3. Forskningsmetodikk
3.1. Valg av kvalitative metoder
3.1.1. Induktiv tilnærming
O tópico conclusivo da pesquisa faz voltar ao início da reflexão. Não há desenvolvimento humano que prescinda da presença do outro. Quaisquer das formas de linguagem emergentes nas mais variadas culturas supõe um outro que responderá ao dito confirmando-o, negando-o ou instaurando-o. A fala é sempre um projeto, um desejo e uma busca. Sempre que nos expressamos seja de modo corporal, com gestos e posturas; seja de modo hermenêutico, via sonhos, experiências místicas e/ou religiosas; seja de modo sintomatológico produzindo doenças, estamos visando o outro em sua estranheza que paradoxalmente exerce atração sobre nós. E ainda, todas as manifestações serão sempre hermenêuticas
embora eu, como pesquisadora em Psicologia da Religião, tenha nomeado as oníricas como prioritariamente hermenêuticas. O que ocorreu em meu pensar é que o sonho como metáfora foi desde sempre nomeado como interpretável. Isto se deve ao raciocínio moderno que foi separando o real do simbólico e impedindo passo a passo o livre pulsar da vida. Tudo no humano é símbolo e cada vivência é imediata e inadvertidamente interpretada desde a mais tenra infância.
Embora isto tudo possa parecer difícil para alguns, de fato não é. A função do diálogo psicoterapêutico é nomear a hermenêutica do existir humano, o que é feito de modo meta-reflexivo sempre a posteriori dos fatos vividos e a posteriori dos fatos narrados. Quando se adquire o treino para aceitar e metabolizar nossa capacidade natural de interpretar, a vida fica mais fácil. As pessoas ‘analisadas’ têm a possibilidade de sofrer menos diante dos impactos da experiência momentânea: passado, presente e futuro passam a constituir seus selves descongelando os núcleos doentios. Tudo pode ser revertido e então, inovado. Reversão, conversão,
turning point, virada, são expressões que retratam a continuidade ao existir,
estabelecendo limites, criando módulos (flexíveis) separados por rituais. Antes e depois da ordenação. Antes e depois da morte de meu pai. Antes e depois de minha doença.
Dói mas vai passar! Em outros tempos já passou! A experiência de reflexão projeta os conflitos para um tempo futuro, minimizando-os e inovando-os. O tempo se espacializa: lá fora, em outro lugar não me sinto como aqui. Em espaços inovados inova-se também a visão (interpretação) do outro.
Hermans (1999, p. 70) ao explicitar a aproximação dialógica afirma ”que é na interface entre self e outro, como posições opostas numa estrutura espacializada, que a inovação emerge”. Não sabemos exatamente – e acho que pesquisa alguma investigará ou responderá algo a esse respeito – por que razão fazemos uso desta ou daquela linguagem (corporal, onírica ou sintomatológica) e o fato crucial é que a linguagem oral as ordena de algum modo. Assim é que existem os críticos de arte, especialistas em dizer algo sobre o que é expresso em linguagem não verbal pelos artistas que criaram as obras. As linguagens - corporal onírica ou sintomatológica- nos tomam como refém e só nos libertamos delas quando pagamos o tributo de desvendar o enigma expresso no caráter simbólico e metafórico da vivência. No exemplo que ofereci no capítulo I a galinha enquanto ave perde sua força e o seminarista ganha identidade. Ao mesmo tempo, a galinha ganha o significado de
ave com status ao servir como posição de eu para o seminarista, ele mesmo sem
status num espaço cultural totalmente diverso do seu espaço original. Investigar
pessoas religiosas em suas ações no mundo e ajudá-las a sair dos impasses causados por suas dores e sintomas exigiu nova visão metodológica que vai além do objeto específico de minha pesquisa e abre para a compreensão da instituição que abriga pessoas comuns e as nomeia representantes de entidades sagradas. Entidades estas absolutamente significativas no imaginário e na fé de nosso povo. Nossos três reis magos viverão e trabalharão – ao menos no projeto formativo da Igreja- como padres ao longo de toda a sua vida. E estarão em diálogo permanente com fieis que partilham de todo o imaginário da vida cristã dialogando com conceitos, dogmas e imagens: Trindade, quaternidade, santos, múltiplas faces de Nossa Senhora, representação de Deus como pai, fundadores de congregações, relatos de milagres e curas, citações e passagens bíblicas, carismas institucionais.
Vindos de famílias diretamente ligadas aos valores inconscientes do povo, quer seja: culto aos antepassados, tradições, folclore, figuras características do catolicismo popular (milagres, aparições, sanções etc) precisam ser trabalhados em direção à autonomia de se tornarem eles próprios (psicologicamente falando) com o mesmo esmero com o que a instituição o faz no plano pedagógico.
Precisamos instalar nesses jovens mais que um estilo de vida. É preciso que construam um estilo para as suas vidas. E para construir este estilo será preciso identificar de que modo narram os fatos dos quais são personagens. Sempre como vítimas sofredoras da ação de outros? Ou como personagens centrais, em torno dos quais o enredo se dá? Ou ainda, como eternos personagens secundários? A cada um desses personagens caberiam categorias psicopatológicas em variados graus100. Porém nenhuma dessas categorias ajudaria o exercício de suas vidas, cuja expectativa deve incluir bem estar, em última instância, felicidade. Ao contrário, o confronto com os reversos (as contra posições) melhora o diálogo intra e interpessoal num movimento tríplice: escuta, resposta, reação à resposta. Movimento tríplice, metáfora em forma de triângulo para o individuo que, paradoxalmente, inclui em si mesmo todos os outros com quem dialoga: mundo, pessoas, objetos, mitos, personagens históricos, dogmas. Talvez o estilo narrativo adequado para as pessoas da vida religiosa seja mesmo o da aventura heróica.
