O movimento rave em Portugal surge no início da década 1990 influenciado por aquilo que se passava noutros países europeus. Apesar desta influência, o movimento português e a massa festiva não emergiram a partir de nenhuma situação social ou política de ruptura, como aconteceu em Inglaterra ou na Alemanha.
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Carvalho (2006:130-131) afirma que o aparecimento dos géneros progressivos na música de dança “representa a evolução do som no sentido de um afastamento relativamente à sonoridade original, de contornos mais ‘duros’, de maior ‘pureza’ estilística (…) assinala a disponibilidade dos seus músicos para se abrirem à exploração das relações que se podem estabelecer com outros géneros musicais próximos, promovendo assim a renovação das sonoridades originais”.
56 As primeiras raves realizadas em Portugal centraram-se “exclusivamente pelas alternativas e propostas que encerrava do ponto de vista estético, do lazer e do psicotropismo” (Carvalho, 2006: 143), surgindo como uma cultura de elites, undergound e de divulgação quase nula. No entanto, com a mediatização e a comercialização da música de dança, principalmente do house, os diferentes géneros propagaram-se rapidamente no roteiro nocturno português, dando espaço para o aparecimento de novas propostas festivas e de novos públicos.
Apesar do consumo de estupefacientes já fazer parte deste género de festividades, foi a partir do momento em que esse consumo se transformou “na razão de ser de todo o movimento” (ibid., 144), atraindo pessoas alheias ao movimento e mais interessadas em consumir e/ou vender drogas do realmente conviver e partilhar experiências que fomentassem um espírito colectivo, que se assistiu ao declínio das raves ar livre.
A decadência do cenário das raves associado ao house e ao techno acabou por funcionar como catalisador do movimento trance em Portugal. As festas de trance criaram uma alternativa de expressão nos movimentos associados à música electrónica de dança e determinaram “uma nova aproximação das elites à esfera de influência cultural da música electrónica, mas agora a partir de referências de reminiscência hippie e new age, fixadas na Índia” (ibid., 145).
Juntamente com as referências hippie e new age surgiu o gosto por uma nova expressão musical, considerado na opinião de Carvalho apenas como “uma variante de contornos psicadélicos do techno original” onde “a diferença residirá na forma de fazer a festa e nas propostas existenciais que se instituem como símbolos da nova geração” (idem). Quando se refere a “símbolos da nova geração” Carvalho exemplifica com propostas existenciais – traços new age, naturalismo, espiritualismo e uso de drogas ao serviço da amplificação da consciência – e propostas ideológicas – anarquia, tolerância à diferença, vegetarianismo.
As pessoas que estão no emergir do movimento em Portugal são definidas por Carvalho como os “filhos das elites cultural e financeiramente diferenciadas, que puderam viajar até ao território em busca dos ecos de outros tempos, marcados pela originalidade do naturalismo e da ligação ao espiritual” (idem). Foram estes aventureiros que trouxeram, à imagem do que aconteceu noutros locais, o espírito vivido em Goa para o cenário festivo português.
57 O trance psicadélico em Portugal esteve durante algum tempo confinado às festas ilegais e a um público reduzido, mantendo-se afastado dos roteiros nocturnos citadinos e do mercado discográfico. O desconhecimento das sonoridades, a reduzida divulgação das festividades e os locais remotos e de difícil acesso, geralmente fora dos centros urbanos, onde se realizavam as festas marcavam o carácter marginal e alternativo do movimento.
As primeiras festas organizadas começaram com a organização Good Mood em 1994. Nesta época, a celebração explosiva do house e do techno já acontecia em discotecas e armazéns – bem ao estilo da cultura club britânica. Esta organização ficou conhecida, acima de tudo, por ter começado o Boom Festival em 1997, para além de já ter realizado diversas festas do género em Portugal, principalmente em herdades alentejanas, que eram praticamente desconhecidas do público em geral. O sucesso deste festival acabou por impulsionar o movimento português, até ai afastado dos roteiros de diversão nocturna.
