Contudo, diante daquele cenário de violência e desrespeito, Apurinã esperava mudar a situação. Mas como uma criança abusada, fragilizada, de modo geral, poderia reverter sua história? A violência também neutraliza, a partir do medo gerado.
O medo do abandono, das surras e da vida de pobreza, que até aquele momento tinha sido tão cruel com a criança, tomava conta daquele coração tão
carente de carinho, família, amor e oportunidade. Apurinã só tinha um desejo: queria a oportunidade de estudar.
Mas foi com 13 anos de idade, quando Apurinã estava cursando a 6a série do ensino fundamental, que um dia, na escola, é apresentada pela primeira vez ao ECA e ao Conselho Tutelar. Ela já não era mais ignorante. Sabia, a partir daquele momento, que era uma cidadã de direitos.
E suas palavras revelam: “A visão vai ampliando, tu vai percebendo, foi quando eu soube o que era um Conselho Tutelar, qual era a função, foi quando eu fui enxergando que eu vivia uma situação de violência e que podia buscar ajuda”.
O desconhecimento dos nossos direitos é a total escuridão; viver sem saber que podemos buscar na lei a solução para determinada situação, que temos amparo e proteção legal, é simplesmente não viver, é vegetar, pois essa escuridão nos neutraliza, nos domestica e nos faz aceitar a condição de explorado, violentado, com naturalidade imutável. Saber, e ter com quem contar, pode nos libertar da escuridão.
A menina sabia, agora, que vivia uma situação de violência, de trabalho infantil, e que existiam mecanismos de proteção. Apurinã também conhecia a Keyte (ex-abrigada da CMM). Keyte sempre mandava a menina fugir e buscar a CMM, mas ela ainda não estava preparada.
Certo dia, Apurinã pegou dinheiro da tia para comprar duas pilhas do
walkman, ela gostava muito de ouvir músicas, mas estava proibida de fazê-lo,
porque a tia achava que atrapalhava o serviço doméstico. Então, Itacira ficou sabendo da compra das pilhas e da desobediência de Apurinã e, como sempre, a tia mostrou quem mandava. Chorando, ela conta:
Eu que estava proibida de ouvir o walkman, porque, segundo ela, a música atrapalhava eu arrumar a casa, e uma vizinha fofoqueira, desgraçada, ligou para minha tia para dizer que eu tinha saído de casa e que eu estava escutando música. Imediatamente, ela chegou em casa, que nem um mostro, e me perguntou: “O que tu foi comprar na taberna?”. Aí eu menti, disse que fui comprar alho, na verdade, eu também fui comprar alho, mas fui para comprar as pilhas, aí, ela disse assim: “Só alho?”. Eu falei: Só, só o alho. Ela disse: “Mentira que eu vim da dona Nete (a dona da taberna) agora e eu estou sabendo que tu comprou duas pilhas”. Aí, nesse dia, ela me bateu muito, muito! Espancou os meus dedos com a ripa, me jogou no chão, me chutava, chutava minha cara, chutava, chutava, ela me bate, sabe, quando tu vê querendo matar um cachorro? Nesse dia ela me bateu assim! Ela me bateu muito, ela me chutou até a beira da escada, acho que quando eu estava na beira da escada, ela acordou da crise de violência, quando ela viu que ia me chutar
daquela escada e eu ia morrer (choro), acho que ela acordou, assim, ela parou, eu estava sangrando. Aí, para mim, esse foi o estopim, eu já pensava há muito tempo em fugir, ir embora e tal, mas ainda não tinha tido coragem por causa das minhas irmãs. (Pesquisa de
campo, 2012).
Então, Apurinã, muito machucada, se arrumou e foi para escola preparada para fugir.
Sempre apanhei por mim e por elas, porque ela dizia que eu era muito atrevida, muito audaciosa. Aí, nesse dia, eu fui para a aula com a cara todo vermelha, toda espancada, ela disse que não era para eu ir para a aula! Eu desobedeci, me arrumei, vesti duas calcinhas, uma por cima da outra, eu não podia sair de casa com uma bolsa porque ela ia perceber que eu estava fugindo, né, peguei R$ 3,00 e pouco, que era para minha passagem, coloquei uma peça de roupa na minha mochila, o dinheiro eu consegui porque eu menti para ela, eu disse assim: Tia, eu preciso comprar uma cartolina e coisas para fazer um trabalho na escola, ela me deu o dinheiro, e perguntou: “Tu vai mesmo para a aula?”. Eu menti! Disse que tinha uma coisa muito importante lá. Então, fui para a aula decidida que eu não voltava mais para casa. (Pesquisa de campo, 2012).
Chegando lá, contou o acontecido para um professor, que falou com a diretora e pedagoga, e os profissionais aconselharam-na a voltar para casa, ficar mais uma semana, para que eles observassem o comportamento da tia, e garantiram que iam fazer a denúncia ao Conselho Tutelar.
Prometeram também que acompanhariam a história durante aquela semana para ver se a violência continuaria. Mas ela sabia que continuaria. “Eu falei: Claro
que vai continuar! Eu apanho todo dia; quando não era de dia era de madrugada, é sempre isso, ela dizia: ‘Mas a gente precisa acompanhar para ter certeza’”.
