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Tipicamente, a lateral alveolar é produzida com um contacto lingual ao longo da linha médio-sagital, de tal modo que o fluxo de ar passa por um ou pelos dois lados da língua –

28 Estudaram dois dialetos do inglês britânico: o dialeto de Newcastle que contempla a realização não

velarizada em todas as posições silábicas e o dialeto de Leeds que apresenta a realização velarizada em todas as posições silábicas.

29 Estudaram três línguas (dialetos): o Italiano (“Northen variety of Standard Italian”), por apresentar

realizações não velarizadas em todas as posições, o Inglês Americano (“New York City dialecto”) e o Catalão (“Eastern Catalan dialecto”), que apresentam realizações velarizadas em todas as posições. Recasens e Farnetani (1990) propõem, com base em dados articulatórios e acústicos, a existência de três graus de velarização. Assim, para o conjunto de línguas estudado, a distinção entre os graus mínimo e intermédio parece depender da língua em análise, enquanto a distinção entre graus máximo e intermédio dependente da posição silábica ocupada, dentro de uma mesma língua.

30 Estudaram dois dialetos: Catalão, com a realização velarizada em todas as posições silábicas e o Alemão,

com a realização não velarizada em todas as posições.

31 Estudou quatro dialetos: dois com a realização não velarizada em todas as posições silábicas (Alemão e

Catalão de Valência) e dois dialetos com a realização velarizada (Catalão de Maiorca e o Catalão oriental)

32 Estudaram dois dialetos do Catalão: o Catalão falado em Valência, com a realização não velarizada em

todas as posições silábicas e o Catalão falado em Maiorca, com a realização velarizada em todas as posições silábicas.

33 Estudaram as propriedades fonéticas de /l/ em 23 línguas e dialetos com realizações velarizadas e não-

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canais laterais. Este contacto ocorre entre a região anterior da língua (ápice ou lâmina) e a região anterior do palato. O espaço formado atrás da constrição é designado de cavidade supralingual (Ladefoged & Maddienson, 1996; Narayanan et al., 1997; Stevens, 1998; Zhou, 2009). A passagem do ar pelos canais laterais é referida, por vários autores, como a causa da presença de mínimos espectrais (Narayanan et al., 1997; Stevens, 1998; Zhang & Espy- Wilson, 2004; Zhou, 2009), sendo esta uma característica particular de /l/34. Neste sentido,

aspetos como o número de canais laterais, o tipo de contrição central e formas adotadas pela língua são os principais alvos de estudo no que às características articulatórias de /l/ diz respeito.

O estudo articulatório de Narayanan et al. (1997), baseado em dados de Ressonância Magnética e de EPG de quatro falantes nativos do Inglês Americano (dois homens e duas mulheres), mostra que existe variabilidade na produção de [l] e de [ɫ], nomeadamente ao nível das formas adotadas pela língua, quando analisadas as imagens de cortes sagitais. Porém, a análise detalhada das imagens de cortes coronais revelou que ambos os alofones partilham algumas características, tais como: contacto linguo-alveolar na linha média associado à compressão lateral da língua e à forma convexa apresentada pela região posterior do corpo da língua.

Umas das principais diferenças articulatórias entre o /l/ não velarizado e o /l/ velarizado é a maior retração da língua e/ou elevação posterior do corpo da língua, observada durante a produção do [ɫ], por comparação à produção do [l]. Este comportamento traduz-se numa diminuição das regiões uvular e superior da faringe, ainda que possa existir variação em função dos participantes (Narayanan et al., 1997). As diferenças dependentes dos falantes quanto à retração do dorso da língua, durante a produção da realização velarizada, são também reportadas para o Inglês (“Standard Southern Bristish English e Scottish-accented Standard English”) (Scobbie & Pouplier, 2010) e para o Catalão (Recasens, 2012b).

Na Figura 10, encontram-se representações esquemáticas de possíveis configurações do trato vocal durante as realizações velarizada e não velarizada do /l/ que ilustram as características anteriormente descritas.

34 “(…) the spectral “signature” of laterality will be an antiformant near the frequency of F3” (Johnson, 2012,

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Figura 10: Possíveis configurações do trato vocal durante a produção do /l/ velarizado (diagrama do lado esquerdo), do /l/ não velarizado (diagrama do lado direito) e das vogais /i/ e /a/ (diagrama central). De

Recasens (2012a, p. 369).