O aumento da oferta festiva, o aparecimento de diversos dj’s e produtores interessados no trance psicadélico e o aumento significativo do público sugerem que o fenómeno global existente em torno destas sonoridades se tem vindo a implantar no território português. A festa em meio natural, muitas vezes ilegal, que dura quase 24 horas continua a existir, mas, tal como aconteceu com o house e com o techno, o género tem vindo lentamente a ser explorado em discotecas de meios urbanos tornando-se mais conhecido e mais presente nas actividades de lazer nocturnas dos jovens.
Actualmente, não é estranho verem-se cartazes a divulgarem festas de trance lado a lado com as habituais publicidades de concertos de bandas altamente mediatizadas19
O mediatismo que o género tem vindo a assumir em Portugal não se traduz, geralmente, numa maior aceitação por parte das autoridades locais, já que muitas vezes as organizações das festas têm dificuldade em obter permissões para as realizar. O movimento encontra-se ainda afastado do mundo corporativo das principais marcas (principalmente de bebidas alcoólicas e energéticas), das discotecas que estão na moda,
. Este método de divulgação afasta-se daqueles que eram geralmente utilizados na divulgação das festas de trance, como a troca de informações boca a boca ou os flyers que dificilmente chegavam ao público mais alargado e mantinham o circuito festivo no desconhecimento.
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58 das emissoras de rádio e da produção discográfica. Além do afastamento das lides de cunho mais comercial, este movimento festivo é diversas vezes relacionado com questões problemáticas como o consumo de drogas, a alienação criada pela música e a falta de condições dos locais em que se realizam as festas.
Tal como noutros locais, o aparecimento de movimentos, tendências e consumos juvenis chamou a atenção da academia. Em Portugal, o fenómeno da música electrónica de dança tornou-se alvo de análise nas áreas da sociologia, da psicologia do desvio e da antropologia.
Calado (2007) e Carvalho (2003 e 2007) nas festividades associadas ao trance psicadélico e Chaves (2003), Henriques (2003) e Silva (2005) em análises mais abrangentes sobre a música electrónica de dança, retratam o consumo recreativo de drogas no meio festivo português. Estes trabalhos analisam os diferentes consumos, quais os públicos desses consumos, e a forma como os diferentes consumos estão directamente associados aos diferentes géneros musicais. Azevedo (2002), por seu lado, analisa as representações das raves enquanto fenómenos rituais sob uma perspectiva antropológica, relacionando o lazer a uma forma de ritual tribal contemporâneo ao aproximar a perspectiva de Victor Turner às práticas e às performances em meio festivo.
A perspectiva antropológica de Vasconcelos (2008), investigador que tem trabalhado sobre o fenómeno do trance psicadélico em Portugal, aborda a percepção sensorial do espaço e da mobilidade relativamente a um género de festividades que se realiza fora de zonas urbanas. A importância do espaço, a criação de ambientes através do som, da decoração e das luzes, e as distintas percepções por parte dos participantes são abordadas por este antropólogo como forma de analisar as questões da intensidade relacional, da presença e da cooperação entre as dinâmicas locais e globais na realização deste género de festas.
Victor Silva (2005) distingue os públicos das festas de três diferentes géneros de música de dança em Portugal – house, techno e trance – e os diferentes consumos de droga destes três meios festivos. Este autor concluiu que o público das festas de trance é maioritariamente composto por “estudantes universitários, muitas vezes alunos de cursos de humanidades ou belas-artes, oriundos da classe media, com um nível cultural relativamente elevado” (2005: 69). Para além deste retrato, Silva considera o movimento trance um “verdadeiro ‘melting pot’ das facções juvenis mais contra- cultura, desde o ‘freak’ psicadélico à procura de epifanias espirituais ao anarca
59 assumido que rejeita o sistema capitalista, passando pelos ‘travellers’, pessoa com uma ideologia ou visão neo-hippie” (idem).
No presente trabalho, o meio festivo do trance psicadélico será analisado através duma perspectiva localizada. A região do Algarve, onde este género de música continua posicionado nas margens da oferta de diversão nocturna, tornou-se o espaço de observação. As festas e as práticas individuais e colectivas serão analisadas juntamente com as questões da divulgação e da importância dos novos meios tecnológicos nessa mesma divulgação. Assim, através da limitação do estudo ao espaço algarvio pretendeu- se observar a influência da música e da globalização de um determinado movimento na criação, manutenção e expansão de movimentos locais.
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