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Godoy (2003) prefere utilizar três categorias para clasificar, dentro da Igreja Católica, os grupos divergentes: a um, chama de renovadores (progressistas com conotação ideológica); outros são moderados formando o grande centro; e, finalmente, o setor conservador. Por outro lado Wanderley (2003, p. 461) nos adverte que devemos ter muito cuidado ao classificar algum grupo ou alguém como conservador, progressista, moderado. A “adequação não pode ser entendida ao pé da letra. [...] muitas vezes no cotidiano há uma mistura e não é raro alguém assumir posturas conservadoras em assuntos religiosos e progressistas em assuntos seculares, ou vice-versa”.

É nessa dinâmica contraditória que se entrelaçam linhas renovadoras e linhas mais tradicionais de eclesiologia. O cuidado está em respeitar as divergências, evitando o enfraquecimento da fraternidade ou a quebra da unidade. Acredita-se que o pluralismo no episcopado deve contribuir para o fortalecimento da igreja. “Aqui está em jogo a questão da unidade na diversidade. [...]. Nesse contexto, a CNBB torna-se caixa de ressonância de debates calorosos”. (CALIMAN, 2003, p. 416).

Dra. Zilda Arns, médica pediatra e sanitarista, fundadora da instituição, em entrevista (2004), declara que a década de 1980 foi marcada por muitos conflitos sociais no mundo, no Brasil, e também na igreja. Apesar dos novos sopros de renovação, as tensões e as divergências entre os bispos e religiosos eram constantes.

Nessa época, as questões giravam em torno da disseminação das Comunidades Eclesiais de Base e da divulgação da Teologia da Libertação26 no

Brasil por grupos progressista católicos, cujo expoente maior era o franciscano Leonardo Boff. Ocorriam dois movimentos opostos, de forma que existia “uma ala que incentivava a participação da Igreja na construção da sociedade democrática e outra que crescentemente se fechava nos assuntos internos”. (GODOY, 2003, p. 394).

Uma Igreja que sendo corpo místico de Cristo passava pelo calvário das diferentes concepções de ser e fazer Igreja: “época muito incerta, de muitas

26 Teologia comprometida com os expropriados da América Latina e que defendia o nascimento de uma igreja como Povo de Deus. Além de Leonardo Boff, no Brasil, contou-se com a participação do peruano Gustavo Gutierrez e Juan Luiz Segundo, do Uruguai, como principais formuladores dos pressupostos teológico-filosóficos da teologia da libertação. Sobre a proposta de eclesiogênese consultar BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. São Paulo: Àtica, 1994.

dificuldades. Uma parte da igreja não entendia”AP1. A fala desse Agente Pastoral

remete-nos a ocorrência de discussões entre as alas conservadora e progressista da Hierarquia da Igreja Católica em torno da criação da PCr. Não havia um consenso. “Uma parte”AP1 resistia, mas por quê? “Existia o temor, de alguns grupos dentro da

CNBB, de se cair em um mero assistencialismo”. (HOROCHOVSKI, 2003, p. 35). Ou mesmo, de estarem criando uma instituição que estivesse substituindo as políticas sociais do Estado, sob influência da ideologia do terceiro setor.

Outro conflito era gerado pela dificuldade em entender a finalidade da nova pastoral, diante da existência da Pastoral do Menor, que desde 1977, em São Paulo, atendia às crianças pobres em situação de risco.

Quando questionei Dra. Zilda Arns a esse respeito, fez questão em distinguir a natureza e o tipo de atuação das duas pastorais sociais. Procurou esclarecer que a Pastoral do Menor trabalha com a criança desamparada ou em situação de rua, visando a reintegração social por meio da escola e da aprendizagem profissional; enquanto que a Pastoral da Criança traz o desenvolvimento da proposta de educação em saúde, no combate à desnutrição e à mortalidade infantil, pelo acompanhamento de crianças desde a gestação aos seis anos de idade, no âmbito familiar e comunitário. Nesse sentido, afirma que o trabalho da PCr é de natureza preventiva, pela educação em saúde, o que difere da proposta de reintegração social da Pastoral do Menor.

