Os municípios de São Caetano do Sul, Santo André e Mauá fazem parte da região do Grande ABC, sub-região paulista, anexa à RMSP e formada além dos municípios já citados, também por Diadema, São Bernardo do Campo, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. São Caetano, Santo André e Mauá. Eles, além da vasta área industrial de seus municípios, compartilham em comum o fato de serem cortados pela ferrovia e possuírem uma ou mais estações ferroviárias.
Santo André foi o maior dos municípios do Grande ABC. Contava com área correspondente a todos os demais sete municípios que se emanciparam a partir dessa cidade. O núcleo urbano original faz parte do pequeno conjunto de vilas pré- existentes à ferrovia, sendo fundada como Santo André da Borda do Campo. Abandonada em 1560, tornou-se um distrito afastado da Vila de São Paulo de Piratininga. Após o sistema de sesmarias, em 1637 as terras que atualmente formam os municípios do Grande ABC foram concedidas à ordem de São Bento, formando duas grandes fazendas; São Bernardo e São Caetano. A primeira especializou-se na agricultura de subsistência e a segunda na fabricação de tijolos e artefatos de cerâmica. (PMSA, 2016). A construção da ferrovia ao tangenciar essas terras, manteve na parada da vila de Santo André o nome da fazenda São Bernardo. Em 1870 as fazendas dos beneditinos foram adquiridas pela Província de São Paulo, servindo como locais para novos assentamentos da grande massa de imigrantes que chegavam do exterior.
O povoado de São Caetano, originado de Santo André, iniciou sua formação por colonos imigrantes italianos em 1877, obtendo sua estação ferroviária em 1883 e permanecendo um distrito de Santo André até 1947 quando se emancipou. Neste local concentravam-se olarias e fabricantes e artigos cerâmicos aproveitando a mão de obra imigrante que já possuía grande experiência nesse tipo de material. Diferentemente de Santo André e Mauá, São Caetano formou junto à estação ferroviária uma concentração residencial razoavelmente densa, provida de comércio e serviços, chamado de Bairro Fundação. Após a ocupação da orla ferroviária pelas plantas industriais, a ocupação urbana típica de São Caetano surgiu assim como em Santo André, partindo da área industrial que cerca a faixa férrea.
diretamente de Santos para São Paulo, foi estabelecido em Mauá o parque petroquímico de Capuava, com refinarias e indústrias petroquímicas que se instalaram a partir da década de 1950.
A mão de obra imigrante que chegava à São Paulo, vinda diretamente do exterior ou regressa das lavouras, em grande parte acostumada aos trabalhos manuais rotineiros das atividades industriais, impulsionou a instalação das primeiras indústrias e o estabelecimento do comércio. Em São Caetano do Sul, o primeiro povoado a partir da divisa municipal da Capital, as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM), foram pioneiras a implantar um grande empreendimento industrial fora da cidade de São Paulo em 1912. Isto ocorreu após a má sucedida tentativa de unificar diversas atividades fabris em um único local, experimento que foi tentado na Mooca. As Indústrias Matarazzo optaram pela aquisição de uma vasta área na divisa entre São Caetano e São Paulo para abrigar suas atividades químicas, cerâmicas entre outras, aproveitando as instalações da pré-existente Indústria Pamplona, fabricante de sabão, glicerina e outros produtos (CALÍCIO, 2012, p. 41).
A localização dessa planta industrial da Matarazzo também foi escolhida por sua posição estrategicamente próxima à estação ferroviária, tornando-se uma das primeiras indústrias clientes da estrada de ferro, antes que essa vinculação se tornasse paradigmática. A IRFM ainda construiu em área próxima a indústria a Vila Matarazzo, para moradia dos funcionários mais essenciais à fábrica. Essa vila influenciou a formação e o desenvolvimento do Bairro Fundação, o primeiro da cidade e que concentrou importante atividade comercial e residencial, num exemplo
atípico de cidade completa próxima à ferrovia, o que não se repetiu na maioria das outras estações cercadas pela atividade industrial. Ainda em São Caetano, diversas empresas buscaram se instalar próximas aos trilhos, obtendo as mesmas vantagens experimentadas pela Matarazzo da interligação direta com a ferrovia. Empresas como a General Motors, Aços Villares entre outras, além da vantagem da proximidade, também tinham instalados desvios particulares para receberem e despacharem suas cargas sem transbordos rodoviários.
