Na caracterização acústica da líquida lateral alveolar, assim como para a caracterização dos sons da fala no geral, retomam-se as características articulatórias apresentadas na secção anterior, na medida em que estas se traduzem em diferenças acústicas39. A íntima relação
existente entre a posição da língua (forma e local de constrição) e os valores das frequências dos dois primeiros formantes é amplamente conhecida e descrita na literatura.
A frequência de F1 tem, geralmente, maior relação com o volume da cavidade posterior do que com o volume de outras cavidades (Fant, 1960). Assim, considerando a redução do volume da cavidade faríngea (posterior) associado à produção de /l/ velarizado, são esperados valores de frequência de F1 mais elevados para esta realização do que para a sua congénere não velarizada (Bladon, 1979), o que coloca em evidência uma relação direta com o grau de velarização. Por norma, a lateral alveolar /l/ caracteriza-se por valores baixos de frequência de F1, que variam entre os 250 e os 500 Hz (Kent & Read, 2002). Em conformidade com a teoria acústica da produção de fala, a frequência de F2 relaciona- se positivamente com o avanço do corpo da língua (Fant, 1960) e “can be associated with the half-wavelength resonance of the back cavity” (Narayanan et al., 1997, p. 1074), isto é, uma maior cavidade atrás da constrição corresponde a valores mais altos de frequência de F2. Neste sentido, os valores de frequência de F2 são mais baixos para o [ɫ] (Bladon, 1979; Fant, 1960; Stevens, 1998), o que significa que a frequência de F2 varia inversamente ao grau de velarização de /l/.
No seguimento das relações acústico-articulatórias apresentadas, alguns estudos utilizam como medida adicional para o estudo da velarização a diferença entre F2 e F1 (F2-F1), uma vez que desta forma é considerada a contribuição conjunta de duas medidas espectrais
39 Lindblom e Sundberg (1971), estudaram as consequências acústicas dos movimentos dos lábios, língua,
mandíbula e laringe e verificaram que os três primeiros formantes parecem ser os mais influenciados pelo conjunto de movimentos fisiológicos durante a fonação.
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relacionadas com a velarização. Portanto, se o aumento do grau de velarização provoca um aumento dos valores de frequência de F1 e diminuição de F2, são esperados valores de F2- F1 mais baixos para a realização velarizada (Oxley et al., 2007; Recasens et al., 1995a; Recasens & Farnetani, 1990).
A obtenção dos valores de frequência de F3 é considerada, por alguns autores, importante na distinção e caracterização dos segmentos pertencentes à classe das consoantes líquidas (Espy-Wilson, 1992; Lehman & Swartz, 2000; Recasens & Espinosa, 2005; Rogers, 2006), na medida em que parecem estar dependentes da cavidade anterior (ao local de constrição), podendo ser afetados pelo arredondamento dos lábios (Fant, 1960; Lindblom & Sundberg, 1971; Recasens & Espinosa, 2005; Recasens, 2012a). Todavia, a extração de F3, associado à lateral /l/, pode ser difícil, pelo menos em algumas situações, devido à presença de zeros espectrais (Fant, 1960).
Grande parte dos estudos acústicos sobre as consoantes líquidas consideram que, para distinguir e caracterizar os elementos desta classe de segmentos, é fundamental o conhecimento das frequências dos três primeiros formantes (F1, F2 e F3), devido à estreita relação existente entre os padrões articulatórios e acústicos dos sons da fala, como referido nos parágrafos iniciais desta secção. No entanto, nos últimos anos, têm surgido trabalhos que evidenciam a importância de estudar também frequências mais altas (F4 e F5), na medida em que parecem ser bons indicadores de características individuais de dimensão e forma do trato vocal (Espy-Wilson, 2004; Espy-Wilson & Boyce, 1999; Narayanan, Byrd, & Kaun, 1999; Zhou, 2009; Zhou et al., 2008). Todavia, estas medidas só são possíveis de obter perante situações ótimas de gravação do sinal, de modo a garantir uma segmentação fiável, para além de que só é possível o acesso a esses dados quando os formantes são claramente visíveis no espectrograma.
