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3. E MPIRICAL F INDINGS

3.4. Company Level – CEZ Group

3.4.3. Group’s strategy

Ao tratar do mecanismo de governança das relações empresariais do sistema de produção no cluster calçadista de Franca é preciso estabelecer a importância das diferentes forças que dominam a comercialização do produto, segundo o tipo de mercado que se pretende atingir. Sem compreender que existem diferenças significativas nas formas de comercialização do produto no mercado interno e no mercado externo, ficará comprometida a percepção sobre a governança das relações entre empresas e sua possibilidade de cooperação interorganizacional dentro da cadeia produtiva local.

Contudo, não pretendo com isso excluir ou negar a existência de outras formas de relacionamentos entre empresas, que não sejam dominadas pela lógica econômica dos mercados (interno e externo), mas vou me concentrar nesse momento nas forças comerciais de natureza nos negócios específicos que comandam a realização do produto e influenciam nas relações interorganizacionais. A natureza econômica dos negócios é parte importante que afeta o comportamento socialmente responsável.

Ao longo dos anos 90, as exportações da indústria calçadista de Franca, segundo dados do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca), na média, representaram 9,3% do total das exportações brasileiras de calçados, comparados aos números totais de exportação da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O pico das exportações, em valores de dólares americanos, ocorreu em 1993, com receita de US$ 228 milhões para 14.546 mil pares de calçados. O preço médio do calçado exportado nos anos 90 foi de US$ 16,88 o par, tendo seu pico ocorrido em 1995 (US$ 20,44 o par), para depois entrar em trajetória descendente. A produção anual de calçados em Franca girou em torno de 27 milhões de pares e a média das exportações nos anos 90 não ultrapassou a 8 milhões de pares. As grandes empresas são predominantes na área de exportação e os importadores norte-americanos (EUA) são os maiores clientes (SUZIGAN et al., 2001).

Na avaliação de Suzigan, Garcia e Furtado (2003) e Garcia (2001), a inserção da indústria de calçados de Franca nos mercados consumidores mundiais se dá de forma subordinada aos grandes compradores internacionais: as redes de varejo dos EUA e Europa. Os autores utilizam a expressão “quase-hierarquia”, para situar o poder de barganha e a intensidade de comando na cadeia produtiva global da indústria de

calçados que é exercida por esses “agentes internacionais” que controlam o acesso aos grandes mercados consumidores internacionais.

Os mesmos autores (SUZIGAN; GARCIA; FURTADO, 2003) explicitam que utilizaram a abordagem e formato das cadeias produtivas globais elaboradas por Gereffi, que enquadra a indústria calçadista nas cadeias dirigidas pelo comprador. Na análise desse autor, comentado por Suzigan, Garcia e Furtado (2003, p. 71), a estrutura de governança que é “determinada pela capacidade da firma em deter ativos estratégicos”, de “caráter tácito e específico”, está nas mãos de grandes compradores que coordenam não a produção, mas a “posse de ativos comerciais, como marcas ou canais de comercialização e distribuição”.

Nesse caso, na análise de Suzigan, Garcia e Furtado (2003, p. 71-73), os produtores do cluster calçadista de Franca estão reclusos à esfera da produção, incorporando “melhorias importantes em termos de tecnologia de processo, qualidade dos produtos e prazos de entrega”, transmitidas e comandadas pelos compradores internacionais. Assim, os produtores “não conseguem avançar sobre outros ativos que conferem valor às mercadorias”, tais como “desenvolvimento de produto e o estabelecimento de ativos comerciais próprios (marca, canais de comercialização e distribuição)”. O conceito e o modelo do calçado a ser produzido, bem como “o próprio preço” são comandados pelo comprador, demonstrando grande fragilidade estratégica dos produtores locais.

Numa pesquisa de campo, Suzigan et al. (2001), analisando a extensão real dos departamentos internos no desenvolvimento de produtos e design entre as empresas pesquisadas, comentam que as empresas que atuam mais destacadamente no mercado internacional (EUA em especial) realizam tímidas atividades nessas áreas. Nas palavras dos autores: “Isso ocorre principalmente em razão da presença do agente exportador, que fornece à empresa contratada todas as características do produto” (SUZIGAN et al., 2001, p. 304).

Na avaliação de Vendrameto (2002, p. 70), a cadeia produtiva de calçados “acumula competência com produtos de qualidade mundial, fabricando produtos para empresas de marca estrangeira, que são vendidos em mercados sofisticados, sem que haja nenhuma referência ao lugar e por quem foi produzido”. Noutra parte, ressalta que as “empresas italianas, que detêm os mercados mais rentáveis

desse produto, utilizam-se de facilidades do leste europeu e do Brasil para montagem de seus sapatos” (VENDRAMETO, 2002, p. 77). O mesmo autor estima que o setor calçadista brasileiro movimenta nas exportações 1,5 bilhão de dólares ou 150 milhões de pares de sapatos por ano, de um total nacional de 6 bilhões de dólares, equivalentes a 500 milhões de pares de sapatos ano. Equivale dizer que o preço médio do par de sapato das exportações francanas está acima do preço médio nacional.

