PART II: THEORETICAL BACKGROUND
2.2 Impression management in interviews
A partir de seu aporte teórico, habilidades e experiências, cada pesquisador produz respostas, em níveis mais abstratos ou operativos, para as interpelações geradas no decorrer da pesquisa. Essas respostas impactam os processos, atividades e procedimentos de constituição do objeto (problematização), de aplicação de teorias, conceitos e categorias analíticas, e de identificação, escolha e operacionalização das fontes e das técnicas e procedimentos investigativos. Através das opções efetivadas, e diante dos desafios cotidianos, o pesquisador efetua processos de identificação, coleta, sistematização, organização e análise de informações e dados e, ao mesmo tempo, em situação, define os formatos discursivos, as estruturas documentais e os recortes formais e substantivos que compõem a produção textual da tese. Percebe-se como a pesquisa vincula-se à trajetória do pesquisador, principalmente nos elementos que indicam aportes, potencialidades e condicionamentos vinculados à inserção deste nos campos de que participa.
Em todo o período da investigação, o pesquisador acumulou o trabalho profissional com a pós-graduação. Realizou atividades de ensino, pesquisa, extensão com o caráter de assessoria popular e atividades privadas de consultoria e assessoria. Nesse contexto, desenvolveu contatos, articulações e interações com entidades e lideranças comunitárias, populares e de esquerda e participou de atividades e eventos diversos, tais como congressos, conferências, simpósios e assembléias. Nesse processo, o pesquisador conheceu diversos territórios de Fortaleza, particularmente os situados na região sudoeste da cidade, onde são desenvolvidas algumas experiências de mobilização social, participação popular e planejamento urbano inovadoras. Todas essas vivências permitiram a coleta de informações através de observação direta e depoimentos, gerando reflexões e dados mobilizados na pesquisa.
Compreendendo-se a pesquisa como ofício, este articula saberes e práticas que permitem ao pesquisador transitar de suas inquietações, intuições e dúvidas em direção à construção de questionamentos e problematizações teoricamente ordenados e coerentes. Isto evidencia um processo permeado por pequenas decisões cotidianas, mais ou menos conscientes e explícitas, atravessado por reflexões inscritas nos debates da sociologia contemporânea. Nesta pesquisa se destacam a interlocução com Pierre Bourdieu, com teorias e conceitos de planejamento urbano e com a teoria da democracia em um conjunto de vertentes interpretativas. Esses fundamentos teórico-metodológicos proporcionaram referências chaves para a problematização e a constituição de categorias analíticas que iluminaram as potencialidades, as restrições e as contradições que perpassam o objeto analisado.17 Neste sentido, o desenvolvimento concreto da pesquisa articulou operações, atividades e procedimentos que evidenciaram temporalidades diversas, com ênfases e momentos predominantes, incluídos retornos e reentradas sistemáticas, exigindo do pesquisador atenção às necessidades que surgiram no decorrer do processo, tais como: revisitar um determinado autor ou obra; repensar um conceito ou tema; problematizar a articulação das teorias e conceitos às informações e dados gerados; reposicionar as inter- relações entre teoria e empiria, os processos e dinâmicas de operacionalização através de categorias analíticas; repensar os processos e as dinâmicas de estruturação das leituras; efetuar as análises das informações e dados; repensar os processos de estruturação da produção textual e as formas de sistematização e análise das informações e dados. Visando indicar aspectos e parcelas dessa trajetória, expõe-se neste momento o desenho da investigação.
A perspectiva teórico-metodológica da pesquisa articula a compreensão de que as práticas sociais dos agentes são estruturalmente situadas, evidenciando um caráter subjetivo ancorado objetivamente. Mais do que isto, o estatuto de intersubjetividade que perpassa as relações e as interações sociais pode ser apreendido através de disposições sociais que são geradas e transformadas em um campo específico, cabendo mobilizar as reflexões de Pierre Bourdieu (2003, p. 69), quando este afirma que:
Ignorar a relação dialética entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas que estas produzem e tendem a reproduzir, esquecer que essas estruturas objetivas são o produto, incessantemente reproduzido ou transformado de práticas históricas e que, por sua vez, o próprio princípio produtor dessas práticas é produto das estruturas que ele tende, por isso, a reproduzir, é reduzir a relação entre as diferentes instâncias (...)