No Quadro 7, apresentam-se os valores das frequências dos formantes obtidos por diferentes autores, para diferentes línguas ou variantes40: Dalston (1975), Espy-Wilson (1992), Huffman (1997), Lehman e Swartz (2000) e Oxley et al. (2007) para o Inglês Americano, Silva (1996), para o PB e Rogers (2006), para o Wanyi (“a non-Pama-Nyungan language of northern Australia”).
40 Embora os objetivos dos trabalhos apresentados possam ser diferentes, os valores obtidos para as
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Quadro 7: Valores médios das frequências dos formantes da lateral alveolar de acordo com Dalston (1975), Espy-Wilson (1992), Silva (1996), Huffman (1997), Lehman e Swartz (2000), Rogers (2006) e Oxley et al.
(2007). Posição/contexto F1 (Hz) F2 (Hz) F3 (Hz) F4 (Hz) Dalston (1975) Inicial 344-365 1179-1340 2523-2935 - Espy-Wilson (1992) Pré-vocálica 399 1074 2533 3767 Intervocálica 445 1060 2640 3762 Pós-vocálica 465 898 2630 3650 Silva (1996) Inicial 275-415 1025-1849 - - Intervocálica 293-400 985-1809 - - Grupo 283-440 938-2212 1628-2452 Final 300-422 600-1045 - - Huffman (1997) Cəl 384-510 1029-1060 - - Cl 368-557 1058-1140 - - Lehman & Swartz (2000) Pré-vocálico 228-465 617-1934 2357-3038 3303-4462 Pós-vocálico 301-775 620-1277 2883-3489 3683-4480 Rogers (2006) Intervocálica 498 1299 2236 - Oxley et al. (2007) Ataque simples (inicial)41 367-388 920-830 - - Ataque simples (intervocálica)42 381-382 805-790 - - Coda (intervocálica)43 453-399 870-738 - - Coda (final)44 438-417 831-692 - -
Os valores apresentados no Quadro 7 dizem respeito aos resultados obtidos para a lateral alveolar, em diferentes contextos vocálicos, produzidos por diferentes informantes. No caso do trabalho de Silva (1996) trata-se apenas de um participante. Os dados do trabalho de Oxley et al. (2007) dizem respeito aos valores de frequência dos formantes quando a vogal nuclear é anterior e posterior.
As informações mais salientes extraídas a partir do Quadro 7 apontam para valores de frequência de F2 claramente inferiores para /l/ em posição pós-vocálica (Espy-Wilson, 1992) e final (Silva, 1996) por comparação com as restantes posições. Os dados para as
41 Exemplo dos estímulos utilizados: `Say Miss `Leaf for `me.` 42 Exemplo dos estímulos utilizados: `That’s a `leaf for `me.` 43 Exemplo dos estímulos utilizados: `Peel a `peach for `me.` 44 Exemplo dos estímulos utilizados: `That’s a `peal for `me.`
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demais frequências dos formantes, nestes dois estudos, não exibem diferenças importantes entre as posições consideradas.
De acordo com a análise estatística apresentada por Huffman (1997), verifica-se que, globalmente, existe um efeito significativo da posição ocupada pela lateral, do contexto vocálico e do participante nos valores das frequências dos formantes.
Quando considerados os resultados acústicos obtidos por Lehman e Swartz (2000), verifica-se uma tendência para valores de frequência de F1 e de F3 mais baixos para o /l/ pré-vocálico do que para o /l/ pós-vocálico. Para a frequência de F2, observa-se o inverso, ou seja, valores mais elevados para o /l/ pré-vocálico. No que respeita à fequência de F4, os valores são semelhantes para as duas posições. Globalmente, e tendo em conta que o objetivo deste trabalho foi o de estudar o efeito do contexto vocálico na produção do /l/ pré e pós-vocálico, há indicação de que o contexto vocálico parece ter pouca influência nas propriedades acústicas do /l/ pós-vocálico, enquanto o /l/ pré-vocálico mostra alguma propensão para variar em função do contexto vocálico. Mais especificamente, os valores de frequência de F2 mais baixos do /l/ pré-vocálico ocorrem quando a vogal seguinte é baixa (e.g. /a/ e /ɛ/) e mais elevados quando o /l/ precede vogais altas (e.g. /i/ e /u/), pelo menos para alguns informantes. Estes dados sugerem que, para além do avanço/recuo da língua, também a elevação/abaixamento pode ser importante na determinação da variação alofónica da lateral. Importa, contudo, referir que neste estudo não é feita referência à utilização de qualquer tratamento estatístico dos dados.