No princípio, “havia uma certa confusão, uma certa dúvida, que aos poucos, ao longo dos anos foi clareando”AP1. Esse Agente Pastoral admite que diante da

criação de mais uma pastoral, foram inevitáveis os sentimentos de insegurança e de conflito. Somente o passar do tempo revelou que as duas pastorais sociais possuem objetivos distintos, cada qual com uma maneira específica de atuação ao se estruturarem em nível paroquial, diocesano, regional e nacional.

Em torno das questões de possuir caráter assistencialista ou não e do perigo de substituir uma outra pastoral social, respectivamente, estava em jogo a conquista pela legitimidade e pelo reconhecimento. Até que a PCr fosse reconhecida, o trabalho sofreu muitas críticas e resistência por grupos da própria igreja. Dra. Zilda Arns Neumann (2003b, p. 77 e 79) conta que:

[...] decidimos começar a expandir a Pastoral em dioceses nas quais os bispos eram nossos amigos e onde havia pessoas favoráveis ao trabalho. [...] eu passava por momentos de muitas críticas e mesmo de agressões verbais, às quais respondia com silêncio.

O nascimento da PCr foi marcado por conflitos, incertezas e por isso, na época, sentido como um desafio, um projeto carente de apoio de grupos representativos da Hierarquia da igreja e de segmentos da sociedade.

Por meio da dimensão político-econômica, compreende-se que a PCr existe devido à decisão da Igreja Católica, atendendo a um projeto particular de renovação do agir pastoral ou dos organismos internacionais, em sintonia com o projeto de redimensionamento do estado e fortalecimento do terceiro setor no trato das questões sociais.

Sob uma dimensão ou outra, o natalício da PCr termina sendo explicado de forma pragmática: “É ação, sinal da igreja na comunidade”AP3. Apresentado assim,

como um programa socioeducativo-religioso que procura garantir o bem-estar da mãe e da criança através da adoção de medidas de atenção básica à saúde: cuidado da gestante, encaminhando-a para a vivência de um bom pré-natal27 e parto; cuidado dispensado ao recém-nascido pela vacinação, aleitamento e higienização.

A finalidade primordial da PCr está em educar as famílias pobres sobre como cuidar dos filhos, mesmo diante de condições extremas de miséria. A PCr é necessidade socioeducativa que “moveu o coração de Dom Evaristo e tomou expressão por meio da Dra. Zilda, no Brasil todo”AP2. Nasce como “um desafio que a Igreja fez para a Dra. Zilda Arns”AP1. As falas desses Agentes Pastorais apresentam a criação da PCr como uma proposta ousada dos segmentos da Hierarquia da igreja (representada por Dom Evaristo), mas que somente se concretizou porque foi levada a efeito pela atuação do leigo (representado pela Dra. Zilda) nas comunidades. No âmbito das três dimensões explicitadas, evidencia-se a importância do apostolado leigo na execução dos projetos sociais da Igreja Católica, em particular das Pastorais Sociais.

27 Foi observado que a ausência de cuidados pré-natais pode influir em riscos como partos prematuros, nascimento de bebês com baixo peso e doentes ou mesmo ocorrência de mortalidade materna e infantil. A efetivação do pré-natal influi no bem-estar da gestante e assegura a sobrevivência do recém-nascido.

Várias Pastorais Sociais foram incentivadas pela atuação dos leigos nas Campanhas da Fraternidade. Nesse sentido, um dos Agentes Pastorais fez referência à Campanha da Fraternidade (CF) de 1984, como evento mobilizador do natalício da PCr: “Nasce de um contexto da Campanha da Fraternidade, que tinha como lema: ‘para que todos tenham vida’”AP2. A CNBB promoveu a Campanha da

