1. Introduction
1.1 Cell migration
1.1.2 Implications in Pathobiology
O monólogo interior está presente nas duas obras. As personagens que relatam sua própria história mantêm um diálogo interior. Discutem sobre suas próprias atitudes, pensamentos e sentimentos. Através do personagem principal, Santiago e Urania, podemos notar esse microdiálogo, a fala do narrador, sua escuta e sua resposta a outra voz. Tanto Santiago quanto Urania são considerados como um herói dostoievskiano, pois, apesar de falarem deles mesmos e de seus ambientes, também falam do mundo. São ideólogos, porque denunciam, criticam situações, experiências como as deles.
O monólogo interior desses personagens é um modelo perfeito de microdiálogo, porque se interioriza na personagem; assegura que o todo romanesco foi construído como um grande diálogo e nele todas as palavras são bivocais, em cada uma delas há vozes em discussão. Essas vozes, principalmente nos microdiálogos, sempre se escutam de forma recíproca, respondem umas às outras e se espelham de forma mútua. Todos os personagens do romance desenvolvem um monólogo interior gerando uma ambivalência do real ficcional e proporcionando uma crítica, uma variedade do ponto de vista.
Íris M. Zavala (1991, p. 81) afirma que o diálogo interior é a voz do outro interior que é a sua própria, o eu e o outro são enunciados indivisíveis, vozes que se entrelaçam e se recuperam. O discurso interior desses personagens já citados
desenvolve-se dialogicamente. Urania e Santiago falam, cada um, não de si mesmos, não de um outro, mas consigo mesmo e com um outro. O seu diálogo interior, ao longo de toda a obra, entrelaça-se, combina-se com o diálogo com o seu outro, seu alter ego. Zavala (1991, p. 81) comenta ainda que o diálogo interior, “em sua interrogação constante, consegue fazer-nos aparecer o mundo interior, onde não rege a lógica simplista do viver cotidiano do sujeito indivisível e unitário”. 62
Podemos notar, através do alter ego desses personagens, dos seus diálogos interiores, que eles se revelam: suas dúvidas, desejos, anseios e multiplicidade. Santiago e Urania sempre realizam monólogos com um outro que pode ser seu outro “eu”, pois, como afirma Paz “para se realizar, o eu necessita encontrar o tu, completar-se no outro” 63. Guberman (1997, p.38) aborda o tema do monólogo, do crescimento do eu como monólogo que se funda na identidade, porque o eu que é o “outro” escuta o que diz a si próprio como esses personagens da obra de Vargas Llosa.
Nas duas obras analisadas a simultaneidade de fatos favorece a que os personagens Santiago e Urania se dupliquem através de suas contradições interiores e assim dialogue com seu duplo, com seu alter ego, como afirma Bakhtin (1981, p.22): Dostoiévski procura converter cada contradição interior de um indivíduo para dramatizar essa contradição e desenvolvê-la extensivamente. Isso também pode ser observado neste fragmento de Conversación en la Catedral (p. 214):
—Entra, vas a resfriarte ahí afuera —ya no enojado, Zavalita, contento de verte—. Hay mucha humedad, flaco.
Lo cogió del brazo, lo hizo entrar, volvió al sillón, Santiago se sentó frente a él.
—¿Han estado despiertos hasta ahora? —como si ya te hubiera perdonado, Zavalita, o nunca te hubiera reñido—. El Chispas tiene un buen pretexto para no ir mañana a la oficina.
—Nos acostamos hace rato, papá. Yo estaba desvelado.
—Desvelado con tantas emociones —mirándote con cariño, Zavalita—. Bueno, no es para menos. Ahora tienes que contarme todo con detalles. ¿Te trataron bien, de veras?
—Sí papá, ni me interrogaron siquiera.
—Bueno, menos mal que pasó el susto —hasta con un poquito de orgullo, Zavalita—. Qué querías hablar conmigo, flaco.
62
“en su interrogación constante, consigue hacernos asomar al mundo interior, donde no rige la lógica simplista del vivir cotidiano del sujeto indivisible y unitario”. (1991) (tradução nosa)
63
Também se observa essa contradição em outro fragmento de La fiesta del Chivo (p. 15).
