4. D ISCUSSION OF F INDINGS
4.1. Implications of changes on CEZ Group’s value chain and structure
O histórico de relacionamentos entre as empresas da cadeia produtiva de calçados de Franca serve de precedente para a discussão sobre as características da rede de empresas no IPC. Além disso, a questão natural latente é a dificuldade de estabelecimento da estratégia comum e da ação concreta de cooperação das empresas, num plano de relações horizontais, dado a forte pressão competitiva existente nesse mercado. Não devemos também perder de foco a noção de que normalmente existirá assimetria tanto no poder de barganha quanto nos motivos que justificam a participação de diferentes empresas numa ação conjunta.
Do ponto de vista das interações, Amato Neto (2000, p. 130) escreve que no “relacionamento das pequenas empresas com as grandes, constatou-se que ‘o relacionamento não é significativo’, ocorrendo alguma ação conjunta nas atividades de exportação, e lançamento de novos modelos em feiras do setor”. O que evidencia um razoável distanciamento entre as empresas calçadistas de Franca, de grande e pequeno porte.
Esse ponto fica mais claro quando Suzigan et al. (2001, p. 316) comentam que o sindicato pratronal, o Sindifranca agrega um razoável número de empresas dos “segmentos de médio/grande porte. Há, no entanto, grande número de empresas não sindicalizadas e pouca representatividade do segmento de pequenas empresas”, reforçando a percepção de que existe uma divisão no relacionamento segundo o porte das empresas. De acordo com Pizzo (1999), em março de 1999 Franca
possuía 360 indústrias de calçados, mas apenas 45% eram associadas ao Sindicato Patronal.
Numa pesquisa de campo, Suzigan et al. (2001), tomando como referência uma amostra de 50% de empresas com até 100 empregados, 30% de empresas com 101 a 500 empregados e 20% de empresas com mais 500 empregados, chegaram a conclusões ainda mais esclarecedoras. Visando a perceber “se a empresa tem o costume de trocar idéias ou discutir problemas estratégicos com outras empresas da região”, a característica de distanciamento nas relações é reforçada, pois “foi notado que isso não é uma prática sistemática dos agentes, dado que a maioria das empresas declarou que isso ocorre ocasionalmente” (SUZIGAN et al., 2001, p. 306-307).
Na visão dos autores, a discussão de problemas comuns e estratégicos não encontra amparo formal em nenhum fórum permanente, com vistas ao debate dos desafios de longo prazo. E, embora tenha sido registrada a importância das ocasiões sociais para troca de informações e idéias, parece pouco provável que encontros casuais possam ajudar a estabelecer estratégias de longo prazo e ações efetivas de cooperação entre as empresas, no contexto mais amplo da cadeia produtiva.
Aqueles mesmos autores (SUZIGAN et al., 2001, p. 306-307), buscando ainda averiguar “se a empresa tem o costume de visitar outros produtores locais do setor” e se “abre seu local de trabalho para outros produtores do ramo”, concluíram que “essa não é uma prática muito comum entre as empresas”. Ademais, registram que há “uma expressiva resistência das empresas, especialmente entre aquelas de maior porte, à abertura de seu local de trabalho”. O que, provavelmente, reflete a facilidade e o medo de imitação dos produtos na esfera produtiva.
A despeito do panorama adverso à cooperação, os autores registram algumas formas de interação entre os fabricantes de calçados que se limitam ao “intercâmbio de informações cadastrais e sobre matérias-primas”, “mão-de-obra e máquinas”, desenvolvimento de solado (“limitada a pequeno grupo de empresas”) e discussão da “situação da indústria”. E relatam ainda: “É comum também, entre ‘empresários amigos’, visitar empresas concorrentes para comparar produtos e processos de produção” (SUZIGAN et al., 2001, p. 314). Tudo isso indica que as atividades de cooperação empresarial estão restritas não só ao número e peso dos agentes econômicos dentro da cadeia produtiva calçadista de Franca, como também ao
tipo de informação e conhecimento que se quer compartilhar apenas com pessoas consideradas amigas.
Outro elemento que podemos averiguar é a interação que se dá nos relacionamentos de cooperação vertical entre as organizações das diferentes cadeias produtivas que compõem o complexo da rede produtiva de calçados. Nesse aspecto, Suzigan et al. (2001, p. 313) escrevem: “Embora haja forte inter-relacionamento, em termos produtivos, entre curtumes, fabricantes de calçados e fornecedores de máquinas, equipamentos, insumos e componentes, não há atividades cooperativas ou ações conjuntas das empresas”, o que na opinião dos autores justifica-se pelo “forte clima de competição entre as empresas e à falta de confiança, acentuada por fracassos de tentativas anteriores de cooperar”.
Essa última constatação não é uma avaliação isolada, pois Noronha e Turchi (2003, p. 389) também registram a mesma percepção, dizendo: “Cooperações verticais (compradores e fornecedores) entre empresas são raras no complexo calçadista”. E apoiados em entrevistas com membros de diversas associações do complexo calçadista, explicitam o reconhecimento de “relatos de conflitos inter e intra- setoriais e histórias de tentativas malsucedidas ou penosamente bem-sucedidas de cooperação empresarial”.
Algumas das considerações desses autores vêm ao encontro do panorama geral aqui demonstrado anteriormente. Para eles o comportamento empresarial encontra-se dividido pela lógica de interesses distintos dos produtores que objetivam a exportação e o mercado interno. Ademais, citando o papel destacado da ACI (Associação Comercial e Industrial) de Novo Hamburgo, região do Vale dos Sinos (RS), na articulação dos interesses dos produtores calçadistas num sistema de cooperação vertical dentro do complexo produtivo, dizem: “A disseminação e importância das ACI não encontraram paralelos em São Paulo” (NORONHA; TURCHI, 2003, 390).
Em Franca, o Sindifranca e a Associação Comercial e Industrial de Franca (Acif) centrada mais nas atividades comerciais, dividem poder de influência local e coexistem buscando promover a cooperação horizontal em distintos setores. Isso não quer dizer que Acif não tenha interesse em partilhar com a indústria novos desafios, mas implica agregar outros interesses e diferente lógica de grupos de poder da esfera
comercial, o que pode acabar tornando ainda mais complexa a teia de relacionamentos empresariais na cadeia produtiva calçadista de Franca.
Tristão (2000, p. 197), numa extensa pesquisa envolvendo diversas empresas do cluster industrial calçadista de Franca, tendo visitado 32 empresas de fabricação de calçados, para obter 20 questionários respondidos pela direção e 17 da gerência, dentre 80 empresas totais pesquisadas, concluiu pela evidência das respostas que para os “administradores dessas empresas em relação á interação dos interesses mútuos de parte da cadeia produtiva de calçados de Franca, um percentual altíssimo de 91,4% afirmou que não existia integração entre as empresas”.
Frente ao problemático quadro de relacionamentos pouco cooperativos entre as empresas da cadeia produtiva de calçados de Franca, surgiu nos anos 90 o novo desafio da erradicação do trabalho infantil. Fabricantes de calçados se vêm envolvidos numa polêmica cuja solução não depende da ação isolada de um produtor, mas da ação cooperativa e coordenada do conjunto de atores da cadeia produtiva calçadista, nos seus diversos níveis. A rede de empresas signatárias do IPC representa o resultado concreto do enfrentamento local desse novo desafio. Portanto, é preciso compreender suas características para entender a forma da cooperação instalada.