Fraternidade daquele ano sob o tema “Fraternidade e Vida: para que todos tenham vida e vida em abundância”, com o objetivo de sensibilizar a igreja e a população para a questão social da mortalidade materno-infantil nas comunidades pobres. A Hierarquia havia aprovado o nascimento da PCr e por isso lançava a campanha como estratégia para confirmação na sociedade. Soares (2003, p. 490) concorda que:

A campanha da Fraternidade, nascida no início da década de 1960, veio para cumprir esta missão. Para tanto, utilizou a estratégia de promover a articulação de meios profissionais de comunicação católicos em torno de idéias fortes, na busca de formar e mobilizar a opinião pública. A partir do momento em que esta campanha sintonizou-se com as carências da população e passou a dar respostas evangélicas às súplicas dos marginalizados, a Igreja passou a merecer espaços nos meios de informação seculares, convertendo-se, ao lado de outras instituições de respeito, em uma referência nacional. Por outro lado, a Campanha da Fraternidade chegou a ser, em algumas de suas edições, uma grande experiência multimídia.

A Igreja Católica admite o poder mobilizador das Campanhas da Fraternidade que tentam despertar e nutrir o espírito comunitário no meio do povo; educar para a vida fraterna pela justiça e pelo amor; e renovar a consciência sobre a prática evangelizadora da igreja na promoção humana. (SCHERER; TOFFOLI, 2004). A atividade foi realizada pioneiramente pela diocese de Natal (RN), na quaresma de 1962, e dois anos depois foi ampliada como projeto em nível nacional pela CNBB, sob o impulso renovador do Concílio Vaticano II.

Anualmente, cada campanha elege um tema, a partir de necessidades específicas da igreja e da sociedade. Durante esses quarenta anos, a Campanha da Fraternidade, passou por três fases: na primeira fase, tratou de temas relacionados com a renovação da Igreja (1964 e 1965) e do cristão (1966 a 1972); na segunda fase, abordou temas que revelavam a preocupação com a realidade social do povo mediante a denúncia do pecado social e a promoção da justiça (1973 a 1984); na terceira fase, volta-se para temas de reflexão e conversão que debatem situações existenciais da sociedade brasileira (1985 até o presente). São “relevantes as

Campanhas da Fraternidade que, em certo momento, mudam o foco de dentro da igreja para a relação da igreja com a sociedade, para as questões sociais, humanas que tocam a sociedade”. (INSTITUTO..., 2003, p. 218).

Atualmente, a Campanha da Fraternidade consiste num programa global de evangelismo e ação comunitária dos Organismos Nacionais da CNBB, que requer exercício de planejamento participativo e pastoral da própria igreja, tornando-se um importante instrumento de evangelização para divulgar a fé pelo debate de questões sociais.

A Campanha da Fraternidade tem por proposta colocar em evidência, na sociedade, o tema anual e, através dos meios de comunicação, convoca o conjunto de pastorais e os fiéis para refletirem sobre os problemas que afligem algum segmento dos excluídos. Por meio da Campanha da Fraternidade a Igreja Católica influi na sociedade como organismo, como sociedade religiosa que se mostra preocupada com os problemas sociais.

Ao longo desses anos, as campanhas estiveram diretamente ligadas ao fortalecimento da estrutura eclesial de pastoral orgânica, visto que funcionam como mobilizadoras da organização de algumas pastorais, ou como canal de divulgação e legitimação de pastorais recém criadas.

A PCr da criança nasceu no ano de 1983, em Londrina, Paraná, mas somente é conhecida e se fortalece nacionalmente através da Campanha da Fraternidade de 1984, quando a igreja enfocou o problema da desnutrição e da mortalidade infantil e materna. O lema da campanha expressava o desejo: “para que todos tenham vida”, que depois se tornou o lema da PCr.

A Campanha da Fraternidade de 1984 foi muito importante no natalício da PCr, porque realizou o anúncio do nascimento da nova Pastoral Social nas paróquias, dioceses e diversos segmentos da sociedade. A legitimidade era algo necessário a ser conquistado. Naquela época, como nova pastoral social estava dando os primeiros passos e vislumbrava um longo caminho a percorrer, conforme mostra o ESQUEMA 9: