5.5 Moderated mediation analyses
5.5.1 The impact of age on the pain of paying and willingness to incur debt with BNPL
Para pensar os desafios e as possibilidades de satisfazer as necessidades de saúde, recorremos à caracterização das mesmas, esboçada há pouco em dez pontos, retomando, particularmente o item que se segue:
III. Há necessidades de saúde que se delimitam pelo saber/fazer biomédico e outras que o extrapolam, vinculando-se aos determinantes sociais da saúde. A satisfação de ambas deve constituir o horizonte para as políticas e práticas de saúde socialmente articuladas.
Considerado o exposto, situamos os desafios e possibilidades em diferentes perspectivas. A primeira refere-se ao plano institucional, ou seja, ao sistema de saúde. Isso porque alguns desafios e possibilidades assinaladas dizem respeito diretamente a esse sistema ainda que não se esgote, necessariamente, nele.
Em primeiro lugar, tendo em vista a natureza do capital em subordinar o humano (e suas necessidades), consideramos improvável a possibilidade de construir um sistema de saúde de caráter privado que se oriente pelas necessidades de saúde. Daí a constituição de um sistema público de saúde ser o desafio essencial e de base para a superação de outros desafios situados no plano institucional. O SUS no Brasil, embora seja uma proposta de sistema público, assim não se efetiva, pois ao permitir a complementaridade do setor privado, viu os serviços particulares (em virtude da natureza do capital) se avolumarem para além daquilo que poderíamos considerar complementar, passando a competir com o setor público e a provocar diversas distorções no sistema como um todo. E assim podemos nos referir ao complexo industrial da saúde como um todo, cujo êxito (acumulação de capital) tem na doença sua fonte de renda.
Acompanha o desafio de construção de um sistema público a barreira de não ser ele o tipo de sistema desejado pela população. Nas falas dos sujeitos da pesquisa, delineia-se um horizonte institucional em que é o sistema de saúde privado o reconhecido como sendo capaz de atender às suas necessidades, mediante a compra de produtos e serviços biomédicos. Embora tenha sido ao longo desta pesquisa objeto de críticas, esse sistema ainda goza da uma legitimidade social maior do que o público
perante a população. Não é o SUS ou qualquer outro sistema de saúde público que emerge nas linhas e entrelinhas das falas dos sujeitos da pesquisa. Assim como não é também a APS o centro desse sistema. O que a população sonha consumir é, como dissemos, um sistema privado, centrado em hospitais, com médicos especializados. Para isso, ela quer ter dinheiro, o mediador universal das relações sociais no capitalismo.
Ultrapassado esse desafio, ainda situados no plano institucional, adentramos outro desafio relativo à capacidade do setor saúde de perceber a complexidade das necessidades humanas de saúde para, a partir daí, planejar os serviços, produtos e tecnologias que deve ofertar. Relembrando a discussão realizada no capítulo 5 em torno da necessidade de produtos e serviços biomédicos, vimos que mesmo circunscritas neste âmbito, a satisfação das necessidades permeia distintas questões, algumas situadas no potencial tecnológico de equipamentos de diagnóstico e outras referentes às relações interpessoais estabelecidas entre os trabalhadores e os usuários. É preciso o sistema perceber as necessidades em suas manifestações individuais e coletivas, objetivas e subjetivas, em suas diversas dimensões e conteúdos.
Uma vez dotado de uma capacidade de compreensão adequada das necessidades de saúde, o sistema precisa dotar-se de instrumentos que viabilizem o adequado reconhecimento (definição) destas necessidades. Para tal, precisa investir em tecnologias tecidas nas interfaces entre a epidemiologia, a clínica, os saberes científicos qualitativos e do saber popular. Isso para dar conta de, por um lado, capturar as necessidades respeitando suas dimensões e conteúdos e, por outro, proteger este movimento em torno das necessidades de forças que ameacem, novamente, tornar a saúde instrumento de interesses privados, seja de grupos políticos, seja de grupos econômicos, seja de quaisquer outros grupos.
Tais desafios só podem ser enfrentados se sustentados por uma radicalidade ética que a todo momento reafirme e defenda a primazia das necessidades de saúde ante os interesses acima referidos. Nesse sentido, é desafiado também o sistema a operacionalizar mecanismos de vigilância ética, que observem e tentem resguardar os rumos trilhados e pretendidos.
Esta postura ética, somada a uma compreensão ampliada das necessidades e aos instrumentos de trabalho para seu manuseio, como apontamos acima, conduzirá o sistema de saúde a viabilizar as melhores respostas possíveis às necessidades biomédicas. Contudo, tornar-se-á visível que as melhores condições possíveis (no escopo da biomedicina) não serão suficientes para a satisfação das necessidades, já que
as condições gerais de vida estabelecerão limites concretos à melhoria das condições de saúde. Isto, inevitavelmente, impulsionará o sistema a adentrar as necessidades vinculadas dos determinantes sociais da saúde.
Essa perspectiva de trabalho para o âmbito institucional assinalará um horizonte cujo enfrentamento das necessidades de saúde permeará a articulação das políticas públicas em geral, sem fazer com que, nesse cenário, o sistema de saúde deixe de cumprir um papel fundamental em virtude de ser o ator institucional com maior vivência ante o objeto de preocupação focalizado, a saúde da população.
Esse movimento do setor saúde em direção aos determinantes sociais constitui-se em um processo inevitável para o caso de um projeto sanitário que vislumbre a melhoria das condições de vida e saúde da população. Conforme ficou evidenciado no relato exposto no capítulo 4, a problemática da saúde interroga o conjunto das políticas públicas e, mais que isso, interroga a totalidade social em sua organização e seus valores.