Comparando os vários estudos do Quadro 7 referentes ao Inglês Americano, constata-se que, na generalidade dos resultados apresentados, a gama de valores de frequência, pelo menos de F1 e de F2, obtidas por Lehman e Swartz (2000) é mais alargada do que a evidenciada pelos restantes trabalhos e que os valores das frequências dos formantes reportados por Espy-Wilson, (1992) são mais próximos dos obtidos por Huffman (1997). No trabalho de Oxley et al. (2007), que estudou a variabilidade contextual do /l/ velarizado do Inglês Americano a partir das produções de quatro participantes, as comparações entre os diferentes contextos indicam a existência de diferenças significativas entre os valores médios de frequência de F2 em ataque simples (posição inicial de palavra) e em coda (posição final de palavra), mas não para o ataque simples e coda intervocálicos. Quanto aos valores médios de frequência de F1, existem diferenças estatisticamente significativas entre as posições silábicas de coda (com valores mais elevados) e de ataque simples. Segundo
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Oxley et al. (2007), este aumento dos valores de frequência de F1 para o /l/ em coda, confirma a forte participação da constrição faríngea na realização velarizada da lateral alveolar. Relativamente à diferenças entre F2 e F1, os dados mostram que os quatro contextos em estudo diferem significativamente entre si, sendo que o grau de velarização aumenta no seguinte sentido: ataque simples, inicial (F2-F1= 497 Hz)> ataque simples, intervocálico (F2-F1= 416 Hz) > coda, intervocálica (F2-F1= 378 Hz) > coda, final (F2- F1= 333 Hz). No que diz respeito ao efeito do contexto vocálico, os resultados apontam para produções do /l/ menos velarizadas quando o contexto vocálico é anterior, quer do ponto de vista dos valores de F2-F1, quer de F2. É referido, de modo abrangente, que este contexto vocálico também origina valores de frequência mais elevados de F1 para o /l/ (ainda que de forma marginal em termos absolutos) do que quando a vogal nuclear é posterior (412 Hz vs 398 Hz). No entanto, a partir de uma análise mais detalhada dos resultados, verifica-se que essa tendência é apenas confirmada quando /l/ ocorre em coda (intervocálica e final) (Oxley et al., 2007).
Para o Espanhol45, os valores médios das frequências dos formantes do /l/ são: 333 Hz para F1, 1554 para F2 e 2564 Hz para F3 (Quillis, 1999, p. 313).
Prossegue-se com a apresentação dos resultados obtidos em vários trabalhos que se ocuparam do estudo comparativo entre línguas e/ou dialetos com diferentes realizações fonéticas da lateral alveolar (cf. Quadro 8).
Recasens et al. (1995a), num estudo articulatório e acústico, compararam os valores de frequência de F2 e de F2-F1 de /l/, no Catalão (com realizações predominantemente velarizadas) e no Alemão (com realizações essencialmente não velarizadas), com o objetivo de verificar se diferenças na velarização da lateral nestas duas línguas influenciam o grau de coarticulação (“vowel-to-consonant coarticulation”). Os resultados mostram, a partir da análise estatística utilizada, que existem diferenças estatisticamente significativas, quer para os valores de frequência de F2, quer para os valores de F2-F1 na sequência [ili], entre as duas línguas em estudo, sendo que é o Catalão que apresenta os valores de F2 e F2-F1 mais baixos (cf. Quadro 8), o que está de acordo com as descrições fonéticas tradicionais.
45 Os dados relativos às frequências dos formantes da lateral alveolar do Espanhol não foram integrados no
Quadro 7 uma vez que os mesmos dizem respeito a valores globais, sem distinção entre posição na palavra e/ou outras variáveis de interesse.
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Quadro 8: Valores das frequências dos formantes da lateral alveolar de acordo com Recasens, Fontdevila e Pallarès (1995a), para o Alemão e o Catalão; Recasens (2004), para o Alemão, o Catalão de Valencia, o Catalão de Maiorca e o Catalão Oriental; Recasens e Espinosa (2005) para o Catalão de Valência e o Catalão
de Maiorca e Carter e Local (2007) para dois dialetos do inglês britânico (Newcastle e Leeds). As linhas a branco dizem respeitos aos dialetos com realizações da lateral não velarizada. As linhas preenchidas a cinzento dizem respeito aos dialetos com a variante da lateral velarizada. As gamas de valores assinaladas com
* referem-se à lateral alveolar seguida da vogal /i/, e com ** à lateral seguida da vogal /a/, produzida por diferentes informantes. Posição F1 (Hz) F2 (Hz) F3 (Hz) F4 (Hz) F2-F1 (Hz) Recasens, Fontdevila, & Pallarès (1995a) Intervocálica - 1447-1914* - - 1179-1643* Intervocálica - 1282-1455* - - 942-1176* Recasens (2004) Intervocálica - 1681* | 1362** - - - Intervocálica - 1981* | 1165** - - - Intervocálica - 1228*| 1084** - - - Intervocálica - 1349*| 1064** - - - Recasens & Espinosa (2005) Inicial 333-451 837-1553 1740-2449 - - Intervocálica 311-537 934-2223 1403-2711 - - Final 274-509 869-1520 1586-2754 - - Inicial 314-489 746-1151 2471-3515 - - Intervocálica 320-620 737-1397 2637-3152 - - Final 340-551 783-1137 2720-3280 - - Carter & Local (2007) Inicial 342-395 1351-1675 2619-2972 3721-3985 1148 - 1980 Final - 1024-1258 - - - Inicial 351-452 1028-1194 2729-3054 3793-3928 568 – 998 Final - 950-1132 - - -
Com base nos dados acústicos recolhidos por Recasens (2004), é possível constatar que os valores médios de frequência de F2 na sequência [ili] são nitidamente mais elevados para os sistemas linguísticos com realizações não velarizadas (1681 Hz e 1981 Hz) do que para os sistemas linguísticos com realizações velarizadas (1228 Hz e 1349 Hz). Outro aspeto relevante a referir prende-se com as diferenças específicas no grau de velarização que podem ser observadas em função dos dois contextos vocálicos considerados. Neste sentido, os valores médios de frequência de F2 perante o contexto vocálico /i/ são mais elevados do que os obtidos quando o contexto vocálico é /a/, quer a língua ou dialeto tenha realizações velarizadas ou não velarizadas da lateral alveolar (cf. Quadro 8).
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Os dados de F2 parecem ainda indicar a existência de uma clara separação entre as duas realizações de /l/ que ocorre por volta dos 1450-1500 Hz (Recasens et al., 1995a; Recasens, 2004, 2012).
Dos trabalhos que se ocuparam do estudo comparativo entre línguas e/ou dialetos com diferentes realizações fonéticas da lateral alveolar expostos no Quadro 8, apenas Recasens e Espinosa (2005) e Carter e Local (2007) estudaram a lateral /l/ em diferentes posições na palavra (inicial, intervocálica e final). Estes trabalhos partilham com outras investigações apresentadas no Quadro 8 o facto de os valores médios de frequência de F2 serem mais elevados para as línguas ou dialetos com realizações não velarizadas da lateral em todas as posições silábicas. No caso particular do estudo de Carter e Local (2007), observou-se uma influência da posição silábica em F2 (frequências inferiores em posição final e superiores em posição inicial), independentemente da variante do Inglês em estudo (embora pela análise detalhada dos valores médios se verifique que essa tendência é menos notória na variante do Inglês com realizações predominantemente velarizadas em todas as posições silábicas). Posição diferente é assumida por Recasens e Espinosa (2005), que mostram que a posição silábica tem um efeito importante na realização de /l/ no dialeto do Catalão de Valência (predominantemente “clear”), mas não no dialeto do Catalão de Maiorca (predominantemente “dark”). Assim, segundo os autores, /l/ não é necessariamente mais velarizado em final de sílaba do que em início de sílaba, o que faz com que o grau de velarização dependente da posição silábica não assuma um caráter universal (Recasens & Espinosa, 2005, pp. 22–23).
