As formações urbanas do Estado de São Paulo, se não foram criadas diretamente em função e ao redor das ferrovias, ao menos foram favorecidas por esses corredores. Segundo SAIA (1972) quase 90% dos municípios do Estado surgiram em função da construção das estradas de ferro a partir da segunda metade do século XIX.
Na atual RMSP, a formação dos diversos municípios que a formam estão relacionadas direta ou indiretamente à ferrovia, que induziu a formação de núcleos urbanos de tamanho e complexidade diferentes, sobremaneira após o expressivo aumento populacional, ocorrido a partir do final do século XIX, incrementado pelo influxo dos imigrantes à capital. Esse aumento populacional súbito fez pressão sobre a então pequena área urbanizada de São Paulo, estimulando a colonização de áreas afastadas. Essa expansão da ocupação urbana, ordenada pelo próprio eixo ferroviário, concentrava-se inicialmente ao redor das estações ferroviárias, transformando-as em centralidades dessas novas localidades.
Figura 16 - Municípios da RMSP que se desenvolveram a partir das estações ferroviárias. Fonte: Google Earth (figura elaborada pelo autor)
Caracterizados por LANGENBUCH (1971, p. 97) como “povoados-estação”, essas localidades se desenvolveram obedecendo às dinâmicas próprias, porém sustentando uma relação de profunda dependência político-financeira com a cidade “central”, no caso, São Paulo, além da própria ferrovia, meio pelo qual recebiam seu fluxo de pessoas e cargas, bem como as possibilidades de comunicação e ligação com suas vizinhanças.
Esse fenômeno da expansão do espaço urbano através da ferrovia passou-se de maneira diferente do que fora observado nos centros europeus, onde o crescimento das cidades se dava a partir de seu centro e ocupando os vales e outras áreas mais facilmente edificáveis para, só posteriormente, estabelecer ocupações nas encostas e elevações. Em São Paulo, o traçado ferroviário da SPR contribuiu de maneira não intencional para a organização da expansão urbana. Ao redor de algumas estações ferroviárias desenvolveram-se núcleos urbanos que influenciaram na localização das primeiras indústrias, desenvolvidas a partir do aumento da circulação de capitais gerados no setor agrário, fazendo uso do extenso
contingente de trabalhadores egressos do campo e dos que ainda imigravam do exterior para São Paulo. Esses novos núcleos urbanos surgiram e se desenvolveram a partir da ferrovia, sendo esta responsável pela metropolização de São Paulo (WILHEIM, 1965, p. 10)
As estruturas e organizações urbanas desses povoados-estação se desenvolveram distintamente de local para local, adaptando-se as condições econômicas e topográficas de suas regiões e imprimindo carácteres próprios no tecido urbano e social. No entanto, o sistema de expansão local no formato de irradiação, a partir das estações ferroviárias, foi comum a diversas das localidades à sudeste da cidade de São Paulo, como São Caetano e Santo André. Nessas localidades, a facilidade de comunicação com São Paulo, e a topografia favorável, tornaram as áreas no entorno das estações, redutos valorizados e disputados, onde se assentaram em primeiro lugar os estabelecimentos comerciais que visavam abastecer a população que tinham na ferrovia seu ponto de interesse comum.
Junto às áreas comerciais também se desenvolveram as primeiras indústrias primárias, além de pequenas oficinas em busca das vantagens no frete de seus produtos. As moradias foram edificadas em áreas menos valorizadas, portanto mais afastadas das estações, diminuindo sua qualidade em proporção inversa à distância da estação que se localizavam.
A respeito da localização das estações ferroviárias, LANGENBUCH (1971, p. 104), descreve:
[...]as estações ferroviárias que foram sendo estabelecidas nos arredores paulistanos se constituíram, assim, em pontos de convergência de produtos e pessoas das áreas circunvizinhas. Isto conferia ao local das estações a oportunidade de assumir uma modesta função regional. Pequenos, às vezes quase insignificantes, povoados surgiam em torno da estação, com vendas e botequins destinados a servir aos caipiras dos arredores, que agora para aí convergiam em busca da estação.”
Dentre os principais povoados-estação que se desenvolveram entre o final do século XIX e o início do século XX, destacam-se (ordenados pela distância em relação à cidade de São Paulo) São Caetano do Sul, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Em cada um deles a estação ferroviária exerceu papel preponderante no desenvolvimento urbano apesar de somente as estações de Rio
Figura 17 - Estação de Ribeirão Pires, construída na segunda fase da ferrovia, e que contribuiu para a formação do núcleo urbano que se tornou o Município de Ribeirão Pires.
Fonte: (GIESBRECHT, 2015)
A escassez de estações ferroviárias no primeiro período da ferrovia assinala a importância estratégica dos povoados de Rio Grande e Santo André que inicialmente possuíam relevância e porte semelhantes, mas que posteriormente experimentaram grandes diferenças no desenvolvimento urbano, tendo Rio Grande da Serra conservando parte de suas características primitivas, enquanto Santo André desenvolveu-se industrialmente com forte expansão de sua mancha urbana e chegou a ocupar a posição de segunda cidade mais industrializada do país, atrás apenas da própria cidade de São Paulo.
Figura 18 – Primitiva estação de São Bernardo, que a partir da segunda fase da SPR passou a se chamar Santo André. Fonte: Acervo A.E.E.F.S.J.
Santo André, além de ser a primeira vila do planalto fundada em 1553, também era a sede da fazenda São Bernardo, provavelmente uma das primeiras clientes da ferrovia a transportar sua produção agrícola para a capital e regiões vizinhas. Ela possuía uma área correspondente a toda a área que atualmente constitui os municípios entre São Caetano e Rio Grande da Serra, portanto, possuindo duas estações ferroviárias, em sua área.
A forte expansão industrial de Santo André e das outras cidades ao longo do vale do Tamanduateí é explicada pelo conjunto de fatores favoráveis ao desenvolvimento industrial paulista no início do século XX, como a presença da ferrovia, áreas planas, água em abundância além de energia elétrica e, principalmente, mercados consumidores. Já os municípios de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra são basicamente formados por áreas de topografia acidentada, portanto inadequadas para aquele primeiro período de desenvolvimento industrial onde se buscavam terrenos amplos e planos, existentes em abundância entre Mauá e São Paulo. Já esta última, Mauá, por reunir menos condições favoráveis à expansão da indústria que suas vizinhas, expandiu-se tardiamente, experimentando uma expansão urbana mais periférica e precária, com muitos povoados construídos em áreas inadequadas, por uma população de baixa renda, incapaz de adquirir lotes regulares em locais favoráveis à construção de suas moradias.
preferenciais para a instalação das plantas industriais, essas estações acabaram por afastar as moradias, que se estabeleceram nas regiões imediatamente posteriores à orla ferroviária. O mesmo efeito ocorreu na estação Tamanduateí, no bairro de Vila Carioca em São Paulo. Esta estação funcionava como uma parada provisória para os empregados das indústrias metalúrgicas e químicas que se estabeleceram no local e só foi convertida em estação após a encampação da ferrovia pelo governo federal, já na década de 1940.
Tabela 2 - Estações Ferroviárias localizadas nos municípios atendidos pela Linha 10 - Turquesa da CPTM