a fragilidade de sua esperança, no que concerne às aspirações pessoais.

Assim, pode-se afirmar, que quanto maior a visão do “companheiro brasileiro de ministério”, maior a sua habilidade de adaptação na nação estrangeira. Tal resultado confirma a descrição das organizações missionárias como detentoras de um rico sistema de valores e crenças compartilhadas entre seus membros, cujo profundo senso de missão, liderança carismática e respeito às tradições representam o reforço de identificação dos indivíduos com a organização.

A adequação do modelo proposto para o construto Amor, em razão do mesmo sugerir duas dimensões diferenciadas (afeto e tolerância), resultou nas variáveis “Amor” e “Equilíbrio”, com a primeira referindo-se à gentileza, demonstração de compaixão, perdão e cuidado com os outros. E na análise dos resultados da solução fatorial do construto “Amor”, ficou comprovado que, na opinião dos moçambicanos, o amor representa a segunda dimensão mais relevante e necessária “no companheiro brasileiro de ministério”, ficando abaixo somente do construto “Visão”, enquanto a variável “Equilíbrio” não apresentou impacto estatisticamente significativo. Desta forma, conclui-se que, no relacionamento com os nativos, os expatriados necessitam demonstrar gentileza, compaixão, capacidade de perdão e cuidado.

O outro construto que apresentou impacto estatisticamente significativo foi “Altruísmo”. Por se tratar de um fator inerente à personalidade do líder servidor, ou seja, daquele que serve pelo simples desejo de servir, tal resultado comprova que a identidade pessoal autêntica é um atributo importante na relação entre “companheiros brasileiros de ministério” e os moçambicanos.

Os dados encontrados nos construtos “Serviço” e “Confiança” conceberam resultados curiosos se comparado com a teoria da liderança servidora, pois constatou-se que esses dois construtos não tiveram impactos estatísticos significativos. Considerando- se, pois, que a confiança é um atributo central nos relacionamentos, pode-se concluir que tais resultados não contrariam a teoria sobre liderança servidora, e sim, ao contrário,

reforçam as afirmações de que tal liderança somente poderá ocorrer em culturas e filosofias com alto nível de confiança, onde os chefes se transformem em servos e treinadores. Neste sentido, infere-se que o fator cultural e/ou a perspectiva imaginária da liderança precisam ser teoricamente considerados. Para os expatriados brasileiros de qualquer tipo de organização fica o grande desafio da construção de confiança nos relacionamentos, para que o exercício da liderança e o processo de adaptação cultural alcancem resultados satisfatórios.

Como demonstrado neste estudo, o construto Delegação e Humildade mostrou uma única dimensão na perspectiva dos moçambicanos, o que levou à necessidade de um tratamento unificado dos dois conceitos, e consequente modificação do modelo proposto. O resultado do teste de impacto desses construtos na Adaptação apresentou aspectos curiosos. O primeiro refere-se à ausência de impacto estatisticamente significativo, pois ao nível de 10%. Entretanto, observando a correlação do construto Delegação e Humildade com os construtos Amor e Visão, pode-se alçar e ressaltar a presença da multicolinearidade, o que revela uma limitação do estudo, uma vez que os coeficientes foram da ordem de 0,90%. O que se conclui é que a presença deste nível de correlação tão elevada tornou difícil a verificação do efeito dos construtos de forma individual na Adaptação (construto endógeno), isto porque os efeitos separados de cada VI sobre a variável dependente ficaram misturados. E neste caso, a tendência é que a primeira variável independente com maior correlação absoluta com a variável dependente, apresente um efeito significativo sobre tal variável, enquanto as demais variáveis independentes relacionadas à variável dependente apresentem pesos não significativos, podendo ocorrer até mesmo uma reversão desses pesos.

