Apenas no final do séc. XIX os cientistas iniciaram pesquisas a respeito do desenvolvimento embrionário. Nesse período, descobriram que o óvulo desempenhava papel importante para a fecundação humana, desmistificando a idéia de que apenas o homem, com seu espermatozóide, era o responsável pela geração de vida humana, sendo a mulher considerada mero receptáculo para o novo ser.
Em meados do séc. XX, foi descoberto o processo de meiose celular, que originava as células reprodutoras, e, através da união do espermatozóide com o óvulo, fazia surgir um pequeno ser, possuidor de metade do material genético da mãe e metade do pai.
Apenas na década de 50, graças aos trabalhos de dois grandes geneticistas, Watson e Crick, foi possível desvendar a estrutura do DNA, o material genético primordial de todo ser humano. Daí para frente, os avanços na área da genética foram espantosos e em curto espaço de tempo foi possível o desenvolvimento de técnicas de manipulação do material genético e de fertilização humana em laboratório.
O final da década de 1970 assistiu o nascimento de bebês de proveta, a ficção de Aldous Huxley ganhava forma e se tornava realidade com o nascimento de Louise Brown. Após esse, vários outros bebês de proveta surgiram em todo o mundo. Aperfeiçoaram-se as técnicas de reprodução assistida, surgindo novas tecnologias na área.
Um fato pouco conhecido é que os humanos estão entre as criaturas menos férteis sobre a terra, há apenas um período bem curto dentro do ciclo menstrual durante o qual a concepção é possível, o que faz com que as chances de concepção sejam de apenas 20% a cada mês, de acordo com Anasti (1998).
Tognotti (1997) postula que a reprodução entre os seres humanos traduz um processo complexo e envolve o equilíbrio entre estruturas morfológicas, funcionais e comportamentais.
A complexidade das etapas necessárias para que aconteça a reprodução humana explica como o processo não ocorre com 100% de eficiência. Estima-se que um casal fértil, sem contracepção, tenha 20 a 25% de chance de gravidez, a cada ciclo menstrual. Assim, em doze ciclos de tentativas, o casal fértil alcançaria uma taxa cumulativa de 92 a 95% de chance de gravidez, conforme Brandi et al (1997).
Petracco & Badalotti (1997) apontam os fatores que determinam o desenvolvimento adequado do processo reprodutivo.
1 – Que os espermatozóides sejam produzidos em número e qualidade adequados, resultado da função testicular.
2 – Que os espermatozóides sejam depositados na vagina, resultado do processo de copulação. É necessária a integridade anatômica e funcional dos aparelhos genitais masculino e feminino.
3 – Que a copulação aconteça no momento correto, ou seja, no período periovulatório.
4 – Que os espermatozóides experimentem livre trânsito pelo aparelho genital feminino, fato denominado espermomigração.
5 – Que os ovários sejam normais, com um número adequado de folículos primordiais e que recebam estímulos hormonais responsáveis pelo recrutamento, seleção e postura de um oócito maduro.
6 – Que exista um conduto tubário patente capaz de permitir o trânsito dos espermatozóides e de albergar o processo de encontro e fusão com o oócito. Deve ainda proporcionar nutrição para essa nova célula e franquear as várias etapas da divisão celular durante seu transporte até o útero. 7 – Que o útero esteja apto a receber o embrião e assegurar sua nidação, e propicie a interação ovo-mãe, permitindo o desenvolvimento do concepto até que exista maturidade para a vida extra-uterina.
Para as mulheres, fertilidade significa a habilidade de engravidar e ter um bebê. O aparelho reprodutor feminino compreende: dois ovários, duas trompas de Falópio, útero e vagina. Os ovários localizam-se abaixo das trompas de Falópio, um em cada lado do útero. Em cada ovário encontramos uma parte de tecido conjuntivo pela qual penetram vasos sanguíneos, uma camada na superfície externa recoberta por um epitélio germinativo e logo abaixo deste, a porção cortical do ovário, relacionada principalmente com o desenvolvimento dos óvulos e a secreção dos hormônios ovarianos, de acordo com Piato (1981).
Os anos reprodutivos da mulher começam quando ela inicia seus ciclos menstruais durante a puberdade, entre 10 e 13 anos e a capacidade de ter um filho acaba em torno dos 45 anos de idade, embora seja potencialmente possível para uma mulher engravidar até que seus ciclos menstruais cessem com a menopausa, por volta dos 50 anos.
