IV. RESULTADOS
4.2 Estudio de la actividad secretasa implicada en la producción de Aβ en animales 5XFAD tras
4.2.2 Estudio de la actividad β-secretasa
A linguagem escrita é a primeira forma que utilizo para dizer como a escola virá para a avenida, mas na minha criação essa escrita vem a partir de imagens imaginadas que passeiam em minha mente desde o primeiro momento em que eu sei qual será o enredo. Há um desfile particular, só meu, antes de qualquer outro. Entre minhas ideias imaginadas e a apresentação explicativa dessas ideias em textos, penso que ocorre uma conversão semiótica particular. Vejo formas e cores de fantasias e alegorias como se já estivessem na avenida. Imagens que surgem para mim em blocos de cores e movimentos coreográficos que organizo em textos para posteriormente, quando inicio os desenhos, retornar às imagens.
O texto escrito é a organização de meus pensamentos, a fim de que, além de mim, todos os que trabalharão na produção do desfile possam “ver” a escola. As imagens, quando passeiam em minha mente, me trazem emoções, movimentos, cheiros, sorrisos e muitos outros sentimentos que nem sempre são perceptíveis através de desenhos ou formas alegóricas. A escrita permite que cada leitor imagine a sua escola de samba na avenida e, particularmente no caso dos compositores, criem uma nova escrita – a letra do samba-enredo.
83 Samba-enredo do Salgueiro (RJ) de 2006 - Microcosmos: o que os olhos não vêem, o coração sente,
Os compositores do samba não criam o samba (letra e música) a partir de desenhos e sim a partir de textos e conversas. Recebem a sinopse do enredo, reúnem-se com os carnavalescos para maiores explicações e partem em direção ao seu modo construtivo de enxergar o desfile para o qual estão compondo o samba-enredo; um processo comum tanto em sambas encomendados como em festivais de samba-enredo, que costumam ocorrer entre os meses agosto a outubro. Os compositores participam, senão de todos, da grande maioria dos festivais, sem que necessariamente façam parte de uma ou outra escola de samba. É perceptível que o envolvimento é maior com a criação do samba do que com a escola.
A Bole-Bole, entretanto, ainda tem o que conhecemos como “compositores da escola”, mesmo que representados por apenas duas pessoas: seu fundador e hoje presidente de honra, Herivelto Martins (Vetinho), e seu parceiro Edson Ary84. Vetinho não espera pela sinopse, trabalha em cima do tema. Enquanto eu fazia minha pesquisa para escrever a sinopse de enredo, ele também fazia suas pesquisas. Enquanto eu escrevia a sinopse de enredo, ele me mandava, via e-mail, vez por outra, uma letra do samba, ativando um intenso processo de “circulação de ideias” para o desfile, conforme Cavalcanti:
Enredo e samba-enredo são um lugar de ampla circulação de ideias, onde ecoam e se reinterpretam os mais diversos tópicos do imaginário social nacional. Sua análise revela a integração tensa entre níveis distintos de cultura, pois a passagem do enredo a samba-enredo e a confecção deste último confrontam visões de mundo diferenciadas sintetizadas por dois personagens centrais no ciclo do desfile: o carnavalesco e os compositores (Cavalcanti, 1995, p. 81-82).
Vivi esta maneira de compor o samba “em casa” em 2010, e em 2011 eu já estava pronta para ela e passei a vê-la e a absorvê-la de maneira muito positiva: Vetinho tornou-se um consultor de minha sinopse como eu tornei-me uma consultora do seu samba. Muitas vezes o samba-enredo me trazia uma imagem que eu ainda não havia visto e eu inseria essa imagem no contexto da sinopse.
O processo convencional de apresentar a sinopse aos compositores para que eles elaborem o samba fora alterado para um processo que ia e vinha, circulando entre os criadores envolvidos: a carnavalesca e os compositores.
Comparando o texto da sinopse à letra do samba, é possível perceber que, enquanto a sinopse se concentra em encadear sucessivamente a história a ser contada na avenida, antecipando a organização da planta-baixa do desfile, a letra do samba brinca com o assunto, deixando-o leve, de fácil compreensão, além de reforçar signos de extrema importância a uma escola de samba: quem está na avenida? – “o Bole-Bole”; de que bairro é a escola? – “do Guamá”; que símbolo a representa? – “o sol”. Para além de cantar o enredo, o samba canta o bairro e a escola de samba, construindo e reforçando identidades de pertencimento dos sujeitos a um mesmo grupo e “localizadas em um território definido” (Rodrigues, 2008, p. 51).
A união das informações do enredo aos signos imprescindíveis da escola de samba na letra do samba-enredo facilitam a compreensão do enredo e a imediata identificação da escola por parte dos que cantam durante os ensaios e durante o desfile. Ocorre a conversão semiótica (Loureiro, 2007) quando a música criada pelo compositor, aliada aos partidos, paradas e viradas da bateria, à interpretação e aos breques do cantor principal e dos cortinas, convertem os signos lingüísticos do enredo e
Q
UADRO 9Associação Carnavalesca Bole-Bole 2010 SAMBA-ENREDO
Bonecos pra lá de animados.
Vetinho e Edson Ary
AI LIRI, AI LIRI, AIÔ ÔÔÔÔ / AI LIRI AIÔ ÔÔÔ SE ESCONDEU A LUA, UM LINDO SOL RAIOU O BOLE-BOLE VEM PRA RUA A FESTA NO GUAMÁ JÁ COMEÇOU
A ILUSÃO DO ARTISTA, DÁ ALMA À CRIAÇÃO COM AMOR E DENGO, O MAMULENGO
TRAZ ALEGRIA E EMOÇÃO / VEM COLORIR A POESIA “CATA-LENDAS” A BRINCAR
OS MASCARADOS, AS FANTASIAS ESSA FOLIA É MILENAR
FANTOCHES SÃO BICHOS, SÃO GENTE MARIONETES DA CULTURA POPULAR QUEM MANIPULA TEM DESEJOS TEM OS DELÍRIOS MAIS PROFUNDOS “TEM BONECOS NO CORTEJO” DE TODAS AS PARTES DO MUNDO OLHA, FAZ NO CORPO, MOVIMENTOS PÕE NOS OLHOS, SENTIMENTOS / EUFORIAS VERDADEIRAS
HOJE, FAZ ENREDO NA AVENIDA MINHA ESCOLA TÃO QUERIDA CARNAVAL É BRINCADEIRA
32-Bole-Bole 2011, desenho de ala da fada
da letra do samba em signo musical, absorvido e cantado por todos os que se envolvem com a atmosfera carnavalesca das escolas de samba.