No estudo de Zhou (2009), foram recolhidos dados articulatórios de um participante35

falante do Inglês Americano para o estudo da produção do /l/. Quanto ao ponto articulatório, as diferenças entre as duas realizações da lateral são as seguintes: i) na realização velarizada o contacto linguo-alveolar, relativamente breve, é realizado com o ápice da língua e o dorso da língua ocupa uma posição baixa; ii) na realização não velarizada o contacto linguo-alveolar é efetuado com a lâmina da língua e há elevação do dorso da língua que proporciona a existência de contactos linguo-palatais. Estes contactos têm interferência no espaço supralingual, provocando o aumento dos canais laterais. A existência de contactos palatais associados à produção do /l/ não velarizado é também sugerida pelos trabalhos de Narayanan et al. (1997), Lehman e Swartz (2000) e de Recasens e Farnetani (1990).

Os dados de EPG, recolhidos por Recasens e Farnetani (1990), corroboram a descrição apresentada por Zhou (2009) relativamente ao ponto articulatório do /l/, sugerindo que o contacto alveolar é mais extenso e retraído no Italiano (que apresenta realizações não velarizadas em todas as posições silábicas) do que no Catalão e no Inglês Americano (com realizações velarizadas em todas as posições silábicas), ainda que para estas duas últimas línguas o contacto seja menos extenso em posição final de sílaba. Em linha com estes resultados está também o estudo de Recasens e Espinosa (2005) que, ao comparar dois dialetos do Catalão a partir de dados articulatórios, mostrou que a lateral /l/ do dialeto com realizações velarizadas em todas as posições silábicas apresenta um ponto articulatório

35 A seleção de apenas um participante para o estudo das duas realizações do /l/ tem como vantagem a

eliminação das diferenças entre participantes provocadas pelas diferenças na anatomia do trato vocal (Zhou, 2009, pp. 81–82).

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mais anterior e menos variável que o observado para o dialeto com realizações não velarizadas.

Ainda relativamente ao ponto articulatório de /l/, estudos mostram que na realização velarizada o contacto linguo-alveolar pode ser ligeiro ou até mesmo inexistente (Giles & Moll, 1975; Ladefoged & Maddieson, 199636; Narayanan et al., 1997; Sproat & Fujimura,

1993). Giles e Moll (1975, p. 212) acrescentam que:

“(…) with increased rate of utterances, contact was usually not achieved. (…) for the post-vocalic allophones, there can be undershoot of both tongue apex and tongue dorsum positions for /l/”.

Neste sentido, o /l/ pré-vocálico funciona como uma consoante enquanto o /l/ pós- vocálico pode ser considerado vocálico por natureza. Este fenómeno é designado por vocalização (Nakamura, 2009; Scobbie & Pouplier, 2010; Scobbie & Wrench, 2003; Wrench & Scobbie, 2003) 37.

A influência exercida pelo contexto vocálico adjacente nas diferentes realizações da lateral alveolar encontra-se largamente descrita na literatura e é apontada como um dos aspetos distintivos entre a realização não velarizada e velarizada. Para além da conhecida influência coarticulatória entre laterais e contexto vocálico adjacente, outros estudos mostram os efeitos coarticulatórios de longa distância associados às consoantes líquidas do Inglês (Heid & Hawkins, 2000; Tunley, 1999; West, 1999, 2000).

De modo geral, sabe-se que a realização velarizada é mais resistente à coarticulação com as vogais contiguas do que a realização não velarizada, ou seja, os efeitos coarticulatórios na lateral diminuem com o aumento do grau de velarização (Bladon & Al-Bamerni, 1976; Recasens et al., 1995, 1996; Recasens, 1987; Recasens & Espinosa, 2005; Recasens & Farnetani, 1990; Recasens, 2004). Esta diferença quanto ao grau de coarticulação parece

36 A propósito do contacto linguo-alveolar ligeiro ou até mesmo inexistente: “Extremes of this process may

be seen in languages such as English and Portuguese where completely unoccluded 'laterals' occur in postvocalic positions. In some forms of British English, such as that spoken in London and much of southeast England, two quite different types of laterals must be distinguished. For syllable initial /l/ the tip of the tongue touches the alveolar ridge and the tongue is narrowed so that there is no contact at one or both sides. In syllable-final /l/ there is no alveolar contact and the tongue tip may be behind the lower front teeth. But there may still be a narrowing of the tongue so that, by our definition, this segment is still a lateral. It seems as if the situation is similar in Portuguese.”(Ladefoged & Maddieson, 1996, p. 193).