Quando um bebê do sexo feminino nasce, já têm em seu corpo cerca de 400.000 ovos imaturos, oócitos, que são armazenados em seus ovários. Na idade reprodutiva, começa a ter ciclos menstruais mensais e durante cada ciclo, o ovário libera um ovo, ou menos comumente, mais do que um, que pode vir a juntar-se com o espermatozóide de um homem e dar início a uma gravidez. O desenvolvimento e a liberação do ovo dependem de um delicado equilíbrio de hormônios, alguns desses desenvolvidos nos ovários e outros provenientes de duas glândulas situadas no cérebro, o hipotálamo e a pituitária.
Segundo Petracco et al (1999), a partir destes aspectos fisiológicos, foram estabelecidos critérios para definir o conceito de infertilidade. Na prática clinica, o período de 12 meses foi definido após a constatação de que 80% dos casais engravidam em um ano de tentativa.
Conforme Gnot et al (2005), após este período, a taxa de nascidos vivos cai para 55%. Após 48 meses, aproximadamente 5% dos casais são definitivamente estéreis, com uma chance em torno de 0% para conseguirem conceber naturalmente no futuro.
A Associação Americana para Medicina Reprodutiva considera infertilidade a falta de gestação detectada, clínica e hormonalmente, após 12 meses de relações sexuais normais, sem anticoncepção. Esse critério apóia-se na observação de que 80% dos casais engravidam em um ano de tentativa, conforme Petracco & Badalotti (1997).
Brandi et al (1997) consideram o período de um ano para conseguir engravidar estatisticamente significativo e importante do ponto de vista clínico.A Organização Mundial de Saúde (OMS), citada por Petracco et al (1999), recomenda, no entanto, uma classificação mais conservadora, ampliando o período para dois anos.
Infertilidade é a incapacidade de um e/ou dos dois cônjuges, quer por causas orgânicas ou não, obter gravidez no período conjugal de no mínimo 1 ano, sem o uso de contraceptivos e com vida sexual ativa. Vale ressaltar que esse critério é também utilizado pela Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE).
Uma vez esgotado o prazo estabelecido, inicia-se a investigação das possíveis causas da infertilidade. Entretanto, Tognotti (1997) considera que outros parâmetros também justificam o início da pesquisa propedêutica antes desse período, como, por exemplo, a idade avançada da mulher, histórico de inflamação pélvica, complicações infecciosas pós-aborto ou parto, alteração em espermograma anterior e dificuldade na relação sexual.
A infertilidade afeta aproximadamente 10 a 15% dos casais em idade reprodutiva, porém, a incidência da infertilidade varia intensamente conforme a região geográfica a ser analisada. Em termos gerais, estima-se que possa variar entre 10 e 30% dos casais em idade fértil.
Aspectos geográficos e socioeconômicos da população constituem fatores relevantes para a saúde reprodutiva. A incidência do problema varia segundo a presença dos fatores de risco para a infertilidade nas diferentes populações, conforme Tognotti (1997).
Brandi et al (1997) indicam que nos países industrializados, a incidência da infertilidade em mulheres na idade fértil é de 3,6 a 14,3%. Em algumas regiões da África, a prevalência da infertilidade chega a atingir 30% da população em idade fértil.
De acordo com Tognotti (1997), não se dispõe de dados estatísticos precisos sobre a incidência de infertilidade na população brasileira, mas esse índice deve ser expressivo devido à presença acentuada de processos infecciosos pélvicos adquiridos por contato sexual, nos partos ou em abortos realizados em condições inadequadas.
A infertilidade afeta aproximadamente 80 milhões de pessoas no mundo inteiro. Conforme o manual de reprodução humana da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia), citada por Febrasco (1997), a infertilidade pode ser dividida em:
- Primária: significa que a mulher nunca concebeu, apesar da prática de coitos regulares sem anticoncepção por um período mínimo de dois anos.
- Secundária: refere-se à mulher que já concebeu anteriormente, todavia não volta a fazê-lo, apesar de manter atividade sexual regular sem anticoncepção por um período mínimo de dois anos, incluindo, neste caso, o abortamento e a gravidez ectópica.
De modo geral, foi constatado que nos últimos anos, houve uma diminuição significativa no índice de fertilidade. Toulemon apud Petracco & Badalotti (1997) menciona que esse declínio traduz a queda da fertilidade no final da vida reprodutiva da mulher, principalmente na faixa dos 30-35 anos.
De fato, a idade é um aspecto importante a ser considerado na infertilidade. No caso específico da mulher, Brandi et al. (1997) apontam que de 20%, a chance de engravidar até os 30 anos diminui para 5% nas mulheres acima dos quarenta.
Speroff et al (1995) defendem que o aumento do número de casais estéreis tem relação com o envelhecimento da população, com o aumento da expectativa de vida. O envelhecimento causa uma diminuição da quantidade e qualidade dos
folículos ovarianos. Cerca de 4% das mulheres entre 15 e 24 anos tem fertilidade prejudicada, 13% entre 25 e 24 anos e aproximadamente 30% entre 35 e 44 anos.
Para o homem, o efeito da idade sobre a capacidade reprodutiva não é tão devastador. Segundo Tognotti (1997), estima-se que, na faixa dos 64 anos, a taxa de fertilidade masculina possa cair 36%, quando comparada com as idades de 20 a 24 anos.
Petracco & Badalotti (1997) observam que, além dos fatores biológicos e fisiológicos, outros aspectos relativos ao estilo de vida e ao meio ambiente têm influência sobre a capacidade reprodutora. Como fatores relativos ao estilo de vida, são apontados a dieta, o estresse, fumo, álcool, freqüência coital e drogas recreacionais e medicinais.
Quanto à questão etiológica, a infertilidade pode ser de origem masculina, feminina ou combinada. Vários autores apontam a importância de se considerar a infertilidade uma condição do casal, o que leva à necessidade de se proceder uma investigação completa tanto no homem como na mulher.
A infertilidade é um problema que afeta tanto as mulheres quanto os homens, abarca a vida humana em toda sua complexidade e em todos os âmbitos. Pode ser descrita como uma crise vital, na qual se atribui múltiplos fatores e que se traduz em um enorme desgaste emocional. Numa sociedade onde a validação social é formada pela construção cultural de gênero de papéis, a questão da reprodução ocupa um papel significativo, segundo Appleton (1999).
A literatura descritiva apresenta a infertilidade como uma experiência devastadora, comparando-a ao diagnóstico de uma doença crônica grave. Muitos fenômenos orgânicos e psíquicos podem ser observados na vivência da infertilidade: estresse, ansiedade, depressão, repressão de reações emocionais, desejo freqüente de adotar rapidamente uma criança e a necessidade de caráter urgente em incorporar-se em algum programa de fertilização assistida, conforme Connoly et al (1996).
O alto custo financeiro do tratamento, a necessidade de procedimentos cirúrgicos e a invasão da intimidade sexual do casal são adicionais fontes de estresse. Casais inférteis podem sofrer sentimentos de inadequação, desamparo, tristeza, inveja, ciúmes em torno de mulheres grávidas, medo, baixo desejo sexual. Nos homens a ocorrência de disfunção erétil, instabilidade emocional, baixa auto-estima, culpa, depressão e idéias de suicídio.
Um aspecto singular da infertilidade é seu caráter cíclico, que mobiliza profundamente o casal, já que no início do ciclo menstrual há a vivência de esperança com a possibilidade de uma possível gravidez. Num curto período de tempo, aproximadamente 15 dias, também ocorre a vivência de fracasso, quando por fim acontece a menstruação e mina o sonho da maternidade e paternidade.
De modo geral, a origem da infertilidade é exclusivamente feminina em cerca de 30% dos casos, exclusivamente masculina em 30% dos casos e uma combinação de ambos os parceiros tendo anormalidades detectáveis em 10-30% dos casos. A literatura mostra que em 10-20% dos casos a infertilidade não apresenta causa aparente, sendo classificada como infertilidade psicogênica, conforme Thiesen et al (2002).
OBJETIVO
Esta pesquisa tem por objetivo investigar o psiquismo de mulheres inférteis através da utilização do método de Rorschach (Sistema Compreensivo). O presente estudo se propõe a verificar se os resultados obtidos no protocolo de Rorschach corroboram com os dados encontrados em estudos anteriores, que referendam a manifestação de estresse e depressão em mulheres submetidas a procedimentos de reprodução assistida.