3. Forskningsmetodikk
3.3. Rekruttering av undersøkelsesenheter og deltagere
O padre e psicanalista belga Antoine Vergote (2001, p.161) demonstra que a capacidade humana de produzir doenças psicológicas nos nomeia de modo próprio:
Ser capaz de psicopatologia e ser capaz de produzir civilização são, portanto, duas características do homem. Poderíamos legitimamente fazer disso uma definição do homem: é ele o ser vivo que pertence à natureza biológica como os animais mas, diferentemente deles, é capaz de cultura e psicopatologia.
De certo modo o que ele supõe é que psicopatologia está diretamente associado à cultura, ou ao que cada cultura define como doença. Quando uma instituição ou alguém em particular busca os serviços de um psicoterapeuta está apostando nesta visão, a mesma que persegui ao longo da pesquisa. É no ‘entre’ que os processos humanos se dão. Ao procurar um psicoterapeuta o primeiro erro é achar que o conhecimento virá de fora. Do erro surge o primeiro acerto: o psicoterapeuta é um estranho, alguém ‘de fora’ e buscá-lo mostra o desapontamento diante daqueles outros (da mesma cultura) que temos como não estranhos a nós: família, filhos, comunidade.
E então, no irromper da linguagem própria desta modalidade de encontro (cliente e psicoterapeuta) é que se produzirá o medicamento que levará à ‘cura’ ou adequação satisfatória (interna e externamente) à cultura ou sub-cultura da qual o cliente é partícipe. Melcquior, Balthazar e Gaspar não conversavam com ninguém do modo que conversavam comigo. Em qualquer outra situação pareceria uma conversa de insanos. Esta, no entanto, gerou conhecimento válido com certo grau de generalização. Vergote relata que as pessoas que o procuram começam por dizer-lhe: “eu gostaria de conhecer a mim mesmo e compreender o que me angustia..ou o que me faz fracassar em meus relacionamentos”. Isto tudo é muito racional e lógico e a compreensão de si só irromperá de outro modo. Balthazar deu um salto enorme em seu auto-conhecimento quando criticou o quadro da sala de espera de meu consultório que narrava a passagem bíblica. Não era o quadro e sim ele próprio vistos no espelho: Jesus Cristo e a samaritana são posições de seu eu em expansão natural e, após a experiência de psicoterapia, em expansão consciente e voluntária. Mostrou toda a sua estranheza à minha casa, à minha
pessoa (um ‘outro’ que se apresentou a ele), a meu modo de cuidar. E concluiu seu raciocínio ‘lógico’ afirmando-se em sua mais nova e esperada posição de eu: “amanhã será minha ordenação sacerdotal e, incrivelmente estou feliz”. Finalizou com a pergunta que confirma a estranheza diante do modo como vem construindo narrativamente sua identidade: “O que é isto?”.
Mesmo cronologicamente adulto, pôde viver na relação psicoterapêutica experiências que solidificaram sua presença no mundo. Não estava mais dividido como se dá na esquizofrenia “em que as palavras se põem a delirar por que lhes falta o enraizamento na experiência pré linguistica (p.172).
Em minhas constantes pesquisas para compreender o que faz alguém buscar a vida religiosa como modo de estar no mundo procurei sempre fixar-me na psicologia, o que nunca excluiu os fundamentos filosóficos da constituição ontológica do humano. O que observei nos três clientes apresentados é que patinavam pela vida, indo de um ponto específico a outro, como que marcando presença, executando tarefas, cumprindo compromissos enquanto não podiam simplesmente surfar em suas próprias pranchas, movidos pelas ondas de um mar imenso e muito mais amplo que qualquer cultura na qual estiveram ou estivessem imersos.