37 Nos trabalhos de Nakamura (2009), Scobbie e Pouplier (2010), Scobbie e Wrench (2003), Wrench e

Scobbie (2003) e Recasens e Espinosa (2010), são apresentados dados mais detalhados sobre o fenómeno de vocalização. No caso particular do estudo de Nakamura (2009), é feita alusão às diferenças existentes entre vocalização e velarização do /l/, nomeadamente no que se refere às características espaciotemporais dos gestos linguais associados à produção do /l/ não velarizado, velarizado e vocalizado no Inglês Britânico.

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estar inversamente correlacionada com o grau de velarização da líquida e, neste sentido, está de acordo com o pressuposto de que o grau de coarticulação depende da envolvência do dorso da língua na produção da consoante (Ohman, 1965; Recasens, 1987; Recasens, 1984; Recasens & Espinosa, 2005; Recasens, Pallarès, & Fontdevila, 1997). Nos trabalhos de Recasens e Espinosa (2005), Recasens, Fontdevila, et al. (1995), Recasens, Pallarès, et al., (1995) e Recasens (2004), para além da percentagem do contacto dorso-palatal, os autores utilizam os valores de frequência de F2 e o índice MCD (“mean coarticulatory distance”) para estimar o grau de coarticulação e é calculado utilizando a fórmula proposta por Bladon e Al-Bamerni (1976): MCD = F2l(i) – F2l(a) / 2 (l(i) e l(a) dizem respeito à lateral alveolar nos contextos vocálicos /i/ e /a/, respetivamente).

A resistência coarticulatória, associada ao [ɫ] por comparação ao [l], é particularmente evidente quando a vogal adjacente é /i/, na medida em que a língua assume configurações opostas para a produção da vogal e da lateral velarizada (cf. Figura 10). Assim sendo, a posição baixa e recuada do dorso da língua adotada na produção do [ɫ] condiciona, em grande parte, a coarticulação com o [i] (que se caracteriza pela elevação e anteriorização do dorso da língua). O mesmo não se verifica quando o contexto vocálico é /a/, na medida em que a configuração da língua para a produção da vogal é bastante semelhante à adotada durante a realização do [ɫ] (Recasens et al., 1995, 1996; Recasens & Espinosa, 2009; Recasens, 2004, 2012a, 2012b).

A variabilidade associada à produção de /l/ no Catalão Oriental38(Recasens & Espinosa,

2009) parece relacionar-se com as diferenças individuais dos falantes no que toca às posições da lâmina e do dorso da língua, especialmente perante o contexto [i]. Para dois dos três participantes no estudo, o corpo da língua ocupa uma posição mais elevada mediante a vogal [i] do que quando a vogal é [a] ou [u], durante a produção da lateral. Para o outro participante, essa elevação é muito pouco ou nada evidente. A lateral /l/ é menos resistente ao efeito da elevação do dorso da língua induzido pelo produção da vogal [+ alta] e [- recuada]. Esta grande variabilidade associada ao grau de velarização da lateral já tinha sido reportada pelos dados acústicos e de EPG de Recasens et al. (1995) para a mesma variante do Catalão.

Em suma, o /l/ velarizado no Russo, no Catalão e no Inglês Americano pode ser caracterizado pela presença de dois gestos articulatórios (um gesto primário lingual e um

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gesto secundário dorsal) e, por isso, identificado como um segmento complexo do ponto de vista articulatório. Para além disso, este segmento é resistente aos efeitos coarticulatórios do contexto vocálico adjacente, existindo apenas pequenos efeitos de elevação e anteriorização do dorso da língua perante o contexto [i] (Bladon & Al-Bamerni, 1976; Giles & Moll, 1975; Recasens & Farnetani, 1990), possivelmente devido à necessidade de abaixamento do dorso da língua para a produção do [ɫ] (Recasens et al., 1995).