O caso do construto Delegação e Humildade foi o mais aparente, uma vez que ele

apresentou coeficientes de correlação com os construtos Amor e Visão da ordem de 0,90, sendo os dois últimos os de maior impacto no construto Adaptação. Assim, ficou demonstrado que a correlação entre “Delegação e Humildade” e “Amor” e “Visão é positiva, ou seja, elas variam no mesmo sentido (quanto maior a delegação e a humildade, maior a visão e o amor). Entretanto, apesar do “Amor” e “Visão” terem apresentado um impacto positivo na “Adaptação”, o impacto do construto “Delegação e Humildade” foi negativo, ainda que não significativo, levando a dois questionamentos. O primeiro é se o construto “Delegação e Humildade” realmente não apresentou impacto no construto “Adaptação”, ou se tal impacto foi mascarado pela alta correlação existente com os construtos “Amor” e “Visão”, que apresentaram os maiores impactos no construto

“Adaptação”. O segundo, também decorrente da elevada correlação, levanta a hipótese do impacto do construto “Delegação e Humildade” ter sido realmente negativo (caso exista) na Adaptação, ou do fato de uma parcela da amostra ter considerado a relação como negativa, enquanto outra a considerou positiva.

Assim, há que se concluir que, nesta pesquisa, a multicolinearidade pode ter resultado da dificuldade dos respondentes em diferenciar os diversos conceitos abordados, dado ao baixo nível de escolaridade da maioria e sua inexperiência em responder esse tipo de questionário, e ainda, ao fato de este ser um problema comum a muitas pesquisas que utilizam o método de equações estruturais.

Outra hipótese de cunho qualitativo, pois originada do contato do pesquisador com a população em estudo, é de que por uma questão cultural, ou pela perspectiva imaginária do moçambicano, “demonstrar humildade e delegar” pode transmitir a ideia de “ser uma pessoa fraca”. Esta mesma impressão foi relatada pelos missionários brasileiros ao pesquisador. Tal constatação constitui um dos pontos interessantes a ser tratado em pesquisas futuras, especialmente, em abordagens qualitativas que suportem tal hipótese.

Sugere-se, também, a abordagem deste tema em pesquisas qualitativas que confirmem os resultados e as hipóteses levantadas, especialmente, o fator cultural demonstrado nos resultados dos construtos “Confiança”, “Serviço”, “Humildade e Delegação”. Tais estudos tornarão mais consistentes os registros científicos sobre a liderança de vertente cultural. Sugere-se, por outro lado, o desenvolvimento de pesquisas sobre liderança servidora em outros tipos de organização do Terceiro Setor e, até mesmo, naquelas com fins lucrativos. Indica-se também, especialmente em pesquisas qualitativas, a concentração da coleta de dados com líderes de destaque nas nações estudadas, por possuírem maior capacidade intelectual para respostas e análises. No caso de pesquisas quantitativas futuras envolvendo populações com baixo nível de instrução, recomenda-se a utilização de uma escala Likert com gradação menor.

Entre as principais limitações encontradas neste estudo, destaca-se o problema da possível existência de multicolinieridade, o baixo nível de instrução dos entrevistados e a baixa disposição dos mesmos em responder os questionários, em razão do elevado número de perguntas. Tal circunstância também foi a causa principal da eliminação de questionários da amostra devidamente respondidos.

Este estudo trouxe uma consistente contribuição teórica, principalmente, no campo das discussões sobre liderança, liderança servidora e fator cultural. No campo metodológico, a principal contribuição foi a validação da escala do modelo utilizado. A

contribuição empírica é representada pela disponibilização do questionário traduzido e validado para aplicação na análise de futuros líderes a serem expatriados.

Há que se ratificar, pois, a importância do tema no âmbito da Ciência da Administração, especialmente, no que se refere à necessidade de aprofundamento do estudo de seus aspectos mais significativos abordados nesta pesquisa. Portanto, muitas de suas variáveis podem ser retomadas, partindo dos questionamentos levantados, de forma a serem ampliadas, refutadas, enfim, devidamente avaliadas no bojo de um dinamismo próprio da realidade organizacional sempre em permanente evolução.