Em outras palavras, a indústria calçadista de Franca não dispõe de ativos estratégicos que possam lhe permitir apropriar-se de maiores parcelas do valor agregado gerado pelas economias externas do sistema de produção local e não participa efetivamente na construção de formas de governança influentes na comercialização do produto no mercado externo. Possíveis ações estratégicas dos produtores locais na coordenação de ações conjuntas, consórcios, por exemplo, para exportação continuam limitadas pelo grande poder de barganha dos compradores internacionais. Ou seja, a forma de governança das relações econômicas voltadas para a exportação é imposta de fora sobre os produtores que estão dentro do cluster.

O mercado interno é mais representativo em valores monetários e pares de calçados por ano que o mercado externo, mas é o segmento de atuação das muitas empresas de tamanho pequeno e médio, além de atrair também parte da produção das grandes empresas. Na perspectiva de Suzigan, Garcia e Furtado (2003, p. 73), dado à complexidade e heterogeneidade das empresas na estrutura da cadeia produtiva de calçados: “Grande parte das MPMEs [micro, pequenas e médias empresas] locais, com importantes exceções, é incapaz de dominar funções corporativas superiores”, consequentemente, impedindo-as também de maior apropriação do valor adicionado na produção.

Segundo os mesmos autores, no mercado doméstico e Mercosul, a forma de governança da cadeia de produção calçadista de Franca favorece o maior controle e exercício de coordenação comercial pelas próprias empresas. Canais de comercialização e distribuição dos produtos são comandados pelas empresas produtoras. Atividades de desenvolvimento de produtos e design são mais significativamente realizadas pelos produtores, a despeito de que “tais atividades estejam demasiadamente pautadas pela simples adaptação dos modelos concebidos no exterior para o mercado brasileiro” (SUZIGAN; GARCIA; FURTADO, 2003, p. 75).

Essa última afirmação parece ter origem numa pesquisa de campo em Franca, conforme apurado por Suzigan et al. (2001, p. 305), que esclarece quais as fontes de informações para as atividades de desenvolvimento de produto e concluem que há “ausência de um processo mais arrojado de lançamento de produtos e moda” das empresas locais. As chamadas fontes internacionais (feiras, catálogos e revistas, estilistas e clientes) predominam na coleta de informações sobre os modelos, estilos e

design próprios, revelando, na opinião dos autores, que “as empresas não parecem estar

dispostas a fazer os investimentos e correr os riscos associados a uma postura mais agressiva em termos de desenvolvimento de produtos” (SUZIGAN et al., 2001, p. 305). Os autores citam o exemplo arrojado da indústria calçadista espanhola, empenhada numa política de sofisticação da produção de calçados, para observarem que no caso francano pode ser essa uma das razões determinantes de perda de participação nos mercados internacionais.

Uma outra razão pode ser o atraso das empresas calçadistas locais, segundo Amato Neto (2000), numa pesquisa do Sebrae da regional de Franca em 1998, em obterem algum tipo de certificado de qualidade de garantia – constatou-se que apenas três empresas (duas de grande porte e uma de médio porte) possuíam o certificado ISO 9000.

Percebe-se, portanto, que o mecanismo de governança das relações de negócios entre as empresas da cadeia produtiva de calçados carrega consigo assimetrias no poder de barganha, que decorre da incapacidade da firma possuir ativos estrategicamente difíceis de serem imitados, acentuadamente nas esferas da distribuição, comercialização e desenvolvimento de novos produtos. No âmbito do mercado externo, a cadeia produtiva global é dominada por fortes compradores internacionais que dominam os canais de distribuição, comercialização e ditam as características do produto.

No caso do mercado interno e Mercosul existe maior espaço para as empresas produtoras do cluster francano exercerem seu poder de comando, através do domínio dos canais de distribuição, comercialização e desenvolvimento de produtos, embora, neste último caso, a ação não possa ser considerada inovadora. No entanto, o atraso tecnológico de grande parte das MPMEs e sua maior participação competitiva no sistema produtivo local confere uma certa fragilidade na capacitação corporativa das

firmas. Amato Neto (2000) registrou no Sebrae de Franca em 1998 que, dentre cerca de 390 empresas fabricantes de calçados, 365 (quase 94%) são micro e pequenas empresas, 15 (3,8%) são de porte médio e apenas 10 (2,5%) são consideradas grandes.

Diante desse panorama geral da indústria calçadista nacional e da cadeia produtiva de calçados de Franca, o cluster local poderá ser mais bem compreendido nas soluções estratégicas criadas para enfrentar e explorar os desafios e as oportunidades postos pelos ambientes econômico e institucional, bem como no estabelecimento de estruturas de governança que sirvam para coordenar e monitorar ações cooperativas entre as empresas. Apesar da grande pressão competitiva existente no mercado em questão, a aglomeração de produtores de diferentes portes, em diferentes níveis da produção, acaba formando uma considerável rede de empresas, inevitavelmente, dependentes de suas próprias relações no interior da cadeia produtiva.