A partir da leitura do Quadro 8, e relativamente ao comportamento de F3, o estudo de Recasens e Espinosa (2005) mostra um sentido contrário ao observado para F2, isto é, o dialeto com realizações velarizadas apresenta valores de frequência de F3 superiores (variam entre 2500 e 3300 Hz) aos observados para o dialeto com realizações não velarizadas (variam entre 2075 e 2755 Hz no contexto /i, a/ e entre 1400 e 1800 Hz no contexto /u/). Neste sentido, as frequências do segundo e terceiro formantes parecem ser os aspetos mais salientes e diferenciadores entre os dois dialetos do Catalão estudados. Os dados estatísticos referentes ao dialeto com realizações velarizadas de /l/, apresentados por Recasens e Espinosa (2005), assumem, globalmente, a existência de um efeito estatísticamente significativo do contexto vocálico nos valores de frequência de F1 (/a/ > /i/ > /u/) e da posição silábica (intervocálica > inicial = final). O efeito significativo do contexto vocálico e da posição silábica foi também atestado para os valores de frequência
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de F2 nas seguintes progressões: /i/>/a/>/u/ e intervocálico > inicial = final, respetivamente. Os resultados apresentandos para o dialeto com realizações não velarizadas da lateral também mostram o efeito do contexto vocálico e da posição silábica nos valores de frequência de F1 (/a/ > /i, u/; final > inicial) e F2 (/i/ > /a, u/; intervocálico > inicial > final)46.
Ainda relativamente ao efeito da posição silábica e do contexto vocálico nos valores de frequência de F1 e de F2, enunciam-se os resultados referidos por Recasens e Farnetani (1990)47. Os valores de frequência de F1 diferem significativamente em função da posição
silábica (para o Italiano e Catalão; valores mais elevados em posição final de sílaba) e em função do contexto vocálico para as três línguas em análise. No que se refere aos valores de frequência de F2, estes são afetados significativamente pelo contexto vocálico para o Italiano, o Catalão e o Inglês (a frequência de F2 diminui na seguinte progressão: [i] > [a] > [u]) e pela posição silábica apenas para o Catalão (inicial > final). Estes resultados confirmam a posição adotada por Recasens e Espinosa (2005), que assume que o efeito da posição silábica na realização do /l/ depende da língua/dialeto considerado.
Voltando aos dados apresentados no Quadro 8, de acordo com os resultados das frequências dos formantes disponibilizados pelo trabalho de Carter e Local (2007), as diferenças entre os dois dialetos do Inglês em estudo encontram-se também ao nível dos valores de frequência de F2. Tal como verificado nos trabalhos anteriores, os valores de frequência de F2 são mais baixos para o dialeto com realizações velarizadas de /l/ do que para o dialeto com realizações não velarizadas. Note-se, no entanto, que os valores de frequência de F2 obtidos para /l/ em posição inicial do primeiro dialeto e os obtidos em posição final do segundo dialeto são idênticos, reforçando a hipótese da existência de um
continuum de velarização, mais do que uma distinção binária entre alofones. Quanto aos
valores de F2-F1, confirmam-se os valores mais baixos para o dialeto com realizações velarizadas, como seria expectável.
No trabalho de Sproat e Fujimura (1993) são também apresentados valores de F2-F1 referentes às duas realizações da lateral alveolar, em posição inicial de sílaba, indicando a existência de diferenças estatísticamente significativas entre elas. Para [ɫ], a gama de valores
46 As diferenças apresentadas correspondem a uma análise global. No entanto, as diferenças dependentes do
contexto vocálico e da posição podem ser distintas em função da posição e do contexto vocálico, respetivamente. Resultados mais detalhados são apresentados por Recasens e Espinosa (2005, pp. 18–21).
47 Os valores das frequências dos formantes não são disponibilizados neste trabalho, razão pela qual não
51
obtida (515,35 – 908,96 Hz) é semelhante aos valores apresentados por Carter e Local (2007) para o dialeto do Inglês Britânico com realizações velarizadas. Já para a realização [l], os valores obtidos pelos primeiros autores encontram-se numa gama de frequência inferior (904,23 – 1315,71 Hz) à apresentada pelos resultados de Carter e Local.
Os valores de F2-F1 obtidos por Huffman (1997) (entre 519,5 Hz e 680,9 Hz para /l/ em coda - “Cəl” - e entre 562,4 Hz e 772 Hz para /l/ em ataque ramificado - “Cl”) assemelham-se aos valores apresentados por Sproat e Fujimura (1993) para a realização velarizada de /l/.