Eu mesma encontrei no psicanalista Gilberto Safra um ‘outro’ que inovou minha própria visão do psicoterapeuta que atende pessoas da vida religiosa. É preciso conhecer seu mundo e seus símbolos (valores, imaginário, instituições) para então esquecer tudo e surfar junto aos mesmos em sua especificidade absolutamente humana. A citação é longa, porém reescrevê-la tiraria a autoria de alguém que respeito e admiro no que se refere à compreensão da religiosidade (SAFRA, 2005, p.208):
Em minhas investigações na clínica tenho observado que cada um de nós , tenhamos consciência ou não, estabelecemos, do ponto de vista ôntico, uma concepção a respeito da origem. Essa concepção determina uma ontologia peculiar à pessoa que a formula. Fenômeno que também é encontrado em outros registros da experiência humana, tais como a vida em uma determinada comunidade ou cultura étnica. Ao contatarmos uma cultura particular, observamos que seus mitos, seus objetos culturais organizam-se ao redor da concepção de uma origem do mundo peculiar àquele grupo cultural. Fenômeno semelhante existe do ponto de vista de um indivíduo singular. Um dos elementos fundamentais do processo de singularização de alguém é a concepção ontológica característica da pessoa. Essa ontologia pessoal é um dos referentes fundamentais da semântica existencial do indivíduo, que se estende significando seus gestos, suas palavras, as coisas que ele utiliza para compor seu mundo pessoal. O que denominei “idioma pessoal.
Para chegarmos ao idioma pessoal não há dicionário pronto. É como um missionário ou um antropólogo que chega numa cultura diferente da sua e inicia a compreensão da mesma já inserido nela e já a tendo influenciado com sua presença. Na psicoterapia a escuta é ampliada pela imaginação e ambos- psicoterapeuta e cliente- acreditam que aquilo vai dar certo. No caso de Balthazar, até o último instante ele questionou: “o que é isto?”. Havia feito a pergunta inúmeras vezes ao longo do processo: “isto vai dar certo?”. Melcquior desde o início se entregou e sentiu confiança, talvez porque tivesse me conhecido algum tempo antes como sua professora, o que não se deu com Balthazar, que foi indicado por seu formador já que a psicoterapeuta anterior não o agradava. Gaspar desde o início desejou ser aquele que me fornecia cuidados e ofereceu-se para fazer a tabela que daria um formato melhor e mais prático para minhas aulas. Interessante também foi observar que os três sabiam separar a pesquisadora, a professora, a escritora, da psicoterapeuta. O idioma de cada um, parafraseando Safra, surgiu da extensão de suas narrativas para o terreno da imaginação. Imaginação que foi acionada pela memória de fatos vividos. A imaginação serve para dar ordem ao caos de nossa experiência vivencial/social e comprova que o corpo está na mente e que o mundo externo não é simplesmente externo. Está sim formatado pelo uso e produção de conhecimento sobre este mundo. É plausível e possível ainda ampliar diálogos com ‘outros’ provenientes de todas as esferas da vida humana, reais concretamente e reais imaginativamente. Podem ser objetos ou pessoas, animais ou vegetais, pedras ou rios, paisagens ou imagens, idéias ou projetos. O que não pode haver é a estagnação proveniente de diálogos desnivelados em que um dos interlocutores exerce dominância sobre o outro. Safra (p.210) denuncia:
Por outro lado, é parte da experiência de todo clínico testemunhar situações existenciais em que as concepções religiosas são usadas como tamponamento da transcendência e do devir, levando o indivíduo a uma estagnação e paralisia de si. A perda da condição de peregrino é também uma forma de adoecimento do sentido de si.