Figura 23 - Estações da Linha 10 - Turquesa e a data de suas inaugurações, bem como as áreas industriais formadas de São Paulo a Mauá (em laranja). Fonte: Google Earth – (figura
elaborada pelo autor)
Na cidade de Santo André, apesar de mais antiga, a urbanização foi similar à de São Caetano, por ambas terem passado por processos paralelos de industrialização de sua economia. Sua área central também foi formada ao redor da estação ferroviária, tendo em suas proximidades uma concentração de estabelecimentos comerciais, oficinas e moradias mais esparsas do que em São Caetano. As indústrias ocuparam as maiores áreas do território desenvolvendo,
Figura 24 - fragmento de foto aérea da área da General Motors em São Caetano do Sul, no ano de 1958 com seus desvios ferroviários (em tracejado vermelho), influenciando na
implantação da indústria. Fonte: (GEOPORTAL, 2015)
Analisando as áreas centrais dos Municípios de São Caetano, Santo André e Mauá, percebe-se a ausência de uma separação formal entre as moradias, comércio e indústria, formando tecidos heterogêneos e atividades mistas. Essa mistura de atividades está em consonância com as preocupações assinaladas por Villares (1946, p. 41), a respeito das inconveniências em mesclar territórios de moradia com atividades industriais pelo risco ou desconforto aos moradores. Em Mauá, um exemplo de indústria cuja atividade provocava incômodo no entorno está no próprio Paço Municipal da cidade, no centro urbanizado cercado por moradias e comércio em cujo terreno funcionava um curtume, contumaz produtor de maus odores de matéria orgânica em decomposição e produtos químicos. Santo André também possui exemplo semelhante, tendo suas primeiras indústrias químicas localizadas na área conhecida como Ipiranguinha, também ao lado de moradias operárias. Em São Caetano o exemplo mais notório era a própria vila operária construída pela Matarazzo, que era a primeira a sofrer com o forte odor dos produtos químicos ali produzidos, entre eles o “hexaclorociclo-hexano” ou BHC, que com seu odor desagradável e característico, funcionava para os visitantes ou viajantes como um triste indicativo que se aproximavam da cidade de São Caetano.
Figura 25 - São Caetano do Sul em 1958 com seu viário convergindo para a estação ferroviária. Fonte: (GEOPORTAL, 2015).
Os núcleos urbanos dessas três cidades desenvolveram suas áreas urbanas e primeiras concentrações industriais isoladamente, estabelecendo um viário transversal à ferrovia, conforme descrito por LANGENBUCH (1971). Isto levou a organização do comércio local próximo à estação ferroviária, com um cinturão posterior predominantemente industrial que se mesclava com moradias operárias que passavam a prevaleciam em número diretamente proporcional à distância da ferrovia, ocupando os terrenos acidentados, característicos do vale do Rio Tamanduateí.
As grandes glebas que existiam entre esses povoados seriam posteriormente adquiridas, loteadas e comercializadas por companhias imobiliárias que promoveram a setorização urbana dos terrenos, separando-os por perfil de ocupação. Essas companhias reservaram os quinhões mais valorizados, próximo às vias férreas, para os lotes propícios à expansão industrial, pois essas áreas já estavam sendo preferidas pelos industriais para construir suas fábricas. Também a moradia operária se tornava preocupação da classe industrial à medida que eram necessários mais
Parque da Mooca, o aproveitamento dos terraços do Rio Tamanduateí até a beira da região colinosa. Ela proporcionou a formação do maior parque industrial de sua época em número de empresas agrupadas no Brasil.