A menina voltou para casa, e na outra semana, a diretora chamou-a e disse assim: “Amanhã, às 14 horas, o conselheiro tutelar vai lá na tua casa fazer uma
visita, para conversar com tua tia”. E esse momento decisivo, ela conta, muito
angustiada.
Tu não sabe o que é isso, dizer para uma criança que é violentada que o conselheiro tutelar vai à casa dela! Isso é a sua certidão de óbito, tu sabe quem é a tua tia, que ela jamais aceitaria isso, e que quando o conselheiro sair da casa tu vai morrer de tanto apanhar.
Nesse dia, Apurinã só pensava em sobreviver e fez de tudo para sair de casa antes de o conselheiro chegar e, com muito medo, foi para a escola preparada para não voltar mais, e assim aconteceu. Ela conseguiu que o professor de inglês a levasse para a casa de uma advogada (irmã do professor).
Chegando lá, Apurinã, assustada, fica sabendo que a tia já estava louca, à sua procura, que o conselheiro tutelar não tinha ido na casa, como prometido, mas ela já não estava mais lá, conseguiu uma esperança de mudar de vida. E, assim, ligou para a tia para informar que não voltava mais:
Aí, eu falei com o meu primo, e disse assim: Olha, diz para a tia que eu não vou voltar para casa, foi nessa hora que perguntei pelo conselheiro e fiquei sabendo que ele não foi lá, aí eu fiquei com ódio profundo, porque eu tinha fugido de casa com medo de morrer e ele não foi.
A advogada queria ficar com a menina para cuidar dos filhos recém- nascidos, mas Apurinã tinha um objetivo, chegar à CMM. Ela sabia que lá teria a possibilidade de estudar, como sempre quis.
Na mesma semana, o conselheiro ligou para a advogada e disse que a menina podia ficar lá até ele conseguir um local para ela, e prometeu buscá-la no sábado seguinte, e assim fez. Nesse dia, a advogada fez a proposta de ficar com Apurinã, e disse: “Você quer ficar comigo? Sou advogada, consigo tua guarda até tua mãe sair da prisão, vou te pagar um salário, tu vai ter o teu quarto, vai poder estudar, vou te colocar numa escola aqui perto”.
Mas Apurinã já estava esperta com essa situação e respondeu: “Eu quero ir pra um abrigo!”. A advogada tentou argumentar dizendo: “Tu não sabe o que é um abrigo!”.
Mas a menina já estava decidida e enfatizou: “Eu quero ir para um abrigo!”.
E assim ela destaca o porquê da sua escolha tão incisiva:
Porque a visão que me passavam do abrigo é que eu ia poder estudar, que as irmãs conseguiam bolsa em escolas particulares, escolas boas e tudo o mais. Então, meu foco era o abrigo e eu estando no abrigo, era mais fácil consegui levar minhas irmãs para lá. (Pesquisa de campo, 2012).
Porém, Apurinã não imaginava que sua mãe poderia atrapalhar seus planos. Então, o conselheiro ligou para o presídio e falou com Cunhã-Porãe; esta tinha o poder de decisão, mais ela não sabia o que a filha havia passado, durante os cinco anos com essa tia. E então, a menina contou tudo e muito revoltada disse à mãe:
Se a senhora disser para o conselheiro tutelar que é para eu ir para Porto Velho, eu nunca mais na minha vida te reconheço como mãe. Não vou nem te visitar, porque em Porto Velho eu não vou ter a oportunidade de estudar, de ter um emprego, eu vou ser prostituta, eu vou ser vagabunda, vou ser tudo aquilo que falavam que eu seria, porque eu sei muito bem qual é família que vou ficar, aí, a mesma miséria de antes, é isso que a senhora quer para mim? (Pesquisa de
campo, 2012).
Então, Cunhã-Porãe disse que a filha podia seguir para um abrigo. E Apurinã foi levada para o abrigo das Irmãs Carmelitas, onde ficou um mês, mas ela estava com um objetivo: queria ser acolhida pela CMM, porém, lá estava sem vagas e ela teve que apelar para uma conhecida (Keyte), e esta entrou em contato com a direção da casa e conseguiu uma vaga. Mas as duas irmãs de Apurinã, Potyra e Jassy, permaneceram com a tia agressora. Contudo, as duas meninas continuaram estudado na CMM.
A CMM faz parte da rede de proteção à criança e adolescentes. É um abrigo (Art. 95), executor de uma das medidas de proteção previstas no ECA: a medida de abrigamento (art. 101, inciso VII, do ECA), que somente deverá ser aplicada após se esgotarem as demais medidas de proteção ali previstas. O abrigo é uma medida provisória e excepcional e transitória que não implica privação da liberdade. (Art. 101 do ECA). A CMM oferece a Proteção Social Especial (PSE), de alta complexidade, que se volta:
A indivíduos e grupos que se encontram em situação de alta vulnerabilidade pessoal e social, decorrente do abandono, privação, perda de vínculos, exploração, violência, entre outras. Destinam-se ao enfrentamento de situações de risco em famílias e indivíduos cujos direitos tenham sido violadas e/ ou em situações nas quais já tenha ocorrido o rompimento dos laços familiares e comunitários. (YAZBEK, 2010, p.42).
Apurinã entendia que, na CMM, teria proteção integral, moradia, convívio com outras meninas que estavam na mesma situação, possibilitando-a uma gama de conhecimento e novos horizontes de crescimento.