100 Cf .Diagnostics and Statistical Manual of Mental Disorders, 4th
Edition. DSM IV. , American
Suas motivações incluem com freqüência a idéia de salvar pessoas e grupos, de lutar muito para se obter o que se deseja, de sacrifícios desmesurados.
No entanto, o melhor é fomentar nos diálogos o aprimoramento do próprio estilo (encoberto) fazendo-o migrar mais para o imaginativo que para a ação concreta, reservando esta última para o papel do padre. O conjunto das demais posições que constituem o self deve ser flexibilizado para dar suporte ao que o papel social exige. Demonstrar eficiência e eficácia é fruto do projeto moderno e tem preço elevado para o psiquismo.
O self dialógico comporta infinitas possibilidades de abertura do ser no mundo com os outros. Na visão de Belzen (2003, p. 21), a TSD “apresenta o self como sendo evocado e estruturado por diversificados settings culturais, e visões de self como um conjunto de relações com outros ‘reais’ e ‘imaginados’, vindos de diferentes lugares: da história, do passado pessoal mas também do passado mítico e espiritual”. As narrativas das religiões, as passagens bíblicas, as histórias orais, os conselhos das figuras de autoridade e afeto vão configurando o repertório das pessoas envolvidas na vida religiosa e podemos investigar sua adesão, seu modo de atuar, seus sentimentos e sensibilidades a partir desta visão que une a compreensão do amadurecimento do self e a explicitação das origens histórico- culturais dos grupos que desejamos pesquisar.
Não há de fato realidades mais ou menos próprias para validar a pesquisa das vivências religiosas de qualquer ordem. Pesquisar experiências religiosas de conversão, místicas e/ou pessoas que tem como valor central dedicar suas vidas ao diálogo com o transcendente, tal como o faço nesta tese, não encontrou até agora uma método definitivo. O que fiz foi, através das estórias e da história de vida dos três reis magos, conhecer três modos peculiares de fazer uso do imaginário e da moral cristã para alocar emoções, sentimentos, circunstâncias biográficas e/ou históricas marcantes em suas vidas de pessoas afeitas ao religioso. Não encontrei também explicações para a escolha de uma ou outra área de atuação que envolvesse pensamentos contra-intuitivos. Atividade científica, artes, religião e mesmo marqueting envolvem pensamento capaz de dar nó no óbvio, no esperado.
A oportunidade de diálogo fornecida pela conversa psicoterapêutica exercitou o pensamento criativo e imaginativo dos jovens em formação. Receber cuidado amoroso e compreensivo pareceu-me um modo possível de instaurar eticamente sentimentos de pertença, fidelidade, compaixão mútua (philia) e compaixão pelo
outro distante (ágape). O modelo da família perfeita carrega em si as contra- posições da família imperfeita. Sempre há um pai que falha, uma mãe que pecou ou que exagerou nos cuidados, um filho que é grato e outro que é ingrato. Sempre há quem tenha medo, emoção primitiva ligada ao nosso parentesco com os repteis. Sempre haverá raiva, advinda de nosso fundo indesejável e indesejado: o mal. Se, no entanto, trouxermos para a meta-linguagem a compreensão de tudo o que nos torna cativos: os limites pessoais, os sentimentos tão bem expressos nos sete pecados capitais e outros mais coletivos e pós modernos como a omissão, a falta de indignação moral e ética, então poderemos ampliar as possibilidades de um viver mais autenticamente humano.
E amaremos Deus como pai tal como sonhava Melcquior; viveremos a afetividade homoerótica com dignidade, tal qual Balthazar ansiou; faremos da vida em comunidade uma escolha e um sentido na perspectiva de Gaspar. Contanto que tenhamos clareza de que o outro em sua alteridade é que nos faz inovar e sair da morte implícita na rigidez corpórea, nos sonhos que se repetem e nos sintomas psicopatológicos. Pereira (2004, p.285), estudioso da instituição formativa católica, ele mesmo um católico praticante, enuncia:
Neste sentido, uma vida religiosa de coerção, de ritualismo pesado, de práticas prescritas, não responde ao momento atual. A vida institucional religiosa é essencialmente uma relação amorosa: “Aquele que não ama não conheceu a Deus porque Deus é amor” (1 JÓ 4,8).
A partir da pesquisa realizada obtivemos a confirmação da proposta de Pereira: a vida sacerdotal é uma mescla de disciplina, objetivos e sentimentos sem os quais a continuidade fica comprometida. A sociedade individualizada que vivemos não exclui que os membros da vida consagrada sintam e desejem viver em comunidade. A contemporaneidade não acomoda mais papeis rígidos e desconectados de relações dialógicas que pedem mais e mais comprometimento com os outros. Trata-se do paradoxo de nossos tempos: conectados e solitários, desejantes como nunca na história da humanidade de pertença e conforto vindos de nossos outros/semelhantes e de nossos outros projetados, aí incluída a divindade.
Não saberia dizer, como pesquisadora, se em outras áreas da ação humana o mesmo se dá. Intuo, no entanto, que sim. E o faço a partir da clínica e de minha própria pertença ao mundo como ser-com-os-outros e com Deus.