A partir da compilação de dados apresentada por Recasens (2012a), foram analisados os valores médios de frequência de F1, F2 e F348 de 23 línguas e/ou dialetos no sentido de
esclarecer as diferenças no grau de velarização, perante os contextos vocálicos [i]49 e [a]50. A análise desses resultados determinou que os valores de frequência de F1 são mais elevados para [ɫ] (336,7 Hz) do que para [l] (280,8 Hz) para o contexto vocálico [i]. Tendência similar é apresentada para o contexto vocálico [a], em todas as posições estudadas ([ɫ] 459,5 Hz; [l] 413,3 Hz). Relativamente aos valores de frequência de F3 de /l/ em posição intervocálica, no contexto [a], estes são também mais elevados para a realização velarizada (2638,6 Hz) do que para a sua congénere não velarizada (2521,7 Hz), por oposição ao observado perante o contexto vocálico [i], cuja proximidade de valores é maior ([ɫ] 2551 Hz; [l] 2581,4 Hz). Os dados de F3 para as posições inicial e final, mantêm um padrão idêntico. Quanto aos valores de frequência de F2, estes parecem ultrapassar os 1500 Hz para [l] e ocorrer por volta dos 1000 Hz para [ɫ]. Importa referir que, em ambos os contextos vocálicos, observa- se uma maior gama de frequências, isto é, maior variabilidade, associada a [l] do que a [ɫ].
48 Os valores médios das frequências dos formantes são, globalmente, os seguintes: 218-605 Hz para F1, 760-
1960 Hz para F2 e 2302-2935 Hz para F3 (Recasens, 2012a, p. 373).
49 “In this vowel context condition, dark /l/ is expected to exhibit a higher degree of coarticulatory resistance
than clear /l/. Therefore, while dark /l/ ought to keep to a large extent its typical low and back tongue body configuration, and thus a relatively constant low F2 frequency, next to this antagonistic high front vowel, the tongue body position for clear /l/ is expected to undergo raising and fronting in anticipation of the vowel in question and thus to come closer to the tongue body position for /i/.” (Recasens, 2012a, p. 370).
50 “The two consonant varieties ought to show a similar, relatively low F2 frequency in this vowel context
given that some vowel-related predorsum lowering and postdorsum backing effect on clear /l/ should result in a similar tongue body configuration to that for dark /l/” (Recasens, 2012a, p. 370).
52
Existem, porém, limitações na obtenção destas medidas isoladas, num único ponto, uma vez que durante a produção de fala ocorrem fenómenos de coarticulação51, que conferem
um caráter dinâmico aos segmentos (Lawson et al., 2011).
As transições dos formantes decorrem dos movimentos articulatórios necessários à produção de sequências de segmentos e, por isso, fornecem informações não dos valores absolutos característicos de um único ponto, mas sim informações relativas ao comportamento do movimento dos formantes. Deste modo, as transições dos formantes, particularmente de F2, variam em função quer do ponto articulatório da consoante, quer das características das vogais adjacentes (Ashby, 2011; Quillis, 1999; Recasens, 1999). Para além do padrão da estrutura dos formantes bem definido característico de /l/, outra característica aliada a este segmento é a presença de transições formânticas, tipicamente associadas à rápida mudança das frequências dos formantes dos segmentos precedentes ou seguintes à consoante, sobretudo no que se refere às vogais nucleares (Ladefoged & Maddieson, 1996, p. 193; Lawson et al., 2011, p. 81; Quillis, 1999). Ainda assim, poucos são os trabalhos sobre líquidas, no âmbito da produção52, que exploram e fornecem dados relativos às transições dos formantes (duração, frequência e/ou declive).
Dalston (1975), num estudo realizado com o objetivo de determinar e comparar as características espectrais e temporais dos fonemas /w, r, l/, do Inglês Americano, produzidos em posição inicial de palavra por adultos e crianças, verificou que a duração da transição de F2, para os adultos, é tendencialmente mais curta para o /l/ (41,3 ±26,7 ms) do que para o /w/ (58,3 ±26,8 ms) e para o /r/ (50,4 ±17,3 ms). Para as crianças a tendência parece manter-se, mas não se obtiveram diferenças estatisticamente significativas entre os segmentos. Relativamente ao declive da transição de F253, não existem diferenças entre os três segmentos para os adultos (/r/ - 10,5 ±6,6 Hz/ms; /w/ - 11,8 ±6,9 Hz/ms;
51 “The function of coarticulation is to smooth out the differences between adjacente sounds: if phonemes