5. Kvalitative funn og diskusjon
5.5. Tegnspråklig informasjon
5.5.1. Initiativtakere, produsenter og formidling
Não corroboramos a ideia de que espaço e território sejam si- nônimos. Raffestin (1993, p.143), em sua importante obra sobre a geografia do poder, enfatiza isso a partir de uma passagem escla- recedora: “É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Logo a seguir, ele fortalece: “O território é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder”. Por fim, acrescenta: “Evidentemente, o território se apoia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção a partir do espaço. Ora, a produção, por causa de todas as relações que envolve, se ins- creve num campo de poder” (Raffestin, 1993, p.144).
Para o autor, debater sobre o território implica reconhecer uma “multidimensionalidade” de poder que incorpora a noção dialética de produto e condição de transformação do processo social. Na sua percepção, o território se apresenta como um recorte responsável por abranger a dimensão material da realidade sob a dinâmica de uma configuração política, econômica e ideológica, com efeitos di- retos sobre a sociedade como um todo.
Em Raffestin (1993), o território é repleto de relações sociais, de poder e de dominação. Isso delimita campos de ações sobre o espaço, fragmentos que constituem o território como materialidade e que revelam como os agentes e as práticas sociais produzem os re- cortes mais ou menos delimitáveis que se inscrevem nas dinâmicas políticas, econômicas e ideológicas.
Porém, embora se refira a delimitações, Raffestin não enrijece as dimensões escalares do conceito, uma vez que reconhece e indi- ca transposições de limites do poder, sobretudo a partir dos meios de comunicação e de circulação, assim como por meio de ativida- des econômicas. É nesse sentido que enfatizamos também a sua proposta de interescalaridade – um olhar de renovação diante do já tradicional preceito ratzeliano de território, essencialmente fi- xado no referencial político do Estado -Nação. Observamos, desse modo, uma abordagem mais abrangente sobre o conceito de territó- rio, ligada ao conjunto de relações políticas, econômicas e culturais- -ideológicas projetadas no espaço, envolvendo toda uma rede que, ao mesmo tempo que exerce influência sobre a materialidade terri- torial, sofre influência dela.
Em Souza (1995) também encontramos uma clara defesa da distinção dos conceitos de espaço e território. O autor (1995, p.98) ilustra suas ideias a partir de alguns exemplos, entre os quais o de uma possível “[...] perpetuação de representações espaciais territo- rializantes mesmo após a organização espacial original ter se mo- dificado sensivelmente ou entrado em decadência” e o da situação extrema de uma cidade -fantasma, outrora esplendorosa e hoje re- duzida a ruínas (isto é, um espaço social constituído, mas sem se apresentar como território de quem quer que seja).
Para Souza (1995, p.87), o território ganha um sentido mais flexível sendo lido como um campo de forças ou uma rede de re- lações sociais que podem “formar -se e dissolver -se, construir -se e dissipar -se”, e isso de modo relativamente rápido, numa escala temporal periódica que pode durar tanto séculos como semanas ou dias, estabelecendo -se de forma regular ou cíclica.
Nossa ressalva quanto à proposta de Souza (1995, p.97) está no fato de que o sentido de território sugerido parece desconsiderar a relevância da materialidade (interpretada como “substrato”) ao justificar que a dimensão territorial implica somente um conjunto “de relações de poder espacialmente delimitadas operando sobre um substrato referencial”. Sem deixar de reconhecer quanto essa noção é rica em mobilidade, fluidez e imaterialidade, observamos como tal perspectiva pode esvaziar o conteúdo espacial do territó- rio, ao incorrer, como afirma Costa (2006), numa possível sobreva- lorização da dimensão temporal e social -histórica, em detrimento de uma base social -geográfica.
É nas próprias palavras de Costa que nos embasamos para for- talecer essa crítica:
Diante de uma preocupação com a “espaciologia” ou com o de- terminismo das formas espaciais, devemos justamente ter cui- dado para não sugerir um excesso de “sociologização” ou de “historicização”, de alguma forma “desgeografizando” o territó- rio, abstraído da base social -geográfica como condição indispen- sável à realização destas relações (Costa, 2006, p.81).
Para Souza (1995), Raffestin tem uma visão menos abrangente de território ao considerá -lo substrato, o que compromete a amplitude da sua abordagem relacional. Mas, em Raffestin (1993), esse concei- to precisa ser lido com atenção, pois o autor não o interpreta somen- te como uma base material onde se dá o conjunto contraditório das relações sociais, políticas e culturais. Muito pelo contrário, seu olhar supera a simples tentativa de uma revisão temática ratzeliana, ao su- gerir uma abordagem relacional dos processos econômicos, políticos e culturais -ideológicos – e tudo isso num plano transescalar. Para Raffestin, território não é só um palco, um envoltório, no sentido mecânico do termo, mas uma dimensão material que recebe e ofere- ce possibilidades de ação/transformação da realidade.
Por isso, assim como afirma Costa (2006), somos muito mais condescendentes com Raffestin, uma vez que, apesar de o território
não se limitar a substrato, ele tem sim uma expressão material que não se reduz a um campo de forças instável. A nosso ver, a abordagem de Raffestin reconhece o papel geográfico na formação social, além de enfatizar o sentido da organização territorial, na qual se desenvolve e se materializa toda a dinâmica resultante das relações em sociedade.
Em resumo, para nós, território não é sinônimo de espaço geo- gráfico. Acreditamos no espaço como um conceito maior, que envol- ve a totalidade das relações sociais e se coloca como referência mais ampla na análise da materialidade geográfica. De fato, ele abrange, articula, condiciona e reproduz todo o conjunto das relações sociais, apresentando -se como uma acumulação desigual de tempos (Santos, 2004). Já o território, nessa perspectiva, se coloca como um recor- te relacional que envolve política, economia e cultura/ideologia, impondo -se como uma das dimensões singulares de maior expressão do espaço geográfico, sempre a partir de uma visão transescalar.
Com essa afirmação, em nenhum momento estamos defenden- do a tese de que os dois conceitos sejam mutuamente excludentes, nem argumentando que sejam contraditórios em essência (isto é, antagônicos), pois temos a noção de que a relação que se dá entre espaço e território é processual e de interação, na medida em que, parafraseando Saquet (2007), sabemos quanto eles se entrelaçam,
se superpõem e, não raro, se completam.7 Um está no outro, como
afirma Saquet (2007), mas, em última instância, não acreditamos que tenham o mesmo significado.
Enfim, em nossa acepção, território é um recorte que abrange poder e se constitui numa base operacional para a materialização de inúmeros interesses que não são meramente políticos e econômi- cos, envolvendo, sobretudo, necessidades culturais e ideológicas. A
abordagem territorial direciona a leitura (i)material8 das relações de
7 “Na relação espaço versus território, também há reciprocidade, pois se entre- laçam, superpõem -se e estão em unidade. Um está no outro. Também são in- separáveis, como a relação tempo histórico versus tempo coexistente” (Saquet, 2007, p.158 -159).
8 “[...] reflito e descrevo evidenciando aspectos processuais, relacionais e (i)ma- teriais (materiais -imateriais em unidade) que influenciaram na reelaboração
poder e de seus conflitos e contradições, bem como a das comple- mentaridades e multidimensionalidades na esteira do amplo movi- mento de organização espacial das relações em sociedade.