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III. MATERIALES Y MÉTODOS

18. Inmunohistoquímica

Decidida a atender ao pedido de Dilma Moraes, inspirei-me no enredo “de poeta, carnavalesco e louco todo mundo tem um pouco”, como reza o samba do

Salgueiro31 do carnaval de 1997, que diz: “Barca, me leva, pelos caminhos do Sol, e do meu sonho eu não quero acordar, visto a arte em fantasia, pra fazer meu povo delirar”.

Tomei a barca e segui em direção ao sol e ao sonho, dedicando à tarefa de ter

uma ideia e escrever um enredo os mesmos valores que sempre dediquei à criação de

campanhas publicitárias. Pesquisei enredos passados nos cancioneiros de Belém e no Guia Abre-Alas, do Rio de Janeiro, não somente para relembrar ou conhecer enredos já realizados, como também para ver de que forma eram escritos. Lembro de ter reunido a equipe do departamento de criação da Castilho Propaganda, no que – hoje percebo – parece ter sido um verdadeiro delírio carnavalesco, na intenção de envolvê-los na concepção daquele projeto, para mim muito similar à organização de uma campanha.

O tema onde fui buscar o meu primeiro enredo era a praça cotidiana da publicitária – o comércio de Belém. Mergulhei em pesquisas históricas, observações de comportamentos de vendedores e consumidores, além de idas e vindas ao comércio e aos mercados de Belém, observando sempre, como fazia quando se tratava de uma campanha publicitária. Enquanto pensava em escrever o texto, minha mente era tomada por imagens reais ou imaginárias pré-transformadas em fantasias e alegorias que passeavam em meu mundo particular de pensamentos; eram as imagens que me traziam textos soltos que depois organizei em um texto final.

Entre as qualidades colocadas por Ítalo Calvino em Seis propostas para o

próximo milênio, a visibilidade é bastante adequada para descrever este meu primeiro processo de criação e escrita de um enredo:

Quando comecei a escrever histórias fantásticas, ainda não me colocava problemas teóricos; a única coisa de que estava seguro era que na origem de cada um dos meus contos havia uma imagem visual.

A primeira coisa que me vem à mente na idealização de um conto é, pois, uma imagem que por razão qualquer apresenta-se a mim carregada de significado, mesmo que eu não saiba formular em termos discursivos ou conceituais. A partir do momento em que a imagem adquire uma certa nitidez em minha mente, ponho-me a desenvolvê- la numa história, ou melhor, são as próprias imagens que desenvolvem suas potencialidades implícitas, o conto que trazem dentro de si. Em torno de cada imagem formam-se outras, forma-se um campo de analogias, simetrias e contra-posições. Na organização desse material, que não é a apenas visivo mas igualmente conceitual, chega o momento em que intervém minha intenção de ordenar e dar um sentido ao desenrolar da história – ou, antes, o que faço é procurar estabelecer os significados compatíveis ou não com o desígnio geral que gostaria de dar à história, sempre deixando certa margem de alternativas possíveis (Calvino, 1990, p. 104).

Em pouco mais de um mês, após o convite apresentei o enredo “Sou paraense

vendedor, com muito orgulho, sim senhor” como proposta para o carnaval de 2005 da

Academia de Samba Jurunense. A seguir, o texto do enredo e o samba-enredo:

Q

UADRO 2

Academia de Samba Jurunense 2005 ENREDO e SAMBA-ENREDO

Sou paraense vendedor, com muito orgulho, sim senhor!

Cláudia Palheta

Este enredo objetiva apresentar de maneira menos histórica e mais divertida a principal atividade econômica do estado do Pará, mais precisamente de Belém – O COMÉRCIO – através de seu melhor representante – O VENDEDOR – que habita em todos nós, desde a fundação de Belém até os dias de hoje.

SETOR 1: Fatos da nossa história

De onde vem esse jeito paraense pra ser vendedor? Nessa Belém onde tudo se encontra, como foi que isso começou? Muitas histórias se ouvem de povos que por aqui passaram, mas do que mesmo sabemos é que comércio como hoje conhecemos, foram os portugueses que começaram. Ora, pois, vamos então, sem mais embromação, dar contas de como foi que começou e se formou esta nossa profissão.

Após a expulsão dos franceses do Maranhão em 1615, o rei mandou que uma força expedicionária comandada pelo capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco fosse rumo ao Pará e tratasse de consolidar a posse da região. Chegaram então em 12 de janeiro de 1616, entrando pela Baía de Guajará (rio Pará), desembarcando numa ponta de terra firme. Pronto – fez-se o primeiro contato do português com o tupinambá. Sujeitos espertos os portugueses (que não andavam por aí a encontrar-se com índios de mãos vazias) já chegaram por aqui com espelhos, panelas, vasilhas e todo tipo de utensílios, pois a esta altura dos acontecimentos já se sabia que nestas terras muita riqueza havia. E foi assim que começou o troca-troca e num tal de me dê lá aquilo que cá te dou isso, o negócio foi estabelecido para não mais ter fim. Trouxeram patos e muitas galinhas, também hábitos ainda hoje praticados. Pão quentinho, queijadinhas, doces e guloseimas ainda não vistas por aqui pela terra do beiju e da farinha, e juntaram tudo num só lugar ao qual chamaram mercearia ou bodega. Criaram engenhos de açúcar, rasparam a borracha, e com tanto gosto pela navegação, abriram os portos ao comércio internacional para que, a partir de então, quando já estava bem resolvido a quem estas terras pertenciam, viessem gentes de outros mundos participar da transação.

Com os portugueses vieram muitos judeus – sujeitos bons na arte de negociar. Depois vieram os negros nos engenhos labutar e os que diziam ser seu sinhô também os colocaram nas ruas com tabuleiros nas mãos a vender doces, cigarros e quitutes, a fim de o patrão sustentar. De tanta lida a cozinhar, as negras não tardaram a se tornar quituteiras de mão cheia neste nosso lugar, sendo hoje a maioria, entre vendedeiras de iguarias e tacacá.

Então vieram os ingleses, comerciar com os portugueses, querendo participar da renda do lugar, mandaram aqui montar o maior mercado que até hoje há – o mercado de ferro, hoje Ver-o-peso – aconselharam os portugueses a acabar com

a escravidão, para transformar os escravos em trabalhadores e consumidores nessa nossa região.

Os árabes habituados a ir onde o freguês está, vendo que nossas ruas eram rios, estabeleceram por aqui o sistema do regatão, levando numa embarcação às mais longínquas paragens, além de gêneros e secos e molhados, broches, pulseiras, colares, retalhos de seda e chita, de tantas cores quanto fosse preciso, dando ainda mais cor à nossa terra e nossa gente, que já de tão misturada, nesse vai e vem de mascates, mais colorida ficava. Foram os árabes também que para cá trouxeram o café, bebida gostosa e pretinha, que casou perfeitamente com a nossa tapioquinha. E ainda que não sentíssemos a menor vergonha de andar nus, puseram-se a convencer-nos da necessidade de vestirmos roupas. E nós, muito mais por vaidade do que por real necessidade, fomos nos acostumando com as vestes e adquirindo gostos requintados pelas cartolas, gravatas, fru-frus e babados, da autêntica moda européia, aqui muitíssimo bem propagada pelos franceses, que fizeram despertar nosso gosto pelo modismo importado dos países além-mar.

E foi assim, vendendo de tudo um pouco desde o início, que nos formamos nesta profissão. E com o passar do tempo e a chegada de outras ideias, passamos cada vez mais a valorizar tudo o que há em cada canto deste Pará. Dos rios, da terra e da arte de trançar, redes e delícias da cidade ou do interior, comércio de centro, comércio ribeirinho, sofisticado ou popular, vamos conquistando os que chegaram e os que ainda vão chegar.

SETOR 2: A evolução do mercado e propaganda encomendada

Vendo na feira, no mercado, no shopping, na rua, de porta em porta, em frente à própria porta. Vou a pé, de carroça, de carro, de caminhão. Tenho celular, sombrinha, roupa, sapato, flor, livro, aviamentos, naftalina e perfume importado, tudo de primeira qualidade e real necessidade.

E tão grandes tornaram-se as vendas, de tão variada escolha, que a concorrência foi preciso considerar e uma boa propaganda providenciar. E se tem coisa que sabemos fazer, tanto quanto vender, é chamar sua atenção para uma boa promoção. Preste atenção nos anúncios de jornal, outdoor, luminoso, rádio e televisão. É queima de estoque, é liquidação! Troque suas notas por cupons, você pode ganhar muitos prêmios e até um carrão, mas não perca a promoção! Vá ao supermercado e aproveite a oferta do dia, do peixe, da carne ou da feira. E não esqueça também de ir em nossas lojas e magazines, não perca o passo da moda pra você e para o lar. E nem precisa se preocupar em como você vai pagar, aceitamos moeda corrente, ticket, cheque, vale-transporte ou cartão. Leve com você uma nova casa que o preço é baixo e o pagamento sem entrada, sem juros em até 10 vezes, é mais do que facilitado.

SETOR 3: Regionalização e exportação. É a globalização.

Cupuaçu, jambu, açaí, cerâmica, carimbó, maniçoba, tucupi, delícias, graça e magia que, pode mesmo acreditar, você só encontra no Pará, mas se não puder vir pessoalmente pra conhecer a gente, pode pedir que a gente manda levar. Navego em meus rios e de tanto navegar, especializei-me no ofício, e agora dominando a virtualidade através de computadores, compro e vendo, da China e do Japão, negocio produtos num simples clic de botão. Pela internet meu comércio ganha o mundo, para onde mando produtos dos quais mais me orgulho “Made in Pará for World”. É só pedir por carta, e-mail ou celular, que na sua casa mando entregar, pizza, água, medicamentos, tudo o que você precisar, é aqui mesmo em Belém do Pará que você pode encontrar. Esse é meu ofício, meu produto é bom e agrada ao consumidor. Sou paraense, belenense, vendedor, com muito orgulho, sim senhor!

Estava pronto o primeiro enredo da publicitária/carnavalesca, um publicitário/ enredo, desenvolvido a partir de um publicitário método, que levava em consideração as necessidades do cliente (a diretoria da Academia de Samba Jurunense) de ter um enredo de fácil compreensão e execução, a percepção do público formado primeiramente pela comunidade da Academia de Samba Jurunense e em seguida por quem assiste ao desfile e pela comissão julgadora. Era um pouco da história e do cotidiano do comércio de Belém, contado com humor e um pouco de crítica.

Entreguei o texto à diretoria da Academia de Samba Jurunense na expectativa de que não só o enredo fosse aprovado, como também o valor cobrado: o de só permitir a utilização do enredo se eu mesma fosse a responsável pela concepção visual do desfile. Entrei para o carnaval através de um convite para escrever um texto e comecei a

fazer carnaval por meu desejo e pela decisão e responsabilidade que a Academia de Samba Jurunense tomou para si, de me lançar como carnavalesca, no grupo especial das escolas de samba de Belém, no desfile de 2005.

A Academia de Samba Jurunense foi a última colocada, mas não caiu para o segundo grupo graças a um acordo previamente firmado entre as escolas. O resultado decepcionante para a carnavalesca estreante tinha um ponto positivo para a publicitária, que havia se proposto a fazer o carnaval com pouco dinheiro para que a escola tivesse

SAMBA-ENREDO

Dio / Toninho / Magé / Ademar Carneiro

NO TOMA LÁ DA CÁ / NA BEIRA DO RIO PARÁ / O BEIJÚ E A FARINHA PELA BROA DOCE DE LÁ / TUDO FOI PARA NA BODEGA DO MANELIS PONTO DE ENCONTRO DOS MASCATES

TERRENO MARCADO A MANDO DO REI

MAIS UM LATIFÚNDIO PORTUGUÊS / LOGO O LIBANÊS CHEGAVA COM BOM DESCONTO ENALTECENDO A QUALIDADE

DEPOIS DO TRABALHO NOS ENGENHOS DO SENHOR NEGRO VIRAVA TAMBÉM VENDEDOR /

NO VER-O-PESO TUDO VALE QUANTO PESA

NA VIRAÇÃO, BOM E BARATO É / SÓ NÃO COMPRA QUEM NÃO QUER LÁ VEM O REGATÃO OFERECENDO AO RIBEIRINHO / LANÇAMENTOS EM PRÊT-À-PORTER / NAS VITRINES DO SHOPPING O ENCANTO / COMO É BELA A ARTE DE VENDER SEMPRE ANUNCIANDO PROMOÇÃO / EM OUTDOOR, JORNAL E TV / CRESCE A EXPORTAÇÃO

COM A GLOBALIZAÇÃO / PEDIDOS POR E-MAIL OU CELULAR / ENTREGA SEM DEMORA / O CLIENTE EM PRIMEIRO LUGAR SOU PARAENSE CAMELÔ/ACADEMIA COM AMOR /

ORGULHO JURUNENSE SIM SENHOR / NO COMÉRCIO INFORMAL EU BOTO BANCA / E FAÇO TODO DIA UM CARNAVAL

condições de saldar as dívidas do carnaval anterior. A Academia de Samba Jurunense começou o ano permanecendo no grupo especial e não ficou devendo nada a ninguém.