¿Lo detestas? ¿Lo odias? ¿Todavía? «Ya no», dice en voz alta. No habrías vuelto si el rencor siguiera crepitando, la herida sangrando, la decepción anonadándola, envenenándola, como en tu juventud, cuando estudiar, trabajar, se convirtieron en obsesionante remedio para no recordar. Entonces sí lo odiabas. Con todos los átomos de tu ser, con todos pensamientos y sentimientos que te cabían en el cuerpo. Le habías deseado desgracias, enfermedades, accidentes. Dios te dio gusto, Urania. El diablo, más bien. ¿No es suficiente que el derrame cerebral lo haya matado en vida? ¿Una dulce venganza que estuviera hace diez años en silla de ruedas, sin andar, hablar, dependiendo de una enfermera para comer, acostarse, vestirse, desvestirse, cortarse las uñas, afeitarse, orinar, defecar. ¿Te sientes desagraviada? «No».
A voz se desloca da segunda e terceira pessoas, impessoalmente onisciente, para a primeira pessoa, respondendo às perguntas e observações feitas por outra voz. Seu narrador, seu alter ego, sabe tudo o que o personagem pensa e sente. Percebemos, inclusive, o uso de aspas dentro do texto, o que, segundo Van DijK (apud ZAVALA, 1991), marca a convergência interreferencial de dois discursos: “a sintaxe, as aspas, as cursivas que revelam as citações diretas, ou melhor priva o texto de todo marcador ” 64.
Nas duas obras aqui analisadas as aspas aparecem às vezes indicando a mudança do tom de voz do personagem, nomes próprios, de obras ou mesmo alguns verbos, outras vezes indicando citações diretas. Segundo Bakhtin, o fenômeno dos personagens duplas se explica através da obstinação de Dostoiévski por ver tudo coexistente, percebido e mostrado em contiguidade e simultaneidade, situando no espaço e não no tempo as contradições e etapas interiores do desenvolvimento de um indivíduo; tudo isso leva Dostoiévski a dramatizar no espaço, e dessa forma, obriga os personagens a dialogarem com seus duplos, com seu alter ego.
Nos dois fragmentos a seguir, o narrador conversa, interroga Santiago e Urania respectivamente, mas sem obter respostas; no entanto, isso não lhe importa porque sabe quais seriam essas repostas, sabe quais serão suas atitudes pelos gestos de seu corpo, por seu pensamento concentrado no passado; além de questionar suas atitudes, dá opiniões ao personagem, como podemos observar:
64
“la sintaxis, las comillas, las cursivas que revelan las citas directas, o bien se priva el texto de todo marcador”. [tradução nossa]. ZAVALA (1991) p. 50
¿Había sido ese segundo año, Zavalita, al ver que no bastaba aprender marxismo, que también hacía falta creer? A lo mejor te había jodido la falta de fe, Zavalita. ¿Falta de fe para creer en Dios, niño? Para creer en cualquier cosa, Ambrosio. La idea de Dios, la idea de un “puro espíritu" creador del universo no tenía sentido, decía Politzer, un Dios fuera del espacio y del tiempo era algo que no podía existir. Andabas con una cara que no es tu cara de siempre, Santiago. (Conversación en la Catedral p.100)
Tu padre había sido tu padre y tu madre aquellos años. Por eso lo habías querido tanto. Por eso te había dolido tanto, Urania. [...] ¿Por dónde vas? No ha tomado decisión alguna. Por su cabeza, concentrada en su niñez, en su colegio, en los domingos en que iba con su tía Adelina y sus primas a las tandas infantiles del cine Elite, no ha cruzado la idea de no entrar al hotel a ducharse y desayunar. Sus pies han decidido seguir. Camina sin vacilar, segura del rumbo, entre peatones y automóviles impacientes por los semáforos. ¿Seguro quieres ir donde estás yendo, Urania? Ahora, sabes que irás, aunque tengas que lamentarlo. (La fiesta del Chivo, p. 23)
O sujeito dividido e dual de Santiago e Urania permitem-nos perceber o seu interior e até confundir-nos com outro personagem; tamanha a independência entre ambos, apesar do mútuo conhecimento. O diálogo com o seu outro remete-nos ao dialogismo. Há uma interação entre o enunciador e o enunciatário. Às vezes o leitor é quem refletirá sobre o texto e consigo mesmo, ou seja, a partir das várias vozes existentes no texto. Para Zavala (1991, p. 128), “o outro não é a máscara, mas sim a realidade, a valorização que o distancia da tradição no tratamento deste motivo” 65.