17
Essa percepção crítica foi gerada coletivamente a partir dos estudos e debates realizados nas disciplinas do Curso e no Laboratório de Estudos da Cidade – LEC. No que interessa à pesquisa, destaquem-se particularmente as questões e problemáticas relacionadas às articulações entre teoria e empiria, objetividade e subjetividade e enfoque macro/micro.
à fórmula lógica que permite reencontrar qualquer uma dentre elas a partir de uma delas.
A pesquisa inclui a problematização das posturas, ações, interações e representações efetivadas/geradas pelos agentes sociais. Nesse sentido, as fontes e os documentos escritos, imagéticos e orais podem ser percebidos como portadores de discursos, entendidos estes como enunciados gerados e difundidos em um campo singular e não imediatamente transparentes em suas contradições, usos e sentidos sociais. A análise dessas fontes e documentos permite a identificação de traços discursivos que evidenciam dimensões e características importantes que compõem o fenômeno analisado. Sem definir uma filiação teórica às vertentes da análise de discurso, pretende-se uma apropriação livre das intuições metodológicas vinculadas aos modelos de análise semântica (Cardoso e Vainfas, 1997, p. 381). Esta distingue e articula unidades de contexto e unidades de registro.
Como unidade de contexto da pesquisa evidencia-se o campo do planejamento urbano. As unidades de registro distinguem personagens, temas, documentos e acontecimentos, quais sejam: a) personagens: os “defensores da participação popular” e os “guardiões técnicos do PD”, os empresários, a prefeitura e os movimentos populares, outros agentes individuais e coletivos identificados e qualificados como importantes na investigação; b) temas: a participação, o plano diretor; c) documentos: as diferentes versões do Plano Diretor; d) acontecimentos: a tramitação na CPPD, o Congresso do Plano Diretor, as Audiências Públicas na Câmara Municipal, as negociações anteriores às Sessões Legislativas de aprovação, as Sessões Legislativas de aprovação.
Ao mesmo tempo, na revisão do Plano Diretor articulam-se uma dimensões analíticas processual e substantiva. A dimensão processual capta e analisa os formatos institucionais e metodológicos da revisão, com seus ritmos, negociações, confrontos, conflitos, alianças e articulações. A dimensão substantiva problematiza as peças político-técnicas geradas, os conteúdos do PD, as concepções, valores e proposições defendidas e em disputa.
As pesquisas e reflexões preliminares também indicaram a temporalidade como um aspecto importante ao processo, articulando variadas dimensões. Em primeiro lugar, os aspectos cronológicos, tendo em vista que a revisão do PD ocorreu em um prazo longo, de oito anos, atravessando duas gestões municipais. Cardoso (1997, p. 08), refletindo sobre algumas tendências metodológicas inscritas na história, e nas ciências sociais como um todo, indica outros níveis de temporalidade: “a curta duração dos acontecimentos, o tempo médio (e
múltiplo) das conjunturas, a longa duração das estruturas; além de que o próprio tempo longo, estrutural, é diferencial em seus ritmos dependendo de quais estruturas se trate”.
Desta forma temporalidades diversas atravessam a revisão do PD, evidenciando a existência de ritmos diferenciados, inclusive na emergência e evolução das estruturas do campo e das disposições associadas. Nesta pesquisa, pode-se apontar, por exemplo, para a temporalidade das estruturas que compõem o campo, com suas resistências, tensões, continuidades e rupturas e também para as temporalidades políticas, distinguindo contextos, situações e períodos, cada um demarcado por conflitos, articulações, negociações, confrontos, mobilizações e consensos próprios. Essa percepção da inscrição do processo em temporalidades diversas permite apreender o jogo no campo, com seus ritmos, cansaços, afastamentos e retomadas. Nessas temporalidades evidenciam-se perdas de dinâmica e de élan, retomadas, antipatias e simpatias, ressentimentos, interesses individuais e coletivos, mudanças de estratégias e de focos, ressignificações e mudanças de posições e papéis dos agentes individuais e coletivos.
Além dessas indicações quanto ao objeto/problematização da pesquisa e quanto aos referenciais teóricos e categorias analíticas geradas, é importante indicar as fontes da pesquisa.