Em vários momentos, nos três casos apresentados, percebemos a influência externa tamponando a leveza necessária ao surgimento do pensamento meditativo que se opõe ao modo ansioso comum em situações de tensão. Como exemplo, Melcquior e a imagem de Deus como pai causavam uma parada em seu
desenvolvimento pela comparação com o pai real. Outro exemplo: Balthazar ao sentir-se culpado por delegar funções a um leigo e sentir alívio por isto. E mesmo Gaspar que sofreu por ver seu confrade ter atitude desrespeitosa diante da irmã idosa. Todos estavam travados em seus pequenos mundos e não tinham condições de dialogar com seus mitos, com os símbolos e com as representações da cultura. Saídos de seu narcisismo puderam entrar em contato com o mundo real e seus limites. Deus é pai, embora o pai conncreto de Melcquior ainda não possa sê-lo. Delegar funções é nobre e, como padre, Balthazar não terá condições de atender a todos os necessitados de ajuda. Acolher o irmão, respeitar o idoso, as crianças, os discriminados de toda espécie é proposta e meta de vida para Gaspar que terá de aceitar a frustração de, por vezes, falhar e ainda, de que em seu instituto nem todos estão preparados para esse grau de humanidade.
Enfim, todos precisaram superar a etapa narcísica que coloca no centro da reflexão as estórias vividas no passado pessoal e teima em compreender o mundo a partir dessas narrativas subjetivas, supondo ingenuamente que o mundo em torno a eles é regido pelas mesmas conexões que regeram suas primeiras experiências de vida. De algum modo, nós humanos ainda buscamos as causas em retrocesso e só um encontro dialógico genuíno pode promover e fortalecer o potencial itinerante de nosso ser no mundo com Deus e em diálogo com o futuro, com o ainda-não.
Assim, construir o próprio self supõe o diálogo entre o material simbólico disponível na cultura e as estórias pessoais que, juntos, contarão a história de vida de alguém. Belzen (2003, p.20-21) amplia esta idéia ao asseverar que:
O conhecimento do self dialógico mostra que o ser humano vive em múltiplos mundos sociais, habitados por ‘outros’ tanto reais quanto imaginários, pessoas conhecidas seja do passado, seja das histórias pelas quais se vive. Se a pessoa é religiosa ou, ao menos, familiarizada com algum tipo de religião, pode travar relacionamentos com deuses, espíritos, autoridades religiosas e pode conduzir um diálogo com estas entidades que passam a fazer parte de uma construção narrativa do mundo.
Melcquior, Balthazar e Gaspar são pessoas reais, datadas histórica e geograficamente no Brasil do século XXI. Construíram suas narrativas escorados em valores como fidelidade, família monogâmica, sexualidade responsável, pai como figura de autoridade, crença no trabalho para ganhar o pão de cada dia. Esses mesmos valores serviram para estancar sua caminhada na medida em que instituíram posições de eu rígidas. Para o pai de Melcquior, padre “é aquele que não
gosta do trabalho pesado”. Para Balthazar ‘mãe’ “saiu da linha e perdeu seus filhos”. Para Gaspar, as palavras do padrasto foram marcadas a ferro e fogo: “tua mãe não presta para nada e em minha ausência, você toma conta de tudo e zela por seus irmãos”. Até que novos diálogos tenham se instaurados estavam todos amarrados no pelourinho. Os diálogos que mantinham com entidades sobrenaturais os tiravam paliativamente de seus algozes: as palavras proferidas, as marcas no corpo, os tormentos ligados à culpa etc.
Melcquior, Balthazar e Gaspar são também metáforas pelo que contam de tantos outros seminaristas e padres que conhecemos. Estórias e histórias difíceis, vocações calcadas na busca de uma pertença, uma identidade, um lugar no mundo. De tal modo se apresentam como metafóricos que meu orientador, ao enviar-me novo paciente tenha dito: “agora você vai atender Melquizedec”. Este personagem aparece uma única vez na Bíblia e a ele se atribuem tantos feitos que exerceu papel teológico importante na interpretação do sacerdócio de Jesus Cristo e do Novo Testamento em geral. Assim é que compreender hermeneuticamente nossos três reis magos pode significar algo de bom para a formação e o acolhimento das novas gerações que em breve que estarão no comando da Igreja neste 3º milênio.